27.12.16

UM ABRIGO




Os dias a vir sejam benignos ou, para melhor dizer, isentos de guerras e gritos de angústia.

Mas se ganância e lutas hediondas houver, já tenho refúgio: 
uma casinha com porta blindada de azul.
Fica lá para as terras de Vermodium. 

Na minha infância era o moinho onde me abrigava da chuva.

J. Alberto de Oliveira

22.12.16

A GRUTA




A gruta profunda
serviu de abrigo ao poeta.

Um lugar ascético.

A gruta fora do mundo
verídica e primordial.

No recanto do escuro
o tema perdura

quase e talvez imaterial.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Gruta do Convento Franciscano de S.Bernardino de Sena – Câmara de Lobos - Madeira



17.12.16

UMA PEQUENINA LUZ BRUXULEANTE



Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.

Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.

Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge de Sena

Fotografia: Carlos de Oliveira

10.12.16

AQUELA NUVEM




Às vezes peço ao azul do mundo
a nuvem mais alta e branca.

A nuvem das coisas
que eu nem sonho.

Das evidências musicais
pensamento e assombros.

A nuvem de tantas lembranças
devaneios e dúvidas.

Aquela nuvem de anjos
versos e musas.

J. Alberto de Oliveira

3.12.16

UM LENÇO DE POEIRA E SOL




Um dia houve um lenço de poeira e sol
que entrou pela janela mais pequena.

Era uma janela virada ao poente.

O lenço veio em contra-mão
e meteu-se pela inocência adentro

à deriva sem pés nem razão.

J. Alberto de Oliveira

22.11.16

UMA PEÇA DA VIDA




Nunca eu sei onde o coração dorme quando a noite se fecha, deslizando para dentro de si mesma.
Talvez ele durma, virado para o lado esquerdo, num palheiro da aldeia mais distante.

Avesso a ruídos e palavras fraudulentas, o coração apura a sua energia entre o silêncio branco e um rumor vermelho.
Sonha com cenas e profecias bíblicas.
É uma peça da vida ou, por assim dizer, o mais belo instrumento de cadências espirituais.

O coração lembra um animal de respiração atenta.

J. Alberto de Oliveira

10.11.16

OS MEUS LUGARES NO MUNDO




Os meus lugares no mundo são muito estranhos. De sítio em sítio porto-me como um nómada.
E de mais a mais, o imaginário leva-me para toda a parte, sem propósito nem documentos. Às vezes, lembro-me que estes papéis já perderam a validade ou que são falsos.

Que devo fazer?
Nada.

Os efeitos e as sombras do fogo enleiam-me na pele das águas.
Eu persisto nas inspirações furtivas, suspeitas, irreais, incertas.
Recebo-as como invencíveis. Devo-lhes muito.
São poéticas.

J. Alberto de Oliveira

30.10.16

A POEIRA INFLAMÁVEL




A poeira inflamável
das folhas do outono

induz-me a ficar
mais rente à vida.

O sopro em fogo
do ar em declive

ajusta-se ao júbilo
das folhas do outono.

O amor na língua
vegetal do vento

pede que me cubram
versos e pinhas a arder.

J. Alberto de Oliveira

18.10.16

OS ÚLTIMOS DEGRAUS




Sobe os últimos degraus
e abre a porta.

Acende o ângulo
mais firme da casa

Recorta as lembranças
que deves ao sol.

Suspende o pensamento
nos limites da infância.

Celebra o silêncio
com as núpcias da nudez.

E nunca digas nada.
Não fales das tuas moradas.

J. Alberto de Oliveira

9.10.16

EXERCÍCIO




Ficar em frente do mar às dezanove horas de um dia de Outubro não se explica.

Como tão pouco se entende o rochedo solitário e perdido no meio das águas, semelhante às figuras que me seduzem ou metem medo.

O exercício no horizonte do imaginário exige muito papel e tinta suficiente.

Para escrever, só me falta saber como se ressuscita, porque a morte é certa e certeira a qualquer momento.

Não sou activo. Se fosse, teria ido para ladrão ou polícia.
Eu sou contemplativo.

J. Alberto de Oliveira

1.10.16

EUCANÃA FERRAZ - A POESIA




[…] A poesia é um artigo de pouca circulação. (…) Ela é um bem de produção, digamos, artesanal. Embora circule em meios industrializados, como livros e jornais, e agora nos ambientes electrónicos.

[…] Todo o poema é um voto de pobreza. E isto nem tem a ver com algum tipo de elevação espiritual ou salvação da alma.

A capacidade de dizer muito com pouco.

A aspiração do poema é exactamente impor-se na sociedade do consumo e do luxo como um objecto essencial.

Gosto da poesia que tem a capacidade de tocar no essencial, no sentido em que nada sobra, em que há uma alta concentração. E eu gosto que essa concentração seja capaz de tocar emotivamente o leitor. Então, talvez a segunda qualidade seja  a sua capacidade de emocionar. Le Corbusier tem aquela célebre máxima que diz que a casa é uma máquina de emocionar, machine à emouvoir.

No poema Martelo eu digo:
o poema é ver
com lanternas
que cor é a cor
do escuro. 
Daí, procuro situar-me numa fronteira, sempre a martelar, martelar, a alegria, o amor, a tristeza, a raiva, o susto.

Eucanãa Ferraz (poeta brasileiro) – fragmentos de entrevistas

26.9.16

AUTO-RETRATO EM EXERCÍCIO




Olhos sedentos e pensativos.
Rosto sedentário e corrompido

por ventos marítimos.

J. Alberto de Oliveira

15.9.16

O SILÊNCIO E A POEIRA



O silêncio e a poeira
assentam nos devaneios

de anjos amantes
de vento e fogo posto.

Há um rumor de cores
que ninguém ouve.

Um ror de segredos
no horizonte

refaz as telas de Deus.

J. Alberto de Oiveira

7.9.16

DE LINHO E SETEMBRO




Do vir ao ir do vento e do sol
a substância de mim mesmo

se transmita em caligrafia
e memória.

Um lenço de linho e setembro
foi berço do meu nascer.

J. Alberto de Oliveira

29.8.16

IR EM CONTRA-VIDA




A escrita, em seu labor, começa a evidenciar
o perfil geral de mim.

Já estou a ir em contra-vida.

Zé, um raio de amor te parta!

J. Alberto de Oliveira

24.8.16

PERDIDO NO ESCURO




Um cão perdido no escuro
ladra aflito ao mais profundo.

J. Alberto de Oliveira

13.8.16

RECORTES DE PENSAR




Quando eu for embora
comigo levarei só

de meus versos
recortes de pensar.

Coisas que não pesam
nem ocupam lugar.

As coroas da alma 

sem o selo do prémio
e sem palmas

ninguém as quer.

J. Alberto de Oliveira

8.8.16

OS SONS DA NATUREZA




Uma vez, os sons da natureza disseram a Deus:
– Nós damos-te o azul do silêncio. Dá-nos Bach.

E Johann Sebastian Bach à Música foi dado.

J. Alberto de Oliveira

29.7.16

SINAIS FURTIVOS



Quando me faltam os versos
penso em vozes amadas.

Ponho-me a contar insectos
e muitos sinais furtivos
que há nas folhas das árvores.

Também conto as pedras
que me luzem no caminho.

J. Alberto de Oliveira

19.7.16

RETRATO





O Pai ou, por assim dizer,
                       
o aprumo da bondade, a elegância do silêncio,        
a realeza do olhar, o afecto intuitivo,
o vigor de ser, a postura digna, 
o acume da inteligência, o verbo justo e claro.
           
Também tu, oh Pai, és o meu anjo da guarda!

J. Alberto de Oliveira

12.7.16

A COTOVIA




Ao anoitecer de um dia de lembranças 
dei com uma cotovia presa
num emaranhado de silvas com amoras maduras 
em declive sobre o abismo.

Eu nada podia fazer.
Mas por sorte o ar 
num movimento súbito a desatou.

E a cotovia bateu as asas 
para ir livremente dormir não sei onde.

J. Alberto de Oliveira


2.7.16

NO VIOLONCELO DE GUILHERMINA SUGGIA




De névoa e púrpura salinas
luzem os temas de Guilhermina.

De espuma e linhos musicais
se avolumam seus dias de Matosinhos.

De névoa e púrpura salinas
são os primeiros sons

no violoncelo de Guilhermina Suggia.

J. Alberto de Oliveira

                       Desenho: Amadeo de Souza Cardoso - Guilhermina ao violoncelo e sua irmã Virgínia ao piano

19.6.16

O PONTO DE IMAGINAÇÃO




Se na escrita usamos diversos sinais de pontuação –
o ponto final, a vírgula, o ponto e virgula, o ponto de interrogação, os dois pontos, o travessão, as reticências, as aspas, o ponto de exclamação e o parêntesis –
por que é que não há o ponto de imaginação?

Nos textos de Maria Gabriela Llansol aparece muitas vezes o traço contínuo.
Sinal propício à imaginação? Possivelmente que sim.

J. Alberto de Oliveira
Imagem: página do livro O JOGO DA LIBERDADE DA ALMA - Maria Gabriela Llansol

12.6.16

POR QUE É QUE?




Por que é que a inteligência luz melhor nas entrelinhas?
Por que é que não somos adultos da criança que fomos?
Por que é que o canto das aves não é dissonante?
Por que é que as tuas palavras são parecidas contigo?

Por que é que o amor se decide entre sim e não?
Por que é que há gente a morder o seu próprio veneno?
Por que é que os enigmas têm pontos de interrogação?

J. Alberto de Oliveira

4.6.16

CUIDAR DOS SONHOS




Um toque rente ao sono
e de pronto eu acordo

para cuidar dos sonhos.

Ponho-me logo a saber
como se usa a beleza

aprimorada e selada
pelo mais profundo.

Ponho-me logo a cingir
a respiração intuitiva

do puro linho verbal.

J. Alberto de Oliveira

23.5.16

SEM EIRA NEM BEIRA




Os beijos intuitivos do bem-querer
acendiam-me anseios de ver.

Apuravam o interior dos versos que nunca ditei.

Ainda hoje lembram as veredas
por onde sempre andei

como se fosse um andarilho sem eira nem beira.

J. Alberto de Oliveira

14.5.16

ÀS HORAS DE CHAMAR




Às horas benignas do pão
e de intuir a bênção

ouvia-se o interior do tempo.

Às horas em que se chamava
pelo nome de nascimento

eu entrava em casa.

Entrava pela porta do sossego
e dizíamos tudo em segredos.

J. Alberto de Oliveira

UM PONTO NA HERANÇA




Há um ponto na herança
que pronto me toca e me conta os passos como esmola.

J. Alberto de Oliveira

5.5.16

PARA QUE NÃO SERVE A POESIA?




PARA QUE NÃO SERVE A POESIA?
                                                                        Uma questão de M. B.
         
         A poesia não serve para quem não precisa de poesia.
         Ela é tão preciosa que não serve para uso comum. Não é descartável. Não é matéria de desperdício.
         Presumo até que a poesia não serve para nada, porque não gosta de ser usada.
         A poesia flui à margem das imposturas da língua. Dá-se mal com as mentes orçamentais.
        
         Mas talvez a boa resposta se ilustre com o diálogo entre o poeta e um académico de economia que não entendia o sentido da fala humana e, por isso mesmo, insistia na pergunta:
         – A que te referes: aos porcos ou às pérolas?
         – Aludo à sabedoria do aviso: não demos pérolas a porcos!         
         – Os porcos são animais que têm fome. Eles devoram tudo.
         – As pérolas são indigestas e muito belas! – disse o poeta.
         – Mas os porcos gostam ou não gostam de pérolas?
         – Calcam-nas aos pés com voluptuoso desdém.

         E não entendia ou não queria abrir-se à inteligência da sensibilidade.

         Mas eu, o poeta, mais tarde ou mais cedo, ainda hei-de trocar  toda a metafísica do mar por sete versos de pérolas.

J. Alberto de Oliveira
20/04/2016

30.4.16

UM FIO DE VIDAS





A mãe quando repartia o pão
soletrava o seu hino de paixão

em consonância
com a respiração dos filhos.

A mãe era um fio
de soberbas lembranças.

Era um fio de vidas.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo

26.4.16

EM CONTRALUZ




Nem tudo o que luz
respira nos meus olhos.

O ouro que me recorda
fulgura só em contraluz.

J. Alberto de Oliveira

20.4.16

NO LUGAR DO ORGAL





Eu nasci no lugar
onde os pensamentos do sol

e a cadência da água

se misturam num tanque
de pedra sem posse.

Eu nasci no lugar do orgal.

J. Alberto de Oliveira

13.4.16

O AMOR ESCRITO




A língua toda perfumada
no fogo da inocência

e a cor do céu bem medida
pela régua do pensamento

inspiravam o amor escrito.

Entre varas de luz ditada
e sete riscos de vidro vivo

aprendi a ler cartas seladas.

J. Alberto de Oliveira

6.4.16

LUDWIG VAN BEETHOVEN





Na fronte do músico surdo 
Ludwig van Beethoven

faíscam sons e o fulgor.

Legendas e lembranças 
dadas à dor mais aguda

apuram-lhe a voz da alma. 

Onde luzem os nós do lume
ressoa o interior da música.

J. Alberto de Oliveira 

29.3.16

SALTANDO À CORDA




A menina brinca
saltando à corda.

A menina brinca
rasgando o ar

e o sol.

Por nada
a menina sofre

quando brinca
saltando à corda.

J. Alberto de Oliveira
Pintura: M. Dacosta

22.3.16

NA CASA DA MÚSICA



Quando o tema é musical

e o azul que há no silêncio
inspira o violino da casa

o poema nasce.

A matéria do poema flui
com a avidez

dos meus primeiros passos.

J. Alberto de Oliveira

15.3.16

A PERFEITA ALEGRIA



A perfeita alegria é um viandante difícil e raro.
Caminha, pensando como bater à porta.
Como falar para dentro de casa.

J. Alberto de Oliveira

8.3.16

O NEGRUME DA NOITE




A vida em versos
no lume do pavio.

É um anel de preces
o negrume da noite

a cingir o sítio
luminoso do pavio.

J. Alberto de Oliveira

3.3.16

A PELE DOS ANJOS



A pele dos anjos
é uma pele de meia luz.

É uma renda finíssima

de puros
vidros partidos

em cujas arestas
vemos outros seres.

Outros guias da altura.
Outros seres da nudez.

J. Alberto de Oliveira

22.2.16

O LUGAR DA POESIA




Se queres saber onde é o lugar da poesia
vem comigo.

Conta os passos como esmola.

E quando tiveres indícios de fadiga
esquece as cópias do silêncio.

Vai depressa embora.

J. Alberto de Oliveira

11.2.16

O REAL SONORO EM M. G. LLANSOL




O meu real é estar a descascar ervilhas e a ouvir Bach.

Teve sempre diante dos olhos a imitação da luz com que nasceu. A luz é a maior sonoridade entre todas as teclas, e instrumentos cuja percussão se faz por meio de martelos.

A função de escrever é árdua; a função de ser igual à música é impossível.

A liberdade deve estar em qualquer parte, e o primeiro acto livre que encontrei foi o da escrita. Só depois procurei a música. Toda ela é um amor interior que ainda não fala. Quem a recebe à porta, é quem o diz. Ela sai e entra, penetra no corpo, transforma-o em pregas de muda dimensão. Muda, por agora. Porque presumo que há-de ensinar-me o dobro das palavras que eu sei.

As consequências da música são imprevisíveis e não têm fim.

A música á mais secreta que a linguagem e sumamente secreto é o lugar para onde desejo ir.

Vou dar um passeio à parte alta do mundo – à música.

Recolha dos textos de Maria Gabriela Llansol por: J. Alberto de Oliveira

6.2.16

NA SOLEIRA DA PORTA




Na soleira da porta
caíam migalhas de pão

e outros restos
que serviam aves e formigas.

Havia amor 
na soleira da porta 

às vezes entreaberta.

Na soleira daquela porta
eu sabia amar e sorrir

em cada hora a seguir.

J. Alberto de Oliveira  

27.1.16

O AZUL DA MINHA RUA




Veio uma ave distante
e pôs-se a cantar

no parapeito da janela

as ideias e desenhos
de toda a minha herança.

Enaltecia a luz de julho
em sua beleza calma.

Ali mesmo em poema
se demorou a entoar

a pronúncia do azul.

Nascia ao rés do mar
o azul da minha rua.

J. Alberto de Oliveira

16.1.16

INTEIRO E PENSATIVO




Aconteceu quando me vi pela primeira vez:
quando fui ao varandim da infância por razões de um pensamento.

Entrei com o sol da manhã
pelo lado mais difícil e transparente.

E quando dei por mim, quando me vi inteiro e pensativo, 
já estava dentro.


J. Alberto de Oliveira

6.1.16

CONTAR UM SEGREDO




Como seriam os meus versos pronunciados numa língua estrangeira?
Contar um segredo em sítios alheios, num lugar qualquer, 
não é o mesmo que dizer o segredo no interior da casa onde o segredo nasceu.

J. Alberto de Oliveira