27.12.14

OS DEGRAUS DA ESCADA



E o anjo de Dional
veio à boca do poema dizer 
                              
todos os degraus da escada
servem para descer com o vento

e subir ao céu mais alto do ar.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Marc Chagall

19.12.14

ROSA POEMÁTICA




No modo crescente
de ver o ar alumiado

flutua a beleza
alusiva ao júbilo.

É rosa poemática
o aprumo da luz.

J. Alberto de Oliveira

30.11.14

A INOCÊNCIA DA LÍNGUA




Não faço palavras cruzadas.
No dicionário da alma 
procuro somente o que é dito a lume e ao ouvido.
Eu pratico a inocência da língua.

J. Alberto de Oliveira 

17.11.14

O TEMPO DE NÃO HAVER TEMPO




É longo e precioso o tempo que levo 
a recolher as letras necessárias
para escrever o nome das coisas que faltam no poema.

É irrecusável o tempo de não haver tempo.

J. Alberto de Oliveira

14.11.14

O NÓ CEGO




“Eu sou o nó cego do meu próprio nome”, disse o poeta.
E, naquele dia, não escreveu mais nenhum verso ou argumento da melancolia.
Saiu de casa. Desceu ao jardim.
Sentou-se ao pé da sua pedra e ficou a ouvir um canto fora de moda.

A ressonância musical era de cotovias.

J. Alberto de Oliveira

10.11.14

EVIDÊNCIAS



A poesia, o oiro e um vinho de núpcias
nunca se deixam oxidar.

Eternizam a realeza de seus luxos e lustro.

J. Alberto de Oliveira 

29.10.14

LER ENTREPOEMAS




Entrepoemas é um estado afectivo.
Uma sobreimpressão de imagens, lembranças e pensamento.
Ou talvez seja apenas um lugar do devir.
Uma espécie de tela onde figuram os luxos da alma.
Um dia chamar-lhe-ei amoris causa.

J. Alberto de Oliveira
Entrepoemas - Edições Afrontamento

29.9.14

COM AS ÁGUAS DO RIO




Eu jogo e me conjugo
com as águas do rio

mensurando a altura
e a paz da paciência.

Ao ritmo da mão atenta
indo com o rio vou indo.

J. Alberto de Oliveira

13.9.14

SER POETA



Ser poeta.
Que o verbo bem-me-queira
e Deus me proteja.

J. Alberto de Oliveira

27.8.14

O GRITO




Entre as mãos esconde o rosto.
O mundo arde ao abandono.
Ressoa o grito a escaldar de dor.

J. Alberto de Oliveira  

4.8.14

"RUA DA PORTA TREZE" - Vila Nova de Cerveira



ALGUÉM NA RUA


Alguém se serviu
do sol e da altura

para estender
em fios do vento 

sombrinhas às cores.
                                    
Alguém ali me viu
no eixo feliz da rua

altivamente absorto.

J. Alberto de Oliveira

31.7.14

OPUS CONTINUUM




Com o brilho da mão
ensina-me o que sonhas.

Desenha sobre o linho

o verbo mais intenso
em ponto de silêncio.

Quero-te sem distrações.

J. Alberto de Oliveira

15.7.14

QUATRO ROSAS RUBRAS





Quatro rosas rubras
de sangue e ternura.

Quatro primícias
luzentes no teu nome

dito por inteiro.

Quatro varas floridas
alumiam oh Mãe

o ar do mês que respiro.

J. Alberto de Oliveira

MEMORANDUM
Olinda Ferreira de Oliveira
13-07-1924 - 16-05-2013

4.7.14

SOPHIA




Quando me inclino sobre a paisagem textual da Sophia
estremeço como um leitor indefeso.
A constelação de versos e frases é tão viva e clara
que me fere o olhar.
As palavras da Poeta evidenciam o injusto e denunciam o impuro.

Muito gostaria eu de também denunciar as mentes académicas
que lhe trocaram o pequeníssimo talhão de terra
ao ar livre
por um panteão propício ao bafio, a turistas e penumbra.

J. Alberto de Oliveira   

1.7.14

OH MARAVILHA DA ALMA


                                               

                                           para a Lys

Oh maravilha da alma
que se alicerça no fulgor

de coisas cheias de infância.

Oh alumiação de ser 
o vento na escrita a corrigir

sentimentos e frases pequenas.

Oh duplo sopro inebriante
ao citar-me o nome de Alice

no país das maravilhas.

J. Alberto de Oliveira

Retrato de Alice Liddell no Verão de 1858

16.6.14

UMA VEZ PEDI À NOITE




Uma vez pedi à noite
para se sentar comigo

num recanto do teu abrigo.

Ainda me lembro:
eu queria ver-te no auge do sono.

Eu queria linda Inês
adormecer

em teus olhos postos em sossego.

Eu queria todas as lembranças
que na alma escondias:

entre sonhos e pensamentos
eram tudo memórias de alegria.

J. Alberto de Oliveira
Fonte: Luís Vaz de Camões – Lusíadas – Canto III

8.6.14

ALUMIAÇÕES



Oh dulçor de segredos e versos
nas alumiações de Bëatrice.

Oh fulgor e maravilha
da grande rosa de três cores.

Oh suma claridade suprema
de substâncias eternas.

Com o teu nome apura o amor
che move il sole e l’altre stelle

a luzir onde luz Dante Alighieri.

J. Alberto de Oliveira


Dante Alighieri - desenho de José Rodrigues

Texto e desenho expostos no Palácio do Freixo - Porto - no
âmbito da Festa de Itália: "o mundo em italiano".

27.5.14

O RUBRO SANGUE



O coração
está sempre a mudar de sítio.

Nunca se engana.
Adivinha onde mais dói.

O rubro sangue
movido pelo sentir do coração

lateja onde a vida mais sofre.

J. Alberto de Oliveira

8.5.14

A ARTE MATERNAL DA MULHER




A mulher
não esconde a sua natureza

íntima e cúmplice da terra.

É lição exímia da realeza
a arte maternal da mulher.

J. Alberto de Oliveira

Desenho - (1902): Pablo Picasso - Maternidade 

26.4.14

À MESA DE LEITURA



Quando o menino se sentou à mesa de leitura, com o seu primeiro livro de todos os dias, a mãe cozia uma fornada de pão.
A carqueja e a caruma ardiam no forno. Difundiam o fumo que perfumava as roupas, os cabelos, as mãos,
os olhos e o espaço em volta.
Do ventre quente do forno saíam faúlhas que transmitiam o prazer de ver e de estar ali.
O fumo e as faúlhas subiam com as ideias e o sentimento das palavras que o menino soletrava.
– Filho, lê um bocadinho mais alto para eu ouvir.
As mães são as melhores companheiras de leitura dos filhos.
          
O lume luzia no forno.
A massa levedava em silêncio e aconchego na masseira fechada, sob o efeito do crescente que a vizinha trouxera, na véspera, ao entardecer.
           
O lume ardia sob os efeitos do seu próprio destino.
E a criança lia, soletrando o que aprendia.
           
– Mãe, tu gostas tanto de cozer pão como gostas de ser mãe?
– Se as mulheres não tivessem filhos, não era preciso o trabalho da cozedura do pão. Não havia gente a pedir o pão que se come todos os dias. E se faltasse o pão, até mesmo a nossa boca perdia o sabor.
           
A mãe, a primeira mestra de todas as leituras, tinha sempre uma resposta. Ela sabia de cor bonitos e sábios segredos.
– Filho, vou-te dar um conselho que me ensinou a minha madrinha, quando eu era pequena, e que nunca mais esqueci: “pão, roupa e um vintém, não carrega(m) ninguém.”
– Não percebi nada!
– Um dia vais entender.     
           
Naquela casa, a mãe sustinha o esteio da vida, os rituais do quotidiano, os prazeres da fala e da infância.
Naquela casa térrea, aprendia-se a esperar o pão e as delícias da ternura. Aprendia-se a descobrir frases futuras.

– Filho, lê essa ideia outra vez!
– O quê, mãe?
– As palavras que leste agora no livro. Diz outra vez!
As rosas são as namoradas do sol.
– Que lindo, filho! Nós ainda vamos aprender muitas coisas assim bonitas. Nós havemos de saber mais do que todas as coisas que se ensinam nas escolas todas do mundo.
           
A mãe reconhecia o filho à mesa de leitura.
O menino reconhecia a mãe no acto de cozer o pão, no modo de pensar, nos sentimentos, no olhar e nas palavras que dizia.
Mãe e filho eram duas verdades unidas por um elo único e precioso.
           
O menino que lia devagarosamente, não adivinhava que nas lembranças da mãe se inteirava e repetia o momento do seu próprio nascimento.
Debaixo da pele da infância que a mãe nutria, o filho era a imagem do crescimento contínuo, esperando o pão nosso de cada dia.
O menino soletrava, decifrando pequenas frases maternais invisíveis nas linhas do livro.
           
Um dia, alguém disse mais ou menos isto: dois seres afectuosamente confidentes, unidos pelo prazer de existir, são causa mútua de vida e júbilo.
           
Outro dia, o menino de sua mãe, que nasceu poeta e poeta cresceu, lembrou-se de escrever num caderno de versos:

                                      No miolo do pão
                                      as mães deixam o sal 

                                      o sopro e o coração.


J. Alberto de Oliveira 


in O teu Dia, Mãe 
C ART- 2014



17.4.14

LUZ E VERSOS FUTUROS



Se me vires dormente ou morto
não me deixes assim exposto.

Ressuscita-me através do nome.

Não me queiras cego e surdo.
Preciso de luz e versos futuros.

J. Alberto de Oliveira

2.4.14

CINCO BALÕES



– Cinco balões baloiçam presos aos teus dedos. Os cinco balões que eu daria ao vento e à vida.
– Queres, então, que os solte? Posso deixá-los ir?
– Agora não. Espera pelo fim de mim.

J. Alberto de Oliveira

15.3.14

PELA PRIMEIRA VEZ



Foi um gosto e surpresa ir à escola pela primeira vez, numa certa manhã de Outubro do ano 1952.
Perdido no meu ar pensativo, de casa me levou minha Mãe.
A professora, airosa e moça, com doçura de alma e boas palavras me recebeu. Disse um não sei quê de espanto e alvoroço. Depois, sentou-me numa carteira, a par de uma menina com espírito e nome de Rosa, que em todo o resto do dia me ensinou o que já aprendera de cor.

Pelo sentido intuitivo de três corações falantes e femininos se abriu para mim a porta da escola.
Com a solicitude maternal principiava o exercício contínuo de escrever e ler.
Começou nesse dia outonal uma pronúncia diversa e dura.
Firmava-se o alicerce verbal do futuro.

J. Alberto de Oliveira

9.3.14

OS MESTRES DE PROVAR O VINHO



Os mestres de provar o vinho não falam.
Estudam os efeitos do mosto no escuro.

Com a boca adivinham o labor
da luz que amadureceu as uvas.

Eles dão ao pensamento a combustão da saliva.
Com a língua movem a cor e o auge do vinho.

J. Alberto de Oliveira

23.2.14

DIADORIM




Diadorim.
O nome escrito e narrado por João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.
Diadorim. 
Um nome. Uma figura enigmaticamente iluminante.
Pronunciar Diadorim suscita um não sei quê.
O sexo de ser Diadorim é inesperado e desassossegante. Nome e figura não condizem com o real quotidiano.
Diadorim é o nome fulgor, libidinal e diverso. Um poema de inspiração contínua.
O nome Diadorim, em seu desígnio e sonoridade, é o poema mais pequeno da língua portuguesa.
J. Alberto de Oliveira 

18.2.14

PRELÚDIO VESPERTINO



Mais firme e justa que o pulso
a bater em cadência musical

corria a voz que chamava
à hora exímia do crepúsculo.

Com amor e o sopro leve
a mãe reduzia a distância

entre o sono e altura do céu.

J. Alberto de Oliveira

1.2.14

BRINCAR COM A ALMA




Quando eu não posso brincar
com a alma

as horas ficam sem ressonâncias.

De bruços caio no lamaçal
de morrer.

Faltam-me as palavras
e as imagens de ver.

Quando eu não posso brincar
com a alma

falta-me o auge da luz e do ar.

J. Alberto de Oliveira


Fotografia: José Marafona

19.1.14

A SINTAXE DA VIDA



Ando ainda a aprender a ler.
Ainda aprendo a apurar a sintaxe da vida 
para um dia morrer em paz
com as bagadas que me restam.

E que a morte seja a bênção do olhar que me quer 
para além do olhar.



J. Alberto de Oliveira

Fotografia: José Marafona

2.1.14

FRUTOS SILVESTRES




Gosto de confundir frutos silvestres
com cheiros a beijos.

Gosto de confundir os seres celestes
com a hora das ideias primeiras.

J. Alberto de Oliveira