28.12.13

UM TEMA VIVO DO VENTO



A língua que eu falo
dissolve-se na água

que avidamente bebo.

Com substantivos do mar
é um tema vivo do vento.

Resume-se a dois dedos
de conversa e de silêncio

a língua materna que falo.

J. Alberto de Oliveira

9.12.13

O FIO DE ARIADNE



Oh soberana maravilha
escrever o poema

com a tinta das palavras!

Oh prodígio de vida
tecer o fio de Ariadne

com linfa sal e saliva!

J. Alberto de Oliveira

27.11.13

QUANDO IMAGINO DE MAIS



Quantos anos e dias mais
terei de sal e de lembranças?

Em ti eu me crio ainda
oh Mãe

quando imagino de mais!

J. Alberto de Oliveira

Imagem: H. Matisse

19.11.13

O MEU CLAMOR


Para Deus elevo o meu clamor:
que ninguém me engane a alma

nem me esgane o pescoço.

J. Alberto de Oliveira

17.11.13

CITAÇÃO

 

 
Cito as palavras de cor:
 
Os inteligentes discutem ideias.
Os medíocres falam de coisas e dinheiro.
E os bufarinheiros falam da vida alheia.
 
Quem escreveu assim, tão verticalmente?
Quem foi?
Gostava tanto de lhe dar os parabéns.
 
J. Alberto de Oliveira
 
 
 

6.11.13

O LIVRO



“Porque a alma é um abismo” (Álvaro de Campos), quem a lê no mais profundo dos livros?
Há inúmeros livros. Uns mais preciosos que outros.
Com o espírito dos “que são pedintes e pedem”(Álvaro de Campos), eu só peço o Livro que tanto procuro.
Já foi escrito?

Eu só quero o Livro que me há-de escrever.
Eu só peço o Livro que me ensine a permanecer no juízo da luz.
Que me faça gritar como Álvaro de Campos:
“Merda! Sou lúcido”.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: José Marafona

22.10.13

PARA QUE SERVE A POESIA?



Para que serve a poesia?
Eu sei que há poucos poetas e reduzido é o número dos legentes de poesia. 
Se eles fossem muitíssimos e pudessem formar um exército, sem dúvida que arrasariam o mundo só para conhecer a verdade.
Esta é a possível e única utilidade que devo atribuir à poesia e aos seus amantes.




Ao poeta não basta escrever ou ditar um verso para seu júbilo e consolação.
É preciso ouvir no mais íntimo a fala e a música contínua do anjo.
A tarefa primordial do poeta é lutar com o anjo a horas incertas da noite.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Renato Roque

16.10.13

O PULSO DE BACH



O pulso de Bach, em exercícios musicais,
anula as trevas e fronteiras.

Amplia o horizonte da inteligência e da lucidez,
instaurando a geometria sumptuosa da alma.

Incute o sagrado respeito pelo rigor intuitivo de Deus.

O ritmo dos ventos no pulso de Bach
incita à escuta do silêncio branco.

J. Alberto de Oliveira

6.10.13

ESCREVER SOL





Com os dedos
cheios de tinta

do azul do mundo.

Com os dedos
sobre os olhos

replenos de azul

eu sei doravante

como escrever sol.

J. Alberto de Oliveira

DO AVESSO

 

Quando as roupas são a minha segunda pele,
acontece o quê, se me desnudo?
Fico todo à flor da nudez.
Despir-me é virar-me do avesso.
O desvestimento livra-me dos adornos, do disfarce,
dos complementos.
Talvez a nudez seja a pureza mais próxima da verdade
entendida como um espaço de profundíssimas águas.
 
J. Alberto de Oliveira


21.9.13

UM SELO DE LEITURA




Nasci afeiçoado à melancolia
e ao único verbo que estudo.

Por razões de alma e nudez
sou na ampola do mundo

um selo de leitura pensativa
lendo um verso de cada vez.

J. Alberto de Oliveira


18.9.13

NOCTURNO QUASE PERFEITO





Não me perguntes
donde vem a noite

com a lua quase perfeita
em sua fase de letra D.

Não me perguntes
nem peças nada.

Desenha-me apenas a lua
e o silêncio por inteiro.

J. Alberto de Oliveira

23.8.13

RAÍZES AFECTUOSAS





O verbo de meus versos conjuga-se no modo e tempo
de uma surpresa de cada vez.

Hoje, a hora do amanhecer foi para as crianças, para
os cantores do louvor e para os colecionadores de sonhos
e lembranças.

Todos os dias eu peço aos cantores do louvor
que me traduzam o timbre do silêncio na cal 
e me ensinem a ler no solfejo do inefável.

J. Alberto de Oliveira


30.7.13

ANTÓNIO NOBRE




Hirto de mágoa,
Anto falou a eito acerca de si próprio,
das pessoas, de lugares e coisas do quotidiano.

Restaurou os sons e a sintaxe da melancolia.

Ao Mundo vim em terça-feira
Um sino ouvia-se dobrar!
[…]
Vim a subir pela ladeira
E, numa certa terça-feira,
Estive já pra me matar…

Com o Poeta vieram e dobraram 
as dores que depressa o levaram.

J. Alberto de Oliveira


28.7.13

FERNANDO ECHEVARRÍA





A leitura dos versos de Fernando Echevarría pede a companhia musical de J. S. Bach.
Música e versos cumprem um modo único de consonâncias e aprumo.
Do extremo dos versos do poeta ao extremo das notas musicais de J. S. Bach sente-se o espaço, o tempo, o ritmo do mundo.

J. Alberto de Oliveira


13.7.13

AS ROSAS DA MÃE

 
 

Um vento de madrigais
e luar sopra no jardim.

Não traz o ar de névoas
nem o escuro da noite.
 
Não suspende a memória
nem as ideias de ninguém.

É só uma brisa de rosas.
 
J. Alberto de Oliveira


29.6.13

COM O LINHO DO LOUVOR

 
 

                                              para a M. Madalena


Com a sombra de Deus
as palavras do sono
 
perfumam o sossego
e os redutos da fala.
 
Com o linho do louvor
a mãe responde ao sonho.
 
Fala para dentro do luar.
 
J. Alberto de Oliveira

 

21.6.13

AQUELA ESTRELA




Aquela estrela
de luz sonhada

era um barco
ou seria apenas

uma letra do mar?

J. Alberto de Oliveira

5.6.13

TRÊS DIAS BIOGRÁFICOS





Hoje é dia de escrever a primeira linha da minha biografia _____
Sou de linhagem poética.

O segundo dia resume-se a duas perguntas:
Quem me sonhou?
Quem me trouxe ao éden dos sonhos
e me deixou carecente
a sonhar ininterruptamente?

Por fim, o terceiro e último dia da minha biografia. Apenas um registo:
Eu sei que vou morrer cego de alumiações e metafísica, pedindo que a janela de casa fique sempre aberta para um jardim qualquer.

J. Alberto de Oliveira

15.5.13

A ALTIVA DOÇURA


A altiva doçura
da mãe

lê-se à luz
de um tempo vivo.

O tempo que pulsa
no nome dos filhos.

J. Alberto de Oliveira

4.5.13

O MANANCIAL DA ALMA

 
 

Com os dedos e a língua
de seu pensamento

a criança abria o linho
e o seio à doçura.

Com os dedos movia
a nuvem

redonda e pequena.

Com avidez de criança
bebia a substância feliz.

O manancial da alma.
 
J. Alberto de Oliveira

 


 

21.4.13

A MÚSICA DE J. S. BACH

 

A música de J. S. Bach sustenta o tecto do Universo. Difunde o imenso. Preenche a temporalidade em ritmo firme.
 
Nas pautas musicais de J. S. Bach, o exercício é de presença e fuga. O ser e o não ser dialogam com frontalidade em tons de consonância mística.
Instauram o aprumo e a altura.
Abrem o silêncio ao mais íntimo dos segredos.
 
J. Alberto de Oliveira 


20.4.13

RETRATO

 
 

Esguia e preclara de tão imaginativa
sabe ler palavras inevitáveis em folhas nuas.
 
Coincide com as ideias do ar mais fino
e
fala com o vento que passa entre poemas.
 
Sustenta a luz que nasce de haver azul
e
brilha nobilíssima quando inspira o silêncio.
 
Esguia e preclara de tão imaginativa
hei-de amá-la o resto da  vida.
 
J. Alberto de Oliveira

 


26.3.13

CORPO ASCENSIONAL



- Não me detenhas, Myriam. Tenho de ir.
- Para onde vais?
- Myriam, não toques no meu corpo ascensional.
- Para onde vais?
- Vou para o íntimo donde vim. Para a memória de sempre.
- A tua memória?
- A memória de mim.
- Não vás. Não vás sem um beijo no temor de te não ver mais.
Dá-me de ti o sentido firme da altura.
Eleva-me ao sonho da espera.
Inunda-me os olhos de perfume.
Deixa-me nos dedos a arte de tocar o azul dos céus e o vento.
Apura em mim o dom de te respirar com palavras e o pensamento.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Iluminura da Idade Média - Ascension - "Les Très Riches Heures"



19.3.13

NAS DOBRAS DO SILÊNCIO

 



Como se diz num só verso
o fluir do silêncio

quando é noite e me perco?

Que segredo há nos olhos
que em seu natural me tocam?

Como se diz em pensamento

a curva da mão
quando me levas à boca

o luar de leite com mel e pão?
 
J. Alberto de Oliveira

NOME E FLOR





Quando as folhas altas em contraluz
amanheciam do sono para o dia

eu desci a escada para te dar o nome
equivalente à flor a haver no jardim.

Dei-te primeiro o nome e depois a flor
quase a luzir de nudez e penumbra.

Com a leveza do ar recebeste a flor
apurando-a com o seu próprio fogo.

Para um anel de nubilíssimo júbilo
ajustemos agora o nome à flor.

J. Alberto de Oliveira

2.3.13

MINHA PÁTRIA É A LÍNGUA PORTUGUESA






Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes — tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é — não — a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d´aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.

Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m´a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Bernardo Soares/Fernando Pessoa – Livro do Desassossego - 14/01/2013

O POETA







Coisa leve, alada e sagrada é o poeta...

Platão - Íon



- Em meu entender, Sócrates - disse ele - a parte primacial da educação (paideia) de um homem é ser entendido em poesia. E isso consiste em ser capaz de compreender as palavras dos poetas, o que é bem feito e o que não é, saber distinguir e dar as suas razões a quem o interrogar.

Platão - Protágoras

1.3.13

RUMO À IDADE SUPREMA









Rumo à idade suprema
não arrepies caminho.

Não pares
nem pagues portagem

ao transpor o poente.

J. Alberto de Oliveira

16.2.13

DAS VARANDAS DE VER





Das varandas de ver
em Vermodium

o céu altivo das nuvens

eu via as aves
a mover o imo da luz.

Do ritmo quente
de suas vidas aladas

nasciam pensamentos.

Nascia a pronúncia
de palavras futuras.

J. Alberto de Oliveira


5.2.13

ENTREPOEMAS







Da nudez de Deus
entrepoemas nasci.

Por sete gotas vivas
Deus à vida me deu.

J. Alberto de Oliveira

1.2.13

OS ANJOS





                                                                        para José Rodrigues
Os anjos designam a altura.
Sobem e descem a escada.

Entre o invisível e o azul
os anjos pairam atentos.

Pairam abraçados ao nome
e aos sonhos que temos.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Capa de O ANJO INEFÁVEL (plaquete, fora de mercado)



24.1.13

O INVISÍVEL




A criança que me destina
a ler o invisível

tem pensamentos no mar.

Em contraponto me ensina
um dialecto inspirado

nos jogos com o vento.

Da nudez a luzir no mar
ela diz-me tudo

ou quase tudo em segredo.

J. Alberto de Oliveira