28.12.17

O MEU LUGAR




A minha vida herdou a verde colina, as leiras, os sulcos de água corredia
e todos os declives.
Aqui transbordou a sina da minha natureza.

Foi Vermodium o meu lugar de fantasias e crescimento.
Aqui o sol do dia era bondoso e a lua da noite subia reluzida.
Era um espaço bom para as minhas lembranças e sortes de infância.

J. Alberto de Oliveira

23.12.17

FULGURÂNCIAS



O fervor da mão acende o pavio
como se acendesse a noite escura.

O poeta escreve
como se escrevesse para longe.

Uma criança absorta fala
como se falasse o idioma da chuva.

E os anjos voam
como se voassem para sítio nenhum.

J. Aberto de Oliveira

19.12.17

MÁRIO CESARINY - Em todas as ruas te encontro




Em todas as ruas te encontro
In tutte le strade ti incontro
em todas as ruas te perco 
in tutte le strade ti perdo

conheço tão bem o teu corpo
conosco così bene il tuo corpo
sonhei tanto a tua figura
ho sognato tanto la tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
che è con gli occhi chiusi che io cammino
a limitar a tua altura
delimitando la tua alteza
e bebo a água e sorvo o ar
e bevo l'acqua e succhio l'aria
que te atravessou a cintura
che ti ha attraversato la cintura
tanto tão perto tão real
così vicino così reale
que o meu corpo se transfigura
che il mio corpo si trasfigura
e toca o seu próprio elemento 
e tocca il suo proprio elemento
num corpo que já não é seu 
in un corpo che già non è suo
num rio que desapareceu
in un fiume scomparso 
onde um braço teu me procura
dove un tuo braccio mi cerca 

Em todas as ruas te encontro
In tutte le strade ti incontro
em todas as ruas te perco 
in tutte le strade ti perdo


Mário Cesariny, in "Pena Capital"


Tradução italiana: Maria Bochichio

16.12.17

UMA VOZ DE LEMBRANÇAS




Quando os sustos
do mundo se calam

o espírito e a língua
são mais que musicais.

Tornam-se profundas
na fala todas as linhas.

Uma voz de lembranças
paira dentro de mim.

J. Alberto de Oliveira

10.12.17

SONS DO PIANO



Ouvir o piano a expandir
a natureza de sons que nem imagino

faz de mim uma folha do silêncio à deriva.

J. Alberto de Oliveira

3.12.17

A LUA SOBRE O MAR




Junte-se à lua inteira
o sopro de ler o mundo

em tons perfeitos.

A lua sobre o mar
é de espuma ou poeira?

Junte-se à lua no mar
o diamantino apuro

da alma em letra pura.

J. Alberto de Oliveira

6.11.17

EUGÉNIO DE ANDRADE




OS PRIVILÉGIOS DA POESIA
para Eugénio de Andrade


Quando falava seu rosto
alumiava o próprio nome.

Ditava segredos
difíceis de escrever.

Soletrava muito devagar
mas eu nada entendia.

Com leveza recitava
um não sei quê.

O que seu rosto dizia
talvez fossem

os privilégios da poesia.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Eugénio de Andrade por Jorge Ulisses (1980) 

2.11.17

AS FOLHAS ESVOAÇAM




As folhas esvoaçam
umas com as outras

por dentro do outono.

Com pequenas frases
de segredos e música

as folhas esvoaçam.

difundem no mundo 
o sustento da palavra.

Inteira e diamantina 

é a pronúncia
da fala intemporal.

J. Alberto de Oliveira

24.10.17

SE O VENTO ME LEVAR




Se o vento me levar
onde queres que deixe 

uma citação do olhar?

Se o vento me perder
onde queres um recorte

de puro linho verbal?

J. Alberto de Oliveira

7.10.17

O POETA SOLAR




S. Francisco de Assis lia com alegria perfeita todas as horas da vida.
Ele sabia, por exemplo, que nascer, viver e morrer são dons e poesia.

O princípio do poeta é ler-se inteiro na sua própria nudez.
O Santo de Assis respirava e louvava a luz solar.

A elegância interior de S. Francisco de Assis expandia-se para fora de si mesmo, para além do universo e da alegria
           
Francisco é muito difícil porque excessivamente poeta.
É um jogral.
           
De Assis, bem-vindas sejam todas as correntes de ar.

Francisco, o poeta solar, seja louvado com o mesmo louvor das suas falas com Deus e com todas as criaturas.
S. Francisco de Assis cantava os laços afectivos do universo.
Exultava em fraternura.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Capa do livro foi publicado por LETRAS & COISAS, 2017
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3.10.17

POST-SCRIPTUM




POST-SCRIPTUM
PARA
O SANTO POETA DE ASSIS
                       

Amava e não escrevia.
Soletrava com Deus.
Dizia segredos de si para si.
Falava com todas as criaturas
dobrando os efeitos
da perfeita alegria.
                       
Entoava louvores
como quem anda à procura.
O Santo de Assis andarilhava
caminhando e divagando.
                       
No coração de Francisco
se abria dia após dia 
um abrigo para alguém entrar.

J. Alberto de Oliveira

24.9.17

UM PONTO VORAZ




Um ponto voraz
de asas e pó.

Um lugar de iluminura
e de meias palavras.

O horizonte rubro
de sol

no extremo do mar.

J. Alberto de Oliveira

15.9.17

NUNCA ESTOU SÓ





Nunca estou só.
Há sempre alguém que ama, que adivinha, que se move
para mim, desde que eu não esteja fora.

O entoar da água,
em queda lenta e livre, no tanque das noites lunares,
ainda é a vocação primordial.

Ainda me inspira e apura a fala.

J. A. de Oliveira

1.9.17

ALUMIAÇÕES




Quando fui criança, os nomes que dizia, todos ou quase todos, 
eram incompletos.
Somente o volume e as formas das coisas permaneciam inteiras 
nos meus olhos.
Com os objectos do mundo, na sua complementaridade justa e geométrica,
eu compunha as primeiras frases, incautas, frágeis e breves.
Eram frases de fulgor, lúdicas, miríficas e matinais.

As minhas alumiações começavam pela sensibilidade intemporal da alma.
Com rigor e pudor as transmitia ao papel.
Não pediam nada em troca.
E quando a luz era escassa ou nula, a delicadeza do papel escrito
espelhava um céu de centelhas.

As letras nasciam no momento em que os olhos de ser
e a mão de escrever
tocavam  e perfumavam os sentidos do silêncio.

Pedra a pedra ainda saberei construir a idade que me resta?
Quem me ajuda a erguer ou a restaurar casas invisíveis 
em lugares inacessíveis?
São casas ou abrigos para as folhas do pensamento,
para as alumiações
e para os segredos que um dia não poderei levar comigo.

J. Alberto de Oliveira

22.8.17

REGRA GERAL




Regra geral, a grande notícia é a desgraça do vizinho.
Também é muito badalado o rumor que sustenta uma lenda nova,
aguçando a curiosidade.
Por sua vez, tudo o que enriquece o desenvolvimento ou estimula
a aprendizagem cansa.
Pensar ou ler o mais profundo
incomoda.

No tic-tac recitativo do tempo, cego e voraz, 
a melhor parte da vida talvez
seja a verdade que só aparece nos intervalos do amor real 
ou do amor sonhado.

J. Alberto de Oliveira

11.8.17

TALVEZ UM DIA




Talvez um dia se possa dizer
que a minha poesia

não é mais que a sorte de uma hora
somada ao acaso da palavra suprema.

Ou para melhor dizer

não é mais que a surpresa musical
da alma que se põe a falar.

J. Alberto de Oliveira

29.7.17

PELA ESCADA ALTA




Ainda tenho comigo as afectuosas raízes
que me transmitem vida e significância.

Desci ao meio da noite
pela escada alta

que liga o chão ao firmamento.

Da mesma forma que uma folha de tília
cai nas águas corredias

em verso 
eu me copio na arte dos ventos.

E assim me quero.

Tanto mais isento
quanto mais leve

para sair do tempo.

J. Alberto de Oliveira

21.7.17

UNS PASSOS MAIS ADIANTE




Sem lembranças eu sou mais cego
que um nó.

E sem as raízes do afecto
sou pior

que um cisco nos meus olhos.

Com os pés nus
pensativo e descalço

eu digo a palavra Pai
e dou uns passos mais adiante.


J. Alberto de Oliveira 

Imagem: A. Tapiès

13.7.17

MEMENTO




A fala da Mãe era cantabile. 
Dizia palavras de uso diário quando tinha os filhos à mesa.

A Mãe não falava enquanto os filhos dormiam.

J. Alberto de Oliveira


Memorável: os dias da Mãe começaram na quinta-feira, 13 de Julho de 1924.

Desenho: Alberto Péssimo

10.7.17

ANTÓNIO NOBRE EM LEÇA DA PALMEIRA




António Nobre fugia para o mar e tinha visões das terras de Leça.
Em terra tinha visões do mar e do mais longe.

Foi para Coimbra e teve imensas visões 
da infância e de Leça da Palmeira.

Foi para Paris e teve as melhores visões da Lusitânia.

Era um vagabundo, um andarilho raro, sem colo
e sem uma almofada onde se reclinar.

Anto apenas teve dele próprio o Só.

J. Alberto de Oliveira

27.6.17

CAMINHANTES DO SILÊNCIO




Sentado à mesa, J. S. Bach media o tempo, a luz e o silêncio.
O pensamento escrito na pauta
ajustava-se ao ritmo e às vibrações do sopro universal.

Fernando Pessoa percorria as ruas de Lisboa, em passo firme,
como se fossem as rotas de novos mundos a descobrir.
Ia e vinha absorto, filho de ninguém.
Ia e vinha todos os dias, sempre ele mesmo, sendo outros.

J. Alberto de Oliveira

Gravura de João Pedro Cochofel

14.6.17

HÚMUS - RAUL BRANDÃO




De Húmus vem a vila que persiste com  as suas insignificâncias, o grotesco, a vulgaridade, o espanto, o luto e o bolor, o egoísmo e a mortalidade a fechar as linhas do tempo.

A vila parece do tamanho das cismas que povoam um cemitério.

Húmus é um lugar viscoso, cheio de vozes remendadas pela dor.

Na vila moram velhas cheias de mesuras, de baba, de fel e rancor, de avareza e fome, de ais e farrapos. São maníacas e fedorentas, com sentimentos postiços e requentados.

Na vila o desconforme não se afasta da pobreza nem do destino que a toda a hora mói, rói e remói.

Na vila de Raul Brandão até o invisível dói.

J. Alberto de Oliveira

27.5.17

DO TEMPO SEM TEMPO




À hora das sombras luzentes
da quietude e relento

o sinal da cancela chamou.

À hora do tempo sem tempo
a sulamita depressa foi abrir.

Ela bem sabia quem havia de vir.

J. Alberto de Oliveira

20.5.17

AS ESTRELAS DE VIENA




São mais que perfeitas
de tão musicais

as estrelas de Viena.

No infinito
de língua nenhuma

acendem
sons e delícias.

Apuram a arte
sumptuosa de as ouvir. 

J. Alberto de Oliveira

12.5.17

DIZER AO OUVIDO




Linho
sol
amor
azul
Ana
fogo
vento
luar
flor
Lia
sal
Rosa
mar

são nomes
ou palavras humildes
preciosas

simples e sem sombra
de erro
quando as dizes ao ouvido.

J. Alberto de Oliveira 

1.5.17

HORAS DE CEIA




Todas as noites o rosto do amor nos dizia:
– São horas de ceia!

Eu ouvia e pensava, repetindo no silêncio de mim:
– São horas de lavar os pés a quem se ama.

J. Alberto de Oliveira

21.4.17

A SPREZZATURA É UMA ARTE




Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar o seu primeiro discurso, na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo do pai, o que tinha achado do seu desempenho naquela assembleia de vedetas políticas.
O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse-lhe em tom paternal:

“Jovem, cometeste um erro grave. Foste demasiado brilhante no teu primeiro discurso. Isso é imperdoável. Devias ter começado um pouco mais na sombra. Devias ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstraste hoje, deves ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos.
Jovem, o talento assusta.”

Ali estava uma das melhores lições que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil. Eis um paradoxo angustiante:
O princípio da inveja. A razão do “imperdoável.”

Há na língua italiana, a propósito de imperdoável e imperdoáveis
(gli imperdonabili), alguns vocábulos intensos no seu dizer significante, no seu vigor e sonoridade:

Intelligenza – faculdade activa do entendimento e lucidez.
Eleganza – elegância, delicadeza e brio comunicante.
Piglio – toque, distinção deliberada.
Disinvoltura – desenvoltura, agilidade viva.
Noncuranza – descuido displicente. 
Sprezzatura – o supremo brasão da inteligência unida à sensibilidade e fidalguia, um modo elevado, negligentemente livre no fazer e dizer, “próprio de mestre seguro de si.” (N. Zingarelli)

A sprezzatura é consonante com “maneiras de negligência magistral”. É uma arte.

J. Alberto de Oliveira


Fonte: Novo Dizionario della lingua italiana Universale (1912) -  P. Petrocchir

15.4.17

REVIVESCÊNCIA




No recanto do jardim
a pedra vazia.

A mulher
e o alvorar do dia.

No recanto do jardim
o pulso da mulher
                                              
que procura o amigo
deixado em ferida.

Pelo jardim adentro
a mulher correu
                                              
levando os perfumes
e letras da revivescência.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: "Ressurreição de Cristo e Mulheres no Sepulcro"
Fra Angelico - Pintor italiano pré-renascentista (c. 1387-1455)

11.4.17

REINO DA ETERNIDADE





É tudo tão absurdo quando me ponho a pensar na distância
que há entre a vida e o sepulcro.
Assusta-me não saber o que há dentro do verbo morrer.

Nem a mim próprio eu peço licença para escrever.
Ando cada vez mais embaçado e deveras denegrido.
Falo sem tom nem som. 
Até o silêncio me julga louco.

Já me desenharam e mostraram tantas figuras 
ou representações da eternidade.
Com os dias que passam
muitas das imagens escorregam para o caixote do lixo
ou acumulam-se no sótão desfeitas em poeira.

Jesus disse muito pouco acerca da existência 
depois da morte.
Quando se referia ao transcendente 
parece que só conhecia a palavra Pai.

Não deu grandes explicações acerca do além-mundo.
Se dele tivesse falado com pormenores, 
teria reduzido a eternidade ao vulgar.

Jesus falou muito, 
isso sim, 
desta nossa vida aqui 
como Reino da Eternidade.

J. Alberto de Oliveira

Pietà de Miguel Ângelo - Photo de Robert Hupka

1.4.17

UM LUXO RARO




Eu não deixo.

Juro a pés juntos
que não deixo falsificar

a minha natureza chamada
a um lugar no mundo.

Isto de ser poeta acordado
pela inspiração do vento

é um luxo raro.

J. Alberto de Oliveira