11.8.17

TALVEZ UM DIA




Talvez um dia se possa dizer
que a minha poesia

não é mais que a sorte de uma hora
somada ao acaso de certas palavras.

Ou para melhor dizer

não é mais que a surpresa musical
da alma que se pôs a falar.

J. Alberto de Oliveira

29.7.17

PELA ESCADA ALTA




Ainda tenho comigo as afectuosas raízes
que me transmitem vida e significância.

Desci ao meio da noite
pela escada alta

que liga o chão ao firmamento.

Da mesma forma que uma folha de tília
cai nas águas corredias

em verso 
eu me copio na arte dos ventos.

E assim me quero.

Tanto mais isento
quanto mais leve

para sair do tempo.

J. Alberto de Oliveira

21.7.17

UNS PASSOS MAIS ADIANTE




Sem lembranças eu sou mais cego
que um nó.

E sem as raízes do afecto
sou pior

que um cisco nos meus olhos.

Com os pés nus
pensativo e descalço

eu digo a palavra Pai
e dou uns passos mais adiante.


J. Alberto de Oliveira 

Imagem: A. Tapiès

13.7.17

MEMENTO




A fala da Mãe era cantabile. 
Dizia palavras de uso diário quando tinha os filhos à mesa.

A Mãe não falava enquanto os filhos dormiam.

J. Alberto de Oliveira


Memorável: os dias da Mãe começaram na quinta-feira, 13 de Julho de 1924.

Desenho: Alberto Péssimo

10.7.17

ANTÓNIO NOBRE EM LEÇA DA PALMEIRA




António Nobre fugia para o mar e tinha visões das terras de Leça.
Em terra tinha visões do mar e do mais longe.

Foi para Coimbra e teve imensas visões 
da infância e de Leça da Palmeira.

Foi para Paris e teve as melhores visões da Lusitânia.

Era um vagabundo, um andarilho raro, sem colo
e sem uma almofada onde se reclinar.

Anto apenas teve dele próprio o Só.

J. Alberto de Oliveira

27.6.17

CAMINHANTES DO SILÊNCIO




Sentado à mesa, J. S. Bach media o tempo, a luz e o silêncio.
O pensamento escrito na pauta
ajustava-se ao ritmo e às vibrações do sopro universal.

Fernando Pessoa percorria as ruas de Lisboa, em passo firme,
como se fossem as rotas de novos mundos a descobrir.
Ia e vinha absorto, filho de ninguém.
Ia e vinha todos os dias, sempre ele mesmo, sendo outros.

J. Alberto de Oliveira

Gravura de João Pedro Cochofel

14.6.17

HÚMUS - RAUL BRANDÃO




De Húmus vem a vila que persiste com  as suas insignificâncias, o grotesco, a vulgaridade, o espanto, o luto e o bolor, o egoísmo e a mortalidade a fechar as linhas do tempo.

A vila parece do tamanho das cismas que povoam um cemitério.

Húmus é um lugar viscoso, cheio de vozes remendadas pela dor.

Na vila moram velhas cheias de mesuras, de baba, de fel e rancor, de avareza e fome, de ais e farrapos. São maníacas e fedorentas, com sentimentos postiços e requentados.

Na vila o desconforme não se afasta da pobreza nem do destino que a toda a hora mói, rói e remói.

Na vila de Raul Brandão até o invisível dói.

J. Alberto de Oliveira

3.6.17

QUASE AO RUBRO




Quase ao rubro
me cega e seduz

o murmulho do lume.

J. Alberto de Oliveira

27.5.17

DO TEMPO SEM TEMPO




À hora das sombras luzentes
da quietude e relento

o sinal da cancela chamou.

À hora do tempo sem tempo
a sulamita depressa foi abrir.

Ela bem sabia quem havia de vir.

J. Alberto de Oliveira

20.5.17

AS ESTRELAS DE VIENA




São mais que perfeitas
de tão musicais

as estrelas de Viena.

No infinito
de língua nenhuma

acendem
sons e delícias.

Apuram a arte
sumptuosa de as ouvir. 

J. Alberto de Oliveira

12.5.17

DIZER AO OUVIDO




Linho
sol
amor
azul
Ana
fogo
vento
luar
flor
Lia
sal
Rosa
mar

são nomes
ou palavras humildes
preciosas

simples e sem sombra
de erro
quando as dizes ao ouvido.

J. Alberto de Oliveira 

1.5.17

HORAS DE CEIA




Todas as noites o rosto do amor nos dizia:
– São horas de ceia!

Eu ouvia e pensava, repetindo no silêncio de mim:
– São horas de lavar os pés a quem se ama.

J. Alberto de Oliveira

21.4.17

A SPREZZATURA É UMA ARTE




Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar o seu primeiro discurso, na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo do pai, o que tinha achado do seu desempenho naquela assembleia de vedetas políticas.
O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse-lhe em tom paternal:

“Jovem, cometeste um erro grave. Foste demasiado brilhante no teu primeiro discurso. Isso é imperdoável. Devias ter começado um pouco mais na sombra. Devias ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstraste hoje, deves ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos.
Jovem, o talento assusta.”

Ali estava uma das melhores lições que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil. Eis um paradoxo angustiante:
O princípio da inveja. A razão do “imperdoável.”

Há na língua italiana, a propósito de imperdoável e imperdoáveis
(gli imperdonabili), alguns vocábulos intensos no seu dizer significante, no seu vigor e sonoridade:

Intelligenza – faculdade activa do entendimento e lucidez.
Eleganza – elegância, delicadeza e brio comunicante.
Piglio – toque, distinção deliberada.
Disinvoltura – desenvoltura, agilidade viva.
Noncuranza – descuido displicente. 
Sprezzatura – o supremo brasão da inteligência unida à sensibilidade e fidalguia, um modo elevado, negligentemente livre no fazer e dizer, “próprio de mestre seguro de si.” (N. Zingarelli)

A sprezzatura é consonante com “maneiras de negligência magistral”. É uma arte.

J. Alberto de Oliveira


Fonte: Novo Dizionario della lingua italiana Universale (1912) -  P. Petrocchir

15.4.17

REVIVESCÊNCIA




No recanto do jardim
a pedra vazia.

A mulher
e o alvorar do dia.

No recanto do jardim
o pulso da mulher
                                              
que procura o amigo
deixado em ferida.

Pelo jardim adentro
a mulher correu
                                              
levando os perfumes
e letras da revivescência.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: "Ressurreição de Cristo e Mulheres no Sepulcro"
Fra Angelico - Pintor italiano pré-renascentista (c. 1387-1455)

11.4.17

REINO DA ETERNIDADE





É tudo tão absurdo quando me ponho a pensar na distância
que há entre a vida e o sepulcro.
Assusta-me não saber o que há dentro do verbo morrer.

Nem a mim próprio eu peço licença para escrever.
Ando cada vez mais embaçado e deveras denegrido.
Falo sem tom nem som. 
Até o silêncio me julga louco.

Já me desenharam e mostraram tantas figuras 
ou representações da eternidade.
Com os dias que passam
muitas das imagens escorregam para o caixote do lixo
ou acumulam-se no sótão desfeitas em poeira.

Jesus disse muito pouco acerca da existência 
depois da morte.
Quando se referia ao transcendente 
parece que só conhecia a palavra Pai.

Não deu grandes explicações acerca do além-mundo.
Se dele tivesse falado com pormenores, 
teria reduzido a eternidade ao vulgar.

Jesus falou muito, 
isso sim, 
desta nossa vida aqui 
como Reino da Eternidade.

J. Alberto de Oliveira

Pietà de Miguel Ângelo - Photo de Robert Hupka

1.4.17

UM LUXO RARO




Eu não deixo.

Juro a pés juntos
que não deixo falsificar

a minha natureza chamada
a um lugar no mundo.

Isto de ser poeta acordado
pela inspiração do vento

é um luxo raro.

J. Alberto de Oliveira

23.3.17

A SEDA MUSICAL DE CHOPIN







Ressoa em sopro e silêncio a imagem
da mulher que se move na lembrança.

Com arte e luz de flor subtil
a mulher resume um livro difícil.

Com razão e sequências da alma
o ar começa por um fio de seda musical
                                  
a entretecer os nocturnos de Chopin.

J. Alberto de Oliveira

Imagem - Eugène Delacroix: Retrato de F. Chopin e George Sand

20.3.17

SUPER FŒTIDA FLUMINA




Pairar acima das fétidas águas
da morte.

Oh, os rios malcheirosos!

Nauseabundas correm as águas
insanas dos rios gerais.

Oh, os rios tristes da mixórdia.

J. Alberto de Oliveira

13.3.17

VARIAÇÕES GOLDBERG




Trinta e dois tempos
musicais

fluindo em consonância.

A firme natureza
do amor tem cor.

A tua alma vê-se.

J. Alberto de Oliveira

A FERRO E FOGO




O medo e o pavor de aranhas
fecharam a ferro e fogo

o jardim maternal do sol.

Entre a ferrugem copiosa
e os espigões da frieza

o poema não floriu mais.

O medo e a aridez
devastaram-lhe as rosas.

J. Alberto de Oliveira

Photo:"Claramente azul" - Leça da Palmeira

2.3.17

ANTÓNIO NOBRE



Tem os olhos encostados
ao ocidente.

António Nobre está só
e dado ao desassossego.

Há demasias de melancolia
a sangrar nele.

O poeta vai morrer só.

J. Alberto de Oliveira

26.2.17

PROVÉRBIO EM TRÊS VARIAÇÕES




Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.
Provérbio

Mais vale uma só mão a voar do que dois pássaros.
Herberto Helder

Mais vale um pássaro na mão do que duas mãos a voar.
J. Alberto de Oliveira


Pintura: "Menina com Pomba" - Pablo Picasso

17.2.17

DO AMOR EM FOGO DE AMORES




Quanto pesa o fulgor
de uma camélia de luz?

Todas as criaturas
respiram o seu próprio nome.

No ar perduram os sinais
do amor em fogo de amores.

J. Alberto de Oliveira

8.2.17

O CÂNTICO DAS CRIATURAS




S. Francisco de Assis no fim de seus dias
soletrou versos cantantes.
Resumiu em poucas e simples palavras a boa nova da criação.
Ditou de cor ao mundo o Cântico das Criaturas.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Alberto Péssimo

1.2.17

TODO VIRADO PELO AVESSO




Um dia quero ainda ver-me
do mesmo modo que Deus me vê

todo virado pelo avesso.

J. Alberto de Oliveira

21.1.17

A MULHER E A POMBA




Domingo de inverno coberto de sol vivo.
Uma pomba, no meio da rua, 
debica nacos de pão, desfazendo-os em migalhas.
Aproxima-se um automóvel de alta cilindrada 
conduzido por uma mulher.                                     

A condutora, vendo a ave, acelera.
Não fora a pomba uma criatura avisada, pacífica e lesta,
e morreria ali no asfalto, entre as migalhas do seu sustento.
Eu estremeci por dentro de mim próprio,
dizendo "putain de monde", que é o da mulher e de seu automóvel.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Cartaz concebido por Pablo Picasso (1881–1973) para o Primeiro Congresso Mundial dos Partidários da Paz

13.1.17

O TIC-TAC RECITATIVO




Há muitos e muitos anos, veio ao mundo um menino, cujo pai ao vê-lo nascer, correu à relojoaria mais próxima e comprou um despertador para que a mãe desse de mamar ao seu primeiro bebé a horas certas da noite.
Trouxe um Petrax.
Ainda se fabrica esta marca de despertadores suíços?

O menino cresceu, aprendendo palavras e suas letras,
Um dia escreveu uma redacção, pensando no Petrax, que lá está em casa, numa estante de livros, repetindo ao longo de muitos e muitos minutos o seu tic-tac recitativo.


Quando nasci, o Petrax tornou-se o autor de futuras horas e minutos.
Ainda hoje o seu tic-tac é firme e robusto.
À força de afectos e palavras, merece a bonita soma de uma idade altiva.
Enquanto a ciência da mecânica lhe conferia
o pulsar inocente, vivo, paciente e ritmado, o seu mostrador envelhecia.
Colaram-se a ele massas de luz e sombras.
Inumeráveis cenas poéticas, adjacentes ao tempo medido,
transmitiram-lhe o tom sépia das coisas santificadas.
Fora e dentro do sono, o Petrax é uma preciosa
acumulação de segredos e memórias.
Fora e dentro do silêncio, ressoam lembranças
consonantes com o tic-tac recitativo do Petrax doado à minha infância.


J. Alberto de Oliveira

11.1.17

UM NÓ-SER




Enquanto não chega a hora
do clarão

a vida é deveras perigosa.

As mais das vezes viver
é um difícil e duro nó-ser.

J. Alberto de Oliveira

2.1.17

A POESIA E A MÚSICA



Eu sei que o mundo é turvo. E o precário define-se pela condição de existir.
Mas também eu sei que a poesia e a música não se compram nem “se pedem como esmola”, diria J. S. Bach.
A  música e os poemas fluem para ser dados à inteligência mais intuitiva.

É verdade que o mundo me desvia de tudo o que seria delicadissimamente claro, divino, exacto e musical.

Não obstante, ainda sobra o sol que, depois de uma frente fria de chuva, transforma a paisagem num corpo de vibrações, de azul e claridade.

J. Alberto de OLiveira