13.8.18

MARIA GABRIELA LLANSOL





Maria Gabriela Llansol, nascida em 1931, escreveu uma prosa na confluência da poesia e do misticismo, atravessada por “cenas fulgor” que são momentos de intensidade fulminante. Ocupava-se de animais, de árvores e de linguagem.
No seu diário, Um Falcão no Punho, pode ler-se: “levo comida à gata preta, e vou-me embora. Regresso. Ela assusta-se, mas logo sossega. – Não é nada – falo-lhe. – É o nada que eu sou”.
Entre muitas figuras, Fernando Pessoa – o Aossê – é uma obsessiva presença auxiliar da sua inspiração.
Maria Gabriela, falecida em 2008, ensina-me a ser legente.

J. Alberto de Oliveira


11.8.18

OBRAS POÉTICAS



com o nome José Alberto de Oliveira:

Alegria Irrecusável (1974) – esgotado
Nos Vidros da Noite (1983) – esgotado


com o nome J. Alberto de Oliveira:

A Água do Nome – Edições Afrontamento, 1998
O Som Aproximativo – Edições Afrontamento, 2005
Palavras Escolhidas – Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)
No Linho Verbal – Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)
7X7 Versos – Cadernos Nó Cego (3), 2008 (plaquete, fora de mercado)
O Anjo Inefável – Cadernos Nó Cego (4), 2012 (plaquete, fora de mercado)
Entrepoemas - Edições Afrontamento, 2014
O Mês Maio da Mãe – C. Art, 2015
Das Varandas de Ver – Cadernos Nó Cego (5), 2917 (plaquete, fora de mercado)


7.8.18

A NOITE LUNAR





A noite era quente e lunar.
Suspenso do mundo nasci a precisar
de leite, ar, luz e beijos.

Nasci a pedir o calor do colo,
as melhores palavras
e uma arte remota
para o nó do meu cordão umbilical.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: eclipse lunar (27/07/2018) por Horácio Azevedo

2.8.18

A ÁGUA





A água vê o que não sei ver nem dizer.
Não tem horas nem forma própria.

Quando espreita o sol
esplende em alta nudez.

A água bebe a luz com os olhos da luz.
Na água se cala a fala do mundo.

J. Alberto de Oliveira

21.7.18

ROSA OU POEMA





Oh, a casa da minha criação!

A casa ardendo
em rosa perfeita.

Em rosa ou poema 
como se fosse um braseiro

com o fogo todo lá dentro.

J. Alberto de Oliveira

13.7.18

FRUTOS SILVESTRES





Trocar frutos silvestres
por um verso de beijos.

Diz-se à boca cheia
que as surpresas da natureza
nos administram o destino.

Confundir seres celestes
com o desatino de uma ideia.

Consta que no verbo
mais profundo do linho
as sílabas são cantantes

e quase brancas.

J. Alberto de Oliveira

2.7.18

CAMÕES





Nesta língua que é a nossa.
Nesta língua de viajantes e aventureiros “por mares nunca de antes navegados” à procura de terras, povos e riqueza.
Nesta língua cheia de histórias contadas, desastres e soidade.
Nesta língua dos pobres que somos, há tesouros inexplicáveis como ENDECHAS A BÁRBARA ESCRAVA:

Aquela cativa
Que me tem cativo
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos
Que pera meus olhos
Fosse mais formosa.
   Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
   Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Preto os cabelos
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.
   Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.
   Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena,
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E pois nela vivo,
É força que viva.

O texto-poesia de Camões é de tal modo isento, livre, profundo e belo que, ouvir ou ler os académicos a falar dele, a gente estremece de pavor. Citando Herberto Helder,
“essa gente bárbara
que torna mínimo qualquer poema”,
diverte-se com os tesouros desta língua nossa e nobre.
Obrigado, Camões!
Firma-te nas delícias que te moviam e, como diz Herberto Helder, também “acautela a tua dor que se não torne académica”.
É bom que te rias dos sábios que não sabem ler os teus versos, porque usam e abusam do poder professoral.
Faltam-lhes a alma e a sensibilidade poéticas.
Obrigado, Camões!

J. Alberto de Oliveira