15.9.17

NUNCA ESTOU SÓ





Nunca estou só.
Há sempre alguém que ama, que adivinha, que se move
para mim, desde que eu não esteja fora.

O entoar da água,
em queda lenta e livre, no tanque das noites lunares,
ainda é a vocação primordial.

Ainda me inspira e apura a fala.

J. A. de Oliveira

1.9.17

ALUMIAÇÕES




Quando fui criança, os nomes que dizia, todos ou quase todos, 
eram incompletos.
Somente o volume e as formas das coisas permaneciam inteiras 
nos meus olhos.
Com os objectos do mundo, na sua complementaridade justa e geométrica,
eu compunha as primeiras frases, incautas, frágeis e breves.
Eram frases de fulgor, lúdicas, miríficas e matinais.

As minhas alumiações começavam pela sensibilidade intemporal da alma.
Com rigor e pudor as transmitia ao papel.
Não pediam nada em troca.
E quando a luz era escassa ou nula, a delicadeza do papel escrito
espelhava um céu de centelhas.

As letras nasciam no momento em que os olhos de ser
e a mão de escrever
tocavam  e perfumavam os sentidos do silêncio.

Pedra a pedra ainda saberei construir a idade que me resta?
Quem me ajuda a erguer ou a restaurar casas invisíveis 
em lugares inacessíveis?
São casas ou abrigos para as folhas do pensamento,
para as alumiações
e para os segredos que um dia não poderei levar comigo.

J. Alberto de Oliveira

22.8.17

REGRA GERAL




Regra geral, a grande notícia é a desgraça do vizinho.
Também é muito badalado o rumor que sustenta uma lenda nova,
aguçando a curiosidade.
Por sua vez, tudo o que enriquece o desenvolvimento ou estimula
a aprendizagem cansa.
Pensar ou ler o mais profundo
incomoda.

No tic-tac recitativo do tempo, cego e voraz, 
a melhor parte da vida talvez
seja a verdade que só aparece nos intervalos do amor real 
ou do amor sonhado.

J. Alberto de Oliveira

11.8.17

TALVEZ UM DIA




Talvez um dia se possa dizer
que a minha poesia

não é mais que a sorte de uma hora
somada ao acaso da palavra suprema.

Ou para melhor dizer

não é mais que a surpresa musical
da alma que se põe a falar.

J. Alberto de Oliveira

29.7.17

PELA ESCADA ALTA




Ainda tenho comigo as afectuosas raízes
que me transmitem vida e significância.

Desci ao meio da noite
pela escada alta

que liga o chão ao firmamento.

Da mesma forma que uma folha de tília
cai nas águas corredias

em verso 
eu me copio na arte dos ventos.

E assim me quero.

Tanto mais isento
quanto mais leve

para sair do tempo.

J. Alberto de Oliveira

21.7.17

UNS PASSOS MAIS ADIANTE




Sem lembranças eu sou mais cego
que um nó.

E sem as raízes do afecto
sou pior

que um cisco nos meus olhos.

Com os pés nus
pensativo e descalço

eu digo a palavra Pai
e dou uns passos mais adiante.


J. Alberto de Oliveira 

Imagem: A. Tapiès

13.7.17

MEMENTO




A fala da Mãe era cantabile. 
Dizia palavras de uso diário quando tinha os filhos à mesa.

A Mãe não falava enquanto os filhos dormiam.

J. Alberto de Oliveira


Memorável: os dias da Mãe começaram na quinta-feira, 13 de Julho de 1924.

Desenho: Alberto Péssimo