23.5.20

POR RAZÕES DE ALMA E NUDEZ





Nasci afeiçoado à melancolia
e ao único verbo que estudo.

Por razões de alma e nudez
apuro a fala com tinta azul.

Aclaro as lembranças da vida
lendo um verso de cada vez.

J. Alberto de Oliveira

18.5.20

FIOS DE ÁGUA





Deito-me e o aroma
do linho que respiro

é branco e brilha
em torno do meu corpo.

Uma porção de claridade

apazigua os fios de água
que se movem lá fora.

Infindáveis escorrem
com as fontes no regaço.

J. Alberto de Oliveira

10.5.20

AS MÃES





As mães ainda são uma espécie de princípio feminino do mundo.
Ou talvez o fermento da nascência.

Às mães chamarei fermento da vida crescendo.
Para os antigos, o fermento era o crescente, aquele punhado de massa que ficava duma fornada e que serviria para levedar a massa da fornada seguinte.

O que significa a ternura quando a mãe chama?
Que os filhos são o argumento mais sensitivo e maternal.

J. Alberto de Oliveira

2.5.20

ALGURES





Algures em linhas de sal
e ramas cor de mel

o dia resvala para o fim.

Nos extremos do mar
o sangue

e o ouro se misturam.

O vento sopra devagar
para que nada se perca

na tela de luz magoada.

J. Alberto de Oliveira

25.4.20

A COBRA





Quando Eva e Adão
saíram do Éden
e se foram embora

a lareira ficou acesa.

Mil gotas de chuva
caíram sobre as folhas
da árvore da ruptura.

Depois

e só depois a cobra
mordeu o resto da fruta.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: LUCAS CRANACH  - THE-ELDER - ADAM AND EVE

16.4.20

QUANDO SAÍA À RUA





Quando saía à rua
vestia-se de mar.

Cobria-se de azul
e simplicidade.

Quando saía de casa
ia ver na espuma a luz.

Os cabelos e a blusa
flutuavam em transe

porque era do mar
a sua graça de alma.

J. Alberto de Oliveira

7.4.20

CORPO ASCENSIONAL




- Não me detenhas, Myriam. Tenho de ir.
- Para onde vais?
- Myriam, não toques no meu corpo ascensional.
- Para onde vais?
- Vou para o íntimo donde vim. Para a memória de sempre.
- A tua memória?
- A memória de mim.
- Não vás. Não vás sem um beijo no temor de te não ver mais.
Dá-me de ti o sentido firme da altura.
Eleva-me ao sonho da espera.
Inunda-me os olhos de perfume.
Deixa-me nos dedos a arte de tocar o azul dos céus e o vento.
Apura em mim o dom de te respirar com palavras e o pensamento.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Iluminura da Idade Média - Ascension - "Les Très Riches Heures"