8.11.09

UM VENTO DE VIDRO





Há um vento de vidro
vivo

a pairar na alma
silenciosa,

ávida e vigilante
da beleza de ver.

É um vento de frases
brancas

que ensinam o ofício
de tecer

fios de frio e relento.

J. Alberto de Oliveira

EM CRISTAL DE MELANCOLIA




Em cristal de melancolia
se traduz o declívio da chuva.

Em suas gotas refulgem folhas,
o chão e as verdes ervas.

Em finas linhas de vida
é chuva o que leio:

uma chuva de beijos
nos vidros da janela.

J. Alberto de Oliveira

22.10.09

A FALA DESEJANTE




João V. cobre-se de poeira
e de alma

quando clama.

Quando infunde
no tecido branco

o sopro de sua fala desejante.

Texto: J. Alberto de Oliveira
Pintura: João Viana

29.9.09

O OFÍCIO



O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram, mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bom que fossem.
Padre António Vieira

Os poetas são a harpa de apenas duas cordas: imaginação e sentimento.
Rosalia de Castro

As mães, quando acarinham os filhos, dizem-lhes muitas frases e palavras de equivalente significado, até encontrarem uma, aquela em que o maternal afecto se revele por inteiro, na sua máxima pujança e nitidez. Assim acontece no ofício do poeta.
J. Alberto de Oliveira

17.9.09

O CRISTAL DO PENSAMENTO




Uma aragem fina
e franca por mim passa.

Ressoa na alma
com sua voz menina.

Traz-me à lembrança
o sentimento e a mão

da primeira caligrafia.

Rente às palavras
que sentem e falam,

a aura da escrita principia.

Puro e simples resplende
o cristal do pensamento.

J. Alberto de Oliveira

9.9.09

PELO LADO MAIS DIFÍCIL


Aconteceu quando me vi pela primeira vez.
Foi quando fui ao varandim da infância por razões de um pensamento.
Entrei por mim adentro, pelo lado mais difícil e transparente.
E, quando dei por mim, quando me vi inteiro
e pensativo, já estava dentro.
J. Alberto de Oliveira
Photo: Ana Afonso

28.8.09

O INTERIOR DO VERBO



Amo
o interior do verbo

e suas letras vivas,
eternas,

molhadas de silêncio.

Respiro,
amo devagarosamente.

Amo
porque arde a vida

impensada,

inscrita
na madeira quente.

J. Alberto de Oliveira

28.7.09

A SULAMITA




À hora das sombras luzentes
de quietude e relento,

a sineta da cancela tocou.

E quem foi abrir?

A Sulamita.
Ela sabia quem havia de vir.

J. Alberto de Oliveira

OBRAS POÉTICAS DE

J. ALBERTO DE OLIVEIRA

Com o nome José Alberto de Oliveira:

Alegria Irrecusável(1974); esgotado

Nos Vidros da Noite (1983); esgotado

A Ilha dos Amores, 1984 (obra colectiva)

Com o nome J. Alberto de Oliveira:

A Água do Nome, Edições Afrontamento, 1998

O Som Aproximativo; Edições Afrontamento, 2005

Palavras Escolhidas; Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)

No Linho Verbal; Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)

7X7 Versos; Cadernos Nó Cego (3), 2008, (plaquete, fora de mercado)