14.4.18

AUTOPSICOGRAFIA - FERNANDO PESSOA





O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa


Imagem: Foto – A. Machado – Fernando Pessoa na entrada 
do teatro Schauspielhaus (Zurique) - Suíça







11.4.18

PALAVRA ERRANTE




Há um poema que precisa
de uma palavra

errante ou vagabunda.

Uma palavra que minta
e que nunca

ensine coisa alguma.

Aquela palavra
que não seja roída pelas traças.

J. Alberto de Oliveira



5.4.18

SÃO FRANCISCO DE ASSIS






São Francisco de Assis
ao princípio adoecia

em febres e tristeza.

De tropeção em tropeção
pedia mais luz e alturas.

Finalmente
ouviu um verso livre

e apareceu todo nu.

J. Alberto de Oliveira

27.3.18

A RESSURREIÇÃO





Saiu-lhes o tiro pela culatra.
Ao condenaram Jesus Cristo à repugnante morte na cruz
contribuíram para a glória da sua ressurreição.

J. Alberto de Oliveira

15.3.18

O ESSENCIAL DOS VERSOS





O tinteiro onde molho as penas de escrever está quase vazio.
É preciosa a tinta que ainda resta.
Devo poupar.
Escrever somente o essencial dos versos.

J. Alberto de Oliveira

8.3.18

BILHETE-POSTAL





Mãe,
onde quer que andes, onde quer que te sentes para as tuas preces,
num banco deste mundo ou de outro, permanece
atenta a Deus e àquela formiga que vias a arrastar para o celeiro
um grão de trigo maior que seu corpo inteiro.

J. Alberto de Oliveira

2.3.18

DA MÍSTICA GEOMETRIA





No poema há sempre
um outro poema.

Uma substância branca
da mística geometria.

É o primeiro verso
intuitivo de Deus

que a mão por temor
não quer escrever.

J. Alberto de Oliveira