14.2.18

UM SIMPLES SARRABISCO





O amor
talvez seja no todo imenso
um puro esboço.

Um risco incerto
absorto

e quase impreciso.

Antes de ser casa ou palavra
o amor talvez seja

um simples sarrabisco.

J. Alberto de Oliveira

11.2.18

NASCER COM VERTIGENS





Quase todos nascemos com vertigens de qualquer coisa.
Vertigens do sossego ou do desassossego;
da música ou do ruído.
Vertigens da política ou da guerra;
do divino ou do dinheiro.
Vertigens do silêncio ou do poema;
do eterno ou da finitude.
Vertigens de orgias ou da ascese.
Quase todos nascemos com influências
de anjos ou demónios.
Porém, muito simples e naturalmente há quem nasça
com vertigens de nada.

J. Alberto de Oliveira

3.2.18

A NOITE NO MAR




A noite que me adormece
deita-se no mar.

E sonha.

Sonha devagar
até vir o dia de róseos dedos.

A noite no mar
é sete vezes mais pequena

que sete pinhas acesas. 

J. Alberto de Oliveira

25.1.18

O PENSAMENTO DE VER O LUME




Eu, mais pequeno que tudo e maior que eu próprio, 
comecei a travessia
com os olhos postos num ponto que me levou para fora de mim.
Por sorte, ouvi as palavras que a mãe, o pai, a vizinha
e a parteira diziam da vida.
Mas, esqueci tudo, adiando a aprendizagem.
Eu ouvia os sons de ser um esboço de pauta verbal
que os pinhais, as aves e o vento iam compondo para o futuro.
Afinal, o meu interior é anterior a mim.
Quando nasci, eu só queria o pensamento de ver o lume.

J. Alberto de Oliveira

15.1.18

UMA CANTIGA




Uma cantiga inteligente
se ouvia ao adormecer.

Era uma cantiga
que d’amor tan ben dizia.

Que de meus segredos
e do linho tanto sabia. 

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Antoni Tapiès

1.1.18

UM ABRIGO - para 2018




Os dias a vir sejam benignos ou, para melhor dizer, isentos de guerras e gritos de angústia.

Mas se ganância e lutas hediondas houver, já tenho refúgio:
uma casinha com porta blindada de azul.
Fica lá para as terras de Vermodium. 

Na minha infância era o moinho onde me abrigava da chuva.

J. Alberto de Oliveira

28.12.17

O MEU LUGAR




A minha vida herdou a verde colina, as leiras, os sulcos de água corredia
e todos os declives.
Aqui transbordou a sina da minha natureza.

Foi Vermodium o meu lugar de fantasias e crescimento.
Aqui o sol do dia era bondoso e a lua da noite subia reluzida.
Era um espaço bom para as minhas lembranças e sortes de infância.

J. Alberto de Oliveira