21.7.17

UNS PASSOS MAIS ADIANTE




Sem lembranças eu sou mais cego
que um nó.

E sem as raízes do afecto
sou pior

que um cisco nos meus olhos.

Com os pés nus
pensativo e descalço

eu digo a palavra Pai
e dou uns passos mais adiante.


J. Alberto de Oliveira 

Imagem: A. Tapiès

13.7.17

MEMENTO




A fala da Mãe era cantabile. 
Dizia palavras de uso diário quando tinha os filhos à mesa.

A Mãe não falava enquanto os filhos dormiam.

J. Alberto de Oliveira


Memorável: os dias da Mãe começaram na quinta-feira, 13 de Julho de 1924.

Desenho: Alberto Péssimo

10.7.17

ANTÓNIO NOBRE EM LEÇA DA PALMEIRA




António Nobre fugia para o mar e tinha visões das terras de Leça.
Em terra tinha visões do mar e do mais longe.

Foi para Coimbra e teve imensas visões 
da infância e de Leça da Palmeira.

Foi para Paris e teve as melhores visões da Lusitânia.

Era um vagabundo, um andarilho raro, sem colo
e sem uma almofada onde se reclinar.

Anto apenas teve dele próprio o Só.

J. Alberto de Oliveira

27.6.17

CAMINHANTES DO SILÊNCIO




Sentado à mesa, J. S. Bach media o tempo, a luz e o silêncio.
O pensamento escrito na pauta
ajustava-se ao ritmo e às vibrações do sopro universal.

Fernando Pessoa percorria as ruas de Lisboa, em passo firme,
como se fossem as rotas de novos mundos a descobrir.
Ia e vinha absorto, filho de ninguém.
Ia e vinha todos os dias, sempre ele mesmo, sendo outros.

J. Alberto de Oliveira

Gravura de João Pedro Cochofel

14.6.17

HÚMUS - RAUL BRANDÃO




De Húmus vem a vila que persiste com  as suas insignificâncias, o grotesco, a vulgaridade, o espanto, o luto e o bolor, o egoísmo e a mortalidade a fechar as linhas do tempo.

A vila parece do tamanho das cismas que povoam um cemitério.

Húmus é um lugar viscoso, cheio de vozes remendadas pela dor.

Na vila moram velhas cheias de mesuras, de baba, de fel e rancor, de avareza e fome, de ais e farrapos. São maníacas e fedorentas, com sentimentos postiços e requentados.

Na vila o desconforme não se afasta da pobreza nem do destino que a toda a hora mói, rói e remói.

Na vila de Raul Brandão até o invisível dói.

J. Alberto de Oliveira

3.6.17

QUASE AO RUBRO




Quase ao rubro
me cega e seduz

o murmulho do lume.

J. Alberto de Oliveira

27.5.17

DO TEMPO SEM TEMPO




À hora das sombras luzentes
da quietude e relento

o sinal da cancela chamou.

À hora do tempo sem tempo
a sulamita depressa foi abrir.

Ela bem sabia quem havia de vir.

J. Alberto de Oliveira