19.10.18

O MARINHEIRO NÃO MENTIA






Por sorte, encontrei um marinheiro
que me contou diversas visões e vivências.
Disse, por exemplo,
que já ninguém leva uma carta fechada
para ser lida no alto mar.
Que os segredos ficam todos em terra
num círculo de silêncio e tristeza até ao regresso.
Que o desejo de partir é igual ao desejo de voltar.
Que todos vão pobres
e todos voltam cheios de mistérios e perguntas.
Disse-me ainda que no alto mar
a cor do tempo umas vezes é salina e azul.
Outras vezes é de névoa profunda.
Que os movimentos da água
esboçam uma beleza antiga.

Pelo que que vim a saber num sonho
que tive

o marinheiro não mentia.

J. Alberto de Oliveira

11.10.18

ACIMA DO QUOTIDIANO




Perdi a lucidez e deixei o sono entrar.
Vi a água em forma de chuva a deslizar pelo seu corpo todo.
Nos movimentos não havia pressa nem temor.
A sua boca tinha a moldura e o tamanho de um segredo.
O lugar da casa parecia minúsculo e propício a não sei quê.
Com a leveza de folha no ar encheu um copo de água.
Sentou-se à minha beira enquanto durou a confidência.
Depois foi-se embora.
Saiu para dar de beber a uma estrela invisível. 
Eu fiquei para saber se ela era uma causa ou efeito da memória. 

J. Alberto de Oliveira


2.10.18

SÃO FRANCISCO DE ASSIS





Há momentos que me fazem pensar. Ao crepúsculo, por exemplo, o corpo, as formas e todas as imagens devagarosamente se perdem esbatidas.
A essa hora ninguém sabe se na alma há lucidez ou sono.
O crepúsculo, a prima hora noctis, convida à nudez.
A paisagem prepara o grande festim onde os seres têm lugar para uma pausa de mansidão.
Dá-se o encontro sem direito nem avesso.

A abertura ao desconhecido e aos segredos do anoitecer é uma vocação íntima.

S. Francisco de Assis morreu em 1226, ao entardecer do dia 3 de Outubro.
Com o seu próprio corpo quis sentir e medir a terra.
Com a nudez estrita se deitou nela.

J. Alberto de Oliveira
Imagem: Amadeo de Souza-Cardoso

24.9.18

A BILHA





Não sei desenhar rostos nem objectos,
apesar de a minha professora das coisas primeiras
nos ensinar a fazer cópias de uma bilha bojuda,
com formas e beleza da ternura.

Hoje, eu daria tudo para ver os meus primeiros exercícios de desenho.
Que me fizeram às cópias da bilha de barro?
Onde anda a bilha bojuda?
E o lápis? Perdeu-se pelos caminhos da escola?

Eu daria tudo para ter aquela bilha de barro e dela beber água pura.
Eu amo a bilha.
Amo-a tanto, que até sei que o amor se faz do mesmo barro 
da bilha que eu desenhava na minha escola antiga.

J. Aberto de Oliveira

18.9.18

UMA ARCA CHEIA





Uma arca cheia de pensamentos,
de enigmas e nomes,
de sinas e lembranças,
de versos à solta,
de rimas
e desassossego sem margens.

Era assim e mais que assim
a arca dos papéis de Fernando Pessoa.

J. Alberto de Oliveira

10.9.18

VERSO A VERSO





A luz de ‘screver o poema
faz-me lembrar

que há degraus para subir
e degraus para descer.





Verso a verso
o poema é breve

para chegar mais depressa.

J. Alberto de Oliveira

6.9.18

LUZ SENSÍVEL





Ando ainda longe de mim
e de quanto me falta escrever

com os olhos no tecto da vida.

À memória quero dar a beber
a luz sensível de Setembro.

Seus frutos maduros são todos
para oferecer 

à sarça ardente do outono.

J. Alberto de Oliveira