2.5.20

ALGURES





Algures em linhas de sal
e ramas cor de mel

o dia resvala para o fim.

Nos extremos do mar
o sangue

e o ouro se misturam.

O vento sopra devagar
para que nada se perca

na tela de luz magoada.

J. Alberto de Oliveira

25.4.20

A COBRA





Quando Eva e Adão
saíram do Éden
e se foram embora

a lareira ficou acesa.

Mil gotas de chuva
caíram sobre as folhas
da árvore da ruptura.

Depois

e só depois a cobra
mordeu o resto da fruta.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: LUCAS CRANACH  - THE-ELDER - ADAM AND EVE

16.4.20

QUANDO SAÍA À RUA





Quando saía à rua
vestia-se de mar.

Cobria-se de azul
e simplicidade.

Quando saía de casa
ia ver na espuma a luz.

Os cabelos e a blusa
flutuavam em transe

porque era do mar
a sua graça de alma.

J. Alberto de Oliveira

7.4.20

CORPO ASCENSIONAL




- Não me detenhas, Myriam. Tenho de ir.
- Para onde vais?
- Myriam, não toques no meu corpo ascensional.
- Para onde vais?
- Vou para o íntimo donde vim. Para a memória de sempre.
- A tua memória?
- A memória de mim.
- Não vás. Não vás sem um beijo no temor de te não ver mais.
Dá-me de ti o sentido firme da altura.
Eleva-me ao sonho da espera.
Inunda-me os olhos de perfume.
Deixa-me nos dedos a arte de tocar o azul dos céus e o vento.
Apura em mim o dom de te respirar com palavras e o pensamento.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Iluminura da Idade Média - Ascension - "Les Très Riches Heures"



30.3.20

MÉCIA EM JORGE DE SENA

´



CONHEÇO O SAL

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena

20.3.20

BREVE CLAMOR





Na subida para a dor
a carga é dura.

A vida parece um jogo
de espigões e agrafos.

A curva do ar é brusca
demais e turva, Senhor!


J. Alberto de Oliveira

Foto: J. A. de Oliveira

13.3.20

OBRAS POÉTICAS




Com o nome José Alberto de Oliveira:

Alegria Irrecusável (1974) – esgotado
Nos Vidros da Noite (1983) – esgotado


Com o nome J. Alberto de Oliveira:

A Água do Nome – Edições Afrontamento, 1998
O Som Aproximativo – Edições Afrontamento, 2005
Palavras Escolhidas – Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)
No Linho Verbal – Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)
7X7 Versos – Cadernos Nó Cego (3), 2008 (plaquete, fora de mercado)
O Anjo Inefável – Cadernos Nó Cego (4), 2012 (plaquete, fora de mercado)
Entrepoemas - Edições Afrontamento, 2014
O Mês Maio da Mãe – C. Art, 2015
Das Varandas de Ver – Cadernos Nó Cego (5), 2917 (plaquete, fora de mercado)
Manu Scripta – Antologia de Poemas Manuscritos (obra colectiva), Ed. Glaciar, 2018.
O Triunfo da Música – Com desenhos de Luandino Vieira – Porta XIII (fora de mercado)