16.1.19

NOS COMEÇOS DE MIM




Como sucedia a vida nos começos de mim?
Apressada ou demorosa?
Eu sei que só chegava ao meio das palavras
e das coisas mais altas.
Diziam que eu era atento a memórias
e depois fugia para dentro do silêncio.

Os modos de arte eram quase invisíveis.
Mas tinha os sentidos atentos.
Firme no olhar
eu via o mundo sem pertenças.
Bebia da mina da água e comia o pão
a pensar nas aves mais pequenas.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo

12.1.19

SER DEMAIS





Ser.
Ser demais é o átimo

do silêncio.

Ser demais
toca na geometria

quase musical.

O espírito vai aluir
no intenso.

Adivinho a aragem
do imenso.

J. Alberto de Oliveira

6.1.19

DIADORIM




Diadorim.
O nome escrito e narrado por João Guimarães Rosa em 
Grande Sertão: Veredas.
Diadorim. 
Uma figura enigmaticamente iluminante.
O sexo de ser Diadorim é inesperado e desassossegante.
Um nome.
Nome e figura não condizem com o real quotidiano.
É um nome perpetual.
Diadorim é o nome fulgor, diverso, libidinal.
Um poema de inspiração contínua.
Pronunciar Diadorim suscita um não sei quê.
O nome Diadorim em seu desígnio e sonoridade
é o poema mais pequeno da língua portuguesa.


J. Alberto de Oliveira 





28.12.18

CINCO RÉIS DE AMOR

                                                                                                                                                               Cantico del Sol - Joan Miró




A saúde começa por um
dedal de amor coado.

Cinco réis de amor
faz bem a tudo.

O amor na casa.
O amor na rua.
O amor na praça.
O amor no cabo do mundo.

Um dedal de amor coado
faz bem à saúde.

J. Alberto de Oliveira

18.12.18

PARA LUANDINO VIEIRA

                                                                                                                  V. N. de Cerveira










PONTO DE VISTA

Conheço os anjos da guarda.
Pairam no mundo vigilantes, atentos ao que faço,
ao que penso e amo sentidamente.
Os meus anjos da guarda resplendem.
Com a lucidez de espírito, são eles que iluminam a bondade.
Os anjos da guarda ensinam a ver as veredas da liberdade.

J. Alberto de Oliveira



14.12.18

A TEORIA DE VER





Transmite-se a alma de ver
à refulgência de ir indo

pelas arestas do mundo.

Cheios de invisível poeira
da luz afectuosa

ou do sopro sonhado

os olhos em tudo procuram
o lídimo azul da intimidade.

J. Alberto de Oliveira

7.12.18

DO PURO SEM DEMORA





Em conversa comigo
ainda soletro

resumidos versos.

São inflexões verbais
que me servem

a vida e a sua voz.

Em conversa comigo
estou sempre à espera

de palavras amantes.

Do puro sem demora
como sinal de glória.

J. Alberto de Oliveira