11.11.17

EU MALANDRO




As realidades imaginadas são mais lembradas e seguras na memória que os acontecimentos do quotidiano.
Isto só para dizer que em menino eu era imaginativo.

A imaginação nasce do pensar, ver e sentir atentamente.
É um exercício interior.
Eu quase não mentia. As verdades eram minhas e saíam do mais íntimo de mim.

Quando eu era menino inventava peripécias e brinquedos, adivinhava o invisível, imaginava esferas nunca vistas.
A Mãe, sempre atenta, dizia: és um malandro e enganador.
Eu amava a ironia. Esse modo crescente da lucidez.
Eu era malandro.

E a mão que assim escreve ainda não treme.

J. Alberto de Oliveira


Imagem: Joan Miró



6.11.17

EUGÉNIO DE ANDRADE




OS PRIVILÉGIOS DA POESIA
para Eugénio de Andrade


Quando falava seu rosto
alumiava o próprio nome.

Ditava segredos
difíceis de escrever.

Soletrava muito devagar
mas eu nada entendia.

Com leveza recitava
um não sei quê.

O que seu rosto dizia
talvez fossem

os privilégios da poesia.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Eugénio de Andrade por Jorge Ulisses (1980) 

2.11.17

AS FOLHAS ESVOAÇAM




As folhas esvoaçam
umas com as outras

por dentro do outono.

Com pequenas frases
de segredos e música

as folhas esvoaçam.

difundem no mundo 
o sustento da palavra.

Inteira e diamantina 

é a pronúncia
da fala intemporal.

J. Alberto de Oliveira

24.10.17

SE O VENTO ME LEVAR




Se o vento me levar
onde queres que deixe 

uma citação do olhar?

Se o vento me perder
onde queres um recorte

de puro linho verbal?

J. Alberto de Oliveira

17.10.17

UNS PASSOS MAIS ADIANTE




Sem lembranças eu sou mais cego
que um nó.

E sem as raízes do afecto
sou pior

que um cisco nos olhos.

Com os pés nus
pensativo e descalço

eu digo a palavra Pai
e dou uns passos mais adiante.

J. Aberto de Oliveira

7.10.17

O POETA SOLAR




S. Francisco de Assis lia com alegria perfeita todas as horas da vida.
Ele sabia, por exemplo, que nascer, viver e morrer são dons e poesia.

O princípio do poeta é ler-se inteiro na sua própria nudez.
O Santo de Assis respirava e louvava a luz solar.

A elegância interior de S. Francisco de Assis expandia-se para fora de si mesmo, para além do universo e da alegria
           
Francisco é muito difícil porque excessivamente poeta.
É um jogral.
           
De Assis, bem-vindas sejam todas as correntes de ar.

Francisco, o poeta solar, seja louvado com o mesmo louvor das suas falas com Deus e com todas as criaturas.
S. Francisco de Assis cantava os laços afectivos do universo.
Exultava em fraternura.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Capa do livro foi publicado por LETRAS & COISAS, 2017
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3.10.17

POST-SCRIPTUM




POST-SCRIPTUM
PARA
O SANTO POETA DE ASSIS
                       

Amava e não escrevia.
Soletrava com Deus.
Dizia segredos de si para si.
Falava com todas as criaturas
dobrando os efeitos
da perfeita alegria.
                       
Entoava louvores
como quem anda à procura.
O Santo de Assis andarilhava
caminhando e divagando.
                       
No coração de Francisco
se abria dia após dia 
um abrigo para alguém entrar.

J. Alberto de Oliveira