16.7.19

NOS VERSOS DE SÁ DE MIRANDA





O sol cai no meu corpo.
O sol é grande
nos versos de Sá de Miranda.

O sol
cai em meus cuidados graves
da mesma forma

que pelos montes
caem co’a calma as aves.

J. Alberto de Oliveira

10.7.19

COM PALAVRAS SILENCIOSAS



A Mãe primeiro concebeu o filho
ou seja o suporte do meu nome.
Depois pensou nas coisas supremas da vida.

O volume dos dias corridos era essencial.

A Mãe ordenava os trabalhos do sol
com palavras silenciosas.

A fluidez quente do leite me guiava.

Eu crescia de costas deitadas no linho
e de olhos fixos na melancolia solar.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo


2.7.19

NOITE DE NASCER





Suspenso do mundo nasci a precisar
de leite e ar
luz e beijos.

A noite era profunda e lunar.

Nasci a pedir o calor do colo
as melhores palavras
e uma arte remota

para o nó do meu cordão umbilical.

J. Alberto de Oliveira

25.6.19

O MEDO E PAVOR

                                                                                                      "Claramente azul" - Leça da Palmeira



O medo e pavor às aranhas
fecharam a ferro e fogo

o jardim dado ao sol.

Entre a ferrugem copiosa
e os espigões da frieza

o poema não floriu mais.

O medo e a aridez
dizimaram-te as rosas

oh Mãe.

J. Alberto de Oliveira




22.6.19

O LÁPIS E A SAFA





Falta-me um mata-borrão para ser mais antigo.
Desde que a tinta, o tinteiro, as penas e canetas de tinta permanente ficaram pelo caminho, o mata-borrão é quase e apenas uma lembrança.
Ainda conservo uma folhinha de mata-borrão só para não esquecer.

Se eu fosse escrivão, teria os necessários instrumentos do ofício. Porém, basta-me o lápis para o texto de ser e para sublinhar frases nos livros.
Às vezes também me sirvo de uma safa (substantivo feminino: borracha de apagar) para anular o inútil.

Não gosto de borrar a escrita. Já não sou aprendiz de borrões.

Nos arredores de mim leio muitas palavras alheias que precisam de uma safa, de lixívia ou de corrector.

Com as palavras denegridas são muitos os borrões da vida.

J. Alberto de Oliveira

15.6.19

EM CARNE VIVA





Saí da palavra justa 
em poema.

Em carne viva nasci.

Do cego sopro do ar
vivo coberto de espuma

de nomes e de sal.

J. Alberto de Oliveira

12.6.19

CONTRA O MURO




Contra o muro que anoitece
resiste o poeta

que não se fia em vazias conversas.

Mudo ali permanece
de mão aberta

e pensativo para o que der e vier.

J. Alberto de Oliveira