Oh! Dinamene.
De onda em onda
no mar a voz
é do poeta.
De onda em onda
oh! Dinamene.
Mística rosa
de amor e versos.
J. Alberto de Oliveira
Oh! Dinamene.
De onda em onda
no mar a voz
é do poeta.
De onda em onda
oh! Dinamene.
Mística rosa
de amor e versos.
J. Alberto de Oliveira
Quando
os frutos amadurecem
quietos
nos
socalcos das colinas
a luz é solar e benigna.
A
natureza faz-se nos frutos
do
mesmo modo que
o
amor se faz rente à fala da lua.
J. Alberto de Oliveira
Perdi a
lucidez e deixei o sono entrar.
Vi a água em forma
de chuva a deslizar pelo teu corpo todo.
Nos movimentos
não havia pressa nem temor.
A tua boca
tinha a moldura e o tamanho de um segredo.
O lugar da
casa parecia minúsculo e propício ao não sei quê.
Com a leveza
de folha no ar deitaste água num copo.
À minha beira
te sentaste enquanto durou a confidência.
Depois foste dar
de beber a uma estrela inacessível.
Fiquei mudo e
só
para saber se
eras uma causa ou efeito da memória.
J. Alberto de Oliveira
Não sei desenhar rostos nem objectos,
apesar de a minha professora das coisas
primeiras
nos ensinar a fazer cópias de uma bilha
bojuda,
com formas e beleza da ternura.
Hoje, eu daria tudo para ver os meus primeiros
exercícios de desenho.
Que me fizeram às cópias da bilha de barro?
Onde anda a bilha bojuda?
E o lápis?
Perdeu-se pelos caminhos da escola?
Eu daria tudo para ter aquela bilha de barro e
dela beber água pura.
Eu amo a bilha.
Amo-a tanto, que até sei que o amor se faz do
mesmo barro da bilha
que eu desenhava na minha escola antiga.
J. Alberto de Oliveira
Noite
úmbrica.
Noite
úmbrica com a prata do sino e da folha da oliveira.
Noite
úmbrica com a pedra que para aqui trouxeste.
Noite
úmbrica com a pedra.
Mudo o que entrou na vida, mudo.
Esvazia e enche os jarros.
Jarro
de terra.
Jarro
de terra que traz no barro a mão do oleiro.
Jarro
de terra que a mão de uma sombra para sempre fechou.
Jarro
de terra com o selo da sombra.
Pedra para onde quer que olhes,
pedra.
Deixa entrar o burrico.
Animal
a trote.
Animal
a trote na neve espalhada pela mais nua mão.
Animal
a trote adiante da palavra que se fechou.
Animal
a trote que vem comer o sono à mão.
Brilho que não consola, brilho.
Os mortos, Francisco, ainda pedem esmola.
Paul Celan
Tradução: Y. K. Centeno e João Barrento
Se
puderes ó minha vida
traduz
a matéria da luz.
E diz-me
em tom maior
um
sinónimo de música.
Se
puderes estremece
para
mim
no acmè de uma história.
J. Alberto de Oliveira
A meio da frase
vimos a lua
subir.
Era já de noite.
A meio do
caminho
de vigília ao silêncio
luzia o luar.
No fim da travessia
a lua voltou
atrás.
J. Alberto de Oliveira
São
teus os poemas
que se apropriam
da memória.
Com
eles decifras a distância
e
os tempos do verbo
escrito
num bilhete.
O
que te salva ó António
lê-se nuns versos de água
onde
não há gaivotas mortas.
J. Alberto de Oliveira
Imagem:Bilhete de António Nobre após a ida à Quinta da Conceição, Leça Palmeira, com o inglesa Charlotte.
Quando
era criança, os nomes que dizia, todos ou quase todos,
eram
incompletos.
Somente
as formas e a grandeza das coisas permaneciam inteiras
nos
meus olhos.
Com
os objectos do mundo, na sua complementaridade justa e geométrica,
eu
compunha as primeiras frases, incautas, frágeis e breves.
Eram
linhas de fulgor, lúdicas, miríficas e matinais.
As
letras nasciam no momento em que os olhos de ser
e
a mão de escrever
tocavam
e subiam aos sentidos do silêncio.
Pedra
a pedra ainda saberei construir a idade que me resta?
Quem
me ajuda a erguer ou a restaurar casas invisíveis
em
lugares inacessíveis?
São
casas ou abrigos para as folhas do pensamento,
para
as alumiações
e
para os segredos que um dia não poderei levar comigo.
J. Alberto de Oliveira
Juntem-se as rosas ao vento
até que o vento e as rosas
sejam uma carta de lembranças.
Uma carta de beijos e oferendas
para os nomes
que me selaram o sangue.
J. Alberto de Oliveira
Imagem: Joan Miró
Quando o sol encoberto vai mostrando
Ao mundo a luz quieta e duvidosa,
Ao longo de uma praia deleitosa
Vou na minha inimiga imaginando.
Aqui a vi, os cabelos concertando;
Ali, coa mão na face tão formosa;
Aqui falando alegre, ali cuidosa;
Agora estando queda, agora andando.
Aqui esteve sentada, ali me viu,
Erguendo os olhos tão isentos;
Comovida aqui um pouco, ali segura;
Aqui se entristeceu, ali se riu.
E, enfim, nestes cansados pensamentos
Passo esta vida vã, que sempre dura.
Luís de Camões
Na clareira do jardim
há uma pedra essencial.
A pedra que sustenta
o dia em que nasci.
Na clareira do jardim
há uma pedra atenta.
A pedra dos ventos
que falam por mim.
J. Alberto de Oliveira
Em
Leça da Palmeira
a
escultura de Cabrita Reis
sublinha
as linhas do horizonte.
Em
Leça da Palmeira
o
azul do céu dissolve-se.
O
ar cresce
e
o mar torna-se maior.
Em
Leça da Palmeira
o
pensamento fica absorto
para
deixar os olhos
desatar
os lenços do sol.
J. Alberto de Oliveira
Escultura de P. Cabrita Reis - Fot. de J. A. de Oliveira
As minhas
alumiações começaram pelo amor
intemporal da
memória.
Com rigor e pudor eu as transmitia ao papel.
Não pediam nada em troca.
E quando a luz
era escassa ou nula
a cegueira da folha em poema
mostrava um céu de centelhas.
J. Alberto de Oliveira
Ainda
me lembro da jubilosa manhã
em
que vi
a
primeira rosa que floria depois do inverno.
A
caminho da escola havia frescura.
Arranquei
à rosa uma pétala orvalhada.
Limpei
as gotas do relento.
Abri
ao acaso o meu livro de leitura
e
fechei-a ali dentro
no
silêncio das palavras que aprendia.
Depois
do inverno
talvez
tudo seja mais verdade que mentira.
Improváveis sejam as palavras
e as rosas que ainda soletro.
J. Alberto de Oliveira
"MEMÓRIAS DE
UMA AULA NO LICEU DE SETÚBAL"
por Hélida Carvalho
Santos: - Barreiro, 4 Out. 1967
Revista Visão, 5 de
Outubro de 2011
Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar beijos,
abraços e confidências, depois desta longa separação que foram 3 meses e meio
de férias. Estávamos todos fartos do verão, com saudades uns dos outros. A sala
é a mesma do ano passado, no 1º andar e cheirava a nova, tudo encerado e
polido, apesar do material já ser mais do que velho. Somos o 7.º A e como não
chumbou nem veio ninguém de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado.
Eu sou o n.º 34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás,
que é o lugar dos mais altos.
Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos um
professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal, dizem que
veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política.
Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e contente
porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente uma vaga ideia de
ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não sei se foi por causa da
cantoria se por causa da política. A Inês contou que ouviu o pai comentar, em
casa, que o homem é todo revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde
passa. Ela diz que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser
comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando entrou na
sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite da falta. Entrou
por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine na mão e enquanto a
atirava para cima da secretária, perguntou-nos:
– Vocês são o 7.º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui parar a
outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também não vos vou
chatear.
Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada com a
imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as primeiras
palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam a cativar toda a
gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que já o tinha visto na
televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o rosto não me era estranho. É
alto, feições correctas, embora os dentes não sejam um modelo de perfeição e é
bem parecido, digamos que um homem interessante para se olhar. O Artur
soprou-me que ele deve ter uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho.
Depois das primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto,
rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em silêncio, a olhar
o pátio vazio, através das janelas da sala, impecavelmente limpas.
Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar uns com
os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo conjecturas. Às tantas, o bichanar
foi subindo de tom e já era uma algazarra tão grande que parece tê-lo acordado.
Outro qualquer professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças,
mas ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se
importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto esteve
ausente, era tão distante que mais parecia ter-se, efectivamente, evadido da
sala. Quando recomeçou a falar connosco, em pé, em cima do estrado, já tinha
ganho o primeiro round de simpatia.
Depois, veio o mais surpreendente:
– Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo
dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano passado, não
foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.
Gargalhada geral.
– Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas disciplinas,
aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não tenho culpa que me
tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma matéria que não conheço, nem me
interessa. Podia estudar para vir aqui desbobinar, tipo papagaio, mas não estou
para isso. Não entro em palhaçadas.
Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele ficou
impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto, calmo,
simpático.
– Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas absolutamente
inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem interesse. Não vou perder um
minuto do meu estudo com esta porcaria.
Começámos a olhar uns para os outros, espantados; nunca na vida nos tinha passado
pela frente um professor com tamanha ousadia.
– Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse, como
noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de pura teoria. Na
prática não existe, é uma Constituição carregada de falsidade. Portugal vive
numa democracia de fachada, este regime que nos governa é uma ditadura desumana
e cruel.
Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o sorriso e
estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e nas palavras daquele
homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que ouvimos comentar, todos os
dias, aos nossos pais, mas sempre com as devidas recomendações para não o
repetirmos na rua porque nunca se sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente
como uma nuvem de fumo branco, que se sente mas não se apalpa.
– Repito: eu não percebo nada desta disciplina que vos venho leccionar, nem
quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria. Mas,
atenção, vocês são outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque, no
final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7.º ano e poderem
entrar na Faculdade. Isso, vocês têm que fazer. Estudar. Para
serem homens e mulheres cultos para poderem combater, cada um onde estiver,
esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria e a dos vossos
filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que lutar por um novo
país. Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha,
basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale
nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida, mas
as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão ficar a
saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que nos oprime,
países onde há liberdade de pensamento e de expressão, educação para todos,
cuidados de saúde que não são apenas para os privilegiados, enfim, outras
coisas que a seu tempo vos ensinarei.
Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela nossa
cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país, carneiros,
mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou abrir-lhes a porta
do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou ensinar-lhes que, além
fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses de vida, que não se configuram
a esta ditadura de miséria social e cultural.
Outra coisa: vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm que ter
notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do vosso
livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma falsidade
do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem os vossos mais
altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é com vocês,
não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem trazer o livro e copiar,
é uma decisão vossa, no entanto acho que devem começar a endireitar este país
no sentido da honestidade, sim porque o nosso país é um país de bufos, de
corruptos e de vigaristas.
Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais velhos, em
qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que mostrar o que
somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos com os outros.
Por isso, acho que não devem copiar. Há que criar princípios de
honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e mulheres de
Portugal. Não concordam? Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos
na próxima aula.
Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que fenómeno
é este que aterrou em Setúbal? Já me esquecia de escrever. Esta ave
rara, o nosso professor de Organização Política, chama-se - chamava-se - Zeca
Afonso.»
Há um exercício
adjacente à inspiração: o rascunho.
Eu não escrevo
sem o esboço corrigido até à exaustão, porque me engano muito na conjugação dos
verbos. Baralho tudo: os tempos, os modos, os aspectos, as pessoas.
É uma agrura que
me assiste e justifica esta ideia antiga: os verbos deveriam ser ditos e
escritos apenas no infinitivo.
O infinito e depois
o infinitivo dos verbos têm muito a ver com a minha infância. Quando eu contemplava
o céu em noites estreladas, o espanto e a candura pediam-me palavras de
infinitude.
A natureza
verbal no infinitivo é simples, justa e firme.
Suscita a amplidão. Alude a uma substância pura.
J. Alberto de Oliveira
O
prazer do texto principia pela substituição de uma palavra por outra.
Pela rasura de um parágrafo.
Pela inversão dos sentidos.
Pela
troca de nomes vulgares por outros cheios de mistério.
Pela
invenção de algumas figuras.
Pelo
afastamento de um objecto.
Pela atenção à vírgula com direito ao seu lugar.
Pela
troca da rua por um beco sem saída.
Pela
fuga a um sítio quotidiano.
Apesar
do esforço, o texto nunca me satisfaz.
A perfeição do texto é difícil.
J. Alberto de Oliveira
Fotografia: J. A. de Oliveira
Adivinho
desde menino que o vento não envelhece.
Dura
o tempo todo.
Eu
sei que o vento gostou sempre de me instruir
com
palavras do mansinho e palavras incendiáveis.
Eu
teria uns setes anos de idade.
Nesse
dia eu regressava da escola sozinho e meditabundo.
Quase
de súbito o vento começou a endiabrar-se.
Esfarrapava
as nuvens negras e as últimas folhas do outono.
O
vento quando corre furibundo parece que vai a todos os buracos escuros.
Com
a língua seca eu lambia o medo.
Os
olhos começaram a ficar em nó cego.
O
tempo e o vento mediam-me os passos pensativos.
A
alma afinava a minha pobreza de criança.
Os
relâmpagos alumiavam o mundo.
Só
por Deus eu ouvia o vento e trovejos de pavor e susto.
Por bem encontrei um moinho.
Entrei
cerrando a porta.
Havia
ali um saco de serapilheira.
Deite-me
nele e adormeci ao ritmo da mó a moer grãos de milho.
Quando
fui para casa o dia estava no fim e o vento soprava macio.
J. Alberto de Oliveira
Por sorte, em
sonho, encontrei um marinheiro
que me
contou diversas visões e vivências.
Disse, por
exemplo,
que já
ninguém leva uma carta fechada
para ser
lida no alto mar.
Que os
segredos ficam todos em terra
num círculo
de silêncio e tristeza até ao regresso.
Que o desejo
de partir é igual ao desejo de voltar.
Que todos os marinheiros vão pobres
e todos
voltam cheios de mistérios e perguntas.
Disse-me
ainda que no alto mar
a cor do
tempo umas vezes é salina e azul.
Outras vezes
é de névoa profunda.
Que os
movimentos da água
esboçam uma
beleza antiga.
Pelo que que
vim a saber
depois do sonho
o marinheiro
não mentia.
J. Alberto de Oliveira
Escrevo para que
o lugar vazio
depois de mim
perdure no papel.
Escrevo para que
o sítio donde terei de sair
permaneça nos
cadernos do universo
com letras da
triste e leda memória de mim.
J. Alberto de Oliveira
Porquê?
Porque
se torna muito difícil e funesto
explicar
a
certas pessoas como se abre
a
primeira rosa depois do inverno?
J. Alberto de Oliveira
No
tempo em que os animais falavam
não
havia escrita.
Não
havia letras nem lápis nem papel.
Só
existia a caligrafia do vento
nas
folhas das árvores
nas
areias do deserto
nas
ondas do mar
no
estremecer luzente do orvalho.
No
tempo em que os animais falavam
os
bichos conheciam as ideias dos humanos
e
diziam tudo o que pensavam acerca de nós.
Como
os animais já não falam
triunfam as fraudes e bazófias.
J. Alberto de Oliveira
Diadorim.
O
nome escrito e narrado por João Guimarães Rosa
em Grande Sertão: Veredas.
Diadorim.
Uma
figura enigmaticamente iluminante
de
olhos muito verdes.
Ser
Diadorim é inesperado e desassossegante.
Um
nome.
Nome
e figura não condizem com o real quotidiano.
É
um nome cheio de neblina perpetual.
Diadorim
é o nome fulgor diverso.
Um
poema de inspiração contínua.
Dizer
Diadorim suscita um não sei quê.
Diadorim em seu desígnio e sonoridade
é o poema mais pequeno da língua portuguesa.
J. Alberto de Oliveira
Formosos são os olhos
que
principiam
no
amor sonoro
das
marés vivas.
Primorosos
são os olhos
que
luzem na flor de sal.
Que
me enleiam a voz
com
verdes algas do mar.
J. Alberto de Oliveira
Todos
somos atravessados por duas correntes essenciais.
A
corrente humana que nos engrandece, nos prolonga e nos eleva à excelsitude.
E a corrente animal que nos faz sofrer e mata como a todos os seres vivos do universo.
J. Alberto de Oliveira
É perigoso amar
onde são de vidro
fuligem
cinza e sal
os telhados da vida.
É negro e perigoso
morar
onde se morre de pavor.
J. Alberto de Oliveira