20.4.21

O RASCUNHO



Há um exercício adjacente à inspiração: o rascunho.

Eu não escrevo sem o esboço corrigido até à exaustão, porque me engano muito na conjugação dos verbos. Baralho tudo: os tempos, os modos, os aspectos, as pessoas.

É uma agrura que me assiste e justifica esta ideia antiga: os verbos deveriam ser ditos e escritos apenas no infinitivo.

O infinito e depois o infinitivo dos verbos têm muito a ver com a minha infância. Quando eu contemplava o céu em noites estreladas, o espanto e a candura pediam-me palavras de infinitude.

A natureza verbal no infinitivo é simples, justa e firme.

Suscita a amplidão. Alude a uma substância pura.

J. Alberto de Oliveira


 

12.4.21

O PRAZER DO TEXTO


 

O prazer do texto principia pela substituição de uma palavra por outra.

Pela rasura de um parágrafo. 

Pela inversão dos sentidos.

Pela troca de nomes vulgares por outros cheios de mistério.

Pela invenção de algumas figuras.

Pelo afastamento de um objecto.

Pela atenção à vírgula com direito ao seu lugar.

Pela troca da rua por um beco sem saída.

Pela fuga a um sítio quotidiano.

Apesar do esforço, o texto nunca me satisfaz.

A perfeição do texto é difícil.

J. Alberto de Oliveira

Fotografia: J. A. de Oliveira


3.4.21

O VENTO NÃO ENVELHECE


 

Adivinho desde menino que o vento não envelhece.

Dura o tempo todo.

Eu sei que o vento gostou sempre de me instruir

com palavras do mansinho e palavras incendiáveis.

Eu teria uns setes anos de idade.

Nesse dia eu regressava da escola sozinho e meditabundo.

Quase de súbito o vento começou a endiabrar-se.

Esfarrapava as nuvens negras e as últimas folhas do outono.

O vento quando corre furibundo parece que vai a todos os buracos escuros.

Com a língua seca eu lambia o medo.

Os olhos começaram a ficar em nó cego.

O tempo e o vento mediam-me os passos pensativos.

A alma afinava a minha pobreza de criança.

Os relâmpagos alumiavam o mundo.

Só por Deus eu ouvia o vento e trovejos de pavor e susto.

Por bem encontrei um moinho.

Entrei cerrando a porta.

Havia ali um saco de serapilheira.

Deite-me nele e adormeci ao ritmo da mó a moer grãos de milho.

Quando fui para casa o dia estava no fim e o vento soprava macio.

J. Alberto de Oliveira


26.3.21

EM SONHO


Por sorte, em sonho, encontrei um marinheiro

que me contou diversas visões e vivências.

Disse, por exemplo,

que já ninguém leva uma carta fechada

para ser lida no alto mar.

Que os segredos ficam todos em terra

num círculo de silêncio e tristeza até ao regresso.

Que o desejo de partir é igual ao desejo de voltar.

Que todos os marinheiros vão pobres

e todos voltam cheios de mistérios e perguntas.

Disse-me ainda que no alto mar

a cor do tempo umas vezes é salina e azul.

Outras vezes é de névoa profunda.

Que os movimentos da água

esboçam uma beleza antiga.

 

Pelo que que vim a saber

depois do sonho

 

o marinheiro não mentia.

J. Alberto de Oliveira

 

20.3.21

ESCREVER PARA QUÊ?


Escrevo para que o lugar vazio

depois de mim perdure no papel.

 

Escrevo para que o sítio donde terei de sair

 

permaneça nos cadernos do universo  

com letras da triste e leda memória de mim.

J. Alberto de Oliveira

 

14.3.21

PORQUÊ?


 

Porquê?

Porque se torna muito difícil e funesto

explicar

a certas pessoas como se abre

a primeira rosa depois do inverno?

J. Alberto de Oliveira


6.3.21

NO TEMPO DAS FÁBULAS


 

No tempo em que os animais falavam

não havia escrita.

Não havia letras nem lápis nem papel.

 

Só existia a caligrafia do vento

nas folhas das árvores

nas areias do deserto

nas ondas do mar

no estremecer luzente do orvalho.

 

No tempo em que os animais falavam

os bichos conheciam as ideias dos humanos

e diziam tudo o que pensavam acerca de nós.

 

Como os animais já não falam

triunfam as fraudes e bazófias.

J. Alberto de Oliveira


22.2.21

DIADORIM


 

Diadorim.

O nome escrito e narrado por João Guimarães Rosa

em Grande Sertão: Veredas.

 

Diadorim. 

Uma figura enigmaticamente iluminante

de olhos muito verdes.

 

Ser Diadorim é inesperado e desassossegante.

 

Um nome.

Nome e figura não condizem com o real quotidiano.

É um nome cheio de neblina perpetual.

 

Diadorim é o nome fulgor diverso.

Um poema de inspiração contínua.

 

Dizer Diadorim suscita um não sei quê.

 

Diadorim em seu desígnio e sonoridade

é o poema mais pequeno da língua portuguesa.

J. Alberto de Oliveira

18.2.21

FORMOSOS SÃO OS OLHOS






 

Formosos são os olhos

que principiam

 

no amor sonoro

das marés vivas.

 

Primorosos são os olhos

que luzem na flor de sal.

 

Que me enleiam a voz

com verdes algas do mar.

J. Alberto de Oliveira


11.2.21

DUAS CORRENTES


Todos somos atravessados por duas correntes essenciais.

A corrente humana que nos engrandece, nos prolonga e nos eleva à excelsitude.

E a corrente animal que nos faz sofrer e mata como a todos os seres vivos do universo.

J. Alberto de Oliveira

 

4.2.21

OS TELHADOS DA VIDA


 

É perigoso amar

onde são de vidro

 

fuligem

 

cinza e sal

os telhados da vida.

 

É negro e perigoso

morar

 

onde se morre de pavor.

J. Alberto de Oliveira


28.1.21

CADÊNCIA DE AFECTOS


 

São magníficas as regras 

que inspiram a intenção 


imprevisível da música. 


Que se apuram 

numa cadência de afectos.

J. Alberto de Oliveira


23.1.21

UM ARGUMENTO


 

A fonte é o ponto

mais sensível da terra

 

onde posso beber

à hora de ir embora.

 

Entre mim e a fonte

 

a sede

é motivo de horas cegas.

 

Um argumento da boca

às vezes tão ávida

 

a pedir água.

J. Alberto de Oliveira


15.1.21

O ESBOÇO



 

Nas linhas que me desenham

o esboço é da casa da criação.

 

Da casa onde havia

um cendal de linho

 

mais antigo que o amor.

 

A minha alma crescia no miolo

do pão que sabia a leite quente.

 

Na mesa do pão tudo luzia. 

 

Todas as letras do anoitecer

entravam pela cancela amiga

 

que também para ti se abria.

J. Alberto de Oliveira


6.1.21

LENDO CESÁRIO VERDE



Devagar o bulício das ruas

entra no poente.

 

Devagar se aprende

a soletrar

 

as horas mortas

e a maresia defuntal.

 

Devagar tudo se mistura

com o sentimento

 

dum tísico poeta ocidental.

J. Alberto de Oliveira


 

31.12.20

OS LAMEIROS


 

Os lameiros são espelhos de água e de inverno.

As árvores sem folhas e as nuvens sem rasgões para o azul do céu, aludem ao abandono.

Há pássaros que não emigram. Persistem iguais aos seus antepassados de há trezentos anos.

Limitam-se a viver. Pouco ou nada cantam. Piam e voam de ramo em ramo.

 

O cenário, que vejo com estes olhos que a terra me há-de comer, é todo interior.

 

Os lameiros, a água, as árvores, as nuvens espessas, a erva e os pássaros transformam-se em espírito absorto e pensativo.

 

Este é o seu destino, expansivo até ao fim dos tempos. Esta é a sintaxe do sentimento obscurecido pelo rigor de geadas e frios ventos.

J. Alberto de Oliveira

22.12.20

A DIVINAL CLARIDADE - Gil Vicente


 

A divinal claridade

Seja em vosso entendimento,

E vos dê conhecimento

De sua natividade.


Gil Vicente - Auto da Fé - 1510


18.12.20

TALVEZ UM DIA


 

Talvez um dia se possa ler

no imo sensível da poesia

 

a sorte de horas somadas

ao acaso de palavras extremas.

 

Talvez se possa dizer

 

que a poesia é mais funda e viva

que uma ferida tocada pelo sal.

J. Alberto de Oliveira


11.12.20

VITA BREVIS


 


Se puderdes trabalhar por mim, dai-me de comer e deixai-me pensar aquilo que nem imaginais.

Deixai-me soletrar o que nem ousais dizer.

Possa eu adivinhar o que nunca haveis de ouvir.

Tenha eu o tempo propício para ver o limiar do invisível e sonhar o nada que é evidente.

E quando eu tiver fome, trazei um naco de pão, ó companheiros do mundo.

 J. Alberto de Oliveira

(Texto escrito enquanto ouvia Khatia Buniatishvili ao piano na Casa da Música, no dia 06/10/2019)


4.12.20

CORES E COTOVIAS



Eu sou o nó cego do meu próprio nome

disse o poeta.

E naquele dia não escreveu mais nenhum verso

ou argumento da melancolia.

 

Saiu de casa ao lusco-fusco.

 

Desceu ao jardim

e sentou-se na sua pedra 

para ouvir a arte musical de cores e cotovias.

J. Alberto de Oliveira