30.11.21

O QUE VINHA DO MAR



 

Sentada na soleira da porta, a mulher recebia o que vinha do mar.

O visível e o invisível fluíam no seu olhar contemplativo.
Entre leves sombras de névoa e luz, entre sons de linhas de água e a pronúncia de algumas frases, parecia-lhe ouvir musicalmente os segredos que há muito, muitíssimo tempo não ouvia assim.

Veio o Poeta. E, com a mão direita pousada no ombro da mulher, perguntou:

- Como te chamas?
A mulher-doçura do vento respondeu:
- O meu nome anda perdido no livro das tuas palavras.
J. Alberto de Oliveira

25.11.21

DEMORADAMENTE


 

Demoradamente o olhar se alicerça nas estrelas

e no seu firmamento.

 

Tudo lá no alto me parece firme ou eterno.

 

É um espaço onde o tempo talvez não exista.

O espaço onde parece que nada apodrece.

J. Alberto de Oliveira


18.11.21

BRINCAR COM A ALMA


 

Quando eu não posso brincar

com a alma

 

as horas ficam entrevadas.

 

De bruços

caio no lamaçal do luto.

 

Faltam-me as palavras

e a substância da música.

 

Quando eu não posso brincar

com a alma

 

falta-me a luz da gramática.

J. Alberto de Oliveira


11.11.21

O SOL NAS ALTURAS




 

O sol nas alturas

e o mel nos rochedos.

 

A história da água

no linho da mesa.

 

O azul da fala nua

nos frutos da palavra.

 

Íntimo rejubila o ar

nos átrios do lume.

J. Alberto de Oliveira


5.11.21

O MAR


 

O mar que lês no poema

tem a mesma sonoridade

 

que o mar dos navegantes.

 

Um e outro ondulam.

Precisam da eternidade.

J. Alberto de Oliveira


28.10.21

EM DUAS QUADRAS


Adeus, fonte de lembranças,

Onde a água remanseia.

Onde fiz tantas promessas

Que só me deram enleios.

 

O afecto que me tens

Assenta bem nos teus olhos.

A tua boca é sagrada:

Parece um botão de rosa.

J. Alberto de Oliveira

 

20.10.21

O APRUMO DO OUTONO


 

Mil e uma folhas do tempo

inflamam o pulso

 

e os idiomas do silêncio.

 

Mil e uma folhas de oiro

e de cristalino vagar

 

apuram o aprumo do outono.

 

Com jubilosa luminescência

e a paz do vento à mistura

 

mil e uma folhas

entram pelas varandas

 

de Vermodium adentro.

J. Alberto de Oliveira


16.10.21

DO OUTONO



Até ao gume da última hora

 

os dias afiam a cor

e a matéria do outono.

 

A vida é tudo ou nada

quando toda ela se encosta

 

ao fio quente da navalha.

 

É sopro de fuga e dor

antes de ser tábua rasa.

J. Alberto de Oliveira

 

9.10.21

ANTÓNIO NOBRE


 


António Nobre está só

e dado ao desassossego.

 

Tem os olhos

encostados ao poente.

 

Há demasias de melancolia

a sangrar nele.

 

O poeta vai morrer só.

J. Alberto de Oliveira


1.10.21

DO PÃO SOBRE A MESA


 

O fermento leveda primeiro

o coração e a flor da farinha.

 

Depois o calor

 

e o timbre do ar no forno

são da carqueja acesa.

 

Por fim a resposta

é só do pão.

 

Do pão sobre a mesa.

J. Alberto de Oliveira

Fotografia: José Miguel Reis  |  DESIGN

www.josemiguelreis.com


22.9.21

OS FRUTOS DE SETEMBRO


 

Ando ainda longe de mim

e de quanto me falta escrever  

 

com os olhos no tecto da vida.

 

À memória quero dar a beber

a luz sedenta de Setembro.

 

Seus frutos maduros são todos

para incender

 

a sarça ardente do outono.

J. Alberto de Oliveira


14.9.21

CINCO BALÕES


 

Era uma vez um poeta que escrevia como ele próprio foi ao princípio.

Gostava das palavras certas e das rimas bem timbradas, porque as sentia muito próximas das cantigas nos bailes da aldeia.

Muitas vezes dizia à sua amada estes versos em forma de quadra simples:

 

Eu tenho cinco balões

Nos cinco dedos da mão.

São do vento e da vida.

São jóias do coração.


Um dia a companheira desafiou o amado:

– Para que os balões não baloicem apenas nos teus dedos, queres que os solte? Vamos deixá-los subir?

– Agora não. Espera pelo fim de mim.

J. Alberto de Oliveira


7.9.21

NUDEZ INTEIRA


 

Da nudez de Deus

entre poemas nasci.

 

Por sete gotas vivas

um sítio a vida me deu.

J. Alberto de Oliveira


3.9.21

O TEMPO CORRÓI




 

O tempo corrói. Insiste no precário. Quebra-nos aos bocados. Também colabora com os agentes do caos.


Se os viventes impacientes não matassem o tempo com o fogo criativo, com alegrias e delícias – o olvido e a humidade fria da morte seriam um sinal invisível de nós.

 

Com alguns versos e palavras eu vou afastando o clima oxidante das idades.

 

Há sons e traços, ideias e formas, espaços e silêncio, cores e afectos, que nos marcam e pronunciam até ao último dos dias.

J. Alberto de Oliveira


27.8.21

DINAMENE


 

Oh! Dinamene.

 

De onda em onda

no mar a voz

 

é do poeta.

 

De onda em onda

oh! Dinamene.

 

Mística rosa

de amor e versos.

J. Alberto de Oliveira

12.8.21

QUANDO OS FRUTOS




 

Quando os frutos amadurecem

quietos

nos socalcos das colinas

 

a luz é solar e benigna.

 

A natureza faz-se nos frutos

do mesmo modo que

 

o amor se faz rente à fala da lua.

J. Alberto de Oliveira


3.8.21

MUDO E SÓ


 

Perdi a lucidez e deixei o sono entrar.

Vi a água em forma de chuva a deslizar pelo teu corpo todo.

Nos movimentos não havia pressa nem temor.

A tua boca tinha a moldura e o tamanho de um segredo.

O lugar da casa parecia minúsculo e propício ao não sei quê.

Com a leveza de folha no ar deitaste água num copo.


À minha beira te sentaste enquanto durou a confidência.

Depois foste dar de beber a uma estrela inacessível.

Fiquei mudo e só

para saber se eras uma causa ou efeito da memória.

J. Alberto de Oliveira



27.7.21

A BILHA E O LÁPIS


 

Não sei desenhar rostos nem objectos,

apesar de a minha professora das coisas primeiras

nos ensinar a fazer cópias de uma bilha bojuda,

com formas e beleza da ternura.

 

Hoje, eu daria tudo para ver os meus primeiros exercícios de desenho.

Que me fizeram às cópias da bilha de barro?

Onde anda a bilha bojuda?

 

E o lápis?

Perdeu-se pelos caminhos da escola?

 

Eu daria tudo para ter aquela bilha de barro e dela beber água pura.

Eu amo a bilha.

Amo-a tanto, que até sei que o amor se faz do mesmo barro da bilha

que eu desenhava na minha escola antiga.

J. Alberto de Oliveira

19.7.21

ASSIS - PAUL CELAN


 

Noite úmbrica.

Noite úmbrica com a prata do sino e da folha da oliveira.

Noite úmbrica com a pedra que para aqui trouxeste.

Noite úmbrica com a pedra.

           

            Mudo o que entrou na vida, mudo.

            Esvazia e enche os jarros.

 

Jarro de terra.

Jarro de terra que traz no barro a mão do oleiro.

Jarro de terra que a mão de uma sombra para sempre fechou.

Jarro de terra com o selo da sombra.

 

            Pedra para onde quer que olhes, pedra.

            Deixa entrar o burrico.

 

Animal a trote.

Animal a trote na neve espalhada pela mais nua mão.

Animal a trote adiante da palavra que se fechou.

Animal a trote que vem comer o sono à mão.

 

           Brilho que não consola, brilho.

Os mortos, Francisco, ainda pedem esmola.

Paul Celan


Tradução: Y. K. Centeno e João Barrento


14.7.21

A MATÉRIA DA LUZ







Se puderes ó minha vida

traduz a matéria da luz.

 

E diz-me em tom maior

um sinónimo de música.

 

Se puderes estremece

para mim

 

no acmè de uma história.

J. Alberto de Oliveira

 

7.7.21

A MEIO DA FRASE



A meio da frase

vimos a lua subir.

 

Era já de noite.

 

A meio do caminho

de vigília ao silêncio

 

luzia o luar.

 

No fim da travessia

a lua voltou atrás. 

J. Alberto de Oliveira

 

1.7.21

ESCRITO NUM BILHETE


 

São teus os poemas

que se apropriam

 

da memória.

 

Com eles decifras a distância

e os tempos do verbo

 

escrito num bilhete.

 

O que te salva ó António

lê-se nuns versos de água

 

onde não há gaivotas mortas.

J. Alberto de Oliveira

Imagem:Bilhete de António Nobre após a ida à Quinta da Conceição, Leça Palmeira, com o inglesa Charlotte.


23.6.21

ALUMIAÇÕES E LEMBRANÇAS



 

Quando era criança, os nomes que dizia, todos ou quase todos,

eram incompletos.

Somente as formas e a grandeza das coisas permaneciam inteiras

nos meus olhos.

Com os objectos do mundo, na sua complementaridade justa e geométrica,

eu compunha as primeiras frases, incautas, frágeis e breves.

Eram linhas de fulgor, lúdicas, miríficas e matinais.

 

As letras nasciam no momento em que os olhos de ser

e a mão de escrever

tocavam e subiam aos sentidos do silêncio.

 

Pedra a pedra ainda saberei construir a idade que me resta?

Quem me ajuda a erguer ou a restaurar casas invisíveis

em lugares inacessíveis?

São casas ou abrigos para as folhas do pensamento,

para as alumiações

e para os segredos que um dia não poderei levar comigo.

J. Alberto de Oliveira

16.6.21

EM TEMPO DE ROSAS


 

Juntem-se as rosas ao vento

até que o vento e as rosas

 

sejam uma carta de lembranças.

 

Uma carta de beijos e oferendas

para os nomes

 

que me selaram o sangue.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Joan Miró

9.6.21

AO LONGO DE UMA PRAIA - Luís de Camões


 

Quando o sol encoberto vai mostrando 

Ao mundo a luz quieta e duvidosa,

Ao longo de uma praia deleitosa

Vou na minha inimiga imaginando.


Aqui a vi, os cabelos concertando;

Ali, coa mão na face tão formosa;

Aqui falando alegre, ali cuidosa;

Agora estando queda, agora andando.


Aqui esteve sentada, ali me viu,

Erguendo os olhos tão isentos;

Comovida aqui um pouco, ali segura;


Aqui se entristeceu, ali se riu.

E, enfim, nestes cansados pensamentos

Passo esta vida vã, que sempre dura.

Luís de Camões 





2.6.21

NA CLAREIRA DO JARDIM


 

Na clareira do jardim

há uma pedra essencial.

 

A pedra que sustenta

o dia em que nasci.

 

Na clareira do jardim

há uma pedra atenta.

 

A pedra dos ventos

que falam por mim.

J. Alberto de Oliveira


27.5.21

EM LEÇA DA PALMEIRA


Em Leça da Palmeira

a escultura de Cabrita Reis

 

sublinha as linhas do horizonte.

 

Em Leça da Palmeira

o azul do céu dissolve-se.

 

O ar cresce

e o mar torna-se maior.

 

Em Leça da Palmeira

o pensamento fica absorto

 

para deixar os olhos

desatar os lenços do sol.

J. Alberto de Oliveira

Escultura de P. Cabrita Reis - Fot. de J. A. de Oliveira

 

20.5.21

CANTABILE

 



A fala da Mãe era cantabile. 
Dizia palavras de uso diário quando tinha os filhos à mesa.


A Mãe não falava enquanto os filhos dormiam.

J. Alberto de Oliveira


Memorável: os dias da Mãe começaram na quinta-feira, 13 de Julho de 1924.

Desenho: Alberto Péssimo

13.5.21

UM CÉU DE CENTELHAS


As minhas alumiações começaram pelo amor

intemporal da memória.

Com rigor e pudor eu as transmitia ao papel.

 

Não pediam nada em troca.

 

E quando a luz era escassa ou nula

a cegueira da folha em poema

 

mostrava um céu de centelhas.

J. Alberto de Oliveira

 

5.5.21

DEPOIS DO INVERNO


 

Ainda me lembro da jubilosa manhã

em que vi

a primeira rosa que floria depois do inverno.

 

A caminho da escola havia frescura.

 

Arranquei à rosa uma pétala orvalhada.

Limpei as gotas do relento.

 

Abri ao acaso o meu livro de leitura

e fechei-a ali dentro

no silêncio  das palavras que aprendia.

 

Depois do inverno

talvez tudo seja mais verdade que mentira.

 

Improváveis sejam as palavras

e as rosas que ainda soletro.

J. Alberto de Oliveira