2.10.23

UM SELO DE SETEMBRO


 

Quando molhaste os dedos

na lídima água do nome

 

a legenda maior estremeceu.

 

Do amor que se tornou clamor

na minha boca ainda pequena

 

eu recebi um selo de Setembro.

 23/09/2023

J. Alberto de Oliveira


22.9.23

EFEITOS AMADOS


 

Há um intimo de marluz

que fala dentro de mim.

 

A natureza do  azul

nunca se apaga no mar.

 

De seus alicerces furtivos

nascem efeitos amados.

J. Alberto de Oliveira


15.9.23

A SAUDADE



Esta nossa palavra saudade não rima

com a nostalgia de Ulisses

em seus perigos longe de casa.

É mais que um murmúrio de lembranças.

Que me quereis, perpétuas saudades?

perguntava Camões.

 

A saudade talvez seja uma onda musical

de fios tangíveis e da fidelidade

intraduzível entre as almas e a distância. 


A fidelidade começa pela evidência 

ou regresso 

de antigos amores ditos em segredo.

J. Alberto de Oliveira



17.8.23

O PRIMEIRO AMOR

                                                                                                                                                                                                                                                                                      Foto: a flor do linho


Era de menino absorto

sem defeito nem artifícios


o linho que me vestia.


O estreme leite morno

dava o sustento de existir.


Era assim o primeiro amor.

J. Alberto de Oliveira


 

25.7.23

ESCREVIVENDO



Há sempre alguém que me pergunta:

- Como vais? 

Usando o furtivo gerúndio, respondo: 

- Vou escrevivendo.

 


Que língua falam os poetas?

A sua fala tem a cadência amorosa das águas correntes. A  pronúncia é semelhante à 

intimidade verbal do silêncio.

 

 

Creio que foi Jorge Luís Borges quem disse: “não há um dia que passe, em que, por um 

momento ao menos, eu não me eleve aos céus.”

Magnífico, não é?

Também eu, José Alberto, pratico o exercício de me elevar. Na poesia, por exemplo, eu me 

escrevo. Ela é o chão dos meus passos.

Na poesia acontece a liberdade livre, aquele estado em que não sou possuído.

A poesia impede que me anulem. A poesia leva-me a pairar acima da comédia humana, da 

vulgaridade e das trafulhices.

A prosa disseca a vida, enquanto a poesia enamora-se do ser.

 

 

 Um dia alguém me perguntou:

- Por que é que tu és poeta?

Respondi:

- Não sei. Vai interrogar os meus ancestrais que já partiram para a eternidade.

E no outro dia escrevi:

“Quando saio de mim levo sempre uma trouxa de imagens e lembranças às costas.

Assim vou trocando um ror de coisas por alguns poemas.”

 

 

Também já me perguntaram:

- O que é a poesia?

- Ainda não sei o que é a poesia. Mas, vou sabendo o que ela não é.

A poesia não é um assunto ou um tratado. Não se estuda.

A poesia lê-se. Ouve-se. Intui-se. Cria-se. A palavra flui esteticamente.

A poesia é de pouquíssima gente.

Os poetas respiram, ouvem e falam com letras próprias.

 

 

Se na minha poesia houver cem palavras essenciais, é muito.

Procura-as nos versos que já escrevi.

 


Ser poeta.

Que o verbo bem-me-queira!

E Deus me proteja!

 

 

O poder evocativo do poema deve-se à palavra: por sua vez, evocativa de uma realidade 

ausente.

É com subtis e obsessivas palavras musicais que se cria o poema.

É musical a puridade verbal.

J. Alberto de Oliveira


10.7.23

PARA QUE SERVE A POESIA?


 

Uma vez, alguém fez-me esta pergunta, como se eu gostasse de ser entrevistado:

- Para que serve a poesia?

- A poesia não serve para nada - respondi. É distinta e difícil, mas inútil e barata, nem sequer dá para comprar amendoins.

J. Alberto de Oliveira


1.7.23

A CANCELA ENTREABERTA


 

A minha origem natal começou por um objecto. Por uma chave que me foi dada para abrir e fechar todas as portas. Valia por sete. Era uma chave rara e benigna, semelhante àqueles três versos escritos num livro de poesia:

 

O afecto luminoso

ensina a ver

o que em ti é precioso.

 

Esquecia-me de dizer que a chave nunca abriu nem fechou a cancela

dos passos de quem ia e depois vinha.

Sempre a deixámos entreaberta.

J. Alberto de Oliveira


20.6.23

OS LUSÍADAS


 

Os Lusíadas não é um livro de palavras supostamente dirigidas aos deuses e ao vento. Talvez seja um mar de trabalhos onde há uma ilha de amores ou quimeras e especiarias orientais.

É um livro onde as palavras se escrevem por si mesmas.

O mar em sua natureza rebelde e sensual, recebe Os Lusíadas como um título de triunfo e glória.

J. Alberto de Oliveira

19.6.23

A ÁGUA DO NOME

 


Qual é a tua graça

perguntas neste idioma

de nudez digna de fé?


A minha graça foi dada

pela água do nome

sinónimo de josé alberto.

J. Alberto de Oliveira




9.6.23

A NOSSA FORTUNA


Em Camões era tudo uma síntese ardente.

Tudo se tornava engenho e arte quando falava,

quando escrevia, quando imaginava, quando amava.

 

O Poeta raramente deixou um mote sem resposta.

Com palavras e rimas desejava o mais alto,

apreendia os efeitos do amor cego.

 

Entre desatinos, enganos e desvarios

nunca soberbo foi seu pensamento.

 

De cor sabia as sílabas necessárias à lusa pronúncia.

O prazer do texto camoniano é a nossa fortuna.

J. Alberto de Oliveira

 

28.5.23

A PARÁBOLA DA AGULHA - Herberto Helder


 

Conto de novo a parábola da agulha, que me obceca.

Desentranhei-a de um velho manual.

Trata-se de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa.

Acorre então o jovem que pretende ajudá-la, e pergunta:

– Que procura?

– Uma agulha. Caiu-me na cozinha.

Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda.

– Porque na cozinha está escuro – responde a mulher.

A parábola ajudará a desaprender alguma coisa, e depois será possível aprender outra coisa.

 Herberto Helder


19.5.23

UM GRÃO DE SAL


 

Havia um navegante que dizia:

as aves migratórias  partem

 

voando alto e em silêncio.

 

Cada uma leva no bico

um grão de sal.

 

Voam todas em silêncio

 

para não deixar cair ao mar

o precioso grão de sal.

José Alberto de Oliveira

8.5.23

DE CASA DE MEUS PAIS

Se queres saber o que é um nómada ou um estranho em terras alheias, decora o breve texto que transcendeu Bernardim Ribeiro: 

"Menina e moça me levaram de casa de meus pais para longes terras. E qual fosse a causa dessa levada, era pequena, não no soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já havia de ser o que depois foi".

28.4.23

UMA CARTA DE AMOR


 

Uma carta de amor

escreve-se a quem se ama.

 

Leva sempre uma cor desconhecida.

 

Nas entrelinhas esconde

uma ou três confidências

 

acerca do que se ama.

J. Alberto de Oliveira


17.4.23

SEM RESPOSTA


 

- Como te chamas?

- O meu nome tem uma cor interior.

- E porque não o dizes?

- Não quero que morra?

- Soletra-me ao menos as suas letras.

- Não as devo separar umas das outras.

- Quem te pôs o nome?

- Foi quem me pôs amor.

(…)

E sem resposta fui embora.

J. Alberto de Oliveira


5.4.23

E DEUS QUEIRA


 

Tenho medo que a música não alumbre suficientemente a hora

da nossa morte.

A não ser que, e Deus queira, a ressurreição se antecipe vitoriosamente.

 J. Alberto de Oliveira

27.3.23

A ALMA LUZENTE


 

Os olhos dos amantes acreditam

nos segredos da memória

 

da mesma forma que as camélias

nos espelhos do inverno

 

se tornam quase rosas.

 

Os olhos dos amantes

difundem os segredos da memória.

 

O frio de inverno

aviva as camélias em vez de rosas.

 

A alma luzente não envelhece.

J. Alberto de Oliveira



18.3.23

VITA BREVIS


 

Se puderdes trabalhar por mim, dai-me de comer e deixai-me pensar aquilo que nem imaginais.

Deixai-me soletrar o que nem ousais dizer.

Possa eu adivinhar o que nunca haveis de ouvir.

Tenha eu o tempo propício para ver o limiar do invisível e sonhar o que é evidente.

E quando eu tiver fome, trazei um naco de pão, ó irmãos do mundo.

J. Alberto de Oliveira

(Texto escrito enquanto ouvia Khatia Buniatishvili ao piano na Casa da Música, no dia 06/10/2019)


7.3.23

O VERBO DA ÚLTIMA FRASE


 

A noite fecha-se no livro

quando acendes

 

o verbo da última frase.

 

Quando o sono da vida

cai no limiar do silêncio

 

e outra fala se inicia.

 

O verbo torna-se carne

quando primeiro tocas

 

na lua e nas estrelas

com a justeza do olhar.

J. Alberto de Oliveira


4.3.23

NO ALTO-MAR


 

Na primeira e única vez em que entrei pelo mar adentro, levaram-me num barquito de pesca. Eu ia pensativo. Nunca abri a boca para dizer fosse o que fosse. Pensava nas profundezas daquelas águas em movimento. O mistério do mais fundo assustava. Mas eu também olhava para o alto. Via o azul que há lá em cima.

Só pensava ou imaginava entre o mais fundo e as alturas.

Para mim, ali no mar, tudo era mistério, temor e recolhimento.

Um grande temor me arrepiava a existência.

Toda aquela beleza tinha o poder de trazer a morte.

Tanto se morre na turbulência das águas do mar-alto como na orla 

de qualquer mar 

onde o tempo é de todos os passos.

J. Alberto de Oliveira