Há um intimo de marluz
que fala dentro de mim.
A natureza do azul
nunca se apaga no mar.
De seus alicerces furtivos
nascem efeitos amados.
J. Alberto de Oliveira
Há um intimo de marluz
que fala dentro de mim.
A natureza do azul
nunca se apaga no mar.
De seus alicerces furtivos
nascem efeitos amados.
J. Alberto de Oliveira
Esta
nossa palavra saudade não rima
com
a nostalgia de Ulisses
em
seus perigos longe de casa.
É
mais que um murmúrio de lembranças.
Que me quereis,
perpétuas saudades?
perguntava
Camões.
A
saudade talvez seja uma onda musical
de
fios tangíveis e da fidelidade
intraduzível entre as almas e a distância.
A fidelidade começa pela evidência
ou regresso
de antigos amores ditos em segredo.
J. Alberto de Oliveira
Era de menino absorto
sem defeito nem artifícios
o linho que me vestia.
O estreme leite morno
dava o sustento de existir.
Era assim o primeiro amor.
J. Alberto de Oliveira
Há
sempre alguém que me pergunta:
-
Como vais?
Usando
o furtivo gerúndio, respondo:
-
Vou escrevivendo.
Que língua falam os poetas?
A sua fala tem a cadência amorosa das águas correntes. A pronúncia é semelhante à
intimidade verbal do silêncio.
Creio que foi Jorge Luís Borges quem disse: “não há um dia que passe, em que, por um
momento ao menos, eu não me eleve aos céus.”
Magnífico,
não é?
Também eu, José Alberto, pratico o exercício de me elevar. Na poesia, por exemplo, eu me
escrevo. Ela é o chão dos meus passos.
Na
poesia acontece a liberdade livre, aquele estado em que não sou possuído.
A poesia impede que me anulem. A poesia leva-me a pairar acima da comédia humana, da
vulgaridade e das trafulhices.
A
prosa disseca a vida, enquanto a poesia enamora-se do ser.
Um dia alguém me perguntou:
-
Por que é que tu és poeta?
Respondi:
-
Não sei. Vai interrogar os meus ancestrais que já partiram para a eternidade.
E
no outro dia escrevi:
“Quando
saio de mim levo sempre uma trouxa de imagens e lembranças às costas.
Assim
vou trocando um ror de coisas por alguns poemas.”
Também
já me perguntaram:
-
O que é a poesia?
-
Ainda não sei o que é a poesia. Mas, vou sabendo o que ela não é.
A
poesia não é um assunto ou um tratado. Não se estuda.
A
poesia lê-se. Ouve-se. Intui-se. Cria-se. A palavra flui esteticamente.
A
poesia é de pouquíssima gente.
Os
poetas respiram, ouvem e falam com letras próprias.
Se
na minha poesia houver cem palavras essenciais, é muito.
Procura-as
nos versos que já escrevi.
Ser poeta.
Que
o verbo bem-me-queira!
E
Deus me proteja!
O poder evocativo do poema deve-se à palavra: por sua vez, evocativa de uma realidade
ausente.
É
com subtis e obsessivas palavras musicais que se cria o poema.
É
musical a puridade verbal.
J. Alberto de Oliveira
Uma
vez, alguém fez-me esta pergunta, como se eu gostasse de ser entrevistado:
-
Para que serve a poesia?
-
A poesia não serve para nada - respondi. É distinta e difícil, mas inútil e
barata, nem sequer dá para comprar amendoins.
J. Alberto de Oliveira
A
minha origem natal começou por um objecto. Por uma chave que me foi dada para
abrir e fechar todas as portas. Valia por sete. Era uma chave rara e benigna, semelhante
àqueles três versos escritos num livro de poesia:
O afecto luminoso
ensina a ver
o que em ti é precioso.
Esquecia-me
de dizer que a chave nunca abriu nem fechou a cancela
dos
passos de quem ia e depois vinha.
Sempre
a deixámos entreaberta.
J. Alberto de Oliveira
Os Lusíadas não é um livro de palavras supostamente dirigidas aos deuses e ao vento. Talvez seja um mar de trabalhos onde há uma ilha de amores ou quimeras e especiarias orientais.
É um livro onde as palavras se escrevem por si mesmas.
O mar em sua natureza rebelde e sensual, recebe Os Lusíadas como um título de triunfo e glória.
J. Alberto de Oliveira
Qual é a tua graça
perguntas neste idioma
de nudez digna de fé?
A minha graça foi dada
pela água do nome
sinónimo de josé alberto.
J. Alberto de Oliveira
Em
Camões era tudo uma síntese ardente.
Tudo
se tornava engenho e arte quando
falava,
quando
escrevia, quando imaginava, quando amava.
O
Poeta raramente deixou um mote sem resposta.
Com
palavras e rimas desejava o mais alto,
apreendia
os efeitos do amor cego.
Entre
desatinos, enganos e desvarios
nunca soberbo foi seu pensamento.
De
cor sabia as sílabas necessárias à lusa pronúncia.
O
prazer do texto camoniano é a nossa fortuna.
J. Alberto de Oliveira
Conto de novo a parábola da
agulha, que me obceca.
Desentranhei-a de um velho
manual.
Trata-se de uma mulher que
perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa.
Acorre então o jovem que
pretende ajudá-la, e pergunta:
– Que procura?
– Uma agulha. Caiu-me na
cozinha.
Logo o inexperiente jovem se
espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda.
– Porque na cozinha está
escuro – responde a mulher.
A parábola ajudará a
desaprender alguma coisa, e depois será possível aprender outra coisa.
Havia
um navegante que dizia:
as
aves migratórias partem
voando
alto e em silêncio.
Cada
uma leva no bico
um
grão de sal.
Voam
todas em silêncio
para
não deixar cair ao mar
o precioso grão de sal.
José Alberto de OliveiraSe queres saber o que é um nómada ou um estranho em terras alheias, decora o breve texto que transcendeu Bernardim Ribeiro:
"Menina e moça me levaram de casa de meus pais para longes terras. E qual fosse a causa dessa levada, era pequena, não no soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já havia de ser o que depois foi".
Uma
carta de amor
escreve-se
a quem se ama.
Leva
sempre uma cor desconhecida.
Nas
entrelinhas esconde
uma
ou três confidências
acerca
do que se ama.
J. Alberto de Oliveira
-
Como te chamas?
-
O meu nome tem uma cor interior.
-
E porque não o dizes?
-
Não quero que morra?
-
Soletra-me ao menos as suas letras.
-
Não as devo separar umas das outras.
-
Quem te pôs o nome?
-
Foi quem me pôs amor.
(…)
E sem resposta fui embora.
J. Alberto de Oliveira
Tenho medo que a música não alumbre suficientemente
a hora
da nossa morte.
A não ser que, e Deus queira, a ressurreição se antecipe vitoriosamente.
Os
olhos dos amantes acreditam
nos
segredos da memória
da
mesma forma que as camélias
nos
espelhos do inverno
se
tornam quase rosas.
Os
olhos dos amantes
difundem os segredos da memória.
O
frio de inverno
aviva as camélias em vez de rosas.
A alma luzente não envelhece.
J. Alberto de Oliveira
Se
puderdes trabalhar por mim, dai-me de comer e deixai-me pensar aquilo que nem
imaginais.
Deixai-me
soletrar o que nem ousais dizer.
Possa
eu adivinhar o que nunca haveis de ouvir.
Tenha
eu o tempo propício para ver o limiar do invisível e sonhar o que é evidente.
E
quando eu tiver fome, trazei um naco de pão, ó irmãos do mundo.
J. Alberto de Oliveira
(Texto escrito enquanto ouvia Khatia Buniatishvili ao piano na Casa da Música, no dia 06/10/2019)
A
noite fecha-se no livro
quando
acendes
o
verbo da última frase.
Quando
o sono da vida
cai
no limiar do silêncio
e
outra fala se inicia.
O
verbo torna-se carne
quando
primeiro tocas
na
lua e nas estrelas
com a justeza do olhar.
J. Alberto de Oliveira
Na
primeira e única vez em que entrei pelo mar adentro, levaram-me num barquito de
pesca. Eu ia pensativo. Nunca abri a boca para dizer fosse o que fosse. Pensava
nas profundezas daquelas águas em movimento. O mistério do mais fundo
assustava. Mas eu também olhava para o alto. Via o azul que há lá em cima.
Só
pensava ou imaginava entre o mais fundo e as alturas.
Para
mim, ali no mar, tudo era mistério, temor e recolhimento.
Um
grande temor me arrepiava a existência.
Toda
aquela beleza tinha o poder de trazer a morte.
Tanto se morre na turbulência das águas do mar-alto como na orla
de qualquer mar
onde o tempo é de todos os passos.
J. Alberto de Oliveira
Cada
flor tem o seu fulgor
amante
da eternidade.
Nos
teus olhos
ela
vê o seu lugar e cor.
Não
a cortes.
Dá-lhe
a claridade
que
delicia e a sustenta.
Dá-lhe
a glória
de
ficar no pensamento.
J. Alberto de Oliveira