2.11.17

POR DENTRO DO OUTONO




As folhas esvoaçam
umas com as outras

por dentro do outono.

Com pequenas frases
de segredos e música

as folhas esvoaçam. 

Difundem no mundo 
o sustento da palavra.

Inteiro e diamantino

alastra o dialecto 
de folhas amadas.


J. Alberto de Oliveira

24.10.17

SE O VENTO ME LEVAR




Se o vento me levar
onde queres que deixe 

uma citação do olhar?

Se o vento me perder
onde queres um recorte

de puro linho verbal?

J. Alberto de Oliveira

7.10.17

O POETA SOLAR




S. Francisco de Assis lia com alegria perfeita todas as horas da vida.
Ele sabia, por exemplo, que nascer, viver e morrer são dons e poesia.

O princípio do poeta é ler-se inteiro na sua própria nudez.
O Santo de Assis respirava e louvava a luz solar.

A elegância interior de S. Francisco de Assis expandia-se para fora de si mesmo, para além do universo e da alegria
           
Francisco é muito difícil porque excessivamente poeta.
É um jogral.
           
De Assis, bem-vindas sejam todas as correntes de ar.

Francisco, o poeta solar, seja louvado com o mesmo louvor das suas falas com Deus e com todas as criaturas.
S. Francisco de Assis cantava os laços afectivos do universo.
Exultava em fraternura.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Capa do livro foi publicado por LETRAS & COISAS, 2017
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3.10.17

POST-SCRIPTUM




POST-SCRIPTUM
PARA
O SANTO POETA DE ASSIS
                       

Amava e não escrevia.
Soletrava com Deus.
Dizia segredos de si para si.
Falava com todas as criaturas
dobrando os efeitos
da perfeita alegria.
                       
Entoava louvores
como quem anda à procura.
O Santo de Assis andarilhava
caminhando e divagando.
                       
No coração de Francisco
se abria dia após dia 
um abrigo para alguém entrar.

J. Alberto de Oliveira

24.9.17

UM PONTO VORAZ




Um ponto voraz
de asas e pó.

Um lugar de iluminura
e de meias palavras.

O horizonte rubro
de sol

no extremo do mar.

J. Alberto de Oliveira

15.9.17

NUNCA ESTOU SÓ





Nunca estou só.
Há sempre alguém que ama 
que adivinha 
que se move para mim
desde que eu não esteja fora.

O murmulho da água,
em queda lenta e livre 
no tanque das noites lunares
ainda é a vocação primordial.

Ainda me inspira 
desenha e soletra devagar.

J. A. de Oliveira

22.8.17

REGRA GERAL




Regra geral, a grande notícia é a desgraça do vizinho.
Também é muito badalado o rumor que sustenta uma lenda nova,
aguçando a curiosidade.
Por sua vez, tudo o que enriquece o desenvolvimento ou estimula
a aprendizagem cansa.
Pensar ou ler o mais profundo
incomoda.

No tic-tac recitativo do tempo, cego e voraz, 
a melhor parte da vida talvez
seja a verdade que só aparece nos intervalos do amor real 
ou do amor sonhado.

J. Alberto de Oliveira

29.7.17

PELA ESCADA ALTA




Ainda tenho comigo as afectuosas raízes
que me transmitem vida e significância.

Desci ao meio da noite
pela escada alta

que liga o chão ao firmamento.

Da mesma forma que uma folha de tília
cai nas águas corredias

em verso 
eu me copio na arte dos ventos.

E assim me quero.

Tanto mais isento
quanto mais leve

para sair do tempo.

J. Alberto de Oliveira

21.7.17

UNS PASSOS MAIS ADIANTE




Sem lembranças eu sou mais cego
que um nó.

E sem as raízes do afecto
sou pior

que um cisco nos meus olhos.

Com os pés nus
pensativo e descalço

eu digo a palavra Pai
e dou uns passos mais adiante.


J. Alberto de Oliveira 

Imagem: A. Tapiès

10.7.17

ANTÓNIO NOBRE EM LEÇA DA PALMEIRA




António Nobre fugia para o mar e tinha visões das terras de Leça.
Em terra tinha visões do mar e do mais longe.

Foi para Coimbra e teve imensas visões 
da infância e de Leça da Palmeira.

Foi para Paris e teve as melhores visões da Lusitânia.

Era um vagabundo, um andarilho raro, sem colo
e sem uma almofada onde se reclinar.

Anto apenas tinha dele próprio o Só.

J. Alberto de Oliveira

27.6.17

CAMINHANTES DO SILÊNCIO




Sentado à mesa, J. S. Bach media o tempo, a luz e o silêncio.
O pensamento escrito na pauta
ajustava-se ao ritmo e às vibrações do sopro universal.

Fernando Pessoa percorria as ruas de Lisboa, em passo firme,
como se fossem as rotas de novos mundos a descobrir.
Ia e vinha absorto, filho de ninguém.
Ia e vinha todos os dias, sempre ele mesmo, sendo outros.

J. Alberto de Oliveira

Gravura de João Pedro Cochofel

14.6.17

HÚMUS - RAUL BRANDÃO




De Húmus vem a vila que persiste com  as suas insignificâncias, o grotesco, a vulgaridade, o espanto, o luto e o bolor, o egoísmo e a mortalidade a fechar as linhas do tempo.

A vila parece do tamanho das cismas que povoam um cemitério.

Húmus é um lugar viscoso, cheio de vozes remendadas pela dor.

Na vila moram velhas cheias de mesuras, de baba, de fel e rancor, de avareza e fome, de ais e farrapos. São maníacas e fedorentas, com sentimentos postiços e requentados.

Na vila o desconforme não se afasta da pobreza nem do destino que a toda a hora mói, rói e remói.

Na vila de Raul Brandão até o invisível dói.

J. Alberto de Oliveira

3.6.17

27.5.17

DO TEMPO SEM TEMPO




À hora das sombras luzentes
da quietude e relento

o sinal da cancela chamou.

À hora do tempo sem tempo
a sulamita depressa foi abrir.

Ela bem sabia quem havia de vir.

J. Alberto de Oliveira

20.5.17

AS ESTRELAS DE VIENA




São mais que perfeitas
de tão musicais

as estrelas de Viena.

No infinito
de língua nenhuma

acendem
noites e sons escritos

de sonhos e mundos.

Alcançam a lua cheia
de violinos e triunfo. 

J. Alberto de Oliveira

12.5.17

DIZER AO OUVIDO




Linho
sol
amor
azul
Ana
fogo
vento
luar
flor
Lia
sal
Rosa
mar

são nomes
ou palavras humildes
preciosas

simples e sem sombra
de erro
quando as dizes ao ouvido.

J. Alberto de Oliveira 

1.5.17

HORAS DE CEIA




Todas as noites o rosto do amor nos dizia:
– São horas de ceia!

Eu ouvia e pensava, repetindo no silêncio de mim:
– São horas de lavar os pés a quem se ama.

J. Alberto de Oliveira

21.4.17

A SPREZZATURA É UMA ARTE




Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar o seu primeiro discurso, na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo do pai, o que tinha achado do seu desempenho naquela assembleia de vedetas políticas.
O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse-lhe em tom paternal:

“Jovem, cometeste um erro grave. Foste demasiado brilhante no teu primeiro discurso. Isso é imperdoável. Devias ter começado um pouco mais na sombra. Devias ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstraste hoje, deves ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos.
Jovem, o talento assusta.”

Ali estava uma das melhores lições que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil. Eis um paradoxo angustiante:
O princípio da inveja. A razão do “imperdoável.”

Há na língua italiana, a propósito de imperdoável e imperdoáveis
(gli imperdonabili), alguns vocábulos intensos no seu dizer significante, no seu vigor e sonoridade:

Intelligenza – faculdade activa do entendimento e lucidez.
Eleganza – elegância, delicadeza e brio comunicante.
Piglio – toque, distinção deliberada.
Disinvoltura – desenvoltura, agilidade viva.
Noncuranza – descuido displicente. 
Sprezzatura – o supremo brasão da inteligência unida à sensibilidade e fidalguia, um modo elevado, negligentemente livre no fazer e dizer, “próprio de mestre seguro de si.” (N. Zingarelli)

A sprezzatura é consonante com “maneiras de negligência magistral”. É uma arte.

J. Alberto de Oliveira


Fonte: Novo Dizionario della lingua italiana Universale (1912) -  P. Petrocchir

15.4.17

REVIVESCÊNCIA




No recanto do jardim
a pedra vazia.

A mulher
e o alvorar do dia.

No recanto do jardim
o pulso da mulher
                                              
que procura o amigo
deixado em ferida.

Pelo jardim adentro
a mulher correu
                                              
levando os perfumes
e letras da revivescência.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: "Ressurreição de Cristo e Mulheres no Sepulcro"
Fra Angelico - Pintor italiano pré-renascentista (c. 1387-1455)

11.4.17

REINO DA ETERNIDADE





É tudo tão absurdo quando me ponho a pensar na distância
que há entre a vida e o sepulcro.
Assusta-me não saber o que há dentro do verbo morrer.

Nem a mim próprio eu peço licença para escrever.
Ando cada vez mais embaçado e deveras denegrido.
Falo sem tom nem som. 
Até o silêncio me julga louco.

Já me desenharam e mostraram tantas figuras 
ou representações da eternidade.
Com os dias que passam
muitas das imagens escorregam para o caixote do lixo
ou acumulam-se no sótão desfeitas em poeira.

Jesus disse muito pouco acerca da existência 
depois da morte.
Quando se referia ao transcendente 
parece que só conhecia a palavra Pai.

Não deu grandes explicações acerca do além-mundo.
Se dele tivesse falado com pormenores, 
teria reduzido a eternidade ao vulgar.

Jesus falou muito, 
isso sim, 
desta nossa vida aqui 
como Reino da Eternidade.

J. Alberto de Oliveira

Pietà de Miguel Ângelo - Photo de Robert Hupka