10.12.16

AQUELA NUVEM DE ANJOS




Às vezes peço ao azul do mundo
a nuvem mais alta e branca.

A nuvem das coisas
que eu nem sonho.

Das evidências musicais
pensamento e assombros.

A nuvem de tantas lembranças
devaneios e dúvidas.

Aquela nuvem de anjos
versos e musas.

J. Alberto de Oliveira

3.12.16

UM LENÇO DE POEIRA E SOL




Um dia houve um lenço de poeira e sol
que entrou pela janela mais pequena.

Era uma janela virada ao poente.

O lenço veio em contra-mão
e meteu-se pela inocência adentro

à deriva sem pés nem razão.

J. Alberto de Oliveira

22.11.16

UMA PEÇA DA VIDA




Nunca eu sei onde o coração dorme quando a noite se fecha, deslizando para dentro de si mesma.
Talvez ele durma, virado para o lado esquerdo, num palheiro da aldeia mais distante.

Avesso a ruídos e palavras fraudulentas, o coração apura a sua energia entre o silêncio branco e um rumor vermelho.
Sonha com cenas e profecias bíblicas.
É uma peça da vida ou, por assim dizer, o mais belo instrumento de cadências espirituais.

O coração lembra um animal de respiração atenta.

J. Alberto de Oliveira

10.11.16

OS MEUS LUGARES NO MUNDO




Os meus lugares no mundo são muito estranhos. De sítio em sítio porto-me como um nómada.
E de mais a mais, o imaginário leva-me para toda a parte, sem propósito nem documentos. Às vezes, lembro-me que estes papéis já perderam a validade ou que são falsos.

Que devo fazer?
Nada.

Os efeitos e as sombras do fogo enleiam-me na pele das águas.
Eu persisto nas inspirações furtivas, suspeitas, irreais, incertas.
Recebo-as como invencíveis. Devo-lhes muito.
São poéticas.

J. Alberto de Oliveira

30.10.16

A POEIRA INFLAMÁVEL




A poeira inflamável
das folhas do outono

induz-me a ficar
mais rente à vida.

O sopro em fogo
do ar em declive

ajusta-se ao júbilo
das folhas do outono.

O amor na língua
vegetal do vento

pede que me cubram
versos e pinhas a arder.

J. Alberto de Oliveira

18.10.16

OS ÚLTIMOS DEGRAUS




Sobe os últimos degraus
e abre a porta.

Acende o ângulo
mais firme da casa.

Recorta as lembranças
que deves ao sol.

Suspende o pensamento
nos limites da infância.

Celebra o silêncio
com as núpcias da nudez.

E nunca digas nada.
Não fales das tuas moradas.

J. Alberto de Oliveira

9.10.16

O EXERCÍCIO




Ficar em frente do mar às dezanove horas de um dia de Outubro não se explica.

Como tão pouco se entende o rochedo solitário do Lido, no Funchal, perdido no meio das águas, semelhante às figuras que me seduzem ou metem medo.

O exercício no horizonte do imaginário exige muito papel e tinta suficiente.

Para escrever, só me falta saber como se ressuscita, porque a morte é certa e certeira a qualquer momento.

Não sou activo. Se fosse, teria ido para ladrão ou polícia.
Eu sou contemplativo.

J. Alberto de Oliveira

1.10.16

EUCANÃA FERRAZ - A POESIA




[…] A poesia é um artigo de pouca circulação. (…) Ela é um bem de produção, digamos, artesanal. Embora circule em meios industrializados, como livros e jornais, e agora nos ambientes electrónicos.

[…] Todo o poema é um voto de pobreza. E isto nem tem a ver com algum tipo de elevação espiritual ou salvação da alma.

A capacidade de dizer muito com pouco.

A aspiração do poema é exactamente impor-se na sociedade do consumo e do luxo como um objecto essencial.

Gosto da poesia que tem a capacidade de tocar no essencial, no sentido em que nada sobra, em que há uma alta concentração. E eu gosto que essa concentração seja capaz de tocar emotivamente o leitor. Então, talvez a segunda qualidade seja  a sua capacidade de emocionar. Le Corbusier tem aquela célebre máxima que diz que a casa é uma máquina de emocionar, machine à emouvoir.

No poema Martelo eu digo:
o poema é ver
com lanternas
que cor é a cor
do escuro. 
Daí, procuro situar-me numa fronteira, sempre a martelar, martelar, a alegria, o amor, a tristeza, a raiva, o susto.

Eucanãa Ferraz (poeta brasileiro) – fragmentos de entrevistas

26.9.16

AUTO-RETRATO EM EXERCÍCIO




Olhos sedentos e pensativos.
Rosto sedentário e corrompido

por ventos marítimos.

J. Alberto de Oliveira

15.9.16

O SILÊNCIO E A POEIRA



O silêncio e a poeira
assentam nos devaneios

de anjos amantes
de vento e fogo posto.

Há um rumor de cores
que ninguém ouve.

Um ror de segredos
no horizonte

refaz as telas de Deus.

J. Alberto de Oiveira

7.9.16

DE LINHO E SETEMBRO




Do vir ao ir do vento e do sol
a substância de mim mesmo

se transmita em caligrafia
e memória.

Um lenço de linho e setembro
foi berço do meu nascer.

J. Alberto de Oliveira

29.8.16

IR EM CONTRA-VIDA




A escrita, em seu labor, começa a evidenciar
o perfil geral de mim.

Já estou a ir em contra-vida.

Zé, um raio de amor te parta!

J. Alberto de Oliveira

24.8.16

13.8.16

AS COROAS DA ALMA




Quando eu for embora
comigo levarei só

de meus versos
alguns recortes de pensar.

Coisas que não pesam
nem ocupam lugar.

As coroas da alma 

sem o selo do prémio
e sem palmas

ninguém as quer.

J. Alberto de Oliveira

8.8.16

OS SONS DA NATUREZA




Uma vez, os sons da natureza disseram a Deus:
– Nós damos-te o azul do silêncio. Dá-nos Bach.

E Johann Sebastian Bach à Música foi dado.

J. Alberto de Oliveira

29.7.16

SINAIS FURTIVOS



Quando me faltam os versos
penso em vozes amadas.

Ponho-me a contar insectos
e muitos sinais furtivos
que há nas folhas das árvores.

Também conto as pedras
que me luzem no caminho.

J. Alberto de Oliveira

19.7.16

RETRATO





O Pai ou, por assim dizer,                       
o aprumo da bondade, a elegância do silêncio,        
a realeza do olhar, o afecto intuitivo,
o vigor de ser, a postura digna, 
o acume da inteligência, o verbo justo e claro.
           
Também tu, oh Pai, és o meu anjo da guarda!

J. Alberto de Oliveira

12.7.16

A COTOVIA




À tardinha de um dia cheio de lembranças 
dei com uma cotovia presa
num emaranhado de silvas com amoras maduras 
em declive sobre o abismo.

Eu nada podia fazer.
Mas por sorte o ar 
num movimento súbito a desatou.

E a cotovia bateu as asas 
para ir livremente dormir não sei onde.

J. Alberto de Oliveira


2.7.16

VIOLONCELO DE GUILHERMINA SUGGIA




De névoa e púrpura salinas
luzem os temas de Guilhermina.

De espuma e linhos musicais
se avolumam seus dias de Matosinhos.

De névoa e púrpura salinas
são os primeiros sons

no violoncelo de Guilhermina Suggia.

J. Alberto de Oliveira

                       Desenho: Amadeo de Souza Cardoso - Guilhermina ao violoncelo e sua irmã Virgínia ao piano

19.6.16

O PONTO DE IMAGINAÇÃO




Se na escrita usamos diversos sinais de pontuação –
o ponto final, a vírgula, o ponto e virgula, o ponto de interrogação, os dois pontos, o travessão, as reticências, as aspas, o ponto de exclamação e o parêntesis –
por que é que não há o ponto de imaginação?

Nos textos de Maria Gabriela Llansol aparece muitas vezes o traço contínuo.
Sinal propício à imaginação? Possivelmente que sim.

J. Alberto de Oliveira
Imagem: página do livro O JOGO DA LIBERDADE DA ALMA - Maria Gabriela Llansol