21.5.18
20.5.18
O DESEJO DO VERBO
Ainda
não sei o que á a poesia.
Mas,
vou sabendo o que ela não é.
A
poesia não é um assunto ou um tratado. Não se ensina.
A
poesia lê-se. Ouve-se. Intui-se. Faz-se. Flui esteticamente.
A
poesia é de pouquíssima gente.
Os
poetas respiram, falam e ouvem com a imaginação.
Por meu lado, escrevo para
chegar às clareiras interiores da fala.
O vidro, a
vida e o vento deram-me inumeráveis
e magnificentíssimas palavras.
e magnificentíssimas palavras.
E, se de
repente, eu pudesse congregar
todos os vocábulos que ouvi, todas as frases que li,
todos os cantos e palavras que ritmaram o quotidiano?
todos os vocábulos que ouvi, todas as frases que li,
todos os cantos e palavras que ritmaram o quotidiano?
Há palavras
de silêncio e o silêncio deixado pelas palavras.
Afectos de
palavras e palavras aproximativas.
Palavras de
desprezo, de ruptura e palavras de aprumo.
Palavras de
conveniência, de angústia e dor,
palavras de adeus e palavras de liberdade.
Palavras de ordem e palavras de negação.
Palavras bem construídas
e palavras
deformadas ou viradas do avesso.
Através das
palavras o desejo do verbo expande-se.
J. Alberto de Oliveira
Imagem: A. Tapiès
10.5.18
DICIONÁRIO
Ao dicionário da alma e de suas lembranças eu fui
buscar algumas palavras:
A – água, amora, ave, anjo, alicerce, aliança,
areia, abrigo, amor, alegria, aprumo
B – beijo, barro, branco, belo, bondade, brandura
C – casa, cristal, coração, confiar, carícia, criança,
cal
D – dádiva, delicadeza, dom, delícia, deus, desejo,
degrau, doçura
E – escada, enleio, encontro, estrela
F – fruto, fonte, flor, fermento, fogo, frágil,
firme, folha, falar
G – gota, graça, gume
H – herança, haver, horto, hora
I – infância, imo, inocência, justo
J – julho, joelho, justo, jardim, jogo,
L – luz, leite, limpidez, linho, leveza, lume,
lâmpada
M – mar, mulher, melancolia, mel, murmúrio, música,
maresia, madeira
N – noite, nudez, nupcial, nome, névoa, neve, nuvem
O – ouro, orvalho, ombro, onda,
P – pulso, púrpura, pão, pedra, porta, puro,
pensamento, perfume, poema, pausa
Q – querer, quietude, quasi
R – romã, ressurreição, rosa, respirar, rosto, raiz
S – sangue, sede, silêncio, segredo, sonho, sentimento,
seio, ser, setembro, sal
T – terra, transparência, tangível, triste, tábua,
timbre, tocar
U – uva, umbral, escuro
V – vinho, verdade, vidro, vigília, vento, vórtice, ver
X – xuva de chuva, xamar de chamar
Z – zéfiro, zénite
J. Alberto de Oliveira
4.5.18
DAS MÃES
Há tempos comecei uma nova tarefa:
reunir as palavras
ditas pelas mães agarradas à
sonoridade exaltante dos filhos.
No meu caderno de papel almaço vou
anotando figuras,
pequenas imagens, frases silvestres,
metáforas altivas.
São textos que não publico nos jornais,
não escrevo na madeira,
não sarrabisco nos muros do mundo, não
soletro no escuro.
Transcrevo tudo o que a luz me dá a ver
no verbo das mães à mistura com as
profundezas de ser.
J. Alberto de Oliveira
Desenho - Alberto Péssimo
3.5.18
A MÚSICA
A música é um poderoso argumento para pensar.
O seu rigor liga-se à mais intuitiva sensibilidade.
Talvez a geometria da matéria seja musical.
J. Alberto de Oliveira
24.4.18
UMA FURTIVA CHAVE CEGA
Se nos
fecharem a porta
como saber
abri-la?
Eu direi que
só nos restam
os segredos
e a ferrugem
de uma furtiva
chave cega.
J. Alberto de Oliveira
14.4.18
AUTOPSICOGRAFIA - FERNANDO PESSOA
O
poeta é um fingidor.
Finge
tão completamente
Que
chega a fingir que é dor
A
dor que deveras sente.
E
os que lêem o que escreve,
Na
dor lida sentem bem,
Não
as duas que ele teve,
Mas
só a que eles não têm.
E
assim nas calhas de roda
Gira,
a entreter a razão,
Esse
comboio de corda
Que
se chama coração.
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa
Imagem: Foto – A. Machado – Fernando
Pessoa na entrada
do teatro Schauspielhaus
(Zurique) - Suíça
11.4.18
PALAVRA ERRANTE
Há
um poema que precisa
de
uma palavra
errante ou vagabunda.
Uma
palavra que minta
e
que nunca
ensine
coisa alguma.
Aquela
palavra que
não
seja roída pelas traças.
seja roída pelas traças.
J. Alberto de Oliveira
5.4.18
SÃO FRANCISCO DE ASSIS
São
Francisco de Assis
ao
princípio adoecia
em
febres e tristeza.
De
tropeção em tropeção
pedia
mais luz e alturas.
Finalmente
ouviu
um verso livre
e
apareceu todo nu.
J. Alberto de Oliveira
15.3.18
O ESSENCIAL DOS VERSOS
O tinteiro onde molho as penas de escrever está quase vazio.
É preciosa a tinta que ainda resta.
Devo poupar.
Escrever somente o essencial dos versos.
J. Alberto de Oliveira
8.3.18
BILHETE-POSTAL
Mãe,
onde quer que andes, onde quer que te sentes para as
tuas preces,
num banco deste mundo ou de outro, permanece
atenta a Deus e àquela formiga que vias a arrastar
para o celeiro
um grão de trigo maior que seu corpo inteiro.
J. Alberto de Oliveira
2.3.18
DA MÍSTICA GEOMETRIA
No
poema há sempre
um
outro poema.
Uma
substância branca
da
mística geometria.
É o primeiro verso
intuitivo
de Deus
que
a mão por temor
se recusa a escrever.
J. Alberto de Oliveira
24.2.18
DO CÂNTICO DOS CÂNTICOS
Atraída
pelo vórtice
do
cântico maior
um
dia
vieste dizer
ama e canta
ama e canta
as minhas lembranças.
Faz
de mim um sopro
de notícia viva
no calor da boca.de notícia viva
J. Alberto de Oliveira
14.2.18
UM SIMPLES SARRABISCO
O
amor
talvez
seja no todo imenso
um puro esboço.
Um
risco incerto
absorto
e
quase impreciso.
Antes
de ser casa ou palavra
o
amor talvez seja
um
simples sarrabisco.
J. Alberto de Oliveira
11.2.18
NASCER COM VERTIGENS
Quase
todos nascemos com vertigens de qualquer coisa.
Vertigens
do sossego ou do desassossego;
da
música ou do ruído.
Vertigens
da política ou da guerra;
do
divino ou do dinheiro.
Vertigens
do silêncio ou do poema;
do
eterno ou da finitude.
Vertigens
de orgias ou da ascese.
Quase
todos nascemos com influências
de
anjos ou demónios.
Porém,
muito simples e naturalmente há quem nasça
com
vertigens de nada.
J. Alberto de Oliveira
3.2.18
A NOITE NO MAR
A noite que me
adormece
deita-se no mar.
E sonha.
Sonha devagar
até vir o dia de
róseos dedos.
A noite no mar
é sete vezes
mais pequena
J. Alberto de Oliveira
25.1.18
O PENSAMENTO DE VER O LUME
Eu, mais pequeno
que tudo e maior que eu próprio,
comecei a travessia
com os olhos
postos num ponto que me levou para fora de mim.
Por sorte, ouvi
as palavras que a mãe, o pai, a vizinha
e a parteira
diziam da vida.
Mas, esqueci
tudo, adiando a aprendizagem.
Eu ouvia os sons
de ser um esboço de pauta verbal
que os pinhais, as
aves e o vento iam compondo para o futuro.
Afinal, o meu
interior é anterior a mim.
Quando nasci, eu
só queria o pensamento de ver o lume.
J. Alberto de Oliveira
15.1.18
UMA CANTIGA
Uma
cantiga inteligente
se
ouvia ao adormecer.
Era
uma cantiga
que
d’amor tan ben dizia.
Que
de meus segredos
e
do linho tanto sabia.
J. Alberto de Oliveira
Imagem: Antoni Tapiès
28.12.17
O MEU LUGAR
A minha vida herdou a verde colina, as leiras, os sulcos
de água corredia
e todos os declives.
Aqui transbordou a sina da minha natureza.
Foi Vermodium o meu lugar de fantasias e crescimento.
Aqui o sol do dia era bondoso e a lua da noite subia
reluzida.
Era um espaço bom para as minhas lembranças e sortes de
infância.
J. Alberto de Oliveira
23.12.17
FULGURÂNCIAS
O fervor da mão acende o pavio
como se acendesse a noite escura.
O poeta escreve
como se escrevesse para longe.
Uma criança absorta fala
como se falasse o idioma da chuva.
E os anjos voam
como se voassem para sítio nenhum.
J. Aberto de Oliveira
19.12.17
MÁRIO CESARINY - Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas
te encontro
In
tutte le strade ti incontro
em todas as ruas
te perco
in
tutte le strade ti perdo
conheço tão bem
o teu corpo
conosco
così bene il tuo corpo
sonhei tanto a tua figura
sonhei tanto a tua figura
ho
sognato tanto la tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
que é de olhos fechados que eu ando
che
è con gli occhi chiusi che io cammino
a limitar a tua altura
a limitar a tua altura
delimitando
la tua alteza
e bebo a água e
sorvo o ar
e
bevo l'acqua e succhio l'aria
que te atravessou a cintura
que te atravessou a cintura
che
ti ha attraversato la cintura
tanto tão perto tão real
tanto tão perto tão real
così
vicino così reale
que o meu corpo se transfigura
que o meu corpo se transfigura
che
il mio corpo si trasfigura
e toca o seu próprio elemento
e toca o seu próprio elemento
e
tocca il suo proprio elemento
num corpo que já não é seu
num corpo que já não é seu
in
un corpo che già non è suo
num rio que desapareceu
num rio que desapareceu
in
un fiume scomparso
onde um braço teu me procura
onde um braço teu me procura
dove
un tuo braccio mi cerca
Em todas as ruas
te encontro
In
tutte le strade ti incontro
em todas as ruas
te perco
in
tutte le strade ti perdo
Mário
Cesariny, in "Pena Capital"
Tradução
italiana: Maria Bochichio
16.12.17
UMA VOZ DE LEMBRANÇAS
Quando os sustos
do mundo se calam
o espírito e a língua
são mais que musicais.
Tornam-se profundas
na fala todas as linhas.
Uma voz de lembranças
paira dentro de mim.
J. Alberto de Oliveira
10.12.17
SONS DO PIANO
Ouvir
o piano a expandir
a natureza de sons que nem imagino
J. Alberto de Oliveira
3.12.17
EM TONS PERFEITOS
Junte-se à lua inteira
o sopro de ler o mundo
em tons perfeitos.
A lua sobre o mar
é de espuma ou poeira?
Junte-se à lua no mar
o diamantino apuro
J. Alberto de Oliveira
6.11.17
EUGÉNIO DE ANDRADE
OS PRIVILÉGIOS
DA POESIA
para Eugénio de
Andrade
Quando
falava seu rosto
alumiava
o próprio nome.
Ditava
segredos
difíceis
de escrever.
Soletrava
muito devagar
mas
eu nada entendia.
Com
leveza recitava
um
não sei quê.
O
que seu rosto dizia
talvez
fossem
os
privilégios da poesia.
J. Alberto de Oliveira
Imagem: Eugénio de Andrade por Jorge Ulisses (1980)
Imagem: Eugénio de Andrade por Jorge Ulisses (1980)
2.11.17
POR DENTRO DO OUTONO
As folhas esvoaçam
umas com as outras
por dentro do outono.
Com pequenas frases
de segredos e música
as folhas esvoaçam.
Difundem no mundo
o sustento da palavra.
Inteiro e diamantino
alastra o dialecto
de folhas amadas.
Difundem no mundo
o sustento da palavra.
Inteiro e diamantino
alastra o dialecto
de folhas amadas.
J. Alberto de Oliveira
24.10.17
SE O VENTO ME LEVAR
Se o vento
me levar
onde queres
que deixe
uma citação
do olhar?
Se o vento
me perder
onde queres
um recorte
J. Alberto de Oliveira
7.10.17
O POETA SOLAR
S. Francisco
de Assis lia com alegria perfeita todas as horas da vida.
Ele sabia,
por exemplo, que nascer, viver e morrer são dons e poesia.
O princípio
do poeta é ler-se inteiro na sua própria nudez.
O Santo de
Assis respirava e louvava a luz solar.
A elegância
interior de S. Francisco de Assis expandia-se para fora de si mesmo, para além do
universo e da alegria
Francisco é
muito difícil porque excessivamente poeta.
É um jogral.
De Assis,
bem-vindas sejam todas as correntes de ar.
Francisco, o
poeta solar, seja louvado com o mesmo louvor das suas falas com Deus e com todas
as criaturas.
S. Francisco
de Assis cantava os laços afectivos do universo.
Exultava em
fraternura.
J. Alberto de Oliveira
Imagem: Capa do livro foi publicado por LETRAS & COISAS, 2017
Rua
Padre Manuel Teixeira de Melo,33, Bloco D-1ºC
4455-116
– Lavra-Portugal
Telef./Fax:
+351309933933 – www.letrasecoisas.pt
E-mail: email@letrasecoisas.pt
3.10.17
POST-SCRIPTUM
POST-SCRIPTUM
PARA
O SANTO POETA DE ASSIS
Amava e não escrevia.
Soletrava com Deus.
Dizia segredos de si para si.
Falava com todas as criaturas
dobrando os efeitos
da perfeita alegria.
Entoava louvores
como quem anda à procura.
O Santo de Assis andarilhava
caminhando e divagando.
No coração de Francisco
se abria dia após dia
um abrigo para alguém entrar.
J. Alberto de Oliveira
24.9.17
UM PONTO VORAZ
Um
ponto voraz
de
asas e pó.
Um
lugar de iluminura
e
de meias palavras.
O
horizonte rubro
de
sol
J. Alberto de Oliveira
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