20.5.18

O DESEJO DO VERBO





Ainda não sei o que á a poesia.
Mas, vou sabendo o que ela não é.
A poesia não é um assunto ou um tratado. Não se ensina.
A poesia lê-se. Ouve-se. Intui-se. Faz-se. Flui esteticamente.
A poesia é de pouquíssima gente.

Os poetas respiram, falam e ouvem com a imaginação.
Por meu lado, escrevo para chegar às clareiras interiores da fala.
O vidro, a vida e o vento deram-me inumeráveis 
e magnificentíssimas palavras.
E, se de repente, eu pudesse congregar 
todos os vocábulos que ouvi, todas as frases que li, 
todos os cantos e palavras que ritmaram o quotidiano?

Há palavras de silêncio e o silêncio deixado pelas palavras.
Afectos de palavras e palavras aproximativas. 
Palavras de desprezo, de ruptura e palavras de aprumo.
Palavras de conveniência, de angústia e dor, 
palavras de adeus e palavras de liberdade. 
Palavras de ordem e palavras de negação. 
Palavras bem construídas
e palavras deformadas ou viradas do avesso.

Através das palavras o desejo do verbo expande-se.

J. Alberto de Oliveira

Imagem:  A. Tapiès

10.5.18

DICIONÁRIO





Ao dicionário da alma e de suas lembranças eu fui buscar algumas palavras:
A – água, amora, ave, anjo, alicerce, aliança, areia, abrigo, amor, alegria, aprumo
B – beijo, barro, branco, belo, bondade, brandura
C – casa, cristal, coração, confiar, carícia, criança, cal
D – dádiva, delicadeza, dom, delícia, deus, desejo, degrau, doçura
E – escada, enleio, encontro, estrela
F – fruto, fonte, flor, fermento, fogo, frágil, firme, folha, falar
G – gota, graça, gume
H – herança, haver, horto, hora
I – infância, imo, inocência, justo
J – julho, joelho, justo, jardim, jogo,
L – luz, leite, limpidez, linho, leveza, lume, lâmpada
M – mar, mulher, melancolia, mel, murmúrio, música, maresia, madeira
N – noite, nudez, nupcial, nome, névoa, neve, nuvem
O – ouro, orvalho, ombro, onda,
P – pulso, púrpura, pão, pedra, porta, puro, pensamento, perfume, poema, pausa
Q – querer, quietude, quasi
R – romã, ressurreição, rosa, respirar, rosto, raiz
S – sangue, sede, silêncio, segredo, sonho, sentimento, seio, ser, setembro, sal
T – terra, transparência, tangível, triste, tábua, timbre, tocar
U – uva, umbral, escuro
V – vinho, verdade, vidro, vigília, vento, vórtice, ver
X – xuva de chuva, xamar de chamar
Z – zéfiro, zénite

J. Alberto de Oliveira

4.5.18

DAS MÃES





Há tempos comecei uma nova tarefa: reunir as palavras
ditas pelas mães agarradas à sonoridade exaltante dos filhos.

No meu caderno de papel almaço vou anotando figuras,
pequenas imagens, frases silvestres, metáforas altivas.

São textos que não publico nos jornais, não escrevo na madeira,
não sarrabisco nos muros do mundo, não soletro no escuro.

Transcrevo tudo o que a luz me dá a ver
no verbo das mães à mistura com as profundezas de ser.

J. Alberto de Oliveira


Desenho - Alberto Péssimo

3.5.18

A MÚSICA





A música é um poderoso argumento para pensar.
O seu rigor liga-se à mais intuitiva sensibilidade.
Talvez a geometria da matéria seja musical.

J. Alberto de Oliveira

24.4.18

UMA FURTIVA CHAVE CEGA





Se nos fecharem a porta
como saber abri-la?

Eu direi que só nos restam
os segredos e a ferrugem

de uma furtiva chave cega.

J. Alberto de Oliveira

14.4.18

AUTOPSICOGRAFIA - FERNANDO PESSOA





O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa


Imagem: Foto – A. Machado – Fernando Pessoa na entrada 
do teatro Schauspielhaus (Zurique) - Suíça







11.4.18

PALAVRA ERRANTE




Há um poema que precisa
de uma palavra

errante ou vagabunda.

Uma palavra que minta
e que nunca

ensine coisa alguma.

Aquela palavra que não 
seja roída pelas traças.

J. Alberto de Oliveira



5.4.18

SÃO FRANCISCO DE ASSIS






São Francisco de Assis
ao princípio adoecia

em febres e tristeza.

De tropeção em tropeção
pedia mais luz e alturas.

Finalmente
ouviu um verso livre

e apareceu todo nu.

J. Alberto de Oliveira

15.3.18

O ESSENCIAL DOS VERSOS





O tinteiro onde molho as penas de escrever está quase vazio.
É preciosa a tinta que ainda resta.
Devo poupar.
Escrever somente o essencial dos versos.

J. Alberto de Oliveira

8.3.18

BILHETE-POSTAL





Mãe,
onde quer que andes, onde quer que te sentes para as tuas preces,
num banco deste mundo ou de outro, permanece
atenta a Deus e àquela formiga que vias a arrastar para o celeiro
um grão de trigo maior que seu corpo inteiro.

J. Alberto de Oliveira

2.3.18

DA MÍSTICA GEOMETRIA





No poema há sempre
um outro poema.

Uma substância branca
da mística geometria.

É o primeiro verso
intuitivo de Deus

que a mão por temor
se recusa a escrever.

J. Alberto de Oliveira

24.2.18

DO CÂNTICO DOS CÂNTICOS





Atraída pelo vórtice
do cântico maior

um dia
vieste dizer

ama e canta
as minhas lembranças.

Faz de mim um sopro
de notícia viva

no calor da boca.

J. Alberto de Oliveira

14.2.18

UM SIMPLES SARRABISCO





O amor
talvez seja no todo imenso

um puro esboço.

Um risco incerto
absorto

e quase impreciso.

Antes de ser casa ou palavra
o amor talvez seja

um simples sarrabisco.

J. Alberto de Oliveira

11.2.18

NASCER COM VERTIGENS





Quase todos nascemos com vertigens de qualquer coisa.
Vertigens do sossego ou do desassossego;
da música ou do ruído.
Vertigens da política ou da guerra;
do divino ou do dinheiro.
Vertigens do silêncio ou do poema;
do eterno ou da finitude.
Vertigens de orgias ou da ascese.
Quase todos nascemos com influências
de anjos ou demónios.
Porém, muito simples e naturalmente há quem nasça
com vertigens de nada.

J. Alberto de Oliveira

3.2.18

A NOITE NO MAR




A noite que me adormece
deita-se no mar.

E sonha.

Sonha devagar
até vir o dia de róseos dedos.

A noite no mar
é sete vezes mais pequena

que sete pinhas acesas. 

J. Alberto de Oliveira

25.1.18

O PENSAMENTO DE VER O LUME




Eu, mais pequeno que tudo e maior que eu próprio, 
comecei a travessia
com os olhos postos num ponto que me levou para fora de mim.
Por sorte, ouvi as palavras que a mãe, o pai, a vizinha
e a parteira diziam da vida.
Mas, esqueci tudo, adiando a aprendizagem.
Eu ouvia os sons de ser um esboço de pauta verbal
que os pinhais, as aves e o vento iam compondo para o futuro.
Afinal, o meu interior é anterior a mim.
Quando nasci, eu só queria o pensamento de ver o lume.

J. Alberto de Oliveira

15.1.18

UMA CANTIGA




Uma cantiga inteligente
se ouvia ao adormecer.

Era uma cantiga
que d’amor tan ben dizia.

Que de meus segredos
e do linho tanto sabia. 

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Antoni Tapiès

28.12.17

O MEU LUGAR




A minha vida herdou a verde colina, as leiras, os sulcos de água corredia
e todos os declives.
Aqui transbordou a sina da minha natureza.

Foi Vermodium o meu lugar de fantasias e crescimento.
Aqui o sol do dia era bondoso e a lua da noite subia reluzida.
Era um espaço bom para as minhas lembranças e sortes de infância.

J. Alberto de Oliveira

23.12.17

FULGURÂNCIAS



O fervor da mão acende o pavio
como se acendesse a noite escura.

O poeta escreve
como se escrevesse para longe.

Uma criança absorta fala
como se falasse o idioma da chuva.

E os anjos voam
como se voassem para sítio nenhum.

J. Aberto de Oliveira

19.12.17

MÁRIO CESARINY - Em todas as ruas te encontro




Em todas as ruas te encontro
In tutte le strade ti incontro
em todas as ruas te perco 
in tutte le strade ti perdo

conheço tão bem o teu corpo
conosco così bene il tuo corpo
sonhei tanto a tua figura
ho sognato tanto la tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
che è con gli occhi chiusi che io cammino
a limitar a tua altura
delimitando la tua alteza
e bebo a água e sorvo o ar
e bevo l'acqua e succhio l'aria
que te atravessou a cintura
che ti ha attraversato la cintura
tanto tão perto tão real
così vicino così reale
que o meu corpo se transfigura
che il mio corpo si trasfigura
e toca o seu próprio elemento 
e tocca il suo proprio elemento
num corpo que já não é seu 
in un corpo che già non è suo
num rio que desapareceu
in un fiume scomparso 
onde um braço teu me procura
dove un tuo braccio mi cerca 

Em todas as ruas te encontro
In tutte le strade ti incontro
em todas as ruas te perco 
in tutte le strade ti perdo


Mário Cesariny, in "Pena Capital"


Tradução italiana: Maria Bochichio

16.12.17

UMA VOZ DE LEMBRANÇAS




Quando os sustos
do mundo se calam

o espírito e a língua
são mais que musicais.

Tornam-se profundas
na fala todas as linhas.

Uma voz de lembranças
paira dentro de mim.

J. Alberto de Oliveira

10.12.17

SONS DO PIANO



Ouvir o piano a expandir
a natureza de sons que nem imagino

faz de mim uma folha do silêncio à deriva.

J. Alberto de Oliveira

3.12.17

EM TONS PERFEITOS




Junte-se à lua inteira
o sopro de ler o mundo

em tons perfeitos.

A lua sobre o mar
é de espuma ou poeira?

Junte-se à lua no mar
o diamantino apuro

da alma em letra pura.

J. Alberto de Oliveira

6.11.17

EUGÉNIO DE ANDRADE




OS PRIVILÉGIOS DA POESIA
para Eugénio de Andrade


Quando falava seu rosto
alumiava o próprio nome.

Ditava segredos
difíceis de escrever.

Soletrava muito devagar
mas eu nada entendia.

Com leveza recitava
um não sei quê.

O que seu rosto dizia
talvez fossem

os privilégios da poesia.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Eugénio de Andrade por Jorge Ulisses (1980) 

2.11.17

POR DENTRO DO OUTONO




As folhas esvoaçam
umas com as outras

por dentro do outono.

Com pequenas frases
de segredos e música

as folhas esvoaçam. 

Difundem no mundo 
o sustento da palavra.

Inteiro e diamantino

alastra o dialecto 
de folhas amadas.


J. Alberto de Oliveira

24.10.17

SE O VENTO ME LEVAR




Se o vento me levar
onde queres que deixe 

uma citação do olhar?

Se o vento me perder
onde queres um recorte

de puro linho verbal?

J. Alberto de Oliveira

7.10.17

O POETA SOLAR




S. Francisco de Assis lia com alegria perfeita todas as horas da vida.
Ele sabia, por exemplo, que nascer, viver e morrer são dons e poesia.

O princípio do poeta é ler-se inteiro na sua própria nudez.
O Santo de Assis respirava e louvava a luz solar.

A elegância interior de S. Francisco de Assis expandia-se para fora de si mesmo, para além do universo e da alegria
           
Francisco é muito difícil porque excessivamente poeta.
É um jogral.
           
De Assis, bem-vindas sejam todas as correntes de ar.

Francisco, o poeta solar, seja louvado com o mesmo louvor das suas falas com Deus e com todas as criaturas.
S. Francisco de Assis cantava os laços afectivos do universo.
Exultava em fraternura.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Capa do livro foi publicado por LETRAS & COISAS, 2017
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3.10.17

POST-SCRIPTUM




POST-SCRIPTUM
PARA
O SANTO POETA DE ASSIS
                       

Amava e não escrevia.
Soletrava com Deus.
Dizia segredos de si para si.
Falava com todas as criaturas
dobrando os efeitos
da perfeita alegria.
                       
Entoava louvores
como quem anda à procura.
O Santo de Assis andarilhava
caminhando e divagando.
                       
No coração de Francisco
se abria dia após dia 
um abrigo para alguém entrar.

J. Alberto de Oliveira

24.9.17

UM PONTO VORAZ




Um ponto voraz
de asas e pó.

Um lugar de iluminura
e de meias palavras.

O horizonte rubro
de sol

no extremo do mar.

J. Alberto de Oliveira

15.9.17

NUNCA ESTOU SÓ





Nunca estou só.
Há sempre alguém que ama 
que adivinha 
que se move para mim
desde que eu não esteja fora.

O murmulho da água,
em queda lenta e livre 
no tanque das noites lunares
ainda é a vocação primordial.

Ainda me inspira 
desenha e soletra devagar.

J. A. de Oliveira

22.8.17

REGRA GERAL




Regra geral, a grande notícia é a desgraça do vizinho.
Também é muito badalado o rumor que sustenta uma lenda nova,
aguçando a curiosidade.
Por sua vez, tudo o que enriquece o desenvolvimento ou estimula
a aprendizagem cansa.
Pensar ou ler o mais profundo
incomoda.

No tic-tac recitativo do tempo, cego e voraz, 
a melhor parte da vida talvez
seja a verdade que só aparece nos intervalos do amor real 
ou do amor sonhado.

J. Alberto de Oliveira