3.2.18

A NOITE NO MAR




A noite que me adormece
deita-se no mar.

E sonha.

Sonha devagar
até vir o dia de róseos dedos.

A noite no mar
é sete vezes mais pequena

que sete pinhas acesas. 

J. Alberto de Oliveira

25.1.18

O PENSAMENTO DE VER O LUME




Eu, mais pequeno que tudo e maior que eu próprio, 
comecei a travessia
com os olhos postos num ponto que me levou para fora de mim.
Por sorte, ouvi as palavras que a mãe, o pai, a vizinha
e a parteira diziam da vida.
Mas, esqueci tudo, adiando a aprendizagem.
Eu ouvia os sons de ser um esboço de pauta verbal
que os pinhais, as aves e o vento iam compondo para o futuro.
Afinal, o meu interior é anterior a mim.
Quando nasci, eu só queria o pensamento de ver o lume.

J. Alberto de Oliveira

15.1.18

UMA CANTIGA




Uma cantiga inteligente
se ouvia ao adormecer.

Era uma cantiga
que d’amor tan ben dizia.

Que de meus segredos
e do linho tanto sabia. 

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Antoni Tapiès

28.12.17

O MEU LUGAR




A minha vida herdou a verde colina, as leiras, os sulcos de água corredia
e todos os declives.
Aqui transbordou a sina da minha natureza.

Foi Vermodium o meu lugar de fantasias e crescimento.
Aqui o sol do dia era bondoso e a lua da noite subia reluzida.
Era um espaço bom para as minhas lembranças e sortes de infância.

J. Alberto de Oliveira

23.12.17

FULGURÂNCIAS



O fervor da mão acende o pavio
como se acendesse a noite escura.

O poeta escreve
como se escrevesse para longe.

Uma criança absorta fala
como se falasse o idioma da chuva.

E os anjos voam
como se voassem para sítio nenhum.

J. Aberto de Oliveira

19.12.17

MÁRIO CESARINY - Em todas as ruas te encontro




Em todas as ruas te encontro
In tutte le strade ti incontro
em todas as ruas te perco 
in tutte le strade ti perdo

conheço tão bem o teu corpo
conosco così bene il tuo corpo
sonhei tanto a tua figura
ho sognato tanto la tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
che è con gli occhi chiusi che io cammino
a limitar a tua altura
delimitando la tua alteza
e bebo a água e sorvo o ar
e bevo l'acqua e succhio l'aria
que te atravessou a cintura
che ti ha attraversato la cintura
tanto tão perto tão real
così vicino così reale
que o meu corpo se transfigura
che il mio corpo si trasfigura
e toca o seu próprio elemento 
e tocca il suo proprio elemento
num corpo que já não é seu 
in un corpo che già non è suo
num rio que desapareceu
in un fiume scomparso 
onde um braço teu me procura
dove un tuo braccio mi cerca 

Em todas as ruas te encontro
In tutte le strade ti incontro
em todas as ruas te perco 
in tutte le strade ti perdo


Mário Cesariny, in "Pena Capital"


Tradução italiana: Maria Bochichio

16.12.17

UMA VOZ DE LEMBRANÇAS




Quando os sustos
do mundo se calam

o espírito e a língua
são mais que musicais.

Tornam-se profundas
na fala todas as linhas.

Uma voz de lembranças
paira dentro de mim.

J. Alberto de Oliveira

10.12.17

SONS DO PIANO



Ouvir o piano a expandir
a natureza de sons que nem imagino

faz de mim uma folha do silêncio à deriva.

J. Alberto de Oliveira

3.12.17

EM TONS PERFEITOS




Junte-se à lua inteira
o sopro de ler o mundo

em tons perfeitos.

A lua sobre o mar
é de espuma ou poeira?

Junte-se à lua no mar
o diamantino apuro

da alma em letra pura.

J. Alberto de Oliveira

6.11.17

EUGÉNIO DE ANDRADE




OS PRIVILÉGIOS DA POESIA
para Eugénio de Andrade


Quando falava seu rosto
alumiava o próprio nome.

Ditava segredos
difíceis de escrever.

Soletrava muito devagar
mas eu nada entendia.

Com leveza recitava
um não sei quê.

O que seu rosto dizia
talvez fossem

os privilégios da poesia.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Eugénio de Andrade por Jorge Ulisses (1980) 

2.11.17

POR DENTRO DO OUTONO




As folhas esvoaçam
umas com as outras

por dentro do outono.

Com pequenas frases
de segredos e música

as folhas esvoaçam. 

Difundem no mundo 
o sustento da palavra.

Inteiro e diamantino

alastra o dialecto 
de folhas amadas.


J. Alberto de Oliveira

24.10.17

SE O VENTO ME LEVAR




Se o vento me levar
onde queres que deixe 

uma citação do olhar?

Se o vento me perder
onde queres um recorte

de puro linho verbal?

J. Alberto de Oliveira

7.10.17

O POETA SOLAR




S. Francisco de Assis lia com alegria perfeita todas as horas da vida.
Ele sabia, por exemplo, que nascer, viver e morrer são dons e poesia.

O princípio do poeta é ler-se inteiro na sua própria nudez.
O Santo de Assis respirava e louvava a luz solar.

A elegância interior de S. Francisco de Assis expandia-se para fora de si mesmo, para além do universo e da alegria
           
Francisco é muito difícil porque excessivamente poeta.
É um jogral.
           
De Assis, bem-vindas sejam todas as correntes de ar.

Francisco, o poeta solar, seja louvado com o mesmo louvor das suas falas com Deus e com todas as criaturas.
S. Francisco de Assis cantava os laços afectivos do universo.
Exultava em fraternura.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Capa do livro foi publicado por LETRAS & COISAS, 2017
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3.10.17

POST-SCRIPTUM




POST-SCRIPTUM
PARA
O SANTO POETA DE ASSIS
                       

Amava e não escrevia.
Soletrava com Deus.
Dizia segredos de si para si.
Falava com todas as criaturas
dobrando os efeitos
da perfeita alegria.
                       
Entoava louvores
como quem anda à procura.
O Santo de Assis andarilhava
caminhando e divagando.
                       
No coração de Francisco
se abria dia após dia 
um abrigo para alguém entrar.

J. Alberto de Oliveira

24.9.17

UM PONTO VORAZ




Um ponto voraz
de asas e pó.

Um lugar de iluminura
e de meias palavras.

O horizonte rubro
de sol

no extremo do mar.

J. Alberto de Oliveira

15.9.17

NUNCA ESTOU SÓ





Nunca estou só.
Há sempre alguém que ama 
que adivinha 
que se move para mim
desde que eu não esteja fora.

O murmulho da água,
em queda lenta e livre 
no tanque das noites lunares
ainda é a vocação primordial.

Ainda me inspira 
desenha e soletra devagar.

J. A. de Oliveira

22.8.17

REGRA GERAL




Regra geral, a grande notícia é a desgraça do vizinho.
Também é muito badalado o rumor que sustenta uma lenda nova,
aguçando a curiosidade.
Por sua vez, tudo o que enriquece o desenvolvimento ou estimula
a aprendizagem cansa.
Pensar ou ler o mais profundo
incomoda.

No tic-tac recitativo do tempo, cego e voraz, 
a melhor parte da vida talvez
seja a verdade que só aparece nos intervalos do amor real 
ou do amor sonhado.

J. Alberto de Oliveira

29.7.17

PELA ESCADA ALTA




Ainda tenho comigo as afectuosas raízes
que me transmitem vida e significância.

Desci ao meio da noite
pela escada alta

que liga o chão ao firmamento.

Da mesma forma que uma folha de tília
cai nas águas corredias

em verso 
eu me copio na arte dos ventos.

E assim me quero.

Tanto mais isento
quanto mais leve

para sair do tempo.

J. Alberto de Oliveira

21.7.17

UNS PASSOS MAIS ADIANTE




Sem lembranças eu sou mais cego
que um nó.

E sem as raízes do afecto
sou pior

que um cisco nos meus olhos.

Com os pés nus
pensativo e descalço

eu digo a palavra Pai
e dou uns passos mais adiante.


J. Alberto de Oliveira 

Imagem: A. Tapiès

10.7.17

ANTÓNIO NOBRE EM LEÇA DA PALMEIRA




António Nobre fugia para o mar e tinha visões das terras de Leça.
Em terra tinha visões do mar e do mais longe.

Foi para Coimbra e teve imensas visões 
da infância e de Leça da Palmeira.

Foi para Paris e teve as melhores visões da Lusitânia.

Era um vagabundo, um andarilho raro, sem colo
e sem uma almofada onde se reclinar.

Anto apenas tinha dele próprio o Só.

J. Alberto de Oliveira