13.3.17

VARIAÇÕES GOLDBERG




Trinta e dois tempos
musicais

fluindo em consonância.

A firme natureza
da geometria tem cor.

A alma vê-se.

J. Alberto de Oliveira

26.2.17

PROVÉRBIO




Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.
Provérbio

Mais vale uma só mão a voar do que dois pássaros.
Herberto Helder

Mais vale um pássaro na mão do que duas mãos a voar.
J. Alberto de Oliveira


Pintura: "Menina com Pomba" - Pablo Picasso

17.2.17

DO AMOR EM FOGO DE AMORES




Quanto pesa o fulgor
de uma camélia de luz?

Todas as criaturas
respiram o seu próprio nome.

No ar perduram os sinais
do amor em fogo de amores.

J. Alberto de Oliveira

8.2.17

O CÂNTICO DAS CRIATURAS




S. Francisco de Assis no fim de seus dias
soletrou versos cantantes.
Resumiu em poucas e simples palavras a boa nova da criação.
Ditou de cor ao mundo o Cântico das Criaturas.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Alberto Péssimo

1.2.17

TODO VIRADO PELO AVESSO




Um dia quero ainda ver-me
do mesmo modo que Deus me vê

todo virado pelo avesso.

J. Alberto de Oliveira

21.1.17

A MULHER E A POMBA




Domingo de inverno coberto de sol vivo.
Uma pomba, no meio da rua, 
debica nacos de pão, desfazendo-os em migalhas.
Aproxima-se um automóvel de alta cilindrada 
conduzido por uma mulher.                                     

A condutora, vendo a ave, acelera.
Não fora a pomba uma criatura avisada, pacífica e lesta,
e morreria ali no asfalto, entre as migalhas do seu sustento.
Eu estremeci por dentro de mim próprio,
dizendo "putain de monde", que é o da mulher e de seu automóvel.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Cartaz concebido por Pablo Picasso (1881–1973) para o Primeiro Congresso Mundial dos Partidários da Paz

13.1.17

O TIC-TAC RECITATIVO




Há muitos e muitos anos, veio ao mundo um menino, cujo pai ao vê-lo nascer, correu à relojoaria mais próxima e comprou um despertador para que a mãe desse de mamar ao seu primeiro bebé a horas certas da noite.
Trouxe um Petrax.
Ainda se fabrica esta marca de despertadores suíços?

O menino cresceu, aprendendo palavras e suas letras,
Um dia escreveu uma redacção, pensando no Petrax, que lá está em casa, numa estante de livros, repetindo ao longo de muitos e muitos minutos o seu tic-tac recitativo.


Quando nasci, o Petrax tornou-se o autor de futuras horas e minutos.
Ainda hoje o seu tic-tac é firme e robusto.
À força de afectos e palavras, merece a bonita soma de uma idade altiva.
Enquanto a ciência da mecânica lhe conferia
o pulsar inocente, vivo, paciente e ritmado, o seu mostrador envelhecia.
Colaram-se a ele massas de luz e sombras.
Inumeráveis cenas poéticas, adjacentes ao tempo medido,
transmitiram-lhe o tom sépia das coisas santificadas.
Fora e dentro do sono, o Petrax é uma preciosa
acumulação de segredos e memórias.
Fora e dentro do silêncio, ressoam lembranças
consonantes com o tic-tac recitativo do Petrax doado à minha infância.


J. Alberto de Oliveira

11.1.17

UM NÓ-SER




Enquanto não chega a hora
do clarão

a vida é deveras perigosa.

As mais das vezes viver
é um difícil e duro nó-ser.

J. Alberto de Oliveira

2.1.17

A POESIA E A MÚSICA



Eu sei que o mundo é turvo. E o precário define-se pela condição de existir.
Mas também eu sei que a poesia e a música não se compram nem “se pedem como esmola”, diria J. S. Bach.
A  música e os poemas fluem para ser dados à inteligência mais intuitiva.

É verdade que o mundo me desvia de tudo o que seria delicadissimamente claro, divino, exacto e musical.

Não obstante, ainda sobra o sol que, depois de uma frente fria de chuva, transforma a paisagem num corpo de vibrações, de azul e claridade.

J. Alberto de OLiveira

22.12.16

A GRUTA




A gruta profunda
serviu de abrigo ao poeta.

Um lugar ascético.

A gruta fora do mundo
verídica e primordial.

No recanto do escuro
o tema perdura

quase e talvez imaterial.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Gruta do Convento Franciscano de S.Bernardino de Sena – Câmara de Lobos - Madeira



17.12.16

UMA PEQUENINA LUZ BRUXULEANTE - Jorge de Sena



Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.

Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.

Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge de Sena

Fotografia: Carlos de Oliveira

10.12.16

AQUELA NUVEM DE ANJOS




Às vezes peço ao azul do mundo
a nuvem mais alta e branca.

A nuvem das coisas
que eu nem sonho.

Das evidências musicais
pensamento e assombros.

A nuvem de tantas lembranças
devaneios e dúvidas.

Aquela nuvem de anjos
versos e musas.

J. Alberto de Oliveira

3.12.16

UM LENÇO DE POEIRA E SOL




Um dia houve um lenço de poeira e sol
que entrou pela janela mais pequena.

Era uma janela virada ao poente.

O lenço veio em contra-mão
e meteu-se pela inocência adentro

à deriva sem pés nem razão.

J. Alberto de Oliveira

22.11.16

UMA PEÇA DA VIDA




Nunca eu sei onde o coração dorme quando a noite se fecha, deslizando para dentro de si mesma.
Talvez ele durma, virado para o lado esquerdo, num palheiro da aldeia mais distante.

Avesso a ruídos e palavras fraudulentas, o coração apura a sua energia entre o silêncio branco e um rumor vermelho.
Sonha com cenas e profecias bíblicas.
É uma peça da vida ou, por assim dizer, o mais belo instrumento de cadências espirituais.

O coração lembra um animal de respiração atenta.

J. Alberto de Oliveira

10.11.16

OS MEUS LUGARES NO MUNDO




Os meus lugares no mundo são muito estranhos. De sítio em sítio porto-me como um nómada.
E de mais a mais, o imaginário leva-me para toda a parte, sem propósito nem documentos. Às vezes, lembro-me que estes papéis já perderam a validade ou que são falsos.

Que devo fazer?
Nada.

Os efeitos e as sombras do fogo enleiam-me na pele das águas.
Eu persisto nas inspirações furtivas, suspeitas, irreais, incertas.
Recebo-as como invencíveis. Devo-lhes muito.
São poéticas.

J. Alberto de Oliveira

30.10.16

A POEIRA INFLAMÁVEL




A poeira inflamável
das folhas do outono

induz-me a ficar
mais rente à vida.

O sopro em fogo
do ar em declive

ajusta-se ao júbilo
das folhas do outono.

O amor na língua
vegetal do vento

pede que me cubram
versos e pinhas a arder.

J. Alberto de Oliveira

18.10.16

OS ÚLTIMOS DEGRAUS




Sobe os últimos degraus
e abre a porta.

Acende o ângulo
mais firme da casa.

Recorta as lembranças
que deves ao sol.

Suspende o pensamento
nos limites da infância.

Celebra o silêncio
com as núpcias da nudez.

E nunca digas nada.
Não fales das tuas moradas.

J. Alberto de Oliveira

9.10.16

O EXERCÍCIO




Ficar em frente do mar às dezanove horas de um dia de Outubro não se explica.

Como tão pouco se entende o rochedo solitário do Lido, no Funchal, perdido no meio das águas, semelhante às figuras que me seduzem ou metem medo.

O exercício no horizonte do imaginário exige muito papel e tinta suficiente.

Para escrever, só me falta saber como se ressuscita, porque a morte é certa e certeira a qualquer momento.

Não sou activo. Se fosse, teria ido para ladrão ou polícia.
Eu sou contemplativo.

J. Alberto de Oliveira

1.10.16

EUCANÃA FERRAZ - A POESIA




[…] A poesia é um artigo de pouca circulação. (…) Ela é um bem de produção, digamos, artesanal. Embora circule em meios industrializados, como livros e jornais, e agora nos ambientes electrónicos.

[…] Todo o poema é um voto de pobreza. E isto nem tem a ver com algum tipo de elevação espiritual ou salvação da alma.

A capacidade de dizer muito com pouco.

A aspiração do poema é exactamente impor-se na sociedade do consumo e do luxo como um objecto essencial.

Gosto da poesia que tem a capacidade de tocar no essencial, no sentido em que nada sobra, em que há uma alta concentração. E eu gosto que essa concentração seja capaz de tocar emotivamente o leitor. Então, talvez a segunda qualidade seja  a sua capacidade de emocionar. Le Corbusier tem aquela célebre máxima que diz que a casa é uma máquina de emocionar, machine à emouvoir.

No poema Martelo eu digo:
o poema é ver
com lanternas
que cor é a cor
do escuro. 
Daí, procuro situar-me numa fronteira, sempre a martelar, martelar, a alegria, o amor, a tristeza, a raiva, o susto.

Eucanãa Ferraz (poeta brasileiro) – fragmentos de entrevistas

26.9.16

AUTO-RETRATO EM EXERCÍCIO




Olhos sedentos e pensativos.
Rosto sedentário e corrompido

por ventos marítimos.

J. Alberto de Oliveira