Na
mansidão escura
das
noites sem lua
a
fala das estrelas
era
pertinente e altiva.
Que
me queriam as estrelas?
Que
me diziam em surdina?
Incertezas e a cinza da vida.
J. Alberto de Oliveira
Na
mansidão escura
das
noites sem lua
a
fala das estrelas
era
pertinente e altiva.
Que
me queriam as estrelas?
Que
me diziam em surdina?
Incertezas e a cinza da vida.
J. Alberto de Oliveira
No meu surrão de sonhos
guardo o pão e versos.
No meu surrão de fantasias
escondo alguns rascunhos.
Nele abrigo papéis velhos
de histórias para os amigos.
No meu surrão de sonhos
há coisas que nem adivinhas.
J. Alberto de Oliveira
Se eu adormecer no ponto
mais sensível do sono
nunca digas adeus.
Deixa-me primeiro
inventar uma história.
Quero um feixe de frases
que tenham sido atadas
por sete fios de sol.
Também quero um aceno
ao alcance de tudo ou nada.
Um vadio aceno da mão
cheia de versos travessos.
J. Alberto de Oliveira
Traz uma
rosa.
Entra nos
meus segredos.
Deixa o
pensamento
e seus
truques lá fora.
Depois
e só depois fecha a porta.
J. Aberto de Oliveira
Quando abriste oh lys
o dicionário na palavra
batimento
eu não sabia o que vinhas
inspirar.
Como não disseste nada
eu pensei em batimentos da
alma.
Em batimentos do coração e
outros.
Eu não sei mas hei-de
saber
se umas tantas notas
musicais
também são batimentos
ou tão só movimento de
partículas
da alma de Chopin.
Da alma no coração
abrasivo dos sentimentos.
Por
mais que o vento
sopre
lá fora
o
leite e o mel resplendem
nos
ângulos da cozinha.
O
leite e o mel escorrem
à
luz da candeia.
Na
sua recompensa
não
há sombras nem medo
O pavio dá luz inteira.
J. Alberto de Oliveira
Neste palheiro imenso
de pronúncias diversas
o poeta procura a difícil
agulha perdida.
Procura o verso
rigorosamente certo.
O som das palavras
exactas na sua medida.
J. Alberto de Oliveira
Fotografia: José Miguel Reis
Por
quem devo saber
o
modo como a rosa
é o tempo de si mesma
entre o sol e a vida?
A
quem devo dizer
que
a mística rosa
por amor do seu nome
ostenta a glória de ser?
J. Alberto de Oliveira
O visível e o invisível fluíam no seu olhar contemplativo.
Entre leves sombras de névoa e luz, entre sons de linhas de água e a pronúncia de algumas frases, parecia-lhe ouvir musicalmente os segredos que há muito, muitíssimo tempo não ouvia assim.
Veio o Poeta. E, com a mão direita pousada no ombro da mulher, perguntou:
- Como te chamas?
A mulher-doçura do vento respondeu:
- O meu nome anda perdido no livro das tuas palavras.
J. Alberto de Oliveira
Demoradamente o olhar se alicerça nas estrelas
e no seu firmamento.
Tudo lá no alto me parece firme ou eterno.
É um espaço onde o tempo talvez não exista.
O espaço onde parece que nada apodrece.
J. Alberto de Oliveira
Quando eu não posso
brincar
com a alma
as horas ficam entrevadas.
De bruços
caio no lamaçal do luto.
Faltam-me as
palavras
e a substância da música.
Quando eu não posso
brincar
com a alma
falta-me a luz da gramática.
J. Alberto de Oliveira
O
sol nas alturas
e
o mel nos rochedos.
A
história da água
no
linho da mesa.
O
azul da fala nua
nos
frutos da palavra.
Íntimo
rejubila o ar
nos
átrios do lume.
J. Alberto de Oliveira
O
mar que lês no poema
tem
a mesma sonoridade
que
o mar dos navegantes.
Um
e outro ondulam.
Precisam
da eternidade.
J. Alberto de Oliveira
Adeus,
fonte de lembranças,
Onde
a água remanseia.
Onde
fiz tantas promessas
Que
só me deram enleios.
O
afecto que me tens
Assenta
bem nos teus olhos.
A
tua boca é sagrada:
Parece
um botão de rosa.
J. Alberto de Oliveira
Mil e uma folhas do tempo
inflamam o pulso
e os idiomas do silêncio.
Mil e uma folhas de oiro
e de cristalino vagar
apuram o aprumo do outono.
Com jubilosa luminescência
e a paz do vento à mistura
mil e uma folhas
entram pelas varandas
de Vermodium adentro.
J. Alberto de Oliveira
Até
ao gume da última hora
os
dias afiam a cor
e a
matéria do outono.
A
vida é tudo ou nada
quando
toda ela se encosta
ao
fio quente da navalha.
É
sopro de fuga e dor
antes
de ser tábua rasa.
J. Alberto de Oliveira
António
Nobre está só
e
dado ao desassossego.
Tem
os olhos
encostados
ao poente.
Há
demasias de melancolia
a
sangrar nele.
O
poeta vai morrer só.
J. Alberto de Oliveira
O
fermento leveda primeiro
o
coração e a flor da farinha.
Depois
o calor
e
o timbre do ar no forno
são
da carqueja acesa.
Por
fim a resposta
é só do pão.
Do
pão sobre a mesa.
J. Alberto de Oliveira
Fotografia: José Miguel Reis | DESIGN
www.josemiguelreis.com
Ando ainda
longe de mim
e de quanto
me falta escrever
com os olhos
no tecto da vida.
À memória
quero dar a beber
a luz
sedenta de Setembro.
Seus frutos
maduros são todos
para
incender
a sarça
ardente do outono.
J. Alberto de Oliveira
Era
uma vez um poeta que escrevia como ele próprio foi ao princípio.
Gostava das palavras certas e das rimas
bem timbradas, porque as sentia muito próximas das cantigas nos bailes da
aldeia.
Muitas vezes dizia à sua amada estes
versos em forma de quadra simples:
Eu
tenho cinco balões
Nos
cinco dedos da mão.
São
do vento e da vida.
São
jóias do coração.
Um dia a companheira desafiou o amado:
– Para que os balões não baloicem apenas
nos teus dedos, queres que os solte? Vamos deixá-los subir?
– Agora não. Espera pelo fim de mim.
J. Alberto de Oliveira
Da nudez de Deus
entre poemas nasci.
Por sete gotas vivas
um sítio a vida me deu.
J. Alberto de Oliveira
O tempo corrói. Insiste no precário. Quebra-nos aos
bocados. Também colabora com os agentes do caos.
Se os viventes impacientes não matassem o tempo com o fogo criativo, com alegrias e delícias – o olvido e a humidade fria da morte seriam um sinal invisível de nós.
Com alguns versos e palavras eu vou afastando o clima
oxidante das idades.
Há sons e traços, ideias e formas, espaços e silêncio,
cores e afectos, que nos marcam e pronunciam até ao último dos dias.
J. Alberto de Oliveira
Oh! Dinamene.
De onda em onda
no mar a voz
é do poeta.
De onda em onda
oh! Dinamene.
Mística rosa
de amor e versos.
J. Alberto de Oliveira
Quando
os frutos amadurecem
quietos
nos
socalcos das colinas
a luz é solar e benigna.
A
natureza faz-se nos frutos
do
mesmo modo que
o
amor se faz rente à fala da lua.
J. Alberto de Oliveira
Perdi a
lucidez e deixei o sono entrar.
Vi a água em forma
de chuva a deslizar pelo teu corpo todo.
Nos movimentos
não havia pressa nem temor.
A tua boca
tinha a moldura e o tamanho de um segredo.
O lugar da
casa parecia minúsculo e propício ao não sei quê.
Com a leveza
de folha no ar deitaste água num copo.
À minha beira
te sentaste enquanto durou a confidência.
Depois foste dar
de beber a uma estrela inacessível.
Fiquei mudo e
só
para saber se
eras uma causa ou efeito da memória.
J. Alberto de Oliveira
Não sei desenhar rostos nem objectos,
apesar de a minha professora das coisas
primeiras
nos ensinar a fazer cópias de uma bilha
bojuda,
com formas e beleza da ternura.
Hoje, eu daria tudo para ver os meus primeiros
exercícios de desenho.
Que me fizeram às cópias da bilha de barro?
Onde anda a bilha bojuda?
E o lápis?
Perdeu-se pelos caminhos da escola?
Eu daria tudo para ter aquela bilha de barro e
dela beber água pura.
Eu amo a bilha.
Amo-a tanto, que até sei que o amor se faz do
mesmo barro da bilha
que eu desenhava na minha escola antiga.
J. Alberto de Oliveira
Noite
úmbrica.
Noite
úmbrica com a prata do sino e da folha da oliveira.
Noite
úmbrica com a pedra que para aqui trouxeste.
Noite
úmbrica com a pedra.
Mudo o que entrou na vida, mudo.
Esvazia e enche os jarros.
Jarro
de terra.
Jarro
de terra que traz no barro a mão do oleiro.
Jarro
de terra que a mão de uma sombra para sempre fechou.
Jarro
de terra com o selo da sombra.
Pedra para onde quer que olhes,
pedra.
Deixa entrar o burrico.
Animal
a trote.
Animal
a trote na neve espalhada pela mais nua mão.
Animal
a trote adiante da palavra que se fechou.
Animal
a trote que vem comer o sono à mão.
Brilho que não consola, brilho.
Os mortos, Francisco, ainda pedem esmola.
Paul Celan
Tradução: Y. K. Centeno e João Barrento
Se
puderes ó minha vida
traduz
a matéria da luz.
E diz-me
em tom maior
um
sinónimo de música.
Se
puderes estremece
para
mim
no acmè de uma história.
J. Alberto de Oliveira
A meio da frase
vimos a lua
subir.
Era já de noite.
A meio do
caminho
de vigília ao silêncio
luzia o luar.
No fim da travessia
a lua voltou
atrás.
J. Alberto de Oliveira
São
teus os poemas
que se apropriam
da memória.
Com
eles decifras a distância
e
os tempos do verbo
escrito
num bilhete.
O
que te salva ó António
lê-se nuns versos de água
onde
não há gaivotas mortas.
J. Alberto de Oliveira
Imagem:Bilhete de António Nobre após a ida à Quinta da Conceição, Leça Palmeira, com o inglesa Charlotte.