14.9.12

NO ÂNGULO DA MESA




No ângulo da mesa há poesia e álcool
iluminações e paraísos perdidos.

Há uma espécie de férias de verão
no inferno dos poetas malditos.

Lá estão Rimbaud e Verlaine
com seus versos saturninos.

Fatin-Latour ao retratar o olhar
dos poetas e os seus livros

fixa no tempo zero da pintura
o invisível dos versos e do vinho.

Ao contemplar o rosto dos poetas
a vida entra pela natureza adentro.

A natureza ávida dos que viveram.

J. Alberto de Oliveira




ÁGUA SEM POSSE




Naquela fonte muito antiga, desde 1858 que perdura a pedra onde se escreveu: agoa sem posse.
Magnífico aviso acerca do elemento que é tão munificente como imprescindível.
Das nascentes a água desce livre ao encontro da sede.

Na inscrição se mostra e lembra que a água é para fluir como dádiva, como substância do feminino, viva, pura e corredia.

A pedra, assim escrita, é um sinal de vigilância para os seres viventes e, sobretudo, para os poetas, quando são eles a razão e a fonte do verbo sem posse.


APOSTILA

Quando fotografei a inscrição de 1885, agoa sem nome, ocorreu-me o texto que imediatamente redigi e mostrei a várias pessoas. Um jurista leu e lembrou: “aquelas raras inscrições eram colocadas a indicar a posse pública, porque havia muita água de propriedade privada”.
Sim. É a causa real que eu muito bem conhecia. Mas, fazendo uso do olhar contemplativo, estético e amantivo, escrevi o que escrevi.
Evidenciei a leitura estética, recusando o sentido materialmente jurídico.
Compus o texto que os olhos me pediam.
Sem o dom poético o olhar torna-se estéril, involutivo e rasteiro.


J. Alberto de Oliveira




NARRATIVA A SÉPIA





Com as vogais da infância me sento à mesa.
Tomo o pão molhado no mel e bebo o leite.

Exposto ao lume no ângulo do lar aceso
convoco a fadiga do entardecer

para depois
adormecer na pausa do melhor beijo.

J. Alberto de Oliveira

      

24.8.12

PURO E SIMPLES




O ritmo feliz do azul
a articular os nomes.

O movimento jubiloso
do sol a doer no pulso.

O oiro ao rubro
a entardecer o dia.

A alma e sua leveza
a alumiar o invisível.

J. Alberto de Oliveira





23.7.12

SETEMBRO ADENTRO




A minha vida entrou nua
e crua

por setembro adentro.

A minha vida arrebatada
à respiração do mundo

e ao sopro intuitivo
de Deus.

Na primeira frase
da língua arderam

os lábios e a saliva.

A minha vida a entrar 

por setembro adentro
foi um dom superlativo.

J. Alberto de Oliveira 

12.7.12

A NATUREZA DA ÁGUA




Para beber a natureza da água
ouve primeiro um segredo.

Intui os sentidos da boca ávida
ou sonha perto do silêncio.

No dialecto arcaico da infância
depura as imagens que lês.

E soletra docemente,
soletra muitíssimo devagar

o causa preciosa e amante
da lídima natureza da água.

J. Alberto de Oliveira - ENTREPOEMAS (2014) – poema corrigido








11.7.12

PRELÚDIOS DE LEITURA







1-
Pode o segredo
sair de si mesmo

e pousar nos olhos
enquanto dormes?

2-
Em forma de lenço
aberto ao vento

o sangue me alumbra.

É coração de estrela 
a rubra cor de outubro.

3-
O relâmpago invisível
rasga as telas da vida.

Soletrada em contraluz
a poesia alucina

as águas de leitura.

J. Alberto de Oliveira

12.6.12

TEORIA DO VERBO AMAR




O espaço do verbo amar não tem sombras.
Esplende por inteiro.

Chamo-lhe verbo amar.
E, por ser a evidência da bondade profunda e de suas incidências, quem o sabe conjugar?

Chamo-lhe verbo amar por ser a soma de todos os modos e tempos do tempo.

J. Alberto de Oliveira

11.6.12

AS PRIMEIRAS FRASES






Quando eu era criança, os nomes que dizia, todos ou quase todos, eram incompletos. Somente o volume e as formas das coisas permaneciam inteiras nos meus olhos.

Com os objectos do mundo, na sua complementaridade justa e geométrica, eu compunha as primeiras frases, incautas, frágeis e breves.

Eram frases de fulgor, lúdicas, miríficas e matinais.

J. Alberto de Oliveira

29.5.12

MENINA E MOÇA




Varrido pelo vento e melancolia, o entardecer talvez fosse a pronúncia de um nome perdido.
Talvez fosse o começo da lembrança:
Menina e moça me levaram de casa de meus pais para longes terras; e qual fosse a causa dessa minha levada, era pequena, não na soube.

J. Alberto de Oliveira

15.5.12

A TELA SENSÍVEL






Romper a malha
e não ficar.

Romper o tecido
e passar.

Romper a tela
sensível

e passar
através dela

à palavra viva.

Àquela ideia
que não fala.

Que flui inteira.

J. Alberto de Oliveira

14.5.12

MUITO PERTO DE À NOITE





Muito perto de à noite
três vezes disseste

em cadência gradativa
o lume o lume o lume.

Três vezes estremeceste
deixando cair

entre a cinza e fagulhas

o som verbal do silêncio
tecido com linho puro 

pela tua mão de escrever.

J. Alberto de Oliveira

2.5.12

A LEMBRANÇA MAIS ANTIGA




Ia haver o quê? Um sarau em torno do linho com danças e cantares?
O que ia haver no alpendre agrícola da Casa de Formozem?
Luzia o luar nessa noite de verão? Não sei.
Eu era um menino que tinha apenas dois anos de vida bem medida.
Eu só me lembro que havia o quase escuro a encher o alpendre.
Lembro-me, e parece que ainda estou ver: alguém subiu para um banco.
Com o simples mover da mão, o homem fez com que subitamente
a lâmpada, suspensa num barrote, iluminasse o alpendre.
Eu só me lembro e sei que foi magnífico o instante
da lâmpada que se tornou viva.
Com o toque da luz no limiar do escuro, eu comecei a ser contemplativo.

J. Alberto de Oliveira 

27.4.12

O LADO ESQUERDO




Sempre sonhei para o lado ofegante
para o lado mais rubro das coisas.

Sonho sempre para o lado esquerdo
de quem entra no meu sono

com frases rutilantes e segredos.

J. Alberto de Oliveira



23.4.12

FLOR ILUMINANTE




Ia Lídia pelo jardim adentro
e deu com a ígnea flor

tema de seus pensamentos.

Ia Lídia colher delícias e flores
e veio com uma rosa

flor iluminante de seus amores. 

J. Alberto de Oliveira

2.4.12

PRELÚDIO MÍSTICO




Por uma pequena frase
de júbilo puríssimo

as primícias
do crepúsculo ardem.

O linho do silêncio
é místico e precioso.

O beijo de um segredo
alumbra a flor do sono. 

J. Alberto de Oliveira

26.3.12

VERSOS AVULSOS






São palavras feridas
nas arestas da pedra

as palavras que secam
meus olhos e a língua.

São elas o pulso febril
de versos avulsos.

Meus versos de medir
a vida a prumo

com varas de lápis-lazúli.

J. Alberto de Oliveira

22.3.12

INVERTER A FALA





Trabalho numa oficina da linguagem
com substâncias delicadíssimas.

Lido com palavras superlativas
e sinais de pausa e silêncios.

O meu ofício é inverter a fala
com o lápis da jubilação.

Começo pela argila de mim mesmo
e termino no oiro da alumiação.

J. Alberto de Oliveira

14.3.12

PUNTI LUMINOSI




Por veredas e baldios de outrora 
o sentido era voltar sempre em desatino.

Dizendo de outro modo:

na infância o pensamento 
era um ponto de incêndios.

O cerne e vórtice 
donde subiam faúlhas de ínvias letras.

J. Alberto de Oliveira

12.3.12

EM CHAMA VIVA



Por acção justa do lume
a boca nomeia o rubor
que a tange e perfuma.

É caligrafia do silêncio
em chama viva
a estrita fala de Deus.

J. Alberto de Oliveira

21.2.12

MEDITATIVO E ABSORTO





Naqueles dias, eu bebia a luz que emanava do mais longe na linha do horizonte.
Depois esperava, meditativo e absorto, a hora do crepúsculo.
O momento propício ao sono das aves.

E com as aves descia ao íntimo da noite fechada pelo escuro.

J. Alberto de Oliveira

16.2.12

A CANCELA DO JARDIM




Quando abres a cancela
que dá para o jardim

o que dizes ao pensamento?

Em que ponto da melancolia
estremecem os insectos

e as flores do silêncio?

J. Alberto de Oliveira

30.1.12

DA POEIRA DOS SONHOS



Quando acordas
o que transmites à tela das horas?

O que dizes quando regressas
da poeira dos sonhos

afeitos ao curso da memória?

J. Alberto de Oliveira

2.1.12

OS SONHOS






Os sonhos que nos visitam facilmente são esquecidos.
Mas os próprios sonhos não esquecem nada.

A todo o tempo regressam ao infinitivo do verbo sonhar.

J. Alberto de Oliveira

4.11.11

NÓMADA ESTRANHO



Desta vez a lembrança veio ter comigo sem relevos,
sem verbo, sem rodeios.
Irrompeu de lado nenhum, dizendo-me apenas:
“Ó nómada estranho, em terra alheia!”

J. Alberto de Oliveira

DOIS VERSOS DE F. ECHEVARRÍA




Fernando Echevarria, com dois versos apenas, confirma a infinitude:

[…] Mas irmos devagar alarga-nos. Prediz
o nome que teremos ao ver que tudo é grande.

Parafraseando o poeta, por minha conta e risco, pergunto:

E que nome seremos ao ver que tudo é grande?

J. Alberto de Oliveira

2.11.11

O JOGRAL DA ALEGRIA




A imaginação poética e santificante de Francisco de Assis, a partir do momento em que ficou cego, redobrou de louvores para glória das coisas e de seu Criador no tempo e na eternidade.
Sem luz na retina dos olhos que a terra lhe havia de comer, cantou a possessão e o resplendor do irmão Sol.
Repartiu a aura e o louvor pelo corpo dos elementos da vida.
S. Francisco de Assis, o jogral da alegria, intuiu com lídimo fulgor as notas musicais do Universo.
Elevou o desejo de todas as criaturas ao júbilo perfeito.

J. Alberto de Oliveira

24.10.11

AS MINHAS TRÊS VIDAS



As minhas três vidas:

a vida anterior a mim
a vida corrente
e a restante vida.

J. Alberto de Oliveira

30.7.11

O ANJO INEFÁVEL




O anjo inefável
é um ser do céu errante.

Uma sombra de chama
verbal e branca

é o meu anjo da palavra.

J. Alberto de Oliveira
Desenho: José Rodrigues

12.7.11

A ESTÉTICA DO FOGO




Após vinte e sete anos voltei para ler a carta.
Soletrei-a até ao último parágrafo, até ao seu amistoso fecho.
E depois, depois recorri à estética do fogo.
Tenho confiança nos apontamentos da memória e nos recursos da alma.

J. Alberto de Oliveira

ABUNDÂNCIA VIVA






Água infindável
e corredia.

Abundância viva
e primordial.

Matéria escrita
no sentido das linhas

ou dos versos
que a esperam.

Água pronunciada
no dialecto da terra.

Matriz atenta à vida
e à paixão inspirada

que há dentro dela.

J. Alberto de Oliveira



14.6.11

SANGUE LIMPO




Não sou de ascendência nobre.
No meu nome não há posses, armas e pergaminhos.
Nasci com sangue limpo.
Dos meus antepassados herdei o que apenas preservo: a nobreza de alma e de sentimentos.
Nasci do lado do silêncio da memória.
O único destino ou a fortuna que me assiste, me julga e conjuga e faz distinto, é a sensibilidade.
Em mim próprio, a sensibilidade se mistura com a alteza de alma.

J. Alberto de Oliveira

4.6.11

SEGUIR COM O OLHAR





Seguir com o olhar
as coisas sem alcance.

E depois
depois adormecer

na escrita de haver
sono e lembranças.

A invisível sintaxe
de versos brancos.


J. Alberto de Oliveira





27.5.11

MANANCIAL DE ROSA





Primeiro alumiou
a nudez e o aprumo

de róseas manhãs.

Depois veio difundir
a aura do pensamento.

Primeiro foi dádiva
e leitura preciosa

no pulso do tempo.

Depois em cada hora
um manancial de rosa.

J. Alberto de Oliveira

26.5.11

CALIGRAFIA ESTRITA





Se adormeço de olhos
postos no tecto da noite

uma caligrafia estrita
desloca-me o coração.

Troca o sítio da mão.

J. Alberto de Oliveira

27.4.11

PLENITUDE NOCTURNA






Junte-se à branda luz
da lua no mar

a chama da candeia
de ler o júbilo

em linhas perfeitas.

Junte-se à plena paz
da lua no mar

o diamantino apuro
de uma só frase:

a alma em letra pura.

J. Alberto de Oliveira







8.4.11

AO RELENTO





Luzindo ao relento
assim os olhos e o sono.

Assim a língua e o amor
a entoar no pensamento.

J. Alberto de Oliveira

O PENSAMENTO EM SANGUE






Quando ela acendia o lume
a sua mão tremia.

Um feixe de vento negro
e canhestro

abria-lhe na alma
o pensamento em sangue.

Era a lembrança a provir
do gume ávido e rude.

Cortes vivos nela doíam.

J. Aberto de Oliveira

7.4.11

NO HAUSTO DAS FONTES





Amar o silêncio
no hausto das fontes.

Arrebatar ao luar
a furtiva cadência

de frases
cheias de relento.

Transpor o sentido
literal do sono

soletrando os nomes
da água e do fogo.

J. Alberto de Oliveira

19.3.11

FLUIR EM FLOR





Tangíveis eram os versos
que o vento nos trazia.


No sopro matinal 
de abril


ouvíamos as cores
e a alegria do orvalho


a fluir em flor.

J. Alberto de Oliveira

19.2.11

O LABOR DO LUME





Na simetria da casa
estudo o labor do lume.

Demando o instante
verbalmente alumiado.

A hora é entretecida
pelo vivo batimento

de faúlhas e segredos.

J. Alberto de Oliveira

1.2.11

A PALAVRA CERTA






Aos trezentos e sessenta
e cinco dias de claridade

a palavra certa ensina

a desatar os nós
e o peso das horas.

Entre amar e vir a amar

ela induz a mão
cega e amante

a bater à tua porta.

J. Alberto de Oliveira

26.1.11

MARFOLHO




(...) estou hoje intrigada por uma palavra: marfolho.
Encontrei-a no tesouro vegetal da língua.

Maria Gabriela Llansol - Causa Amante

20.1.11

UM VENTO DE TREVAS






Um vento de trevas
alastra nos olhos

com seus fios de frio.

Um vento de trevas
dói tanto tanto

que faz do fogo sentido
a mão certa.

A mão de coisas maternas.

J. Alberto de Oliveira

30.12.10

A LÍDIMA LUZ DA ÁGUA





A lídima luz da água
que se dá a beber

atribui à claridade
a insistência da sede.

Com seu vento a ajustar

o volume do mundo
à matriz do devir

a lídima luz da água
é o verbo inédito da fala.

J. Alberto de Oliveira

11.12.10

EM VERSO LIVRE





Deus escreve em cadernos
de folhas lisas.

Escreve magnificamente
em verso livre.

Deus escreve e não risca
nem as frases nem os versos

magnificamente ilegíveis.

J. Alberto de Oliveira

19.10.10

A JANELA DOS VENTOS




Com o pulso do fulgor
abro a janela

que dá para os ventos
que voam para longe.

Sejam corpo dela
os elementos

de só haver sonho
e o mar da barca bela.

J. Alberto de Oliveira

Photo: Ana Afonso

2.10.10

O OUTONO





Uma pausa absorta
de luz

rente ao sublime.

Aladas folhas
pairam em declive.

É o outono.

J. Alberto de Oliveira

Photo: J. A. de Oliveira

24.9.10

O DELICADO LENÇO





Frases e outros filamentos
de tangíveis lembranças

tecem de sol a sol

o delicado lenço
que me há-de cobrir a alma.


J. Alberto de Oliveira

3.8.10

UMA SÓ VEZ NA INFÂNCIA





Hoje lembrei-me de fugir
com um sonho de sete páginas em branco.


E fui sem dizer nada a ninguém.


Fugi para onde o tempo é um desenho livre.
Fui para o tempo de uma só vez na infância.

J. Alberto de Oliveira