19.12.23

BOUNO NATAL - (em mirandês)


 

Fai friu acho que bai nebar.

Aqueceu-bos a un borralho que ende bos mando.

Que tengades un Bouno Natal

e que Nino Jesus bos trai-a un anho 2024

cheno de cousas bounas.

Un chi arrochado.


6.12.23

À BEIRA DE SER





 

Amo a beleza que não entendo,

 

A beleza que me dá repentes 

e quase me deixa em claro.

 

Amo a beleza à beira do silêncio.

 

À beira de haver palavras

com segredos entre si.

 

A beleza dá-me repentes de ser.

 J. Alberto de Oliveira

Desenho de Manuela Barbosa

 


1.12.23

CAMONIANA

 



Quem és tu, bárbara, que moras

num poema que se estuda nas escolas

e se lê em recitais 

- tu que te limitaste a ser amada

por um poeta que, se calhar, mais

não te deu em troca do amor

do que esse poema que tu, se calhar,

nunca chegaste a ouvir? Quem és,

ó mulher mais cruel do que esse 

poeta  que te cantou, e de cuja vida

ninguém sabe nada - a não ser

que te amou, e te deitou nesse 

poema em que ainda vives, e respiras,

como no dia em que ele o escreveu

lembrando-se do teu corpo, e dos

teus lábios, e dias, ou noites,

que contigo se passaram? Quem és,

mulher real e sonhada que habitas

todos os poemas que esse poema

inspirou, e todos os sonhos que

nessa bárbara encontraram uma imagem

precisa e definitiva? Volta-te

nesses versos, para que te vejamos

o rosto, e diz-nos o teu nome - o nome

autêntico, e não esse que o poeta

inventou para te chamar num poema

que de ti só guarda o segredo;

e adormece, depois, esquecendo

o que de ti disseram, e os comentários

de que foste o pretexto, e as imagens

em que, cada vez mais, foste perdendo

a tua, e única, imagem.

Nuno Júdice

 

Painel - Embaixada de Portugal na Tailândia


29.11.23

O INFINITO CERTO - para Amair


 


Todos os dias procuro

o verbo que não mede


as distâncias mais íntimas.


Todos os dias o procuro

estudando os furtivos


cadernos do tempo.


E se o descobrir

quem me ensina a ler


no ditoso verbo

o infinito certo?

J. Alberto de Oliveira





10.11.23

O MEU SONHO



Uma noite sonhei que S. Francisco de Assis falava com as aves quando elas acordavam cedo

Sonhei uma vez e não mais, porque as aves agora cantam sempre.

Elas respiram o que ouviram, cumprem o que muito aprenderam com Francisco: transmitem a santidade livre da natureza.

O som musical das aves principia quando o sopro do ar é matinal.

 

As criaturas que poisam nos braços dos humanos, que se refugiam nos ramos das árvores e voam pelos ares parecem fragmentos de música. Lembram os louvores de existir. São as legendas maiores da alegria.

As aves sustentam um reino de bem e paz. Um reino de santidade livre.

J. Alberto de Oliveira

Desenho de Alberto Péssimo

 

18.10.23

OUTRA VEZ DEBAXO DA FIGUEIRA

Debaixo da figueira a pausa é mais íntima.

A atenção convida a fugir ao fingimento

e ao cansaço do quotidiano.

 

Debaixo da figueira o sol não queima.

A frescura aviva o rumor dos insectos

em torno dos frutos maduros.

 

Debaixo da figueira ressoa

uma voz tão preciosa como a tua.

 J. Alberto de Oliveira


2.10.23

UM SELO DE SETEMBRO


 

Quando molhaste os dedos

na lídima água do nome

 

a legenda maior estremeceu.

 

Do amor que se tornou clamor

na minha boca ainda pequena

 

eu recebi um selo de Setembro.

 23/09/2023

J. Alberto de Oliveira


22.9.23

EFEITOS AMADOS


 

Há um intimo de marluz

que fala dentro de mim.

 

A natureza do  azul

nunca se apaga no mar.

 

De seus alicerces furtivos

nascem efeitos amados.

J. Alberto de Oliveira


15.9.23

A SAUDADE



Esta nossa palavra saudade não rima

com a nostalgia de Ulisses

em seus perigos longe de casa.

É mais que um murmúrio de lembranças.

Que me quereis, perpétuas saudades?

perguntava Camões.

 

A saudade talvez seja uma onda musical

de fios tangíveis e da fidelidade

intraduzível entre as almas e a distância. 


A fidelidade começa pela evidência 

ou regresso 

de antigos amores ditos em segredo.

J. Alberto de Oliveira



17.8.23

O PRIMEIRO AMOR

                                                                                                                                                                                                                                                                                      Foto: a flor do linho


Era de menino absorto

sem defeito nem artifícios


o linho que me vestia.


O estreme leite morno

dava o sustento de existir.


Era assim o primeiro amor.

J. Alberto de Oliveira


 

25.7.23

ESCREVIVENDO



Há sempre alguém que me pergunta:

- Como vais? 

Usando o furtivo gerúndio, respondo: 

- Vou escrevivendo.

 


Que língua falam os poetas?

A sua fala tem a cadência amorosa das águas correntes. A  pronúncia é semelhante à 

intimidade verbal do silêncio.

 

 

Creio que foi Jorge Luís Borges quem disse: “não há um dia que passe, em que, por um 

momento ao menos, eu não me eleve aos céus.”

Magnífico, não é?

Também eu, José Alberto, pratico o exercício de me elevar. Na poesia, por exemplo, eu me 

escrevo. Ela é o chão dos meus passos.

Na poesia acontece a liberdade livre, aquele estado em que não sou possuído.

A poesia impede que me anulem. A poesia leva-me a pairar acima da comédia humana, da 

vulgaridade e das trafulhices.

A prosa disseca a vida, enquanto a poesia enamora-se do ser.

 

 

 Um dia alguém me perguntou:

- Por que é que tu és poeta?

Respondi:

- Não sei. Vai interrogar os meus ancestrais que já partiram para a eternidade.

E no outro dia escrevi:

“Quando saio de mim levo sempre uma trouxa de imagens e lembranças às costas.

Assim vou trocando um ror de coisas por alguns poemas.”

 

 

Também já me perguntaram:

- O que é a poesia?

- Ainda não sei o que é a poesia. Mas, vou sabendo o que ela não é.

A poesia não é um assunto ou um tratado. Não se estuda.

A poesia lê-se. Ouve-se. Intui-se. Cria-se. A palavra flui esteticamente.

A poesia é de pouquíssima gente.

Os poetas respiram, ouvem e falam com letras próprias.

 

 

Se na minha poesia houver cem palavras essenciais, é muito.

Procura-as nos versos que já escrevi.

 


Ser poeta.

Que o verbo bem-me-queira!

E Deus me proteja!

 

 

O poder evocativo do poema deve-se à palavra: por sua vez, evocativa de uma realidade 

ausente.

É com subtis e obsessivas palavras musicais que se cria o poema.

É musical a puridade verbal.

J. Alberto de Oliveira


10.7.23

PARA QUE SERVE A POESIA?


 

Uma vez, alguém fez-me esta pergunta, como se eu gostasse de ser entrevistado:

- Para que serve a poesia?

- A poesia não serve para nada - respondi. É distinta e difícil, mas inútil e barata, nem sequer dá para comprar amendoins.

J. Alberto de Oliveira


1.7.23

A CANCELA ENTREABERTA


 

A minha origem natal começou por um objecto. Por uma chave que me foi dada para abrir e fechar todas as portas. Valia por sete. Era uma chave rara e benigna, semelhante àqueles três versos escritos num livro de poesia:

 

O afecto luminoso

ensina a ver

o que em ti é precioso.

 

Esquecia-me de dizer que a chave nunca abriu nem fechou a cancela

dos passos de quem ia e depois vinha.

Sempre a deixámos entreaberta.

J. Alberto de Oliveira


20.6.23

OS LUSÍADAS


 

Os Lusíadas não é um livro de palavras supostamente dirigidas aos deuses e ao vento. Talvez seja um mar de trabalhos onde há uma ilha de amores ou quimeras e especiarias orientais.

É um livro onde as palavras se escrevem por si mesmas.

O mar em sua natureza rebelde e sensual, recebe Os Lusíadas como um título de triunfo e glória.

J. Alberto de Oliveira

19.6.23

A ÁGUA DO NOME

 


Qual é a tua graça

perguntas neste idioma

de nudez digna de fé?


A minha graça foi dada

pela água do nome

sinónimo de josé alberto.

J. Alberto de Oliveira




9.6.23

A NOSSA FORTUNA


Em Camões era tudo uma síntese ardente.

Tudo se tornava engenho e arte quando falava,

quando escrevia, quando imaginava, quando amava.

 

O Poeta raramente deixou um mote sem resposta.

Com palavras e rimas desejava o mais alto,

apreendia os efeitos do amor cego.

 

Entre desatinos, enganos e desvarios

nunca soberbo foi seu pensamento.

 

De cor sabia as sílabas necessárias à lusa pronúncia.

O prazer do texto camoniano é a nossa fortuna.

J. Alberto de Oliveira

 

28.5.23

A PARÁBOLA DA AGULHA - Herberto Helder


 

Conto de novo a parábola da agulha, que me obceca.

Desentranhei-a de um velho manual.

Trata-se de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa.

Acorre então o jovem que pretende ajudá-la, e pergunta:

– Que procura?

– Uma agulha. Caiu-me na cozinha.

Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda.

– Porque na cozinha está escuro – responde a mulher.

A parábola ajudará a desaprender alguma coisa, e depois será possível aprender outra coisa.

 Herberto Helder


19.5.23

UM GRÃO DE SAL


 

Havia um navegante que dizia:

as aves migratórias  partem

 

voando alto e em silêncio.

 

Cada uma leva no bico

um grão de sal.

 

Voam todas em silêncio

 

para não deixar cair ao mar

o precioso grão de sal.

José Alberto de Oliveira

8.5.23

DE CASA DE MEUS PAIS

Se queres saber o que é um nómada ou um estranho em terras alheias, decora o breve texto que transcendeu Bernardim Ribeiro: 

"Menina e moça me levaram de casa de meus pais para longes terras. E qual fosse a causa dessa levada, era pequena, não no soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já havia de ser o que depois foi".

28.4.23

UMA CARTA DE AMOR


 

Uma carta de amor

escreve-se a quem se ama.

 

Leva sempre uma cor desconhecida.

 

Nas entrelinhas esconde

uma ou três confidências

 

acerca do que se ama.

J. Alberto de Oliveira