Fai friu acho que bai nebar.
Aqueceu-bos a un borralho que ende bos mando.
Que tengades un Bouno Natal
e que Nino Jesus bos trai-a un anho 2024
cheno de cousas bounas.
Un chi arrochado.
Fai friu acho que bai nebar.
Aqueceu-bos a un borralho que ende bos mando.
Que tengades un Bouno Natal
e que Nino Jesus bos trai-a un anho 2024
cheno de cousas bounas.
Un chi arrochado.
Amo a beleza que não entendo,
A beleza que me dá repentes
e quase me deixa em claro.
Amo a beleza à beira do silêncio.
À beira de haver palavras
com segredos entre si.
A beleza dá-me repentes de ser.
Desenho de Manuela Barbosa
Quem és tu, bárbara, que moras
num poema que se estuda nas
escolas
e se lê em recitais
- tu que te limitaste a ser amada
por um poeta que, se calhar, mais
não te deu em troca do amor
do que esse poema que tu, se
calhar,
nunca chegaste a ouvir? Quem és,
ó mulher mais cruel do que
esse
poeta que te cantou, e de
cuja vida
ninguém sabe nada - a não ser
que te amou, e te deitou
nesse
poema em que ainda vives, e
respiras,
como no dia em que ele o escreveu
lembrando-se do teu corpo, e dos
teus lábios, e dias, ou noites,
que contigo se passaram? Quem és,
mulher real e sonhada que habitas
todos os poemas que esse poema
inspirou, e todos os sonhos que
nessa bárbara encontraram uma
imagem
precisa e definitiva? Volta-te
nesses versos, para que te
vejamos
o rosto, e diz-nos o teu nome - o
nome
autêntico, e não esse que o poeta
inventou para te chamar num poema
que de ti só guarda o segredo;
e adormece, depois, esquecendo
o que de ti disseram, e os
comentários
de que foste o pretexto, e as
imagens
em que, cada vez mais, foste
perdendo
a tua, e única, imagem.
Nuno Júdice
Painel - Embaixada de Portugal
na Tailândia
Todos os dias procuro
o verbo que não mede
as distâncias mais íntimas.
Todos os dias o procuro
estudando os furtivos
cadernos do tempo.
E se o descobrir
quem me ensina a ler
no ditoso verbo
o infinito certo?
J. Alberto de Oliveira
Uma noite sonhei
que S. Francisco de Assis falava com as aves quando elas acordavam cedo
Sonhei uma vez e
não mais, porque as aves agora cantam sempre.
Elas respiram o que
ouviram, cumprem o que muito aprenderam com Francisco: transmitem a santidade
livre da natureza.
O som musical das
aves principia quando o sopro do ar é matinal.
As criaturas que
poisam nos braços dos humanos, que se refugiam nos ramos das árvores e voam
pelos ares parecem fragmentos de música. Lembram os louvores de existir. São as
legendas maiores da alegria.
As aves sustentam um reino de bem e paz. Um reino de santidade livre.
J. Alberto de Oliveira
Desenho de Alberto Péssimo
Debaixo da figueira a pausa é mais íntima.
A atenção convida a fugir ao fingimento
e ao cansaço do quotidiano.
Debaixo da figueira o sol não queima.
A frescura aviva o rumor dos insectos
em torno dos frutos maduros.
Debaixo da figueira ressoa
uma voz tão preciosa como a tua.
J. Alberto de Oliveira
Quando
molhaste os dedos
na
lídima água do nome
a
legenda maior estremeceu.
Do
amor que se tornou clamor
na
minha boca ainda pequena
eu recebi um selo de Setembro.
23/09/2023
J.
Alberto de Oliveira
Há um intimo de marluz
que fala dentro de mim.
A natureza do azul
nunca se apaga no mar.
De seus alicerces furtivos
nascem efeitos amados.
J. Alberto de Oliveira
Esta
nossa palavra saudade não rima
com
a nostalgia de Ulisses
em
seus perigos longe de casa.
É
mais que um murmúrio de lembranças.
Que me quereis,
perpétuas saudades?
perguntava
Camões.
A
saudade talvez seja uma onda musical
de
fios tangíveis e da fidelidade
intraduzível entre as almas e a distância.
A fidelidade começa pela evidência
ou regresso
de antigos amores ditos em segredo.
J. Alberto de Oliveira
Era de menino absorto
sem defeito nem artifícios
o linho que me vestia.
O estreme leite morno
dava o sustento de existir.
Era assim o primeiro amor.
J. Alberto de Oliveira
Há
sempre alguém que me pergunta:
-
Como vais?
Usando
o furtivo gerúndio, respondo:
-
Vou escrevivendo.
Que língua falam os poetas?
A sua fala tem a cadência amorosa das águas correntes. A pronúncia é semelhante à
intimidade verbal do silêncio.
Creio que foi Jorge Luís Borges quem disse: “não há um dia que passe, em que, por um
momento ao menos, eu não me eleve aos céus.”
Magnífico,
não é?
Também eu, José Alberto, pratico o exercício de me elevar. Na poesia, por exemplo, eu me
escrevo. Ela é o chão dos meus passos.
Na
poesia acontece a liberdade livre, aquele estado em que não sou possuído.
A poesia impede que me anulem. A poesia leva-me a pairar acima da comédia humana, da
vulgaridade e das trafulhices.
A
prosa disseca a vida, enquanto a poesia enamora-se do ser.
Um dia alguém me perguntou:
-
Por que é que tu és poeta?
Respondi:
-
Não sei. Vai interrogar os meus ancestrais que já partiram para a eternidade.
E
no outro dia escrevi:
“Quando
saio de mim levo sempre uma trouxa de imagens e lembranças às costas.
Assim
vou trocando um ror de coisas por alguns poemas.”
Também
já me perguntaram:
-
O que é a poesia?
-
Ainda não sei o que é a poesia. Mas, vou sabendo o que ela não é.
A
poesia não é um assunto ou um tratado. Não se estuda.
A
poesia lê-se. Ouve-se. Intui-se. Cria-se. A palavra flui esteticamente.
A
poesia é de pouquíssima gente.
Os
poetas respiram, ouvem e falam com letras próprias.
Se
na minha poesia houver cem palavras essenciais, é muito.
Procura-as
nos versos que já escrevi.
Ser poeta.
Que
o verbo bem-me-queira!
E
Deus me proteja!
O poder evocativo do poema deve-se à palavra: por sua vez, evocativa de uma realidade
ausente.
É
com subtis e obsessivas palavras musicais que se cria o poema.
É
musical a puridade verbal.
J. Alberto de Oliveira
Uma
vez, alguém fez-me esta pergunta, como se eu gostasse de ser entrevistado:
-
Para que serve a poesia?
-
A poesia não serve para nada - respondi. É distinta e difícil, mas inútil e
barata, nem sequer dá para comprar amendoins.
J. Alberto de Oliveira
A
minha origem natal começou por um objecto. Por uma chave que me foi dada para
abrir e fechar todas as portas. Valia por sete. Era uma chave rara e benigna, semelhante
àqueles três versos escritos num livro de poesia:
O afecto luminoso
ensina a ver
o que em ti é precioso.
Esquecia-me
de dizer que a chave nunca abriu nem fechou a cancela
dos
passos de quem ia e depois vinha.
Sempre
a deixámos entreaberta.
J. Alberto de Oliveira
Os Lusíadas não é um livro de palavras supostamente dirigidas aos deuses e ao vento. Talvez seja um mar de trabalhos onde há uma ilha de amores ou quimeras e especiarias orientais.
É um livro onde as palavras se escrevem por si mesmas.
O mar em sua natureza rebelde e sensual, recebe Os Lusíadas como um título de triunfo e glória.
J. Alberto de Oliveira
Qual é a tua graça
perguntas neste idioma
de nudez digna de fé?
A minha graça foi dada
pela água do nome
sinónimo de josé alberto.
J. Alberto de Oliveira
Em
Camões era tudo uma síntese ardente.
Tudo
se tornava engenho e arte quando
falava,
quando
escrevia, quando imaginava, quando amava.
O
Poeta raramente deixou um mote sem resposta.
Com
palavras e rimas desejava o mais alto,
apreendia
os efeitos do amor cego.
Entre
desatinos, enganos e desvarios
nunca soberbo foi seu pensamento.
De
cor sabia as sílabas necessárias à lusa pronúncia.
O
prazer do texto camoniano é a nossa fortuna.
J. Alberto de Oliveira
Conto de novo a parábola da
agulha, que me obceca.
Desentranhei-a de um velho
manual.
Trata-se de uma mulher que
perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa.
Acorre então o jovem que
pretende ajudá-la, e pergunta:
– Que procura?
– Uma agulha. Caiu-me na
cozinha.
Logo o inexperiente jovem se
espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda.
– Porque na cozinha está
escuro – responde a mulher.
A parábola ajudará a
desaprender alguma coisa, e depois será possível aprender outra coisa.
Havia
um navegante que dizia:
as
aves migratórias partem
voando
alto e em silêncio.
Cada
uma leva no bico
um
grão de sal.
Voam
todas em silêncio
para
não deixar cair ao mar
o precioso grão de sal.
José Alberto de OliveiraSe queres saber o que é um nómada ou um estranho em terras alheias, decora o breve texto que transcendeu Bernardim Ribeiro:
"Menina e moça me levaram de casa de meus pais para longes terras. E qual fosse a causa dessa levada, era pequena, não no soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já havia de ser o que depois foi".
Uma
carta de amor
escreve-se
a quem se ama.
Leva
sempre uma cor desconhecida.
Nas
entrelinhas esconde
uma
ou três confidências
acerca
do que se ama.
J. Alberto de Oliveira