5.6.13

TRÊS DIAS BIOGRÁFICOS





Hoje é dia de escrever a primeira linha da minha biografia _____
Sou de linhagem poética.

O segundo dia resume-se a duas perguntas:
Quem me sonhou?
Quem me trouxe ao éden dos sonhos
e me deixou carecente
a sonhar ininterruptamente?

Por fim, o terceiro e último dia da minha biografia. Apenas um registo:
Eu sei que vou morrer cego de alumiações e metafísica, pedindo que a janela de casa fique sempre aberta para um jardim qualquer.

J. Alberto de Oliveira

15.5.13

A ALTIVA DOÇURA


A altiva doçura
da mãe

lê-se à luz
de um tempo vivo.

O tempo que pulsa
no nome dos filhos.

J. Alberto de Oliveira

4.5.13

O MANANCIAL DA ALMA

 
 

Com os dedos e a língua
de seu pensamento

a criança abria o linho
e o seio à doçura.

Com os dedos movia
a nuvem

redonda e pequena.

Com avidez de criança
bebia a substância feliz.

O manancial da alma.
 
J. Alberto de Oliveira

 


 

21.4.13

A MÚSICA DE J. S. BACH

 

A música de J. S. Bach sustenta o tecto do Universo. Difunde o imenso. Preenche a temporalidade em ritmo firme.
 
Nas pautas musicais de J. S. Bach, o exercício é de presença e fuga. O ser e o não ser dialogam com frontalidade em tons de consonância mística.
Instauram o aprumo e a altura.
Abrem o silêncio ao mais íntimo dos segredos.
 
J. Alberto de Oliveira 


19.3.13

NAS DOBRAS DO SILÊNCIO

 



Como se diz num só verso
o fluir do silêncio

quando é noite e me perco?

Que segredo há nos olhos
que em seu natural me tocam?

Como se diz em pensamento

a curva da mão
quando me levas à boca

o luar de leite com mel e pão?
 
J. Alberto de Oliveira

NOME E FLOR





Quando as folhas altas em contraluz
amanheciam do sono para o dia

eu desci a escada para te dar o nome
equivalente à flor a haver no jardim.

Dei-te primeiro o nome e depois a flor
quase a luzir de nudez e penumbra.

Com a leveza do ar recebeste a flor
apurando-a com o seu próprio fogo.

Para um anel de nubilíssimo júbilo
ajustemos agora o nome à flor.

J. Alberto de Oliveira

2.3.13

MINHA PÁTRIA É A LÍNGUA PORTUGUESA






Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes — tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é — não — a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d´aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.

Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m´a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Bernardo Soares/Fernando Pessoa – Livro do Desassossego - 14/01/2013

O POETA







Coisa leve, alada e sagrada é o poeta...

Platão - Íon



- Em meu entender, Sócrates - disse ele - a parte primacial da educação (paideia) de um homem é ser entendido em poesia. E isso consiste em ser capaz de compreender as palavras dos poetas, o que é bem feito e o que não é, saber distinguir e dar as suas razões a quem o interrogar.

Platão - Protágoras

1.3.13

RUMO À IDADE SUPREMA









Rumo à idade suprema
não arrepies caminho.

Não pares
nem pagues portagem

ao transpor o poente.

J. Alberto de Oliveira

16.2.13

DAS VARANDAS DE VER





Das varandas de ver
o céu altivo das nuvens

no lugar de Vermodium
eu via as aves

a mover o imo da luz.

Do ritmo quente
de suas vidas aladas

nasciam pensamentos.

Nascia a pronúncia
de versos futuros.

J. Alberto de Oliveira


1.2.13

OS ANJOS





                                                                        para José Rodrigues
Os anjos designam a altura.
Sobem e descem a escada.

Entre o invisível e o azul
os anjos pairam atentos.

Pairam abraçados ao nome
e aos sonhos que temos.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Capa de O ANJO INEFÁVEL (plaquete, fora de mercado)



24.1.13

O INVISÍVEL




A criança que me destina
a ler o invisível

tem pensamentos no mar.

Em contraponto me ensina
um dialecto inspirado

nos jogos com o vento.

Da nudez a luzir no mar
ela diz-me tudo

ou quase tudo em segredo.

J. Alberto de Oliveira

31.12.12

ESCRITOS EM TOM MENOR





Escritos em tom menor
os versos ardem

e não deixam cinza.

Em fogo e flor do sal
se consubstanciam

São meus os versos atentos

ao rumor furtivo
de segredos aproximativos.

J. Alberto de Oliveira

12.12.12

GÉNESIS





Para que ficasse pronto
e perfeito o arco do mundo

uma só vez de uma só vez

o imo de Deus foi sopro
de substância ininterrupta.

Foi de palavra o nó do azul.

J. Alberto de Oliveira


4.12.12

SUCCINCTA VITA





Subir ao ponto sublime

do mais estrito silêncio

todo virado para dentro
do que levo aos ombros

é um destino de vida.

É jura da luz nos olhos
mais que absortos.

Meus olhos pensativos
de nem pensar.

Meus olhos no auge total.

J. Alberto de Oliveira

12.11.12

DUAS PORTAS ENTREABERTAS





O fulgor da bondade e o exercício do belo seduzem a alma.
São duas portas entreabertas. Uma dá acesso aos jardins da santidade. A outra dá para os caminhos da estética do espírito.

Como não sei ser santo, resta-me ir por atalhos e veredas, interrogando a vida e o verbo.
Sou poeta.

J. Alberto de Oliveira


10.11.12

A PLACIDEZ DO OUTONO





Há sítios onde a placidez do outono se consubstancia
com a geometria das colinas solares,
com a devagarosa água corredia,
com o desassossego dos insectos,
com o perfume das folhas e dos frutos maduros.

Há sítios onde a placidez do outono tece um elo
de amplitude natural,
de júbilo generoso, sensível, intensamente puro.

A dessensibilização do mundo acontece noutros espaços,

nas zonas do poder, da perversidade e da corrupção humana.

J. Alberto de Oliveira





6.11.12

EM VIDRO E VERSOS





Em vidro e versos
abro a cancela ao silêncio.

Abro a cancela
onde passa menos gente.

J. Alberto de Oliveira

30.9.12

PALAVRAS E HORAS RESPIRADAS





Brinca o fogo com a água
quando o brilho azul do ar

e as varas vegetais da terra
me rasgam a língua.

Quando me ouves a soletrar
palavras e horas respiradas.

J. Alberto de Oliveira


14.9.12

NO ÂNGULO DA MESA




No ângulo da mesa há poesia e álcool
iluminações e paraísos perdidos.

Há uma espécie de férias de verão
no inferno dos poetas malditos.

Lá estão Rimbaud e Verlaine
com seus versos saturninos.

Fatin-Latour ao retratar o olhar
dos poetas e os seus livros

fixa no tempo zero da pintura
o invisível dos versos e do vinho.

Ao contemplar o rosto dos poetas
a vida entra pela natureza adentro.

A natureza ávida dos que viveram.

J. Alberto de Oliveira