7.4.20

CORPO ASCENSIONAL




- Não me detenhas, Myriam. Tenho de ir.
- Para onde vais?
- Myriam, não toques no meu corpo ascensional.
- Para onde vais?
- Vou para o íntimo donde vim. Para a memória de sempre.
- A tua memória?
- A memória de mim.
- Não vás. Não vás sem um beijo no temor de te não ver mais.
Dá-me de ti o sentido firme da altura.
Eleva-me ao sonho da espera.
Inunda-me os olhos de perfume.
Deixa-me nos dedos a arte de tocar o azul dos céus e o vento.
Apura em mim o dom de te respirar com palavras e o pensamento.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Iluminura da Idade Média - Ascension - "Les Très Riches Heures"



30.3.20

MÉCIA EM JORGE DE SENA

´



CONHEÇO O SAL

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena

20.3.20

BREVE CLAMOR





Na subida para a dor
a carga é dura.

A vida parece um jogo
de espigões e agrafos.

A curva do ar é brusca
demais e turva, Senhor!


J. Alberto de Oliveira

Foto: J. A. de Oliveira

13.3.20

OBRAS POÉTICAS




Com o nome José Alberto de Oliveira:

Alegria Irrecusável (1974) – esgotado
Nos Vidros da Noite (1983) – esgotado


Com o nome J. Alberto de Oliveira:

A Água do Nome – Edições Afrontamento, 1998
O Som Aproximativo – Edições Afrontamento, 2005
Palavras Escolhidas – Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)
No Linho Verbal – Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)
7X7 Versos – Cadernos Nó Cego (3), 2008 (plaquete, fora de mercado)
O Anjo Inefável – Cadernos Nó Cego (4), 2012 (plaquete, fora de mercado)
Entrepoemas - Edições Afrontamento, 2014
O Mês Maio da Mãe – C. Art, 2015
Das Varandas de Ver – Cadernos Nó Cego (5), 2917 (plaquete, fora de mercado)
Manu Scripta – Antologia de Poemas Manuscritos (obra colectiva), Ed. Glaciar, 2018.
O Triunfo da Música – Com desenhos de Luandino Vieira – Porta XIII (fora de mercado)

Em espera:

A Tela Tangível (poesia)

Gramática de Versos (poesia)

Num Pé d’Água (poesia)






10.3.20

LEGENDA DO MAR





A mulher em frente ao mar
atenta se debruça.

Encurta a distância
para fazer da linha do azul

um sítio de claridade.

A mulher em frente ao mar
estuda pontos de luz.

E tudo o mais
se transmuda no olhar.

J. Alberto de Oliveira




2.3.20

FOI A LUA





Tão luminoso o luar!
Sim. 
Foi a lua que deixou cair
um lenço de linho memorial.

J. Alberto de Oliveira

20.2.20

À JANELA





Das noites da minha janela virada ao sul, gosto de olhar para cima, a ver se descubro a lua dentro de uma nuvem.
Quando era miúdo, disseram-me que a lua tinha asas. Será por isso que ela não se mostra sempre?
Lá no alto, a lua tão sozinha, com quem fala?
Conversa consigo mesma, como fazem as pessoas pensativas, 
ou foge de me ver à janela?

J. Alberto de Oliveira

30.1.20

NARRATIVA





Cheio dos mais ou menos, de talvez e do quase, lá ia indeciso procurar a sua conversada. Com as ideias à deriva no pensamento, ele cismava, estremecia, respirava ao rés do temor, imaginava, desentendia-se consigo mesmo.
Os modos como os olhos dela o acolhiam davam para grandes somas de amor.
Ela chamava-lhe Amadorim.
Dela, nem o nome eu sei.
Por isso mesmo, fim da narrativa.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Artes - Escola Secundária de Augusto Gomes - Matosinhos

24.1.20

SOBRE O MAR





Mudam-se os tempos
mudam-se os ângulos.

Do ângulo raso
ao ângulo recto

o privilégio é das mãos
e da paixão no olhar

altivo sobre o mar.

J. Aberto de Oliveira

 Escultura: Pedro Cabrita Reis - Leça da Palmeira



14.1.20

OS ANJOS AFINAL





Os anjos afinal
têm corpo.

Um corpo disperso
na tela do meu sono.

Os anjos brincam
e dançam no ar

que treme
dentro de mim

e de outras frases.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo

7.1.20

UM PRÍNCIPE NA ESCOLA





Eu era um menino desconcertante e arrumadinho.
Fazia e dizia asneiras como os outros rapazes 
e era cúmplice nos segredos das companheiras.
Os seus ritmos e graça de ser me inspiravam.
Alheio ao real, eu sonhava demasias.
Um dia ateei o fogo a uma meda de lenha.
Era belo o arder no âmago do lume.
Limpo e sem luxos era um príncipe na escola  
e por onde quer que fosse.
Adivinhava caminhos e atalhos 
através de campos e baldios
ao ar da luz de todos os dias.
Na bondade e na malandrice havia nobreza.
Era delicadíssimo na tristeza e na alegria.
Tinha o olhar das aves mais pequenas.

J. Alberto de Oliveira

2.1.20

O MECANISMO DO TEMPO





O ritmo do tempo serve-se dos ponteiros do relógio
para nos mostrar a injustiça das horas
em fuga.

Aritmeticamente vil o tempo não arreda pé.
Ora se veste de luto
ora se veste de festa.

O mecanismo do tempo regula tudo.
Hora a hora o tempo nos devora.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Relógio despertador Petrax - 1945

21.12.19

PRECLARO O DIA





Preclaro o dia em noite de Natal.
O dia em que nos vemos a trocar

as chaves e o luxo da alma
por uma escada plena de anjos.

J. Alberto de Oliveira

16.12.19

BILHAS PARTIDAS





O tempo alonga-se na altura da escada.
No ar adoecido pela fadiga da subida.

E assim vamos com a nuvem que passa
copiando sombras e detritos.

Neste jogo
parecemos bilhas partidas

em vez de irmos inteiros ao deserto
da sede que nos cega.

J. Alberto de Oliveira

8.12.19

DESATINOS





Pela nudez da alba
sem muros nem portas

alguém passa.

Alguém recorta
nos lenços do ar

furtivas lembranças.

Quem passa
e assim me desatina

os pés e as mãos?

J. Alberto de Oliveira

23.11.19

OS IMPERDOÁVEIS





Há na língua italiana, a propósito do imperdoável ou imperdoáveis – gli imperddonabili – alguns vocábulos incisivos no seu dizer significante, sonoridade e vigor:

Intelligenza – faculdade activa do entendimento e lucidez
Eleganza – elegância, delicadeza e brio comunicante
Piglio – toque, distinção deliberada
Disinvoltura – desenvoltura, agilidade viva
Noncuranza – descuido fino
Sprezzatura – o supremo brasão da inteligência aliada à sensibilidade e fidalguia, um modo negligentemente livre de fazer e dizer, “próprio de mestre seguro de si.” (N.Zingarelli)

J. Alberto de Oliveira

16.11.19

O ENSINO DA MELANCOLIA





O ensino da melancolia
soletra o meu nome

como se eu ainda
fosse

um menino da escola.

Chama por mim
e cita coisas amadas

antes que se perca a memória
nas fundas águas caladas.

J. Aberto de Oliveira

10.11.19

EM TEMPO DE BOLOTAS





Será por ignorância, estupidez ou ganância?
Sim.
Às vezes trocamos algumas das nossas pérolas por porcos.
E depois?
Depois damos aos porcos as pérolas restantes
como se fossem bolotas.


J. Alberto de Oliveira

29.10.19

A MÚSICA ENSINA A PERGUNTAR

                                                                                                                                                                                                 Emerenciano




Em que ponto do absoluto
o amor é mais interior que o azul sem mistura?


Somos o barro ou a tela de Deus?


Em que jardim eu devo ainda plantar
roseiras de orvalho?


De que trata a música?


A palavra musical é uma taça de cristal 
cheia de ambrosia ou de água viva?


Onde cintilam as delícias da alegria profunda?

18.10.19

NUM VERSO VADIO





O silêncio maior
na minha voz escrita.

A hora suspensa
num verso vadio.

J. Alberto de Oliveira

9.10.19

AS LEIS DA LUZ





Quando fores embora deixa o bolor
e as peças de roupa usada ou puída.

Larga os restos de remédios e os rascunhos
dos sentimentos e da memória.

Não leves nada contigo
e deixa-te acompanhar pelo desconhecido.

No verso mais profundo
ainda podes ler as leis da luz.


J. Alberto de Oliveira

17.9.19

CONSTELAÇÕES




A noite fecha-se no livro
quando acendes

o verbo da última frase.

Quando o sono da vida
cai no limiar do silêncio.

O verbo torna-se carne
quando tocas nas estrelas

com a largueza do olhar.

J. Alberto de Oliveira

9.9.19

O AR DO AZUL





O ar do azul feito de teoremas

e de claridades
ébrias de vento.

O ar do azul extasia as águas.

J. Alberto de Oliveira

29.8.19

FRAGMENTOS DO IMENSO





Às vezes admito que a vida
seja uma espécie de relance.

Um marmulho de água corredia.




Logo ao primeiro minuto de nascer
o mundo avisou-me

tens que existir para
desassossegadamente viver e morrer.




A rosa do jardim quando é só rosa
torna-se mais atenta

que todas as demais rosas.




O sol em sua regência
fala com as águas do imenso.

J. Alberto de Oliveira

22.8.19

A PIAF - Jorge de Sena





Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.

 Quem como ela perdeu
 toda a alegria e toda a esperança
 é que pode cantar com esta ciência
 
 o desespero de ser-se um ser humano
 
 entre os humanos que o são tão pouco.

   1964
   JORGE DE SENA
   "Arte de Música"

13.8.19

OS EFEITOS DA MÚSICA - para Luandino Vieira




OS EFEITOS DA MÚSICA
                              para Luandino Vieira




A música é a nossa língua materna.
Na música há uma sintaxe.
Há substantivos ou lembranças cheias de substância
onde corre leite e mel.

A fluência da música transmite silêncios
rigor e desígnios
tempo e consequências imprevisíveis.
A música é o triunfo da vida.

Os desenhos ou efeitos da música são tão verbais
e surpreendentes
como qualquer poema excelente.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Luandino Vieira

5.8.19

COM O LÁPIS NO BOLSO





Quando a noite vem
ouve-se 

a respiração dos bichos.

É maior o assombro
e pairam segredos

a sustentar o silêncio.

À hora em que os bichos 
olham o fogo

eu adormeço
com o lápis no bolso.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: H. Azevedo

2.8.19

AS LEIS DO FOGO





Aonde o assombro?
Aonde a escada sem fim?

Aonde o amor
em romance de sangue?

As leis do fogo
tecem  teias aproximativas

com fios de cegas lembranças.

Quem de amor é sofrido
de assombro anda servido.

J. Alberto de Oliveira

Pintura: Antoni Tàpies

23.7.19

OUTRA VEZ SÁ DE MIRANDA





Ao meio dia em ponto
a luz
e a sombra dos ramos
da palmeira

pousam quase a prumo
no silêncio do ar.

Ao meio dia o sol é grande
diria outra vez
por cegos motivos
o poeta Sá de Miranda.

J. Alberto de Oliveira

16.7.19

NOS VERSOS DE SÁ DE MIRANDA





O sol cai no meu corpo.
O sol é grande
nos versos de Sá de Miranda.

O sol
cai em meus cuidados graves
da mesma forma

que pelos montes
caem co’a calma as aves.

J. Alberto de Oliveira

10.7.19

COM PALAVRAS SILENCIOSAS



A Mãe primeiro adivinhou o filho
ou seja o suporte do seu nome.
Depois pensou nas coisas supremas da vida.

O volume dos dias corridos era essencial.

A Mãe ordenava os trabalhos do sol
com palavras silenciosas.

A fluidez quente do leite nos guiava.

Eu crescia de costas deitadas no linho
e de olhos fixos na melancolia solar.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo


25.6.19

O MEDO E PAVOR

                                                                                                      "Claramente azul" - Leça da Palmeira



O medo e pavor às aranhas
fecharam a ferro e fogo

o jardim dado ao sol.

Entre a ferrugem copiosa
e os espigões da frieza

o poema não floriu mais.

O medo e a aridez
dizimaram-te as rosas

oh Dional!

J. Alberto de Oliveira




22.6.19

O LÁPIS E A SAFA





Falta-me um mata-borrão para ser mais antigo.
Desde que a tinta, o tinteiro, as penas e canetas de tinta permanente ficaram pelo caminho, o mata-borrão é quase e apenas uma lembrança.
Ainda conservo uma folhinha de mata-borrão só para não esquecer.

Se eu fosse escrivão, teria os necessários instrumentos do ofício. Porém, basta-me o lápis para o texto de ser e para sublinhar frases nos livros.
Às vezes também me sirvo de uma safa (substantivo feminino: borracha de apagar) para anular o inútil.

Não gosto de borrar a escrita. Já não sou aprendiz de borrões.

Nos arredores de mim leio muitas palavras alheias que precisam de uma safa, de lixívia ou de corrector.

Com as palavras denegridas são muitos os borrões da vida.

J. Alberto de Oliveira

15.6.19

EM CARNE VIVA





Saí da palavra justa 
em poema.

Em carne viva nasci.

Do cego sopro do ar
vivo coberto de espuma

de nomes e de sal.

J. Alberto de Oliveira

12.6.19

CONTRA O MURO




Contra o muro que anoitece
resiste o poeta

que não se fia em vazias conversas.

Mudo ali permanece
de mão aberta

e pensativo para o que der e vier.

J. Alberto de Oliveira




27.5.19

A PINHA ACESA





A alegria verbal talvez seja a minha origem.
Nasci para que se não apagasse a pinha acesa
de uma  noite de Setembro.
Para que nada se perdesse deram-me um nome.
O ar respirado também transmitia amor
e a casa ficou mais luminosa.
Quando o sol começou a trabalhar
ainda havia rosas perto da soleira da porta.
Para que a alegria fosse completa
(foi o que depois me disseram)
só faltavam  o lápis e um caderno.

J. Alberto de Oliveira