A arte do lusíadas, ou por assim dizer, a
nossa arte, deve-se ao movimento dos ventos e das grandes águas que nos levaram “por
mares nunca de antes navegados”, dando “novos mundos ao mundo”, no sentido épico de Camões.
J. Alberto de Oliveira
A arte do lusíadas, ou por assim dizer, a
nossa arte, deve-se ao movimento dos ventos e das grandes águas que nos levaram “por
mares nunca de antes navegados”, dando “novos mundos ao mundo”, no sentido épico de Camões.
J. Alberto de Oliveira
Desenho de Manuela Barbosa
J. Alberto de Oliveira nasceu em
Santo Tirso, em 1945. Cursou Teologia. Franciscano, poeta e professor
(aposentado).
Legente da intimidade musical.
Escreve para, muito simplesmente, apurar a cadência do verso que falta ouvir.
Muito cedo, aprendeu a dizer de si para si: “a conjura da sensibilidade e do
pensamento, por vezes, faz de mim um clandestino que não sabe onde está”.
A deiscência acontece quando a
alma e seus sentidos ficam disponíveis para a liberdade livre.
Emblematicamente – super
foetida flumina.
Com o nome José Alberto de Oliveira publicou (poesia):
Alegria Irrecusável –
1974
Nos Vidros da Noite –
1983
A Ilha dos Amores –
AJHLP, 1984 (obra colectiva)
Com o nome J. Alberto de Oliveira (poesia):
A Água do Nome – Edições
Afrontamento, 1998
O Som Aproximativo –
Edições Afrontamento, 2005
Palavras Escolhidas –
Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)
No Linho Verbal –
Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)
7 X 7 Versos – Cadernos
Nó Cego (3), 2008 (plaquete, fora de mercado)
O Anjo Inefável –
Cadernos Nó Cego (4), 2012 (plaquete, fora de mercado)
Entrepoemas – Edições
Afrontamento, 2014
O Mês Maio da Mãe – C.Art
– 2015
Das Varandas de Ver – Cadernos
Nó Cego (5), 2017 (plaquete, fora de mercado).
Manu Scripta – Antologia
de Poemas Manuscritos (obra colectiva), Ed. Glaciar, 2018
O Triunfo da Música – (Poemas
com desenhos de Luandino V. – plaquete, fora de mercado), Ed. Porta Treze, V. N.
Cerveira, 2019
Em espera:
A Tela Tangível (poesia)
Gramática de Versos
(poesia)
Num Pé d’Água (poesia)
Desenho de Manuela Barbosa
OS ANJOS DO POETA
para Alícia
Não são as cinzas do tempo.
São os anjos do poeta
que assediam os muros da casa.
E quando menos se espera
entram pela janela adentro
pedindo alguns versos para ficar.
J. Alberto de Oliveira
Foto: M. Aelaide
O que falta nos meus olhos
para que eles possam ver
o coração abrasivo do sol?
J. Alberto de Oliveira
Num
jogo de furtivas adivinhas
trocavam
entre si respostas
e sonhos que eram perguntas.
A
essência
vinha
de pinhas acesas
que ardiam até ao fim
para traduzir o lume.
Quando em
menino eu via um arco-íris ficava muito pensativo diante daquele desenho de
cores. Imaginava que ele se devia ao movimento dos anjos ou simplesmente era um
arco a levar água para as nuvens nos darem mais chuva. Só mais tarde nas coisas
que se aprendem na escola vim a saber o que é o arco-íris.
Mas não fiquei
muito contente com as explicações científicas.
Gostei mais de
um brevíssimo conto plausível de Carlos Drumond de Andrade. Diz que um dia viu
uma tapeçaria onde havia duas cabeças comunicantes, de cujas bocas saem sopros
coloridos que, juntando-se, formavam um arco-íris.
Conta o poeta
brasileiro:
E quase a
concluir esclarece:
“As
confidências são altas, não porque se exprimam em tom de voz elevada; são altas
em si, pela importância do significado, pelo conteúdo patético da
informação, que só a cor pode captar bem e, bem captado, se transforma em som,
mas só para ouvidos especiais.”
J. Alberto de Oliveira
Fai friu acho que bai nebar.
Aqueceu-bos a un borralho que ende bos mando.
Que tengades un Bouno Natal
e que Nino Jesus bos trai-a un anho 2024
cheno de cousas bounas.
Un chi arrochado.
Amo a beleza que não entendo,
A beleza que me dá repentes
e quase me deixa em claro.
Amo a beleza à beira do silêncio.
À beira de haver palavras
com segredos entre si.
A beleza dá-me repentes de ser.
Desenho de Manuela Barbosa
Quem és tu, bárbara, que moras
num poema que se estuda nas
escolas
e se lê em recitais
- tu que te limitaste a ser amada
por um poeta que, se calhar, mais
não te deu em troca do amor
do que esse poema que tu, se
calhar,
nunca chegaste a ouvir? Quem és,
ó mulher mais cruel do que
esse
poeta que te cantou, e de
cuja vida
ninguém sabe nada - a não ser
que te amou, e te deitou
nesse
poema em que ainda vives, e
respiras,
como no dia em que ele o escreveu
lembrando-se do teu corpo, e dos
teus lábios, e dias, ou noites,
que contigo se passaram? Quem és,
mulher real e sonhada que habitas
todos os poemas que esse poema
inspirou, e todos os sonhos que
nessa bárbara encontraram uma
imagem
precisa e definitiva? Volta-te
nesses versos, para que te
vejamos
o rosto, e diz-nos o teu nome - o
nome
autêntico, e não esse que o poeta
inventou para te chamar num poema
que de ti só guarda o segredo;
e adormece, depois, esquecendo
o que de ti disseram, e os
comentários
de que foste o pretexto, e as
imagens
em que, cada vez mais, foste
perdendo
a tua, e única, imagem.
Nuno Júdice
Painel - Embaixada de Portugal
na Tailândia
Todos os dias procuro
o verbo que não mede
as distâncias mais íntimas.
Todos os dias o procuro
estudando os furtivos
cadernos do tempo.
E se o descobrir
quem me ensina a ler
no ditoso verbo
o infinito certo?
J. Alberto de Oliveira
Uma noite sonhei
que S. Francisco de Assis falava com as aves quando elas acordavam cedo
Sonhei uma vez e
não mais, porque as aves agora cantam sempre.
Elas respiram o que
ouviram, cumprem o que muito aprenderam com Francisco: transmitem a santidade
livre da natureza.
O som musical das
aves principia quando o sopro do ar é matinal.
As criaturas que
poisam nos braços dos humanos, que se refugiam nos ramos das árvores e voam
pelos ares parecem fragmentos de música. Lembram os louvores de existir. São as
legendas maiores da alegria.
As aves sustentam um reino de bem e paz. Um reino de santidade livre.
J. Alberto de Oliveira
Desenho de Alberto Péssimo
Debaixo da figueira a pausa é mais íntima.
A atenção convida a fugir ao fingimento
e ao cansaço do quotidiano.
Debaixo da figueira o sol não queima.
A frescura aviva o rumor dos insectos
em torno dos frutos maduros.
Debaixo da figueira ressoa
uma voz tão preciosa como a tua.
J. Alberto de Oliveira
Quando
molhaste os dedos
na
lídima água do nome
a
legenda maior estremeceu.
Do
amor que se tornou clamor
na
minha boca ainda pequena
eu recebi um selo de Setembro.
23/09/2023
J.
Alberto de Oliveira
Há um intimo de marluz
que fala dentro de mim.
A natureza do azul
nunca se apaga no mar.
De seus alicerces furtivos
nascem efeitos amados.
J. Alberto de Oliveira
Esta
nossa palavra saudade não rima
com
a nostalgia de Ulisses
em
seus perigos longe de casa.
É
mais que um murmúrio de lembranças.
Que me quereis,
perpétuas saudades?
perguntava
Camões.
A
saudade talvez seja uma onda musical
de
fios tangíveis e da fidelidade
intraduzível entre as almas e a distância.
A fidelidade começa pela evidência
ou regresso
de antigos amores ditos em segredo.
J. Alberto de Oliveira
Era de menino absorto
sem defeito nem artifícios
o linho que me vestia.
O estreme leite morno
dava o sustento de existir.
Era assim o primeiro amor.
J. Alberto de Oliveira
Há
sempre alguém que me pergunta:
-
Como vais?
Usando
o furtivo gerúndio, respondo:
-
Vou escrevivendo.
Que língua falam os poetas?
A sua fala tem a cadência amorosa das águas correntes. A pronúncia é semelhante à
intimidade verbal do silêncio.
Creio que foi Jorge Luís Borges quem disse: “não há um dia que passe, em que, por um
momento ao menos, eu não me eleve aos céus.”
Magnífico,
não é?
Também eu, José Alberto, pratico o exercício de me elevar. Na poesia, por exemplo, eu me
escrevo. Ela é o chão dos meus passos.
Na
poesia acontece a liberdade livre, aquele estado em que não sou possuído.
A poesia impede que me anulem. A poesia leva-me a pairar acima da comédia humana, da
vulgaridade e das trafulhices.
A
prosa disseca a vida, enquanto a poesia enamora-se do ser.
Um dia alguém me perguntou:
-
Por que é que tu és poeta?
Respondi:
-
Não sei. Vai interrogar os meus ancestrais que já partiram para a eternidade.
E
no outro dia escrevi:
“Quando
saio de mim levo sempre uma trouxa de imagens e lembranças às costas.
Assim
vou trocando um ror de coisas por alguns poemas.”
Também
já me perguntaram:
-
O que é a poesia?
-
Ainda não sei o que é a poesia. Mas, vou sabendo o que ela não é.
A
poesia não é um assunto ou um tratado. Não se estuda.
A
poesia lê-se. Ouve-se. Intui-se. Cria-se. A palavra flui esteticamente.
A
poesia é de pouquíssima gente.
Os
poetas respiram, ouvem e falam com letras próprias.
Se
na minha poesia houver cem palavras essenciais, é muito.
Procura-as
nos versos que já escrevi.
Ser poeta.
Que
o verbo bem-me-queira!
E
Deus me proteja!
O poder evocativo do poema deve-se à palavra: por sua vez, evocativa de uma realidade
ausente.
É
com subtis e obsessivas palavras musicais que se cria o poema.
É
musical a puridade verbal.
J. Alberto de Oliveira
Uma
vez, alguém fez-me esta pergunta, como se eu gostasse de ser entrevistado:
-
Para que serve a poesia?
-
A poesia não serve para nada - respondi. É distinta e difícil, mas inútil e
barata, nem sequer dá para comprar amendoins.
J. Alberto de Oliveira
A
minha origem natal começou por um objecto. Por uma chave que me foi dada para
abrir e fechar todas as portas. Valia por sete. Era uma chave rara e benigna, semelhante
àqueles três versos escritos num livro de poesia:
O afecto luminoso
ensina a ver
o que em ti é precioso.
Esquecia-me
de dizer que a chave nunca abriu nem fechou a cancela
dos
passos de quem ia e depois vinha.
Sempre
a deixámos entreaberta.
J. Alberto de Oliveira
Os Lusíadas não é um livro de palavras supostamente dirigidas aos deuses e ao vento. Talvez seja um mar de trabalhos onde há uma ilha de amores ou quimeras e especiarias orientais.
É um livro onde as palavras se escrevem por si mesmas.
O mar em sua natureza rebelde e sensual, recebe Os Lusíadas como um título de triunfo e glória.
J. Alberto de Oliveira