Havia
um navegante que dizia:
as
aves migratórias partem
voando
alto e em silêncio.
Cada
uma leva no bico
um
grão de sal.
Voam
todas em silêncio
para
não deixar cair ao mar
o precioso grão de sal.
José Alberto de OliveiraHavia
um navegante que dizia:
as
aves migratórias partem
voando
alto e em silêncio.
Cada
uma leva no bico
um
grão de sal.
Voam
todas em silêncio
para
não deixar cair ao mar
o precioso grão de sal.
José Alberto de OliveiraSe queres saber o que é um nómada ou um estranho em terras alheias, decora o breve texto que transcendeu Bernardim Ribeiro:
"Menina e moça me levaram de casa de meus pais para longes terras. E qual fosse a causa dessa levada, era pequena, não no soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já havia de ser o que depois foi".
Uma
carta de amor
escreve-se
a quem se ama.
Leva
sempre uma cor desconhecida.
Nas
entrelinhas esconde
uma
ou três confidências
acerca
do que se ama.
J. Alberto de Oliveira
-
Como te chamas?
-
O meu nome tem uma cor interior.
-
E porque não o dizes?
-
Não quero que morra?
-
Soletra-me ao menos as suas letras.
-
Não as devo separar umas das outras.
-
Quem te pôs o nome?
-
Foi quem me pôs amor.
(…)
E sem resposta fui embora.
J. Alberto de Oliveira
Tenho medo que a música não alumbre suficientemente
a hora
da nossa morte.
A não ser que, e Deus queira, a ressurreição se antecipe vitoriosamente.
Os
olhos dos amantes acreditam
nos
segredos da memória
da
mesma forma que as camélias
nos
espelhos do inverno
se
tornam quase rosas.
Os
olhos dos amantes
difundem os segredos da memória.
O
frio de inverno
aviva as camélias em vez de rosas.
A alma luzente não envelhece.
J. Alberto de Oliveira
Se
puderdes trabalhar por mim, dai-me de comer e deixai-me pensar aquilo que nem
imaginais.
Deixai-me
soletrar o que nem ousais dizer.
Possa
eu adivinhar o que nunca haveis de ouvir.
Tenha
eu o tempo propício para ver o limiar do invisível e sonhar o que é evidente.
E
quando eu tiver fome, trazei um naco de pão, ó irmãos do mundo.
J. Alberto de Oliveira
(Texto escrito enquanto ouvia Khatia Buniatishvili ao piano na Casa da Música, no dia 06/10/2019)
A
noite fecha-se no livro
quando
acendes
o
verbo da última frase.
Quando
o sono da vida
cai
no limiar do silêncio
e
outra fala se inicia.
O
verbo torna-se carne
quando
primeiro tocas
na
lua e nas estrelas
com a justeza do olhar.
J. Alberto de Oliveira
Na
primeira e única vez em que entrei pelo mar adentro, levaram-me num barquito de
pesca. Eu ia pensativo. Nunca abri a boca para dizer fosse o que fosse. Pensava
nas profundezas daquelas águas em movimento. O mistério do mais fundo
assustava. Mas eu também olhava para o alto. Via o azul que há lá em cima.
Só
pensava ou imaginava entre o mais fundo e as alturas.
Para
mim, ali no mar, tudo era mistério, temor e recolhimento.
Um
grande temor me arrepiava a existência.
Toda
aquela beleza tinha o poder de trazer a morte.
Tanto se morre na turbulência das águas do mar-alto como na orla
de qualquer mar
onde o tempo é de todos os passos.
J. Alberto de Oliveira
Cada
flor tem o seu fulgor
amante
da eternidade.
Nos
teus olhos
ela
vê o seu lugar e cor.
Não
a cortes.
Dá-lhe
a claridade
que
delicia e a sustenta.
Dá-lhe
a glória
de
ficar no pensamento.
J. Alberto de Oliveira
Quando
te vi debaixo da figueira
o
sol pedia uma pausa e beleza.
Ao
redor o peso da luz apurava
um
murmúrio de coisas simples.
Era
quase o fim do dia
a avolumar a vida.
Debaixo
daquela figueira
pensavas no que leio
e adivinho em ti.
J. Alberto de Oliveira
Desenho: Alberto Péssimo
No poema há sempre um enigma.
As palavras figuram como se fossem dívidas.
Tornam a poesia
deveras distinta:
musicalmente aproximativa.
J. Alberto de Oliveira
Não sei nada
nem
morrer eu sei.
o
que devo então fazer?
Se
o inferno é menos verdade
que
as geenas do mundo
para
onde eu devo ir?
Só tenho um segredo
e
adivinhações furtivas.
No
meio do frio e do escuro
o
que hei-de fazer?
Só
me resta admitir
que
se respira muito mal
entre
ferrugem e trafulhas.
J. Alberto de Oliveira
A
magnificência de
poucas e
claríssimas palavras
estremeça no
lápis de meus versos.
Num caderno
de ninfas e fadas
o corpo do
papel
transmita suas evidências amadas.
J. Alberto de Oliveira
OS NOMES AMADOS
para Amair
No
eixo mais firme do poema
os
nomes amados
são
de letras excelsas.
No mais intimo segredo
a tua mão é soletrada.
Talvez seja pelo excesso
em primor e beleza
de seus desenhos vistos no ar
antes das aves e do vento.
No ponto mais alto das palavras
com que nome nos havemos
de chamar?
J. Alberto de Oliveira
É urgente e precioso
dar
tempo ao tempo
amor ao amor
pensamento ao
pensamento
palavra à palavra
ardor ao ardor
até ao fulgor do
lume final.
J. Alberto de Oliveira
O luar inunda as noites do mundo.
Se os desleixos de pobre e a miséria de
pedinte não me sujam, também o luxo e a arrogância de rico não me emporcalhem.
Tenho o que posso e mereço.
A elegância do corpo e do espírito
inspira, conduz-me e pacifica. O importante é haver espaço e luar. E sobretudo,
saber lidar com os engenhos da existência.
J. Alberto de Oliveira
A inspiração vem do orvalho
dado pelo grande silêncio
quando o amor te adivinha.
Há um silêncio que se move
entre os efeitos do destino
e os insectos luminosos
que dialogam no escuro.
Quando o amor te imagina
até o próprio sono se mistura
com o fogo e suas memórias.
J. Alberto de Oliveira
Na última dobra do linho
o acto de quem nos leva
apaga as coisas visíveis
e tira-nos o tubo do oxigénio.
Na última dobra do linho
morre-se deste modo:
simplesmente com falta
de ar e de poesia.
J. Alberto de Oliveira
A horas e fora de horas
eu te sublimo ó regra de existir
com segredos e o perfumado
linho da nudez.
O sangue e o sal rodam
ainda em ferida.
As aves que partem
tersas e velozes
são versos
de lenços mais que sonhados.
J. Alberto de Oliveira