8.5.23

DE CASA DE MEUS PAIS

Se queres saber o que é um nómada ou um estranho em terras alheias, decora o breve texto que transcendeu Bernardim Ribeiro: 

"Menina e moça me levaram de casa de meus pais para longes terras. E qual fosse a causa dessa levada, era pequena, não no soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já havia de ser o que depois foi".

28.4.23

UMA CARTA DE AMOR


 

Uma carta de amor

escreve-se a quem se ama.

 

Leva sempre uma cor desconhecida.

 

Nas entrelinhas esconde

uma ou três confidências

 

acerca do que se ama.

J. Alberto de Oliveira


17.4.23

SEM RESPOSTA


 

- Como te chamas?

- O meu nome tem uma cor interior.

- E porque não o dizes?

- Não quero que morra?

- Soletra-me ao menos as suas letras.

- Não as devo separar umas das outras.

- Quem te pôs o nome?

- Foi quem me pôs amor.

(…)

E sem resposta fui embora.

J. Alberto de Oliveira


5.4.23

E DEUS QUEIRA


 

Tenho medo que a música não alumbre suficientemente a hora

da nossa morte.

A não ser que, e Deus queira, a ressurreição se antecipe vitoriosamente.

 J. Alberto de Oliveira

27.3.23

A ALMA LUZENTE


 

Os olhos dos amantes acreditam

nos segredos da memória

 

da mesma forma que as camélias

nos espelhos do inverno

 

se tornam quase rosas.

 

Os olhos dos amantes

difundem os segredos da memória.

 

O frio de inverno

aviva as camélias em vez de rosas.

 

A alma luzente não envelhece.

J. Alberto de Oliveira



18.3.23

VITA BREVIS


 

Se puderdes trabalhar por mim, dai-me de comer e deixai-me pensar aquilo que nem imaginais.

Deixai-me soletrar o que nem ousais dizer.

Possa eu adivinhar o que nunca haveis de ouvir.

Tenha eu o tempo propício para ver o limiar do invisível e sonhar o que é evidente.

E quando eu tiver fome, trazei um naco de pão, ó irmãos do mundo.

J. Alberto de Oliveira

(Texto escrito enquanto ouvia Khatia Buniatishvili ao piano na Casa da Música, no dia 06/10/2019)


7.3.23

O VERBO DA ÚLTIMA FRASE


 

A noite fecha-se no livro

quando acendes

 

o verbo da última frase.

 

Quando o sono da vida

cai no limiar do silêncio

 

e outra fala se inicia.

 

O verbo torna-se carne

quando primeiro tocas

 

na lua e nas estrelas

com a justeza do olhar.

J. Alberto de Oliveira


4.3.23

NO ALTO-MAR


 

Na primeira e única vez em que entrei pelo mar adentro, levaram-me num barquito de pesca. Eu ia pensativo. Nunca abri a boca para dizer fosse o que fosse. Pensava nas profundezas daquelas águas em movimento. O mistério do mais fundo assustava. Mas eu também olhava para o alto. Via o azul que há lá em cima.

Só pensava ou imaginava entre o mais fundo e as alturas.

Para mim, ali no mar, tudo era mistério, temor e recolhimento.

Um grande temor me arrepiava a existência.

Toda aquela beleza tinha o poder de trazer a morte.

Tanto se morre na turbulência das águas do mar-alto como na orla 

de qualquer mar 

onde o tempo é de todos os passos.

J. Alberto de Oliveira

 


25.2.23

CADA FLOR


 

Cada flor tem o seu fulgor

amante da eternidade.

 

Nos teus olhos

ela vê o seu lugar e cor.

 

Não a cortes.

 

Dá-lhe a claridade

que delicia e a sustenta.

 

Dá-lhe a glória

de ficar no pensamento.

J. Alberto de Oliveira


2.2.23

DEBAIXO DA FIGUEIRA




Quando te vi debaixo da figueira

o sol pedia uma pausa e beleza.

 

Ao redor o peso da luz apurava

um murmúrio de coisas simples.

 

Era quase o fim do dia

a avolumar a vida.

 

Debaixo daquela figueira

pensavas no que leio 


e adivinho em ti.

J. Alberto de Oliveira


Desenho: Alberto Péssimo


20.1.23

A POESIA APROXIMATIVA


 

No poema há sempre um enigma. 

As palavras figuram como se fossem dívidas.


Tornam a poesia 

deveras distinta:


musicalmente aproximativa.

J. Alberto de Oliveira

 


8.1.23

INÍCIOS DE MALDIZER




 

Não sei nada

nem morrer eu sei.


o que devo então fazer?

 

Se o inferno é menos verdade       

que as geenas do mundo

 

para onde eu devo ir?

 

Só tenho um segredo

e adivinhações furtivas.

 

No meio do frio e do escuro

o que hei-de fazer?

 

Só me resta admitir

 

que se respira muito mal

entre ferrugem e trafulhas.

J. Alberto de Oliveira


24.12.22

A MAGNIFICÊNCIA DE


 

A magnificência de

poucas e claríssimas palavras

 

estremeça no lápis de meus versos.

 

Num caderno de ninfas e fadas

o corpo do papel

 

transmita suas evidências amadas.

J. Alberto de Oliveira


11.12.22

OS NOMES AMADOS


 

OS NOMES AMADOS

                                                                             para Amair


No eixo mais firme do poema

os nomes amados

 

são de letras excelsas.

 

No mais intimo segredo

a tua mão é soletrada.

 

Talvez seja pelo excesso

em primor e beleza

 

de seus desenhos vistos  no ar

antes das aves e do vento.

 

No ponto mais alto das palavras

 

com que nome nos havemos

de chamar?

J. Alberto de Oliveira



1.12.22

DÁDIVAS


 

É urgente e precioso dar

tempo ao tempo

 

amor ao amor

pensamento ao pensamento

 

palavra à palavra

ardor ao ardor

 

até ao fulgor do lume final.

J. Alberto de Oliveira


21.11.22

AUTO-RETRATO COM LUAR


 

O luar inunda as noites do mundo.

Se os desleixos de pobre e a miséria de pedinte não me sujam, também o luxo e a arrogância de rico não me emporcalhem.

Tenho o que posso e mereço.

A elegância do corpo e do espírito inspira, conduz-me e pacifica. O importante é haver espaço e luar. E sobretudo, saber lidar com os engenhos da existência.

J. Alberto de Oliveira


8.11.22

QUANDO O AMOR


 

A inspiração vem do orvalho

dado pelo grande silêncio

 

quando o amor te adivinha.

 

Há um silêncio que se move

entre os efeitos do destino

 

e os insectos luminosos

que dialogam no escuro.

 

Quando o amor te imagina

 

até o próprio sono se mistura

com o fogo e suas memórias.

J. Alberto de Oliveira


3.11.22

NA ÚLTIMA DOBRA


 

Na última dobra do linho

o acto de quem nos leva

 

apaga as coisas visíveis

e tira-nos o tubo do oxigénio.

 

Na última dobra do linho

morre-se deste modo:

 

simplesmente com falta

de ar e de poesia.

J. Alberto de Oliveira


23.10.22

A HORAS E FORA DE HORAS


 

A horas e fora de horas

eu te sublimo ó regra de existir

 

com segredos e o perfumado

linho da nudez.

 

O sangue e o sal rodam

ainda em ferida.

 

As aves que partem

tersas e velozes

 

são versos

de lenços mais que sonhados.

J. Alberto de Oliveira


13.10.22

VIRADO DO AVESSO


 

Quando as ideias de Deus

me tocam

fico logo virado do avesso.

 

Igual a uma folha nua

e seca

exposta ao vento e à chuva.

 

Quando os sentidos da vida

apuram sopro a sopro

a poesia e seu fascínio

 

com a realeza do amor

cumpre-se o que imagino.

J. Alberto de Oliveira