4.3.23

NO ALTO-MAR


 

Na primeira e única vez em que entrei pelo mar adentro, levaram-me num barquito de pesca. Eu ia pensativo. Nunca abri a boca para dizer fosse o que fosse. Pensava nas profundezas daquelas águas em movimento. O mistério do mais fundo assustava. Mas eu também olhava para o alto. Via o azul que há lá em cima.

Só pensava ou imaginava entre o mais fundo e as alturas.

Para mim, ali no mar, tudo era mistério, temor e recolhimento.

Um grande temor me arrepiava a existência.

Toda aquela beleza tinha o poder de trazer a morte.

Tanto se morre na turbulência das águas do mar-alto como na orla 

de qualquer mar 

onde o tempo é de todos os passos.

J. Alberto de Oliveira

 


25.2.23

CADA FLOR


 

Cada flor tem o seu fulgor

amante da eternidade.

 

Nos teus olhos

ela vê o seu lugar e cor.

 

Não a cortes.

 

Dá-lhe a claridade

que delicia e a sustenta.

 

Dá-lhe a glória

de ficar no pensamento.

J. Alberto de Oliveira


2.2.23

DEBAIXO DA FIGUEIRA




Quando te vi debaixo da figueira

o sol pedia uma pausa e beleza.

 

Ao redor o peso da luz apurava

um murmúrio de coisas simples.

 

Era quase o fim do dia

a avolumar a vida.

 

Debaixo daquela figueira

pensavas no que leio 


e adivinho em ti.

J. Alberto de Oliveira


Desenho: Alberto Péssimo


20.1.23

A POESIA APROXIMATIVA


 

No poema há sempre um enigma. 

As palavras figuram como se fossem dívidas.


Tornam a poesia 

deveras distinta:


musicalmente aproximativa.

J. Alberto de Oliveira

 


8.1.23

INÍCIOS DE MALDIZER




 

Não sei nada

nem morrer eu sei.


o que devo então fazer?

 

Se o inferno é menos verdade       

que as geenas do mundo

 

para onde eu devo ir?

 

Só tenho um segredo

e adivinhações furtivas.

 

No meio do frio e do escuro

o que hei-de fazer?

 

Só me resta admitir

 

que se respira muito mal

entre ferrugem e trafulhas.

J. Alberto de Oliveira


24.12.22

A MAGNIFICÊNCIA DE


 

A magnificência de

poucas e claríssimas palavras

 

estremeça no lápis de meus versos.

 

Num caderno de ninfas e fadas

o corpo do papel

 

transmita suas evidências amadas.

J. Alberto de Oliveira


11.12.22

OS NOMES AMADOS


 

OS NOMES AMADOS

                                                                             para Amair


No eixo mais firme do poema

os nomes amados

 

são de letras excelsas.

 

No mais intimo segredo

a tua mão é soletrada.

 

Talvez seja pelo excesso

em primor e beleza

 

de seus desenhos vistos  no ar

antes das aves e do vento.

 

No ponto mais alto das palavras

 

com que nome nos havemos

de chamar?

J. Alberto de Oliveira



1.12.22

DÁDIVAS


 

É urgente e precioso dar

tempo ao tempo

 

amor ao amor

pensamento ao pensamento

 

palavra à palavra

ardor ao ardor

 

até ao fulgor do lume final.

J. Alberto de Oliveira


21.11.22

AUTO-RETRATO COM LUAR


 

O luar inunda as noites do mundo.

Se os desleixos de pobre e a miséria de pedinte não me sujam, também o luxo e a arrogância de rico não me emporcalhem.

Tenho o que posso e mereço.

A elegância do corpo e do espírito inspira, conduz-me e pacifica. O importante é haver espaço e luar. E sobretudo, saber lidar com os engenhos da existência.

J. Alberto de Oliveira


8.11.22

QUANDO O AMOR


 

A inspiração vem do orvalho

dado pelo grande silêncio

 

quando o amor te adivinha.

 

Há um silêncio que se move

entre os efeitos do destino

 

e os insectos luminosos

que dialogam no escuro.

 

Quando o amor te imagina

 

até o próprio sono se mistura

com o fogo e suas memórias.

J. Alberto de Oliveira


3.11.22

NA ÚLTIMA DOBRA


 

Na última dobra do linho

o acto de quem nos leva

 

apaga as coisas visíveis

e tira-nos o tubo do oxigénio.

 

Na última dobra do linho

morre-se deste modo:

 

simplesmente com falta

de ar e de poesia.

J. Alberto de Oliveira


23.10.22

A HORAS E FORA DE HORAS


 

A horas e fora de horas

eu te sublimo ó regra de existir

 

com segredos e o perfumado

linho da nudez.

 

O sangue e o sal rodam

ainda em ferida.

 

As aves que partem

tersas e velozes

 

são versos

de lenços mais que sonhados.

J. Alberto de Oliveira


13.10.22

VIRADO DO AVESSO


 

Quando as ideias de Deus

me tocam

fico logo virado do avesso.

 

Igual a uma folha nua

e seca

exposta ao vento e à chuva.

 

Quando os sentidos da vida

apuram sopro a sopro

a poesia e seu fascínio

 

com a realeza do amor

cumpre-se o que imagino.

J. Alberto de Oliveira


23.9.22

O MAR DE NAUSÍCAA


 

De onda em onda

a luminescência mede-me

 

as horas

e os movimentos do mar.

 

Ela conta-me histórias

dos que navegam.

 

Dos que não voltam atrás

e se perdem

 

só para falar com Nausícaa.

J. A. de Oliveira


14.9.22

DUAS ÁGUAS



A mulher e o mar

nos areais do infinito.


Duas águas de prece

e de luz contemplativa.

 

A mulher e o mar

desafiando os céus.

 

A mulher e o mar

apurando os mistérios.

 J. Alberto de Oliveira

Azulejo - Fernando Gonçalves ("Nando") - Póvoa de Varzim



 



11.9.22

SAFO - MAÇÃ VERMELHA


 

No ramo alto, alta no ramo

mais alto, uma maçã

vermelha

ali ficou esquecida. Esquecida?

Não, em vão tentaram colhê-la.

 Safo - Ilha de Lesbos - século VII a. C.

Versão: Eugénio de Andrade


3.9.22

A CONSTRUÇÃO DO TEXTO


 

A construção do texto começa

onde os amantes sonham.

 

Onde cada palavra 

sensitiva espera.


Onde a gramática da fala

é de ouro arrebatado ao fogo.

J. Alberto de Oliveira


13.8.22

A LUZ DE ’SCREVER


 

Algumas palavras resumem o júbilo

de ver o invisível.

 

Recuso-me a existir só para ’star.

 

O que não entendo

espero.

 

Desejo que a vida cumpra 

a razão estética da mão a ’screver


Talvez o azul do linho em flor seja a cor

mais próxima das águas e do quotidiano das janelas.


O azul da tinta anda sempre comigo.

 

À hora do crepúsculo deixo que a porta entreaberta

mostre a luz de ’screver.

 

O primor de acender o fogo começa

pela substância de uma confidência.

                                  

Alumia o poema completo.

J. Alberto de Oliveira

7.8.22

À HORA DO LUSCO-FUSCO


 

À hora do lusco-fusco

as aves mais pequenas

 

esvoaçam

de ramo em ramo.

 

Iminentemente

esperam por mim.

 

Esperam que a noite e a lua

entrem em nossas vidas.

J. Alberto de Oliveira