7.7.20

FULGOR DE JULHO





Os dias atados ao sol
suscitam molhos

de trigo maduro.

São feixes
do fulgor de Julho.

Tanto são de ontem
como são de hoje.

Evocam molhos
de oiro puro

sem joio nem restolho.

J. Alberto de Oliveira

Imagem - Campo de colheita de trigo - Van Gogh

29.6.20

FRUITOS SILVESTRES





Confundir o poema intenso
com os desatinos da vida

ou trocar fruitos silvestres
por um só verso de beijos?

Diz-se à boca cheia
que os primores da natureza
alumiam o desejo e a mesa.

Consta que no silêncio
mais escuso do arvoredo
os fruitos são cantantes.

Sabem a delícias altas.

J. Alberto de Oliveira

23.6.20

O ROXO





Uma estância de fogo
exalta o roxo.

Canta em dor calada.

Com sílabas contadas
desafia a cor

de seu triste clamor.

Furtiva ressoa a fala 
do amor rente à chama.

J. Alberto de Oliveira

16.6.20

DE NOITE





De noite não sei falar.
Desatino para atrair o sopro

de muitos nomes
que vagueiam lá fora
entre enigmas e o mar calado.

A mão que me abre a porta
sangrou no meio do orvalho.

J. Alberto de Oliveira



9.6.20

LENÇO DE SETEMBRO





A tua mão impaciente
de nudez

abriu-me a porta
que dá para a história

dum lenço de Setembro.

Hei-de pô-lo ao peito
como se fosse uma rosa.

J. Alberto de Oliveira

2.6.20

A MINHA LINHAGEM




Eu sei que a minha linhagem
foi tecida com danças musicais
e linho à mistura.

Eu sei que é difícil
e desnuda a substância
de todo e qualquer aedo.

Eu sei que é absurdo
o ofício desta sorte minha.

Mas que hei-de fazer
contra os desatinos

de um inflexível destino?

J. Alberto de Oliveira

23.5.20

POR RAZÕES DE ALMA E NUDEZ





Nasci afeiçoado à melancolia
e ao único verbo que estudo.

Por razões de alma e nudez
apuro a fala com tinta azul.

Aclaro as lembranças da vida
lendo um verso de cada vez.

J. Alberto de Oliveira

18.5.20

FIOS DE ÁGUA





Deito-me e o aroma
do linho que respiro

é branco e brilha
em torno do meu corpo.

Uma porção de claridade
apazigua os fios de água

que se movem lá fora.

Infindáveis escorrem
com as fontes no regaço.

J. Alberto de Oliveira

10.5.20

AS MÃES





As mães ainda são uma espécie de princípio feminino do mundo.
Ou talvez o fermento da nascência.

Às mães chamarei fermento da vida crescendo.
Para os antigos, o fermento era o crescente, 
aquele punhado de massa que ficava duma fornada 
e que serviria para levedar a massa da fornada seguinte.

O que significa a ternura quando a mãe chama?
Que os filhos são o argumento mais sensitivo e maternal.

J. Alberto de Oliveira

2.5.20

ALGURES





Algures em linhas de sal
e ramas cor de mel

o dia resvala para o fim.

Nos extremos do mar
o sangue

e o ouro se misturam.

O vento sopra devagar
para que nada se perca

na tela de luz magoada.

J. Alberto de Oliveira

25.4.20

A COBRA





Quando Eva e Adão
saíram do Éden
e se foram embora

a lareira ficou acesa.

Mil gotas de chuva
caíram sobre as folhas
da árvore da ruptura.

Depois

e só depois a cobra
mordeu o resto da fruta.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: LUCAS CRANACH  - THE-ELDER - ADAM AND EVE

16.4.20

QUANDO SAÍA À RUA





Quando saía à rua
vestia-se de mar.

Cobria-se de azul
e simplicidade.

Quando saía de casa
ia ver na espuma a luz.

Os cabelos e a blusa
flutuavam em transe

porque era do mar
a sua graça de alma.

J. Alberto de Oliveira

7.4.20

CORPO ASCENSIONAL




- Não me detenhas, Myriam. Tenho de ir.
- Para onde vais?
- Myriam, não toques no meu corpo ascensional.
- Para onde vais?
- Vou para o íntimo donde vim. Para a memória de sempre.
- A tua memória?
- A memória de mim.
- Não vás. Não vás sem um beijo no temor de te não ver mais.
Dá-me de ti o sentido firme da altura.
Eleva-me ao sonho da espera.
Inunda-me os olhos de perfume.
Deixa-me nos dedos a arte de tocar o azul dos céus e o vento.
Apura em mim o dom de te respirar com palavras e o pensamento.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Iluminura da Idade Média - Ascension - "Les Très Riches Heures"



30.3.20

MÉCIA EM JORGE DE SENA

´



CONHEÇO O SAL

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena

20.3.20

BREVE CLAMOR





Na subida para a dor
a carga é dura.

A vida parece um jogo
de espigões e agrafos.

A curva do ar é brusca
demais e turva, Senhor!


J. Alberto de Oliveira

Foto: J. A. de Oliveira

13.3.20

OBRAS POÉTICAS




Com o nome José Alberto de Oliveira:

Alegria Irrecusável (1974) – esgotado
Nos Vidros da Noite (1983) – esgotado


Com o nome J. Alberto de Oliveira:

A Água do Nome – Edições Afrontamento, 1998
O Som Aproximativo – Edições Afrontamento, 2005
Palavras Escolhidas – Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)
No Linho Verbal – Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)
7X7 Versos – Cadernos Nó Cego (3), 2008 (plaquete, fora de mercado)
O Anjo Inefável – Cadernos Nó Cego (4), 2012 (plaquete, fora de mercado)
Entrepoemas - Edições Afrontamento, 2014
O Mês Maio da Mãe – C. Art, 2015
Das Varandas de Ver – Cadernos Nó Cego (5), 2917 (plaquete, fora de mercado)
Manu Scripta – Antologia de Poemas Manuscritos (obra colectiva), Ed. Glaciar, 2018.
O Triunfo da Música – Com desenhos de Luandino Vieira – Porta XIII (fora de mercado)

Em espera:

A Tela Tangível (poesia)

Gramática de Versos (poesia)

Num Pé d’Água (poesia)






10.3.20

LEGENDA DO MAR





A mulher em frente ao mar
atenta se debruça.

Encurta a distância
para fazer da linha do azul

um sítio de claridade.

A mulher em frente ao mar
estuda pontos de luz.

E tudo o mais
se transmuda no olhar.

J. Alberto de Oliveira




2.3.20

FOI A LUA





Tão luminoso o luar!
Sim. 
Foi a lua que deixou cair
um lenço de linho memorial.

J. Alberto de Oliveira

20.2.20

À JANELA





Das noites da minha janela virada ao sul, gosto de olhar para cima, a ver se descubro a lua dentro de uma nuvem.
Quando era miúdo, disseram-me que a lua tinha asas. Será por isso que ela não se mostra sempre?
Lá no alto, a lua tão sozinha, com quem fala?
Conversa consigo mesma, como fazem as pessoas pensativas, 
ou foge de me ver à janela?

J. Alberto de Oliveira

30.1.20

NARRATIVA





Cheio dos mais ou menos, de talvez e do quase, lá ia indeciso procurar a sua conversada. Com as ideias à deriva no pensamento, ele cismava, estremecia, respirava ao rés do temor, imaginava, desentendia-se consigo mesmo.
Os modos como os olhos dela o acolhiam davam para grandes somas de amor.
Ela chamava-lhe Amadorim.
Dela, nem o nome eu sei.
Por isso mesmo, fim da narrativa.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Artes - Escola Secundária de Augusto Gomes - Matosinhos

24.1.20

SOBRE O MAR





Mudam-se os tempos
mudam-se os ângulos.

Do ângulo raso
ao ângulo recto

o privilégio é das mãos
e da paixão no olhar

altivo sobre o mar.

J. Aberto de Oliveira

 Escultura: Pedro Cabrita Reis - Leça da Palmeira



14.1.20

OS ANJOS AFINAL





Os anjos afinal
têm corpo.

Um corpo disperso
na tela do meu sono.

Os anjos brincam
e dançam no ar

que treme
dentro de mim

e de outras frases.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo

7.1.20

UM PRÍNCIPE NA ESCOLA





Eu era um menino desconcertante e arrumadinho.
Fazia e dizia asneiras como os outros rapazes 
e era cúmplice nos segredos das companheiras.
Os seus ritmos e graça de ser me inspiravam.
Alheio ao real, eu sonhava demasias.
Um dia ateei o fogo a uma meda de lenha.
Era belo o arder no âmago do lume.
Limpo e sem luxos era um príncipe na escola  
e por onde quer que fosse.
Adivinhava caminhos e atalhos 
através de campos e baldios
ao ar da luz de todos os dias.
Na bondade e na malandrice havia nobreza.
Era delicadíssimo na tristeza e na alegria.
Tinha o olhar das aves mais pequenas.

J. Alberto de Oliveira

2.1.20

O MECANISMO DO TEMPO





O ritmo do tempo serve-se dos ponteiros do relógio
para nos mostrar a injustiça das horas
em fuga.

Aritmeticamente vil o tempo não arreda pé.
Ora se veste de luto
ora se veste de festa.

O mecanismo do tempo regula tudo.
Hora a hora o tempo nos devora.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Relógio despertador Petrax - 1945

21.12.19

PRECLARO O DIA





Preclaro o dia em noite de Natal.
O dia em que nos vemos a trocar

as chaves e o luxo da alma
por uma escada plena de anjos.

J. Alberto de Oliveira

16.12.19

BILHAS PARTIDAS





O tempo alonga-se na altura da escada.
No ar adoecido pela fadiga da subida.

E assim vamos com a nuvem que passa
copiando sombras e detritos.

Neste jogo
parecemos bilhas partidas

em vez de irmos inteiros ao deserto
da sede que nos cega.

J. Alberto de Oliveira

8.12.19

DESATINOS





Pela nudez da alba
sem muros nem portas

alguém passa.

Alguém recorta
nos lenços do ar

furtivas lembranças.

Quem passa
e assim me desatina

os pés e as mãos?

J. Alberto de Oliveira

23.11.19

OS IMPERDOÁVEIS





Há na língua italiana, a propósito do imperdoável ou imperdoáveis – gli imperddonabili – alguns vocábulos incisivos no seu dizer significante, sonoridade e vigor:

Intelligenza – faculdade activa do entendimento e lucidez
Eleganza – elegância, delicadeza e brio comunicante
Piglio – toque, distinção deliberada
Disinvoltura – desenvoltura, agilidade viva
Noncuranza – descuido fino
Sprezzatura – o supremo brasão da inteligência aliada à sensibilidade e fidalguia, um modo negligentemente livre de fazer e dizer, “próprio de mestre seguro de si.” (N.Zingarelli)

J. Alberto de Oliveira

16.11.19

O ENSINO DA MELANCOLIA





O ensino da melancolia
soletra o meu nome

como se eu ainda
fosse

um menino da escola.

Chama por mim
e cita coisas amadas

antes que se perca a memória
nas fundas águas caladas.

J. Aberto de Oliveira

10.11.19

EM TEMPO DE BOLOTAS





Será por ignorância, estupidez ou ganância?
Sim.
Às vezes trocamos algumas das nossas pérolas por porcos.
E depois?
Depois damos aos porcos as pérolas restantes
como se fossem bolotas.


J. Alberto de Oliveira

29.10.19

A MÚSICA ENSINA A PERGUNTAR

                                                                                                                                                                                                 Emerenciano




Em que ponto do absoluto
o amor é mais interior que o azul sem mistura?


Somos o barro ou a tela de Deus?


Em que jardim eu devo ainda plantar
roseiras de orvalho?


De que trata a música?


A palavra musical é uma taça de cristal 
cheia de ambrosia ou de água viva?


Onde cintilam as delícias da alegria profunda?

18.10.19

NUM VERSO VADIO





O silêncio maior
na minha voz escrita.

A hora suspensa
num verso vadio.

J. Alberto de Oliveira

9.10.19

AS LEIS DA LUZ





Quando fores embora deixa o bolor
e as peças de roupa usada ou puída.

Larga os restos de remédios e os rascunhos
dos sentimentos e da memória.

Não leves nada contigo
e deixa-te acompanhar pelo desconhecido.

No verso mais profundo
ainda podes ler as leis da luz.


J. Alberto de Oliveira

17.9.19

CONSTELAÇÕES




A noite fecha-se no livro
quando acendes

o verbo da última frase.

Quando o sono da vida
cai no limiar do silêncio.

O verbo torna-se carne
quando tocas nas estrelas

com a largueza do olhar.

J. Alberto de Oliveira

9.9.19

O AR DO AZUL





O ar do azul feito de teoremas

e de claridades
ébrias de vento.

O ar do azul extasia as águas.

J. Alberto de Oliveira

29.8.19

FRAGMENTOS DO IMENSO





Às vezes admito que a vida
seja uma espécie de relance.

Um marmulho de água corredia.




Logo ao primeiro minuto de nascer
o mundo avisou-me

tens que existir para
desassossegadamente viver e morrer.




A rosa do jardim quando é só rosa
torna-se mais atenta

que todas as demais rosas.




O sol em sua regência
fala com as águas do imenso.

J. Alberto de Oliveira

22.8.19

A PIAF - Jorge de Sena





Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.

 Quem como ela perdeu
 toda a alegria e toda a esperança
 é que pode cantar com esta ciência
 
 o desespero de ser-se um ser humano
 
 entre os humanos que o são tão pouco.

   1964
   JORGE DE SENA
   "Arte de Música"