9.5.19

COM CITAÇÃO DE HERBERTO HELDER




se alguém respirasse e cantasse uma palavra,
e súbito fosse respirado por ela, fosse
cantado assim
de puro júbilo ou, quem sabe? de medo puro,
poria no termo o selo de si mesmo?
quem é que sabe onde fica o mundo?
e de quê e de quem e de como é composto e dito,
de como uma palavra, uma só, regula
ininterruptamente tudo, e alguém a põe em uso,
oh glória idiomática,
e é posto e disposto até que abuso de que espécie de infuso espírito
das profundezas dessa palavra

Herberto Helder


COM CITAÇÃO DE HERBERTO  HELDER

Se alguém respirasse e arrebatasse
uma palavra

e súbito fosse respirado por ela.

Se fosse amado assim
de assombro puro

teria as chaves da casa.

Teria o selo de todos os segredos
e as profundezas do mundo.

J. Alberto de Oliveira

2.5.19

A ROSA TODA NUA





Às horas do orvalho
a rosa é mais alma

que rosa.

A sua luz
é dada algures
ainda sem degraus
nem parcelas de pó

Assim criada
e mais que tudo

é rosa amada
a rosa que dói.

A rosa toda nua.

J. Alberto de Oliveira

23.4.19

O NOSSO GÉNIO FERNANDO PESSOA








O nosso génio - Fernando Pessoa - foi "surpreendido" a entrar no Schauspielhaus Zürich.

"Um homem de génio muitas vezes não tem família. 
Tem parentes."
Fernando Pessoa

O Schauspielhaus Zürich é um dos teatros mais proeminentes e importantes do mundo de língua alemã. Também é conhecido como "Pfauenbühne".

O grande teatro tem 750 lugares.


19.4.19

NAS PÁGINAS DO CADERNO





Desconheço as leis do mundo
porque não sei o que fazer de mim.

Ando perdido no meio da linguagem
porque ninguém dá a mão

ao que pergunto.

Quase tudo me distancia
do pulso de ser

do que resta na memória

do que digo
e do lugar em que nasci.

Sem nenhuma resposta
crescem nas páginas do caderno

resquícios confusos.

O silêncio fulmina o corpo
de alto a baixo

com névoas e linhas
de apagamento e dor.

J. Alberto de Oliveira

3.4.19

ERA QUASE SÓ NOITE





Era quase só noite
e ouvia-se o fim do dia

a adormecer no imenso
com pedacinhos de luz.

Era quase só noite
no murmulho das águas.

No escuro o lápis luzia
mais que a espuma da lua.

Era quase só noite 
o sopro do sono todo nu.

J. Alberto de Oliveira

27.3.19

ANTES DE ADORMECER




Com o dia a cair
uma vela se acende.

As aves chamam-se
antes de adormecer.

e tu onde queres ainda
dizer-me um segredo?

J. Alberto de Oliveira



19.3.19

PORCIÚNCULAS DE MIM





Sabias que o meu nome aproximativo
tem dias em que não fala?
Refugia-se num rascunho de melancolia.

+ = +

A sombra que sai de mim
talvez tenha voz própria.

Fiel ao sopro que me guia
de fraga em fraga

quem me inspira até um dia?

+ = +

A poesia redime. Protege. Defende-me da polícia e dos escribas dos costumes.
Afasta-me das leis cegas, surdas e civis.
Herberto Helder disse que a poesia” salvaguarda a preciosidade do espírito”.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo


11.3.19

INÊS DE CASTRO





Uma vez pedi à noite
para se sentar comigo

num recanto do jardim.

Ainda me lembro
de te ver no auge do sono.

Eu queria linda Inês
adormecer

em teus olhos postos em sossego.

Eu queria todas as lembranças
que na alma escondias. 

Entre sonhos e pensamentos
eram tudo memórias de alegria.

J. Alberto de Oliveira

Fonte: Luís Vaz de Camões – Lusíadas – Canto III




6.3.19

UMA TELA DE SONS





Submerso no escuro da noite
um anjo ensina música.

Há uma exígua candeia
a alumiar as suas histórias.

Ouve-se o latir dos cães
em cada sombra da lua.

E o vento fala com ardor
usando línguas de fogo.

Tudo poderia ser
prece ou poema

quando a noite é uma tela
de sons que dançam.

Quando a noite mais viva
que um exercício de poetas

me vem pedir lembranças.

J. Alberto de Oliveira

18.2.19

CURSO PARA CRAVO





O curso para cravo de Bach
me ensine a pedir ao lume

a espuma do ouro bem temperado.

Que a música a arder no escuro
avive a tela dos silêncios.

E que nunca ruído algum
por norma cívica ou por nada

apague o som das nascentes.

J. Alberto de Oliveira

7.2.19

NOS ÁTRIOS DO LUME





O sol nas alturas
e o mel nos rochedos.

A história da água
no linho da mesa.

O azul da fala nua
em frutadas palavras.

Íntimo rejubila o ar
nos átrios do lume.

J. Alberto de Oliveira

31.1.19

A RECOMPENSA





Ainda hoje me alembro da cancela entreaberta no sentido poente.
Era por lá que eu saía nem sei para onde.
Depois voltava mais pensativo que vivo.

Mas eu só vinha quando ouvia a voz que chamava o mais inteiro nome de mim:
– Zé!
– Já vou, minha mãe!

Acredito que a recompensa andava sempre comigo.

J. Alberto de Oliveira

23.1.19

MARIANA ALCOFORADO





Com a sina maior do amor

a lua
nasce à frente de nós.

Com o fogo de alta dor

a lua
espera atenta lá fora.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Henri Matisse

16.1.19

NOS COMEÇOS DE MIM




Como sucedia a vida nos começos de mim?
Apressada ou demorosa?
Eu sei que só chegava ao meio das palavras
e das coisas mais altas.
Diziam que eu era atento a memórias
e depois fugia para dentro do silêncio.

Os modos de arte eram quase invisíveis.
Mas tinha os sentidos atentos.
Firme no olhar
eu via o mundo sem pertenças.
Bebia da mina da água e comia o pão
a pensar nas aves mais pequenas.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo

12.1.19

A ARAGEM DO IMENSO





Ser.
Ser mais é o átimo

do silêncio.

Ser mais
toca na geometria

quasi musical.

O espírito vai aluir
no intenso.

Adivinho a aragem
num fio do imenso.

J. Alberto de Oliveira

28.12.18

CINCO REIS DE AMOR

                                                                                                                                                               Cantico del Sol - Joan Miró




A vida começa por um dedal
de amor coado.

Cinco reis de amor
faz bem a tudo.

O amor na casa.
O amor na rua.
O amor na praça.
O amor no cabo do mundo.

Um dedal de amor coado
faz bem a tudo.

J. Alberto de Oliveira

18.12.18

PARA LUANDINO VIEIRA

                                                                                                                  V. N. de Cerveira










PONTO DE VISTA

Conheço os anjos da guarda.
Pairam no mundo vigilantes, atentos ao que faço,
ao que penso e amo sentidamente.
Os meus anjos da guarda resplendem.
Com a lucidez de espírito, são eles que iluminam a bondade.
Os anjos da guarda ensinam a ver as veredas da liberdade.

J. Alberto de Oliveira



14.12.18

A TEORIA DE VER





Transmite-se a alma de ver
à refulgência de ir indo

pelas arestas do mundo.

Cheios de invisível poeira
da luz afectuosa

ou do sopro sonhado

os olhos em tudo procuram
o lídimo azul da intimidade.

J. Alberto de Oliveira

7.12.18

EXPERIÊNCIA E POEMA





Em conversa comigo
ainda soletro

resumidos versos.

São as inflexões verbais
que me servem

a vida e a sua voz.

Em conversa comigo
estou sempre à espera

da fala aproximativa.

À espera do puro 
sem demora 

ao rés de uma história.



J. Alberto de Oliveira

30.11.18

24.11.18

UM LIVRO BEM SELADO





Quando eu era menino
pela primavera
sabia sempre de um ninho.

Nunca lhe fazia mal
conforme requeria
a moral consolidada.

Agora sei de um livro
bem selado

para não haver fuga
de nenhuma palavra.

É um livro de silêncio
que salva quem

o abrir e ler em poema.

J. Alberto de Oliveira



14.11.18

A TELA SENSÍVEL





Romper a tela
sensível.

Romper a malha
e não ficar.

Rasgar a tela
e passar

através dela.

Romper o tecido
para chegar

ao manancial vivo.


J. Alberto de Oliveira

8.11.18

EM NOVEMBRO




Em Novembro
a desolada cor das folhas
sublinha a mágoa.

Aquela mágoa deixada
pelo silêncio
nas vozes sem regresso.

Em Novembro
parece que tudo se cala

num murmúrio cego.

J. Alberto de Oliveira

30.10.18

MANU SCRIPTA





O AMOR ESCRITO


A língua toda perfumada
no fogo da inocência

e a cor do céu bem medida
pela régua do pensamento

inspiravam o amor escrito.

Entre as varas de luz ditada
e sete riscos de vidro vivo

aprendi a ler cartas seladas.

J. Alberto de Oliveira








27.10.18

O NOME INFINITO




Diz-se dos mortos
que dormem no amor

de seus próprios olhos.

Diz-se que trocaram
o corpo pelo sono

e que seu íntimo sopro
é o nome infinito da paz

a que foram chamados.

J. Alberto de Oliveira

19.10.18

O MARINHEIRO NÃO MENTIA






Por sorte, encontrei um marinheiro
que me contou diversas visões e vivências.
Disse, por exemplo,
que já ninguém leva uma carta fechada
para ser lida no alto mar.
Que os segredos ficam todos em terra
num círculo de silêncio e tristeza até ao regresso.
Que o desejo de partir é igual ao desejo de voltar.
Que todos vão pobres
e todos voltam cheios de mistérios e perguntas.
Disse-me ainda que no alto mar
a cor do tempo umas vezes é salina e azul.
Outras vezes é de névoa profunda.
Que os movimentos da água
esboçam uma beleza antiga.

Pelo que que vim a saber num sonho
que tive

o marinheiro não mentia.

J. Alberto de Oliveira

11.10.18

ACIMA DO QUOTIDIANO




Perdi a lucidez e deixei o sono entrar.
Vi a água em forma de chuva a deslizar pelo seu corpo todo.
Nos movimentos não havia pressa nem temor.
A sua boca tinha a moldura e o tamanho de um segredo.
O lugar da casa parecia minúsculo e propício a não sei quê.
Com a leveza de folha no ar encheu um copo de água.
Sentou-se à minha beira enquanto durou a confidência.
Depois foi-se embora.
Saiu para dar de beber a uma estrela invisível. 
Eu fiquei para saber se ela era uma causa ou efeito da memória. 

J. Alberto de Oliveira


2.10.18

SÃO FRANCISCO DE ASSIS





Há momentos que me fazem pensar. Ao crepúsculo, por exemplo, o corpo, as formas e todas as imagens devagarosamente se perdem esbatidas.
A essa hora ninguém sabe se na alma há lucidez ou sono.
O crepúsculo, a prima hora noctis, convida à nudez.
A paisagem prepara o grande festim onde os seres têm lugar para uma pausa de mansidão.
Dá-se o encontro sem direito nem avesso.

A abertura ao desconhecido e aos segredos do anoitecer é uma vocação íntima.

S. Francisco de Assis morreu em 1226, ao entardecer do dia 3 de Outubro.
Com o seu próprio corpo quis sentir e medir a terra.
Com a nudez estrita se deitou nela.

J. Alberto de Oliveira
Imagem: Amadeo de Souza-Cardoso

24.9.18

A BILHA





Não sei desenhar rostos nem objectos,
apesar de a minha professora das coisas primeiras
nos ensinar a fazer cópias de uma bilha bojuda,
com formas e beleza da ternura.

Hoje, eu daria tudo para ver os meus primeiros exercícios de desenho.
Que me fizeram às cópias da bilha de barro?
Onde anda a bilha bojuda?
E o lápis? Perdeu-se pelos caminhos da escola?

Eu daria tudo para ter aquela bilha de barro e dela beber água pura.
Eu amo a bilha.
Amo-a tanto, que até sei que o amor se faz do mesmo barro 
da bilha que eu desenhava na minha escola antiga.

J. Aberto de Oliveira