No poema há sempre um enigma.
As palavras figuram como se fossem dívidas.
Tornam a poesia
deveras distinta:
musicalmente aproximativa.
J. Alberto de Oliveira
No poema há sempre um enigma.
As palavras figuram como se fossem dívidas.
Tornam a poesia
deveras distinta:
musicalmente aproximativa.
J. Alberto de Oliveira
Não sei nada
nem
morrer eu sei.
o
que devo então fazer?
Se
o inferno é menos verdade
que
as geenas do mundo
para
onde eu devo ir?
Só tenho um segredo
e
adivinhações furtivas.
No
meio do frio e do escuro
o
que hei-de fazer?
Só
me resta admitir
que
se respira muito mal
entre
ferrugem e trafulhas.
J. Alberto de Oliveira
A
magnificência de
poucas e
claríssimas palavras
estremeça no
lápis de meus versos.
Num caderno
de ninfas e fadas
o corpo do
papel
transmita suas evidências amadas.
J. Alberto de Oliveira
OS NOMES AMADOS
para Amair
No
eixo mais firme do poema
os
nomes amados
são
de letras excelsas.
No mais intimo segredo
a tua mão é soletrada.
Talvez seja pelo excesso
em primor e beleza
de seus desenhos vistos no ar
antes das aves e do vento.
No ponto mais alto das palavras
com que nome nos havemos
de chamar?
J. Alberto de Oliveira
É urgente e precioso
dar
tempo ao tempo
amor ao amor
pensamento ao
pensamento
palavra à palavra
ardor ao ardor
até ao fulgor do
lume final.
J. Alberto de Oliveira
O luar inunda as noites do mundo.
Se os desleixos de pobre e a miséria de
pedinte não me sujam, também o luxo e a arrogância de rico não me emporcalhem.
Tenho o que posso e mereço.
A elegância do corpo e do espírito
inspira, conduz-me e pacifica. O importante é haver espaço e luar. E sobretudo,
saber lidar com os engenhos da existência.
J. Alberto de Oliveira
A inspiração vem do orvalho
dado pelo grande silêncio
quando o amor te adivinha.
Há um silêncio que se move
entre os efeitos do destino
e os insectos luminosos
que dialogam no escuro.
Quando o amor te imagina
até o próprio sono se mistura
com o fogo e suas memórias.
J. Alberto de Oliveira
Na última dobra do linho
o acto de quem nos leva
apaga as coisas visíveis
e tira-nos o tubo do oxigénio.
Na última dobra do linho
morre-se deste modo:
simplesmente com falta
de ar e de poesia.
J. Alberto de Oliveira
A horas e fora de horas
eu te sublimo ó regra de existir
com segredos e o perfumado
linho da nudez.
O sangue e o sal rodam
ainda em ferida.
As aves que partem
tersas e velozes
são versos
de lenços mais que sonhados.
J. Alberto de Oliveira
Quando as ideias de Deus
me tocam
fico logo virado do avesso.
Igual a uma folha nua
e seca
exposta ao vento e à chuva.
Quando os sentidos da vida
apuram sopro a sopro
a poesia e seu fascínio
com a realeza do amor
cumpre-se o que imagino.
J. Alberto de Oliveira
De
onda em onda
a
luminescência mede-me
as
horas
e
os movimentos do mar.
Ela
conta-me histórias
dos
que navegam.
Dos
que não voltam atrás
e
se perdem
só
para falar com Nausícaa.
J. A. de Oliveira
nos areais do infinito.
A mulher e o mar
desafiando os céus.
A mulher e o mar
apurando os mistérios.
J. Alberto de Oliveira
Azulejo -
Fernando Gonçalves ("Nando") - Póvoa de Varzim
No ramo alto, alta no ramo
mais alto, uma maçã
vermelha
ali ficou esquecida. Esquecida?
Não, em vão tentaram colhê-la.
Safo - Ilha de Lesbos - século VII a. C.
Versão: Eugénio de
Andrade
A construção do texto começa
onde os amantes sonham.
Onde cada palavra
sensitiva espera.
Onde a gramática da fala
é de ouro arrebatado ao fogo.
J. Alberto de Oliveira
Algumas palavras resumem o júbilo
de ver o invisível.
Recuso-me a existir só para ’star.
O que não entendo
espero.
Desejo que a vida cumpra
a razão estética da mão a ’screver
Talvez o azul do linho em flor seja a cor
mais próxima das águas e do quotidiano das janelas.
O azul da tinta anda sempre comigo.
À hora do crepúsculo deixo que a porta entreaberta
mostre a luz de ’screver.
O primor de acender o fogo começa
pela substância de uma confidência.
Alumia o poema completo.
J. Alberto de Oliveira
À
hora do lusco-fusco
as
aves mais pequenas
esvoaçam
de
ramo em ramo.
Iminentemente
esperam
por mim.
Esperam
que a noite e a lua
entrem
em nossas vidas.
J. Alberto de Oliveira
Dai-me um lápis.
Quero desenhar letras e matéria quente.
Quero a invisível substância
e tudo com
nomes antigos
num vidro quebrado por mim e pelo vento.
Eu sei de coisas essenciais aos sítios da
infância.
J. Alberto de Oliveira
Se vós amantes quereis do lume
as melhores recompensas
acendei pinhas à mistura
com uma ou duas mãos cheias
de preciosos grãos de incenso.
J. Alberto de Oliveira
No concerto para flauta e harpa de Mozart, K. 299, ouve-se a correria dos navegantes lusitanos atrás das ninfas que lhes fogem com lascivos gritinhos ardentes. O som da harpa sublinha o delicado movimento das ninfas.
É magnífico
o diálogo entre a harpa e a flauta.
Nos ares a voz e os passos dos marinheiros descobridores evidencia a sonoridade da flauta.
Naquela ilha distante e divinal, os mareantes e as ninfas enamoram-se. O espaço vegetal da ínsula é de música e de amores diversos.
J. Alberto de Oliveira