22.12.21

EM LANCE DE ALMA


 

Sê complacente comigo
oh Dional.

Dita-me palavras suspensas
da língua e do ar em rodopio.

Ensina-me a escrever
o que eu nunca soube dizer.

E por fim
sem nada em que pensar

recita em lance de alma
a cadência

de uma frase musical.

J. Alberto de Oliveira

Foto: Renato Roque

11.12.21

A AGULHA PERDIDA


Neste palheiro imenso

de pronúncias diversas

 

o poeta procura a difícil

agulha perdida.

 

Procura o verso

rigorosamente certo.

 

O som das palavras

exactas na sua medida.

J. Alberto de Oliveira

Fotografia: José Miguel Reis

 

2.12.21

A MÍSTICA ROSA


 

Por quem devo saber 

o modo como a rosa

 

é o tempo de si mesma

entre o sol e a vida?

 

A quem devo dizer 

que a mística rosa

 

por amor do seu nome

ostenta a glória de ser?

J. Alberto de Oliveira


30.11.21

O QUE VINHA DO MAR



 

Sentada na soleira da porta, a mulher recebia o que vinha do mar.

O visível e o invisível fluíam no seu olhar contemplativo.
Entre leves sombras de névoa e luz, entre sons de linhas de água e a pronúncia de algumas frases, parecia-lhe ouvir musicalmente os segredos que há muito, muitíssimo tempo não ouvia assim.

Veio o Poeta. E, com a mão direita pousada no ombro da mulher, perguntou:

- Como te chamas?
A mulher-doçura do vento respondeu:
- O meu nome anda perdido no livro das tuas palavras.
J. Alberto de Oliveira

25.11.21

DEMORADAMENTE


 

Demoradamente o olhar se alicerça nas estrelas

e no seu firmamento.

 

Tudo lá no alto me parece firme ou eterno.

 

É um espaço onde o tempo talvez não exista.

O espaço onde parece que nada apodrece.

J. Alberto de Oliveira


18.11.21

BRINCAR COM A ALMA


 

Quando eu não posso brincar

com a alma

 

as horas ficam entrevadas.

 

De bruços

caio no lamaçal do luto.

 

Faltam-me as palavras

e a substância da música.

 

Quando eu não posso brincar

com a alma

 

falta-me a luz da gramática.

J. Alberto de Oliveira


11.11.21

O SOL NAS ALTURAS




 

O sol nas alturas

e o mel nos rochedos.

 

A história da água

no linho da mesa.

 

O azul da fala nua

nos frutos da palavra.

 

Íntimo rejubila o ar

nos átrios do lume.

J. Alberto de Oliveira


5.11.21

O MAR


 

O mar que lês no poema

tem a mesma sonoridade

 

que o mar dos navegantes.

 

Um e outro ondulam.

Precisam da eternidade.

J. Alberto de Oliveira


28.10.21

EM DUAS QUADRAS


Adeus, fonte de lembranças,

Onde a água remanseia.

Onde fiz tantas promessas

Que só me deram enleios.

 

O afecto que me tens

Assenta bem nos teus olhos.

A tua boca é sagrada:

Parece um botão de rosa.

J. Alberto de Oliveira

 

20.10.21

O APRUMO DO OUTONO


 

Mil e uma folhas do tempo

inflamam o pulso

 

e os idiomas do silêncio.

 

Mil e uma folhas de oiro

e de cristalino vagar

 

apuram o aprumo do outono.

 

Com jubilosa luminescência

e a paz do vento à mistura

 

mil e uma folhas

entram pelas varandas

 

de Vermodium adentro.

J. Alberto de Oliveira


16.10.21

DO OUTONO



Até ao gume da última hora

 

os dias afiam a cor

e a matéria do outono.

 

A vida é tudo ou nada

quando toda ela se encosta

 

ao fio quente da navalha.

 

É sopro de fuga e dor

antes de ser tábua rasa.

J. Alberto de Oliveira

 

9.10.21

ANTÓNIO NOBRE


 


António Nobre está só

e dado ao desassossego.

 

Tem os olhos

encostados ao poente.

 

Há demasias de melancolia

a sangrar nele.

 

O poeta vai morrer só.

J. Alberto de Oliveira


1.10.21

DO PÃO SOBRE A MESA


 

O fermento leveda primeiro

o coração e a flor da farinha.

 

Depois o calor

 

e o timbre do ar no forno

são da carqueja acesa.

 

Por fim a resposta

é só do pão.

 

Do pão sobre a mesa.

J. Alberto de Oliveira

Fotografia: José Miguel Reis  |  DESIGN

www.josemiguelreis.com


22.9.21

OS FRUTOS DE SETEMBRO


 

Ando ainda longe de mim

e de quanto me falta escrever  

 

com os olhos no tecto da vida.

 

À memória quero dar a beber

a luz sedenta de Setembro.

 

Seus frutos maduros são todos

para incender

 

a sarça ardente do outono.

J. Alberto de Oliveira


14.9.21

CINCO BALÕES


 

Era uma vez um poeta que escrevia como ele próprio foi ao princípio.

Gostava das palavras certas e das rimas bem timbradas, porque as sentia muito próximas das cantigas nos bailes da aldeia.

Muitas vezes dizia à sua amada estes versos em forma de quadra simples:

 

Eu tenho cinco balões

Nos cinco dedos da mão.

São do vento e da vida.

São jóias do coração.


Um dia a companheira desafiou o amado:

– Para que os balões não baloicem apenas nos teus dedos, queres que os solte? Vamos deixá-los subir?

– Agora não. Espera pelo fim de mim.

J. Alberto de Oliveira


7.9.21

NUDEZ INTEIRA


 

Da nudez de Deus

entre poemas nasci.

 

Por sete gotas vivas

um sítio a vida me deu.

J. Alberto de Oliveira


3.9.21

O TEMPO CORRÓI




 

O tempo corrói. Insiste no precário. Quebra-nos aos bocados. Também colabora com os agentes do caos.


Se os viventes impacientes não matassem o tempo com o fogo criativo, com alegrias e delícias – o olvido e a humidade fria da morte seriam um sinal invisível de nós.

 

Com alguns versos e palavras eu vou afastando o clima oxidante das idades.

 

Há sons e traços, ideias e formas, espaços e silêncio, cores e afectos, que nos marcam e pronunciam até ao último dos dias.

J. Alberto de Oliveira


27.8.21

DINAMENE


 

Oh! Dinamene.

 

De onda em onda

no mar a voz

 

é do poeta.

 

De onda em onda

oh! Dinamene.

 

Mística rosa

de amor e versos.

J. Alberto de Oliveira

12.8.21

QUANDO OS FRUTOS




 

Quando os frutos amadurecem

quietos

nos socalcos das colinas

 

a luz é solar e benigna.

 

A natureza faz-se nos frutos

do mesmo modo que

 

o amor se faz rente à fala da lua.

J. Alberto de Oliveira


3.8.21

MUDO E SÓ


 

Perdi a lucidez e deixei o sono entrar.

Vi a água em forma de chuva a deslizar pelo teu corpo todo.

Nos movimentos não havia pressa nem temor.

A tua boca tinha a moldura e o tamanho de um segredo.

O lugar da casa parecia minúsculo e propício ao não sei quê.

Com a leveza de folha no ar deitaste água num copo.


À minha beira te sentaste enquanto durou a confidência.

Depois foste dar de beber a uma estrela inacessível.

Fiquei mudo e só

para saber se eras uma causa ou efeito da memória.

J. Alberto de Oliveira