Não te afastes da frente
por mais que soprem os ventos.
A voz sem autor
é uma espécie de tela escura.
Não te corrompas
nem te iludas.
Uma camélia com tinta rubra
fia mais fino que o mundo.
J. Alberto de Oliveira
Não te afastes da frente
por mais que soprem os ventos.
A voz sem autor
é uma espécie de tela escura.
Não te corrompas
nem te iludas.
Uma camélia com tinta rubra
fia mais fino que o mundo.
J. Alberto de Oliveira
S. Francisco de Assis desafiou a morte
com serenidade e louvor. Contrariamente à maioria dos humanos, que a olham “tão odiosa e terrível”, o Santo
convidou-a a hospedar-se em sua casa: “Bem-vinda
seja – dizia – a minha irmã morte”.
E, para o médico: “Coragem, irmão médico, não receies dizer-me que está próxima a minha
morte, porque ela é para mim a porta da vida”.
E para os irmãos: “Quando me virdes entrar em agonia, outra vez nu me haveis de estender
no chão, como anteontem, e assim morto, deixai-me jazer o tempo que levaria um
homem a percorrer folgadamente uma milha”. (2 Celano, 217)
Possivelmente o tempo que vai da terra à eternidade é o mesmo que demora um homem a fazer a pé 1.609,344 metros, isto é, uma milha.
J. Alberto de Oliveira
Imagem: Alberto Péssimo
Olhos sedentos e
pensativos.
Corpo sedentário e corrompido
por ventos marítimos.
J. Alberto de Oliveira
EQUAÇÃO DE ACORDO COM A RELATIVIDADE
Poema ou Equação?
O que tem mais apuro?
O que é mais belo?
O que é mais profundo?
Selados pela espuma
do sol em declive
os frutos estão maduros.
São do mês Setembro
as primícias
do mel.
O mosto arredonda
rumores entre os dedos.
O ouro em contraponto
liga as frases sentidas
à púrpura nos montes.
J. Alberto de Oliveira
Na margem luminosa
do último sonho
dei contigo em modos
de também sonhar.
Arvoavas no desvão
de uma folha furtiva.
Respiravas para o lado
mais leve do coração.
J. Alberto de Oliveira
(Agradecimento ao Dr. José Ribeiro - Edições Afrontamento;
à FNAC; aos poetas Manuel António Pina e Cláudio Lima; à D,ra Maria Bochicchio;
ao actor Alexandre Falcão; ao Dr. Jorge Coelho).
[…] Agradeço, finalmente,
àquelas e àqueles que são a raiz dos meus exercícios poéticos. Não refiro
nomes. Ou melhor: direi apenas um nome à volta do qual congrego todos os
demais.
Falo de alguém com 825 anos.
Nasceu em Itália no ano de 1181. Toda a sua vida foi um sublime desafio poético
que provinha de uma apurada sensibilidade a transbordar em demasias de amor. Há
duas palavras para o seu retrato: vigor e ternura. No
dizer de Chesterton "foi o único democrata sincero deste mundo".
Tendo ficado cego, numa viagem ao Egipto, ditou aos seus companheiros ou
jograis de Deus, dois anos antes de falecer,uma das maravilhas poéticas da
Literatura Mundial: "O Cântico das Criaturas" ou vulgarmente dito
"O Cântico do Irmão Sol". Falo de S. Francisco de Assis. Perdura na
minha sensibilidade e no meu pensamento como um paradigma ou ícone.
Com Francisco de Assis
aprendi a ter uma alma de vidro e
a dizer o essencial em "poucas e simples palavras".
A terminar e em louvor da
Poesia: há palavras que desejam a
nossa inocência de ser.
Com alegria cito uma mulher,
a escritora Ana Teresa Pereira: "Todos nós precisamos de uns 10% de
esperança para continuar a escrever ou para amar outra vez".
(Palavras de agradecimento proferidas por J. Alberto de Oliveira
no lançamento de O SOM APROXIMATIVO, em 20/04/2005, na FNAC, Matosinhos)