20.7.20

TRÊS QUADRAS





Subi às serras mais altas,
Subi às altas varandas.
Já que te não vejo aqui
Vejo por onde tu andas.


Esta noite foi de orvalho,
De orvalho em redor do poço.
Tudo se pôs a florir
Menos o meu cravo roxo.


A cana verde no monte
É sinal de fonte haver.
E por cá eu a penar
Sem ter com quem ir beber.

J. Alberto de Oliveira

12.7.20

ESCULTURA ASCENSIONAL





Escultura ascensional
ao alcance do mar.

Escultura branca
dada aos ventos.

Escultura lisa e livre
ao alcance da luz
mesmo em declive.

Escultura de espelhos
e de tudo um nada
aos olhos do mundo.

Escultura ascensional
sem esquerda nem direita.

Sem norte nem sul
ao rés de linhas sem defeito.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Escultura: Pedro Cabrita Reis - Leça da Palmeira


7.7.20

FULGOR DE JULHO





Os dias atados ao sol
suscitam molhos

de trigo maduro.

São feixes
do fulgor de Julho.

Tanto são de ontem
como são de hoje.

Evocam molhos
de oiro puro

sem joio nem restolho.

J. Alberto de Oliveira

Imagem - Campo de colheita de trigo - Van Gogh

29.6.20

FRUITOS SILVESTRES





Confundir o poema intenso
com os desatinos da vida

ou trocar fruitos silvestres
por um só verso de beijos?

Diz-se à boca cheia
que os primores da natureza
alumiam o desejo e a mesa.

Consta que no silêncio
mais escuso do arvoredo
os fruitos são cantantes.

Sabem a delícias altas.

J. Alberto de Oliveira

23.6.20

O ROXO





Uma estância de fogo
exalta o roxo.

Canta em dor calada.

Com sílabas contadas
desafia a cor

de seu triste clamor.

Furtiva ressoa a fala 
do amor rente à chama.

J. Alberto de Oliveira

16.6.20

DE NOITE





De noite não sei falar.
Desatino para atrair o sopro

de muitos nomes
que vagueiam lá fora
entre enigmas e o mar calado.

A mão que me abre a porta
sangrou no meio do orvalho.

J. Alberto de Oliveira



9.6.20

LENÇO DE SETEMBRO





A tua mão impaciente
de nudez

abriu-me a porta
que dá para a história

dum lenço de Setembro.

Hei-de pô-lo ao peito
como se fosse uma rosa.

J. Alberto de Oliveira

2.6.20

A MINHA LINHAGEM




Eu sei que a minha linhagem
foi tecida com danças musicais
e linho à mistura.

Eu sei que é difícil
e desnuda a substância
de todo e qualquer aedo.

Eu sei que é absurdo
o ofício desta sorte minha.

Mas que hei-de fazer
contra os desatinos

de um inflexível destino?

J. Alberto de Oliveira

23.5.20

POR RAZÕES DE ALMA E NUDEZ





Nasci afeiçoado à melancolia
e ao único verbo que estudo.

Por razões de alma e nudez
apuro a fala com tinta azul.

Aclaro as lembranças da vida
lendo um verso de cada vez.

J. Alberto de Oliveira

18.5.20

FIOS DE ÁGUA





Deito-me e o aroma
do linho que respiro

é branco e brilha
em torno do meu corpo.

Uma porção de claridade
apazigua os fios de água

que se movem lá fora.

Infindáveis escorrem
com as fontes no regaço.

J. Alberto de Oliveira

10.5.20

AS MÃES





As mães ainda são uma espécie de princípio feminino do mundo.
Ou talvez o fermento da nascência.

Às mães chamarei fermento da vida crescendo.
Para os antigos, o fermento era o crescente, 
aquele punhado de massa que ficava duma fornada 
e que serviria para levedar a massa da fornada seguinte.

O que significa a ternura quando a mãe chama?
Que os filhos são o argumento mais sensitivo e maternal.

J. Alberto de Oliveira

2.5.20

ALGURES





Algures em linhas de sal
e ramas cor de mel

o dia resvala para o fim.

Nos extremos do mar
o sangue

e o ouro se misturam.

O vento sopra devagar
para que nada se perca

na tela de luz magoada.

J. Alberto de Oliveira

25.4.20

A COBRA





Quando Eva e Adão
saíram do Éden
e se foram embora

a lareira ficou acesa.

Mil gotas de chuva
caíram sobre as folhas
da árvore da ruptura.

Depois

e só depois a cobra
mordeu o resto da fruta.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: LUCAS CRANACH  - THE-ELDER - ADAM AND EVE

16.4.20

QUANDO SAÍA À RUA





Quando saía à rua
vestia-se de mar.

Cobria-se de azul
e simplicidade.

Quando saía de casa
ia ver na espuma a luz.

Os cabelos e a blusa
flutuavam em transe

porque era do mar
a sua graça de alma.

J. Alberto de Oliveira

7.4.20

CORPO ASCENSIONAL




- Não me detenhas, Myriam. Tenho de ir.
- Para onde vais?
- Myriam, não toques no meu corpo ascensional.
- Para onde vais?
- Vou para o íntimo donde vim. Para a memória de sempre.
- A tua memória?
- A memória de mim.
- Não vás. Não vás sem um beijo no temor de te não ver mais.
Dá-me de ti o sentido firme da altura.
Eleva-me ao sonho da espera.
Inunda-me os olhos de perfume.
Deixa-me nos dedos a arte de tocar o azul dos céus e o vento.
Apura em mim o dom de te respirar com palavras e o pensamento.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Iluminura da Idade Média - Ascension - "Les Très Riches Heures"



30.3.20

MÉCIA EM JORGE DE SENA

´



CONHEÇO O SAL

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena

20.3.20

BREVE CLAMOR





Na subida para a dor
a carga é dura.

A vida parece um jogo
de espigões e agrafos.

A curva do ar é brusca
demais e turva, Senhor!


J. Alberto de Oliveira

Foto: J. A. de Oliveira

13.3.20

OBRAS POÉTICAS




Com o nome José Alberto de Oliveira:

Alegria Irrecusável (1974) – esgotado
Nos Vidros da Noite (1983) – esgotado


Com o nome J. Alberto de Oliveira:

A Água do Nome – Edições Afrontamento, 1998
O Som Aproximativo – Edições Afrontamento, 2005
Palavras Escolhidas – Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)
No Linho Verbal – Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)
7X7 Versos – Cadernos Nó Cego (3), 2008 (plaquete, fora de mercado)
O Anjo Inefável – Cadernos Nó Cego (4), 2012 (plaquete, fora de mercado)
Entrepoemas - Edições Afrontamento, 2014
O Mês Maio da Mãe – C. Art, 2015
Das Varandas de Ver – Cadernos Nó Cego (5), 2917 (plaquete, fora de mercado)
Manu Scripta – Antologia de Poemas Manuscritos (obra colectiva), Ed. Glaciar, 2018.
O Triunfo da Música – Com desenhos de Luandino Vieira – Porta XIII (fora de mercado)

Em espera:

A Tela Tangível (poesia)

Gramática de Versos (poesia)

Num Pé d’Água (poesia)






10.3.20

LEGENDA DO MAR





A mulher em frente ao mar
atenta se debruça.

Encurta a distância
para fazer da linha do azul

um sítio de claridade.

A mulher em frente ao mar
estuda pontos de luz.

E tudo o mais
se transmuda no olhar.

J. Alberto de Oliveira




2.3.20

FOI A LUA





Tão luminoso o luar!
Sim. 
Foi a lua que deixou cair
um lenço de linho memorial.

J. Alberto de Oliveira