24.1.20

SOBRE O MAR





Mudam-se os tempos
mudam-se os ângulos.

Do ângulo raso
ao ângulo recto

o privilégio é das mãos
e da paixão no olhar

altivo sobre o mar.

J. Aberto de Oliveira

 Escultura: Pedro Cabrita Reis - Leça da Palmeira



14.1.20

OS ANJOS AFINAL





Os anjos afinal
têm corpo.

Um corpo disperso
na tela do meu sono.

Os anjos brincam
e dançam no ar

que treme
dentro de mim

e de outras frases.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo

7.1.20

UM PRÍNCIPE NA ESCOLA





Eu era um menino desconcertante e arrumadinho.
Fazia e dizia asneiras como os outros rapazes 
e era cúmplice nos segredos das companheiras.
Os seus ritmos e graça de ser me inspiravam.
Alheio ao real, eu sonhava demasias.
Um dia ateei o fogo a uma meda de lenha.
Era belo o arder no âmago do lume.
Limpo e sem luxos era um príncipe na escola  
e por onde quer que fosse.
Adivinhava caminhos e atalhos 
através de campos e baldios
ao ar da luz de todos os dias.
Na bondade e na malandrice havia nobreza.
Era delicadíssimo na tristeza e na alegria.
Tinha o olhar das aves mais pequenas.

J. Alberto de Oliveira

2.1.20

O MECANISMO DO TEMPO





O ritmo do tempo serve-se dos ponteiros do relógio
para nos mostrar a injustiça das horas
em fuga.

Aritmeticamente vil o tempo não arreda pé.
Ora se veste de luto
ora se veste de festa.

O mecanismo do tempo regula tudo.
Hora a hora o tempo nos devora.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Relógio despertador Petrax - 1945

21.12.19

PRECLARO O DIA





Preclaro o dia em noite de Natal.
O dia em que nos vemos a trocar

as chaves e o luxo da alma
por uma escada plena de anjos.

J. Alberto de Oliveira

16.12.19

BILHAS PARTIDAS





O tempo alonga-se na altura da escada.
No ar adoecido pela fadiga da subida.

E assim vamos com a nuvem que passa
copiando sombras e detritos.

Neste jogo
parecemos bilhas partidas

em vez de irmos inteiros ao deserto
da sede que nos cega.

J. Alberto de Oliveira

8.12.19

DESATINOS





Pela nudez da alba
sem muros nem portas

alguém passa.

Alguém recorta
nos lenços do ar

furtivas lembranças.

Quem passa
e assim me desatina

os pés e as mãos?

J. Alberto de Oliveira

23.11.19

OS IMPERDOÁVEIS





Há na língua italiana, a propósito do imperdoável ou imperdoáveis – gli imperddonabili – alguns vocábulos incisivos no seu dizer significante, sonoridade e vigor:

Intelligenza – faculdade activa do entendimento e lucidez
Eleganza – elegância, delicadeza e brio comunicante
Piglio – toque, distinção deliberada
Disinvoltura – desenvoltura, agilidade viva
Noncuranza – descuido fino
Sprezzatura – o supremo brasão da inteligência aliada à sensibilidade e fidalguia, um modo negligentemente livre de fazer e dizer, “próprio de mestre seguro de si.” (N.Zingarelli)

J. Alberto de Oliveira

16.11.19

O ENSINO DA MELANCOLIA





O ensino da melancolia
soletra o meu nome

como se eu ainda
fosse

um menino da escola.

Chama por mim
e cita coisas amadas

antes que se perca a memória
nas fundas águas caladas.

J. Aberto de Oliveira

10.11.19

EM TEMPO DE BOLOTAS





Será por ignorância, estupidez ou ganância?
Sim.
Às vezes trocamos algumas das nossas pérolas por porcos.
E depois?
Depois damos aos porcos as pérolas restantes
como se fossem bolotas.


J. Alberto de Oliveira

29.10.19

A MÚSICA ENSINA A PERGUNTAR

                                                                                                                                                                                                 Emerenciano




Em que ponto do absoluto
o amor é mais interior que o azul sem mistura?


Somos o barro ou a tela de Deus?


Em que jardim eu devo ainda plantar
roseiras de orvalho?


De que trata a música?


A palavra musical é uma taça de cristal 
cheia de ambrosia ou de água viva?


Onde cintilam as delícias da alegria profunda?

18.10.19

NUM VERSO VADIO





O silêncio maior
na minha voz escrita.

A hora suspensa
num verso vadio.

J. Alberto de Oliveira

9.10.19

AS LEIS DA LUZ





Quando fores embora deixa o bolor
e as peças de roupa usada ou puída.

Larga os restos de remédios e os rascunhos
dos sentimentos e da memória.

Não leves nada contigo
e deixa-te acompanhar pelo desconhecido.

No verso mais profundo
ainda podes ler as leis da luz.


J. Alberto de Oliveira

17.9.19

CONSTELAÇÕES




A noite fecha-se no livro
quando acendes

o verbo da última frase.

Quando o sono da vida
cai no limiar do silêncio.

O verbo torna-se carne
quando tocas nas estrelas

com a largueza do olhar.

J. Alberto de Oliveira

9.9.19

O AR DO AZUL





O ar do azul feito de teoremas

e de claridades
ébrias de vento.

O ar do azul extasia as águas.

J. Alberto de Oliveira

29.8.19

FRAGMENTOS DO IMENSO





Às vezes admito que a vida
seja uma espécie de relance.

Um marmulho de água corredia.




Logo ao primeiro minuto de nascer
o mundo avisou-me

tens que existir para
desassossegadamente viver e morrer.




A rosa do jardim quando é só rosa
torna-se mais atenta

que todas as demais rosas.




O sol em sua regência
fala com as águas do imenso.

J. Alberto de Oliveira

22.8.19

A PIAF - Jorge de Sena





Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.

 Quem como ela perdeu
 toda a alegria e toda a esperança
 é que pode cantar com esta ciência
 
 o desespero de ser-se um ser humano
 
 entre os humanos que o são tão pouco.

   1964
   JORGE DE SENA
   "Arte de Música"

13.8.19

OS EFEITOS DA MÚSICA - para Luandino Vieira




OS EFEITOS DA MÚSICA
                              para Luandino Vieira




A música é a nossa língua materna.
Na música há uma sintaxe.
Há substantivos ou lembranças cheias de substância
onde corre leite e mel.

A fluência da música transmite silêncios
rigor e desígnios
tempo e consequências imprevisíveis.
A música é o triunfo da vida.

Os desenhos ou efeitos da música são tão verbais
e surpreendentes
como qualquer poema excelente.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Luandino Vieira

5.8.19

COM O LÁPIS NO BOLSO





Quando a noite vem
ouve-se 

a respiração dos bichos.

É maior o assombro
e pairam segredos

a sustentar o silêncio.

À hora em que os bichos 
olham o fogo

eu adormeço
com o lápis no bolso.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: H. Azevedo