Quando
a alma é musical
e
a matéria afeita ao verbo
se
inspira nos dedos do ar
o
som do violino rima
com
os primores de obra-prima.
A
beleza e o rigor estremecem
como
se fossem a gramática
de
nobilíssimos versos.
J. Alberto de Oliveira
Quando
a alma é musical
e
a matéria afeita ao verbo
se
inspira nos dedos do ar
o
som do violino rima
com
os primores de obra-prima.
A
beleza e o rigor estremecem
como
se fossem a gramática
de
nobilíssimos versos.
J. Alberto de Oliveira
Nos
dias de quase não existir
eu
respirava o que dá vida.
Os
fios da palavra e o pão
deixavam
doçura e vigor.
Eu
recebia o que dá amor.
O
que vai acima do chão.
J. Alberto de Oliveira
Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Sião ao tempo passado,
Babilónia ao mal presente.
[...]
Luís Vaz de Camões
Seria uma ideia minha
ou foi uma evidência
aquele retrato distinto?
Um retrato aberto
ao incisivo silêncio
de palavras inéditas.
De tão leves e perfeitas
como dizê-las num verso?
J. Alberto de Oliveira
Preclaras e distintas
são as estrelas de viena.
Em todos os violinos
ouve-se uma cadência
a alumiar os tempos.
Com frases musicais
se apura o dialecto do ar.
Beethoven e Mozart
transmitem de rua em rua
os sentimentos da música.
J. Alberto de Oliveira
A arte do lusíadas, ou por assim dizer, a
nossa arte, deve-se ao movimento dos ventos e das grandes águas que nos levaram “por
mares nunca de antes navegados”, dando “novos mundos ao mundo”, no sentido épico de Camões.
J. Alberto de Oliveira
Desenho de Manuela Barbosa
J. Alberto de Oliveira nasceu em
Santo Tirso, em 1945. Cursou Teologia. Franciscano, poeta e professor
(aposentado).
Legente da intimidade musical.
Escreve para, muito simplesmente, apurar a cadência do verso que falta ouvir.
Muito cedo, aprendeu a dizer de si para si: “a conjura da sensibilidade e do
pensamento, por vezes, faz de mim um clandestino que não sabe onde está”.
A deiscência acontece quando a
alma e seus sentidos ficam disponíveis para a liberdade livre.
Emblematicamente – super
foetida flumina.
Com o nome José Alberto de Oliveira publicou (poesia):
Alegria Irrecusável –
1974
Nos Vidros da Noite –
1983
A Ilha dos Amores –
AJHLP, 1984 (obra colectiva)
Com o nome J. Alberto de Oliveira (poesia):
A Água do Nome – Edições
Afrontamento, 1998
O Som Aproximativo –
Edições Afrontamento, 2005
Palavras Escolhidas –
Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)
No Linho Verbal –
Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)
7 X 7 Versos – Cadernos
Nó Cego (3), 2008 (plaquete, fora de mercado)
O Anjo Inefável –
Cadernos Nó Cego (4), 2012 (plaquete, fora de mercado)
Entrepoemas – Edições
Afrontamento, 2014
O Mês Maio da Mãe – C.Art
– 2015
Das Varandas de Ver – Cadernos
Nó Cego (5), 2017 (plaquete, fora de mercado).
Manu Scripta – Antologia
de Poemas Manuscritos (obra colectiva), Ed. Glaciar, 2018
O Triunfo da Música – (Poemas
com desenhos de Luandino V. – plaquete, fora de mercado), Ed. Porta Treze, V. N.
Cerveira, 2019
Em espera:
A Tela Tangível (poesia)
Gramática de Versos
(poesia)
Num Pé d’Água (poesia)
Desenho de Manuela Barbosa
OS ANJOS DO POETA
para Alícia
Não são as cinzas do tempo.
São os anjos do poeta
que assediam os muros da casa.
E quando menos se espera
entram pela janela adentro
pedindo alguns versos para ficar.
J. Alberto de Oliveira
Foto: M. Aelaide
O que falta nos meus olhos
para que eles possam ver
o coração abrasivo do sol?
J. Alberto de Oliveira
Num
jogo de furtivas adivinhas
trocavam
entre si respostas
e sonhos que eram perguntas.
A
essência
vinha
de pinhas acesas
que ardiam até ao fim
para traduzir o lume.
Quando em
menino eu via um arco-íris ficava muito pensativo diante daquele desenho de
cores. Imaginava que ele se devia ao movimento dos anjos ou simplesmente era um
arco a levar água para as nuvens nos darem mais chuva. Só mais tarde nas coisas
que se aprendem na escola vim a saber o que é o arco-íris.
Mas não fiquei
muito contente com as explicações científicas.
Gostei mais de
um brevíssimo conto plausível de Carlos Drumond de Andrade. Diz que um dia viu
uma tapeçaria onde havia duas cabeças comunicantes, de cujas bocas saem sopros
coloridos que, juntando-se, formavam um arco-íris.
Conta o poeta
brasileiro:
E quase a
concluir esclarece:
“As
confidências são altas, não porque se exprimam em tom de voz elevada; são altas
em si, pela importância do significado, pelo conteúdo patético da
informação, que só a cor pode captar bem e, bem captado, se transforma em som,
mas só para ouvidos especiais.”
J. Alberto de Oliveira
Fai friu acho que bai nebar.
Aqueceu-bos a un borralho que ende bos mando.
Que tengades un Bouno Natal
e que Nino Jesus bos trai-a un anho 2024
cheno de cousas bounas.
Un chi arrochado.
Amo a beleza que não entendo,
A beleza que me dá repentes
e quase me deixa em claro.
Amo a beleza à beira do silêncio.
À beira de haver palavras
com segredos entre si.
A beleza dá-me repentes de ser.
Desenho de Manuela Barbosa
Quem és tu, bárbara, que moras
num poema que se estuda nas
escolas
e se lê em recitais
- tu que te limitaste a ser amada
por um poeta que, se calhar, mais
não te deu em troca do amor
do que esse poema que tu, se
calhar,
nunca chegaste a ouvir? Quem és,
ó mulher mais cruel do que
esse
poeta que te cantou, e de
cuja vida
ninguém sabe nada - a não ser
que te amou, e te deitou
nesse
poema em que ainda vives, e
respiras,
como no dia em que ele o escreveu
lembrando-se do teu corpo, e dos
teus lábios, e dias, ou noites,
que contigo se passaram? Quem és,
mulher real e sonhada que habitas
todos os poemas que esse poema
inspirou, e todos os sonhos que
nessa bárbara encontraram uma
imagem
precisa e definitiva? Volta-te
nesses versos, para que te
vejamos
o rosto, e diz-nos o teu nome - o
nome
autêntico, e não esse que o poeta
inventou para te chamar num poema
que de ti só guarda o segredo;
e adormece, depois, esquecendo
o que de ti disseram, e os
comentários
de que foste o pretexto, e as
imagens
em que, cada vez mais, foste
perdendo
a tua, e única, imagem.
Nuno Júdice
Painel - Embaixada de Portugal
na Tailândia
Todos os dias procuro
o verbo que não mede
as distâncias mais íntimas.
Todos os dias o procuro
estudando os furtivos
cadernos do tempo.
E se o descobrir
quem me ensina a ler
no ditoso verbo
o infinito certo?
J. Alberto de Oliveira
Uma noite sonhei
que S. Francisco de Assis falava com as aves quando elas acordavam cedo
Sonhei uma vez e
não mais, porque as aves agora cantam sempre.
Elas respiram o que
ouviram, cumprem o que muito aprenderam com Francisco: transmitem a santidade
livre da natureza.
O som musical das
aves principia quando o sopro do ar é matinal.
As criaturas que
poisam nos braços dos humanos, que se refugiam nos ramos das árvores e voam
pelos ares parecem fragmentos de música. Lembram os louvores de existir. São as
legendas maiores da alegria.
As aves sustentam um reino de bem e paz. Um reino de santidade livre.
J. Alberto de Oliveira
Desenho de Alberto Péssimo
Debaixo da figueira a pausa é mais íntima.
A atenção convida a fugir ao fingimento
e ao cansaço do quotidiano.
Debaixo da figueira o sol não queima.
A frescura aviva o rumor dos insectos
em torno dos frutos maduros.
Debaixo da figueira ressoa
uma voz tão preciosa como a tua.
J. Alberto de Oliveira
Quando
molhaste os dedos
na
lídima água do nome
a
legenda maior estremeceu.
Do
amor que se tornou clamor
na
minha boca ainda pequena
eu recebi um selo de Setembro.
23/09/2023
J.
Alberto de Oliveira
Há um intimo de marluz
que fala dentro de mim.
A natureza do azul
nunca se apaga no mar.
De seus alicerces furtivos
nascem efeitos amados.
J. Alberto de Oliveira
Esta
nossa palavra saudade não rima
com
a nostalgia de Ulisses
em
seus perigos longe de casa.
É
mais que um murmúrio de lembranças.
Que me quereis,
perpétuas saudades?
perguntava
Camões.
A
saudade talvez seja uma onda musical
de
fios tangíveis e da fidelidade
intraduzível entre as almas e a distância.
A fidelidade começa pela evidência
ou regresso
de antigos amores ditos em segredo.
J. Alberto de Oliveira