11.5.24

QUANDO A ALMA É MUSICAL


 

Quando a alma é musical

 

e a matéria afeita ao verbo

se inspira nos dedos do ar

 

o som do violino rima

com os primores de obra-prima.

 

A beleza e o rigor estremecem

como se fossem a gramática

 

de nobilíssimos versos.

J. Alberto de Oliveira


4.5.24

NO COMEÇO


 

Nos dias de quase não existir

eu respirava o que dá vida.

 

Os fios da palavra e o pão

deixavam doçura e vigor.

 

Eu recebia o que dá amor.

O que vai acima do chão.

J. Alberto de Oliveira


17.4.24

SÔBOLOS RIOS QUE VÃO

 


Sôbolos rios que vão

por Babilónia, me achei,

onde sentado chorei

as lembranças de Sião

e quanto nela passei.

Ali o rio corrente

de meus olhos foi manado,

e, tudo bem comparado,

Sião ao tempo passado,

Babilónia ao mal presente.

[...]

Luís Vaz de Camões


9.4.24

PALAVRAS INÉDITAS


 

Seria uma ideia minha

ou foi uma evidência

aquele retrato distinto?

 

Um retrato aberto

ao incisivo silêncio

de palavras inéditas.

 

De tão leves e perfeitas

como dizê-las num verso? 

J. Alberto de Oliveira


16.3.24

OS SENTIMENTOS DA MÚSICA





Preclaras e distintas

são as estrelas de viena.

 

Em todos os violinos

ouve-se uma cadência

 

a alumiar os tempos.

 

Com frases musicais

se apura o dialecto do ar.

 

Beethoven e Mozart

transmitem de rua em rua

 

os sentimentos da música.

J. Alberto de Oliveira



4.3.24

A NOSSA ARTE


 

A arte do lusíadas, ou por assim dizer, a nossa arte, deve-se ao movimento dos ventos e das grandes águas que nos levaram “por mares nunca de antes navegados”, dando “novos mundos ao mundo”, no sentido épico de Camões.

J. Alberto de Oliveira


23.2.24

POESIA

 

                                                                                                          Desenho de Manuela Barbosa


J. Alberto de Oliveira nasceu em Santo Tirso, em 1945. Cursou Teologia. Franciscano, poeta e professor (aposentado).

Legente da intimidade musical. Escreve para, muito simplesmente, apurar a cadência do verso que falta ouvir. Muito cedo, aprendeu a dizer de si para si: “a conjura da sensibilidade e do pensamento, por vezes, faz de mim um clandestino que não sabe onde está”.

A deiscência acontece quando a alma e seus sentidos ficam disponíveis para a liberdade livre.

Emblematicamente – super foetida flumina.

 

Com o nome José Alberto de Oliveira publicou (poesia):

Alegria Irrecusável – 1974

Nos Vidros da Noite – 1983

A Ilha dos Amores – AJHLP, 1984 (obra colectiva)

 

Com o nome J. Alberto de Oliveira (poesia):

 

A Água do Nome – Edições Afrontamento, 1998

O Som Aproximativo – Edições Afrontamento, 2005

Palavras Escolhidas – Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)

No Linho Verbal – Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)

7 X 7 Versos – Cadernos Nó Cego (3), 2008 (plaquete, fora de mercado)

O Anjo Inefável – Cadernos Nó Cego (4), 2012 (plaquete, fora de mercado)

Entrepoemas – Edições Afrontamento, 2014

O Mês Maio da Mãe – C.Art – 2015

Das Varandas de Ver – Cadernos Nó Cego (5), 2017 (plaquete, fora de mercado).

Manu Scripta – Antologia de Poemas Manuscritos (obra colectiva), Ed. Glaciar, 2018

O Triunfo da Música (Poemas com desenhos de Luandino V. – plaquete, fora de mercado), Ed. Porta Treze, V. N. Cerveira, 2019

 

Em espera:

A Tela Tangível (poesia)

Gramática de Versos (poesia)

Num Pé d’Água (poesia)


Desenho de Manuela Barbosa


12.2.24

OS ANJOS DO POETA




OS ANJOS DO POETA

                     para Alícia

 

Não são as cinzas do tempo.

 

São os anjos do poeta

que assediam os muros da casa.

 

E quando menos se espera

entram pela janela adentro

 

pedindo alguns versos para ficar.

J. Alberto de Oliveira

Foto: M. Aelaide



6.2.24

O CORAÇÃO DO SOL


 

O que falta nos meus olhos

para que eles possam ver

 

o coração abrasivo do sol?

J. Alberto de Oliveira


18.1.24

TRADUZIR O LUME


 

Num jogo de furtivas adivinhas

trocavam entre si respostas

 

e sonhos que eram perguntas.

 

A essência

vinha de pinhas acesas

 

que ardiam até ao fim

para traduzir o lume.

 J. Alberto de Oliveira


29.12.23

CORES FALANTES


 

Quando em menino eu via um arco-íris ficava muito pensativo diante daquele desenho de cores. Imaginava que ele se devia ao movimento dos anjos ou simplesmente era um arco a levar água para as nuvens nos darem mais chuva. Só mais tarde nas coisas que se aprendem na escola vim a saber o que é o arco-íris.

Mas não fiquei muito contente com as explicações científicas.

Gostei mais de um brevíssimo conto plausível de Carlos Drumond de Andrade. Diz que um dia viu uma tapeçaria onde havia duas cabeças comunicantes, de cujas bocas saem sopros coloridos que, juntando-se, formavam um arco-íris.

Conta o poeta brasileiro:

 “Quem colar ouvido ao estofo, e tiver sensibilidade, escutará esse arco-íris, em sua linguagem murmurejante, contando coisas extraordinárias, passadas no coração do homem e da mulher, pois trata-se de um casal.”

E quase a concluir esclarece:

“As confidências são altas, não porque se exprimam em tom de voz elevada; são altas em si, pela importância do significado, pelo conteúdo patético da informação, que só a cor pode captar bem e, bem captado, se transforma em som, mas só para ouvidos especiais.”

 As cores falantes do amor talvez sejam as do arco-íris. Ouvem-se no segredo, em palavras sentidas pelo silêncio de quem ama.

J. Alberto de Oliveira


19.12.23

BOUNO NATAL - (em mirandês)


 

Fai friu acho que bai nebar.

Aqueceu-bos a un borralho que ende bos mando.

Que tengades un Bouno Natal

e que Nino Jesus bos trai-a un anho 2024

cheno de cousas bounas.

Un chi arrochado.


6.12.23

À BEIRA DE SER





 

Amo a beleza que não entendo,

 

A beleza que me dá repentes 

e quase me deixa em claro.

 

Amo a beleza à beira do silêncio.

 

À beira de haver palavras

com segredos entre si.

 

A beleza dá-me repentes de ser.

 J. Alberto de Oliveira

Desenho de Manuela Barbosa

 


1.12.23

CAMONIANA

 



Quem és tu, bárbara, que moras

num poema que se estuda nas escolas

e se lê em recitais 

- tu que te limitaste a ser amada

por um poeta que, se calhar, mais

não te deu em troca do amor

do que esse poema que tu, se calhar,

nunca chegaste a ouvir? Quem és,

ó mulher mais cruel do que esse 

poeta  que te cantou, e de cuja vida

ninguém sabe nada - a não ser

que te amou, e te deitou nesse 

poema em que ainda vives, e respiras,

como no dia em que ele o escreveu

lembrando-se do teu corpo, e dos

teus lábios, e dias, ou noites,

que contigo se passaram? Quem és,

mulher real e sonhada que habitas

todos os poemas que esse poema

inspirou, e todos os sonhos que

nessa bárbara encontraram uma imagem

precisa e definitiva? Volta-te

nesses versos, para que te vejamos

o rosto, e diz-nos o teu nome - o nome

autêntico, e não esse que o poeta

inventou para te chamar num poema

que de ti só guarda o segredo;

e adormece, depois, esquecendo

o que de ti disseram, e os comentários

de que foste o pretexto, e as imagens

em que, cada vez mais, foste perdendo

a tua, e única, imagem.

Nuno Júdice

 

Painel - Embaixada de Portugal na Tailândia


29.11.23

O INFINITO CERTO - para Amair


 


Todos os dias procuro

o verbo que não mede


as distâncias mais íntimas.


Todos os dias o procuro

estudando os furtivos


cadernos do tempo.


E se o descobrir

quem me ensina a ler


no ditoso verbo

o infinito certo?

J. Alberto de Oliveira





10.11.23

O MEU SONHO



Uma noite sonhei que S. Francisco de Assis falava com as aves quando elas acordavam cedo

Sonhei uma vez e não mais, porque as aves agora cantam sempre.

Elas respiram o que ouviram, cumprem o que muito aprenderam com Francisco: transmitem a santidade livre da natureza.

O som musical das aves principia quando o sopro do ar é matinal.

 

As criaturas que poisam nos braços dos humanos, que se refugiam nos ramos das árvores e voam pelos ares parecem fragmentos de música. Lembram os louvores de existir. São as legendas maiores da alegria.

As aves sustentam um reino de bem e paz. Um reino de santidade livre.

J. Alberto de Oliveira

Desenho de Alberto Péssimo

 

18.10.23

OUTRA VEZ DEBAXO DA FIGUEIRA

Debaixo da figueira a pausa é mais íntima.

A atenção convida a fugir ao fingimento

e ao cansaço do quotidiano.

 

Debaixo da figueira o sol não queima.

A frescura aviva o rumor dos insectos

em torno dos frutos maduros.

 

Debaixo da figueira ressoa

uma voz tão preciosa como a tua.

 J. Alberto de Oliveira


2.10.23

UM SELO DE SETEMBRO


 

Quando molhaste os dedos

na lídima água do nome

 

a legenda maior estremeceu.

 

Do amor que se tornou clamor

na minha boca ainda pequena

 

eu recebi um selo de Setembro.

 23/09/2023

J. Alberto de Oliveira


22.9.23

EFEITOS AMADOS


 

Há um intimo de marluz

que fala dentro de mim.

 

A natureza do  azul

nunca se apaga no mar.

 

De seus alicerces furtivos

nascem efeitos amados.

J. Alberto de Oliveira


15.9.23

A SAUDADE



Esta nossa palavra saudade não rima

com a nostalgia de Ulisses

em seus perigos longe de casa.

É mais que um murmúrio de lembranças.

Que me quereis, perpétuas saudades?

perguntava Camões.

 

A saudade talvez seja uma onda musical

de fios tangíveis e da fidelidade

intraduzível entre as almas e a distância. 


A fidelidade começa pela evidência 

ou regresso 

de antigos amores ditos em segredo.

J. Alberto de Oliveira