Quando oiço as gaivotas
sei que me trazem do mar
a ciência mais antiga e preciosa.
Como quase todos os pássaros
as gaivotas não aprendem a mentir
nem gostam de estar sós.
J. Alberto de Oliveira
Quando oiço as gaivotas
sei que me trazem do mar
a ciência mais antiga e preciosa.
Como quase todos os pássaros
as gaivotas não aprendem a mentir
nem gostam de estar sós.
J. Alberto de Oliveira
Há
cada vez mais e mais
palavras
vazias.
Palavras
em abundância
a
proclamar
os
extremos de tudo.
Silêncio.
Ainda não é o
princípio
nem o fim do
mundo.
Calma.
É apenas um pouco
tarde.
J. Alberto de Oliveira
Fina e preclara de tão imaginativa
aprende a ler a palavra em folhas nuas.
Coincide com as ideias do ar mais puro
e fala com o vento que passa entre poemas.
Sustenta a luz que vem de algures
e brilha quando se inspira no silêncio.
Fina e preclara de tão imaginativa
hei-de soletrá-la o resto da vida.
J. Alberto de Oliveira
No mais pequeno recanto
da alma
tenho um canteiro de luar e perguntas.
O que na alma de
outros humanos
talvez seja um viveiro de trutas.
J. Alberto de Oliveira
Ainda me falta um triciclo
ou bicicleta.
Um automóvel
ou camião para atropelar
com arte
e muita astúcia
a estupidez que infesta
os dias do mundo.
J. Alberto de Oliveira
Tudo ou quase tudo o que somos
é matéria para arder.
É carne para se desintegrar.
Ou talvez seja apenas
indício da revivescência geral.
J. Alberto de Oliveira
A
natureza do amor
nunca me deixa só.
Ainda
tece comigo
as
letras e linhas
justas do teu nome.
J. Aberto de Oliveira
A rosa anterior às súbitas
gotas de chuva.
A rosa e o pó
de seu perfume
inauguram
o princípio do fulgor.
A rosa espera
apenas outro nome.
J. Alberto de Oliveira
Não tenho biografia.
Eu sou um dia após dias e dias
intemporais. Ou talvez a memória apenas de mim
próprio, A memória donde vim e
para onde vou.
Uma vez alguém me perguntou:
- Por que é que tu és poeta?
Respondi:
- Não sei. Vai interrogar os meus
ancestrais que já partiram para a eternidade.
E no outro dia escrevi:
“Quando saio de mim levo sempre uma trouxa de imagens e lembranças às costas.
Assim vou trocando um ror de coisas por alguns poemas".
J. Alberto de Oliveira
São horas do mar
atento
ao barco de ontem no horizonte.
É o mar que todo
se dobra sobre si mesmo
para me
deixar uma frase
no fim de cada pensamento.
J. Alberto de Oliveira
A verdade no branco
da página do universo
como posso vê-la?
A haver continuidade
depois de morrer
qual será ó Deus
a minha substância
definitivamente?
J. Alberto de Oliveira
Afinal, nos recantos do Éden havia bastante
impostura. Nem tudo era delícias.
Havia limites à liberdade e uma cobra com muito
veneno.
Afinal, Eva e Adão eram precários e originalmente
inocentes.
Eram como os futuros humanos e não como deuses.
Os selos do passado
fazem da memória
um átrio onde o ar
avoluma o lume
em volta e dentro de nós.
Preciso de vidas amadas
que me traduzam
os selos do passado.
J, Alberto de Oliveira
Às vezes minto nos versos para dizer a verdade que ninguém
quer ouvir.
Há frases que escrevo ao contrário de mim mesmo.
Porquê?
Não sei.
Talvez porque tenho pensamentos, imagens e sentimentos que
assim me esperam.
Escrevo por prazer em forma de palavras o que não sei dizer
em silêncio.
Mas também escrevo no silêncio o que sobra das palavras
para ninguém saber nem adivinhar os meus segredos.
J. Alberto de Oliveira
A palavra singular
e ouvida
num tanque de água.
A memória sentida
numa folha
de silêncio musical.
A síntese de um beijo
cativo do amor
e sopro noutro beijo.
J. Alberto de Oliveira
Quando
a alma é musical
e
a matéria afeita ao verbo
se
inspira nos dedos do ar
o
som do violino rima
com
os primores de obra-prima.
A
beleza e o rigor estremecem
como
se fossem a gramática
de
nobilíssimos versos.
J. Alberto de Oliveira
Nos
dias de quase não existir
eu
respirava o que dá vida.
Os
fios da palavra e o pão
deixavam
doçura e vigor.
Eu
recebia o que dá amor.
O
que vai acima do chão.
J. Alberto de Oliveira
Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Sião ao tempo passado,
Babilónia ao mal presente.
[...]
Luís Vaz de Camões
Seria uma ideia minha
ou foi uma evidência
aquele retrato distinto?
Um retrato aberto
ao incisivo silêncio
de palavras inéditas.
De tão leves e perfeitas
como dizê-las num verso?
J. Alberto de Oliveira