30.11.19

A LUZ DE ’SCREVER O POEMA





Algumas palavras resumem o júbilo
de ver o invisível.

Recuso-me a existir somente para ’star.

O que não entendo
espero.

Sim
espero que a vida cumpra a idade estética da mão a ’screver.

O azul da tinta anda sempre comigo.

Talvez o azul do linho em flor seja a cor
mais próxima das águas e do quotidiano das janelas.

À hora do crepúsculo deixo que a porta entreaberta
mostre a luz de ’screver.

A arte de acender o lume começa
pela substância de uma confidência.
                                  
Alumia o poema completo.

J. Alberto de Oliveira

23.11.19

OS IMPERDOÁVEIS





Há na língua italiana, a propósito do imperdoável ou imperdoáveis – gli imperddonabili – alguns vocábulos incisivos no seu dizer significante, sonoridade e vigor:

Intelligenza – faculdade activa do entendimento e lucidez
Eleganza – elegância, delicadeza e brio comunicante
Piglio – toque, distinção deliberada
Disinvoltura – desenvoltura, agilidade viva
Noncuranza – descuido fino
Sprezzatura – o supremo brasão da inteligência aliada à sensibilidade e fidalguia, um modo negligentemente livre de fazer e dizer, “próprio de mestre seguro de si.” (N.Zingarelli)

J. Alberto de Oliveira

16.11.19

O ENSINO DA MELANCOLIA





O ensino da melancolia
soletra o meu nome

como se eu ainda
fosse

um menino da escola.

Chama por mim
e cita coisas amadas

antes que se perca a memória
nas fundas águas caladas.

J. Aberto de Oliveira

10.11.19

EM TEMPO DE BOLOTAS





Será por ignorância, estupidez ou ganância?
Sim.
Às vezes trocamos algumas das nossas pérolas por porcos.
E depois?
Depois damos aos porcos as pérolas restantes
como se fossem bolotas.


J. Alberto de Oliveira

29.10.19

A MÚSICA ENSINA A PERGUNTAR

                                                                                                                                                                                                 Emerenciano




Em que ponto do absoluto
o amor é mais interior que o azul sem mistura?


Somos o barro ou a tela de Deus?


Em que jardim eu devo ainda plantar
roseiras de orvalho?


De que trata a música?


A palavra musical é uma taça de cristal 
cheia de ambrosia ou de água viva?


Onde cintilam as delícias da alegria profunda?

18.10.19

NUM VERSO VADIO





O silêncio maior
na minha voz escrita.

A hora suspensa
num verso vadio.

J. Alberto de Oliveira

9.10.19

AS LEIS DA LUZ





Quando fores embora deixa o bolor
e as peças de roupa usada ou puída.

Larga os restos de remédios e os rascunhos
dos sentimentos e da memória.

Não leves nada contigo
e deixa-te acompanhar pelo desconhecido.

No verso mais profundo
ainda podes ler as leis da luz.


J. Alberto de Oliveira

17.9.19

CONSTELAÇÕES




A noite fecha-se no livro
quando acendes

o verbo da última frase.

Quando o sono da vida
cai no limiar do silêncio.

E o verbo torna-se carne
quando tocas nas estrelas

com a largueza do olhar.

J. Alberto de Oliveira

9.9.19

O AR DO AZUL





O ar do azul feito de teoremas

e de claridades
ébrias de vento.

O ar do azul extasia as águas.

J. Alberto de Oliveira

29.8.19

FRAGMENTOS DO IMENSO





Às vezes admito que a vida
seja uma espécie de relance.

Um marmulho de água corredia.




Logo ao primeiro minuto de nascer
o mundo avisou-me

tens que existir para
desassossegadamente viver e morrer.




A rosa do jardim quando é só rosa
torna-se mais atenta

que todas as demais rosas.




O sol em sua regência
fala com as águas do imenso.

J. Alberto de Oliveira

22.8.19

A PIAF - Jorge de Sena





Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.

 Quem como ela perdeu
 toda a alegria e toda a esperança
 é que pode cantar com esta ciência
 
 o desespero de ser-se um ser humano
 
 entre os humanos que o são tão pouco.

   1964
   JORGE DE SENA
   "Arte de Música"

13.8.19

OS EFEITOS DA MÚSICA - para Luandino Vieira




OS EFEITOS DA MÚSICA
                              para Luandino Vieira




A música é a nossa língua materna.
Na música há uma sintaxe.
Há substantivos ou lembranças cheias de substância
onde corre leite e mel.

A fluência da música transmite silêncios
rigor e desígnios
tempo e consequências imprevisíveis.
A música é o triunfo da vida.

Os desenhos ou efeitos da música são tão verbais
e surpreendentes
como qualquer poema excelente.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Luandino Vieira

5.8.19

COM O LÁPIS NO BOLSO





Quando a noite vem
ouve-se 

a respiração dos bichos.

É maior o assombro
e pairam segredos

a sustentar o silêncio.

À hora em que os bichos 
olham o fogo

eu adormeço
com o lápis no bolso.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: H. Azevedo

2.8.19

AS LEIS DO FOGO





Aonde o assombro?
Aonde a escada sem fim?

Aonde o amor
em romance de sangue?

As leis do fogo
tecem  teias aproximativas

com fios de cegas lembranças.

Quem de amor é sofrido
de assombro anda servido.

J. Alberto de Oliveira

Pintura: Antoni Tàpies

23.7.19

OUTRA VEZ SÁ DE MIRANDA





Ao meio dia em ponto
a luz
e a sombra dos ramos
da palmeira

pousam quase a prumo
no silêncio do ar.

Ao meio dia o sol é grande
diria outra vez
por cegos motivos
o poeta Sá de Miranda.

J. Alberto de Oliveira

16.7.19

NOS VERSOS DE SÁ DE MIRANDA





O sol cai no meu corpo.
O sol é grande
nos versos de Sá de Miranda.

O sol
cai em meus cuidados graves
da mesma forma

que pelos montes
caem co’a calma as aves.

J. Alberto de Oliveira

10.7.19

COM PALAVRAS SILENCIOSAS



A Mãe primeiro concebeu o filho
ou seja o suporte do meu nome.
Depois pensou nas coisas supremas da vida.

O volume dos dias corridos era essencial.

A Mãe ordenava os trabalhos do sol
com palavras silenciosas.

A fluidez quente do leite me guiava.

Eu crescia de costas deitadas no linho
e de olhos fixos na melancolia solar.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo


2.7.19

NOITE DE NASCER





Suspenso do mundo nasci a precisar
de leite e ar
luz e beijos.

A noite era profunda e lunar.

Nasci a pedir o calor do colo
as melhores palavras
e uma arte remota

para o nó do meu cordão umbilical.

J. Alberto de Oliveira

25.6.19

O MEDO E PAVOR

                                                                                                      "Claramente azul" - Leça da Palmeira



O medo e pavor às aranhas
fecharam a ferro e fogo

o jardim dado ao sol.

Entre a ferrugem copiosa
e os espigões da frieza

o poema não floriu mais.

O medo e a aridez
dizimaram-te as rosas

oh Dional.

J. Alberto de Oliveira