1.10.19
17.9.19
CONSTELAÇÕES
A noite fecha-se no livro
quando
acendes
o
verbo da última frase.
Quando
o sono da vida
cai
no limiar do silêncio.
E
o verbo torna-se carne
quando
tocas nas estrelas
J. Alberto de Oliveira
9.9.19
O AR DO AZUL
O ar do azul feito de teoremas
e de claridades
ébrias de vento.
O ar do azul extasia as águas.
J. Alberto de Oliveira
29.8.19
FRAGMENTOS DO IMENSO
Às
vezes admito que a vida
seja uma espécie de relance.
Um
marmulho de água corredia.
Logo ao primeiro minuto de nascer
o
mundo avisou-me
tens que existir para
desassossegadamente
viver e morrer.
A rosa do jardim quando é só rosa
torna-se
mais atenta
que
todas as demais rosas.
O sol em sua regência
fala com as águas do imenso.
J. Alberto de Oliveira
22.8.19
A PIAF - Jorge de Sena
Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada
para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a
carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.
Quem
tinha assim a morte na sua voz
e na vida.
e na vida.
Quem
como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.
1964
JORGE DE SENA
"Arte de Música"
13.8.19
OS EFEITOS DA MÚSICA - para Luandino Vieira
OS EFEITOS DA MÚSICA
para Luandino Vieira
A
música é a nossa língua materna.
Na
música há uma sintaxe.
Há
substantivos ou lembranças cheias de substância
onde corre leite
e mel.
A
fluência da música transmite silêncios
rigor
e desígnios
tempo
e consequências imprevisíveis.
A
música é o triunfo da vida.
Os
desenhos ou efeitos da música são tão verbais
e
surpreendentes
como
qualquer poema excelente.
J. Alberto de Oliveira
Desenho: Luandino Vieira
5.8.19
COM O LÁPIS NO BOLSO
Quando
a noite vem
ouve-se
a respiração dos bichos.
a respiração dos bichos.
É maior o assombro
e
pairam segredos
a
sustentar o silêncio.
À
hora em que os bichos
olham o fogo
olham o fogo
eu adormeço
com
o lápis no bolso.
J. Alberto de Oliveira
Imagem: H. Azevedo
2.8.19
AS LEIS DO FOGO
Aonde
o assombro?
Aonde
a escada sem fim?
Aonde
o amor
em
romance de sangue?
As
leis do fogo
tecem
teias aproximativas
com
fios de cegas lembranças.
Quem
de amor é sofrido
de
assombro anda servido.
J. Alberto de Oliveira
Pintura: Antoni Tàpies
23.7.19
OUTRA VEZ SÁ DE MIRANDA
Ao
meio dia em ponto
a
luz
e
a sombra dos ramos
da
palmeira
pousam
quase a prumo
no
silêncio do ar.
Ao
meio dia o sol é grande
diria
outra vez
por
cegos motivos
o
poeta Sá de Miranda.
J. Alberto de Oliveira
16.7.19
NOS VERSOS DE SÁ DE MIRANDA
O
sol cai no meu corpo.
O sol é grande
nos
versos de Sá de Miranda.
O
sol
cai
em meus cuidados graves
da
mesma forma
que
pelos montes
caem co’a calma as aves.
J. Alberto de Oliveira
10.7.19
COM PALAVRAS SILENCIOSAS
A Mãe primeiro concebeu o filho
ou seja o suporte do meu nome.
Depois pensou nas coisas supremas da vida.
O volume dos dias corridos era essencial.
A Mãe ordenava os trabalhos do sol
com palavras silenciosas.
A fluidez quente do leite me guiava.
Eu crescia de costas deitadas no linho
e de olhos fixos na melancolia solar.
J. Alberto de Oliveira
Desenho: Alberto Péssimo
2.7.19
NOITE DE NASCER
Suspenso
do mundo nasci a precisar
de
leite e ar
luz
e beijos.
A
noite era profunda e lunar.
Nasci
a pedir o calor do colo
as
melhores palavras
e
uma arte remota
para
o nó do meu cordão umbilical.
J. Alberto de Oliveira
25.6.19
O MEDO E PAVOR
"Claramente azul" - Leça da Palmeira
O
medo e pavor às aranhas
fecharam
a ferro e fogo
o
jardim dado ao sol.
Entre
a ferrugem copiosa
e
os espigões da frieza
o
poema não floriu mais.
O
medo e a aridez
dizimaram-te
as rosas
oh Dional.
J. Alberto de Oliveira
22.6.19
O LÁPIS E A SAFA
Falta-me
um mata-borrão para ser mais antigo.
Desde
que a tinta, o tinteiro, as penas e canetas de tinta permanente ficaram pelo
caminho, o mata-borrão é quase e apenas uma lembrança.
Ainda
conservo uma folhinha de mata-borrão só para não esquecer.
Se
eu fosse escrivão, teria os necessários instrumentos do ofício. Porém, basta-me
o lápis para o texto de ser e para sublinhar frases nos livros.
Às
vezes também me sirvo de uma safa (substantivo
feminino: borracha de apagar) para anular o inútil.
Não
gosto de borrar a escrita. Já não sou aprendiz de borrões.
Nos
arredores de mim leio muitas palavras alheias que precisam de uma safa, de
lixívia ou de corrector.
Com
as palavras denegridas são muitos os borrões da vida.
J. Alberto de Oliveira
15.6.19
EM CARNE VIVA
Saí da palavra justa
em poema.
Em carne viva nasci.
Do cego sopro do ar
vivo coberto de espuma
de nomes e de sal.
J. Alberto de Oliveira
12.6.19
CONTRA O MURO
Contra o muro que anoitece
resiste o poeta
que não se fia em vazias conversas.
Mudo ali permanece
de mão aberta
J. Alberto de Oliveira
27.5.19
A PINHA ACESA
A
alegria verbal talvez seja a minha origem.
Nasci
para que se não apagasse a pinha acesa
de
uma noite de Setembro.
Para
que nada se perdesse deram-me um nome.
O
ar respirado também transmitia amor
e
a casa ficou mais luminosa.
Quando
o sol começou a trabalhar
ainda
havia rosas perto da soleira da porta.
Para
que a alegria fosse completa
(foi
o que depois me disseram)
só
faltavam o lápis e um caderno.
J. Alberto de Oliveira
20.5.19
O ANJO DA NOITE VIVA
O
ANJO DA NOITE VIVA
para Milay
Ouve-se
a respiração
da
noite e dos bichos
nas
luras do escuro.
E
quem ama
não
dorme longe do fogo.
As estrelas vivas alumiam
o
sono dentro dos sonhos.
Só
falta uma escada.
A
escada para o poeta
mais
alto subir.
Para
o poeta lá no alto
ser
o anjo da noite viva.
J. Alberto de Oliveira
Imagem: Miró
9.5.19
O ASSOMBRO DE HERBERTO HELDER
se
alguém respirasse e cantasse uma palavra,
e
súbito fosse respirado por ela, fosse
cantado
assim
de
puro júbilo ou, quem sabe? de medo puro,
poria
no termo o selo de si mesmo?
quem
é que sabe onde fica o mundo?
e
de quê e de quem e de como é composto e dito,
de
como uma palavra, uma só, regula
ininterruptamente
tudo, e alguém a põe em uso,
oh
glória idiomática,
e
é posto e disposto até que abuso de que espécie de infuso espírito
das
profundezas dessa palavra
Herberto
Helder
O
ASSOMBRO DE H. H.
Se
alguém respirasse e arrebatasse
uma
palavra
e
súbito fosse respirado por ela.
Se
fosse amado assim
de
assombro puro
teria
as chaves da casa.
Teria
o selo de todos os segredos
e
do mundo.
J.
Alberto de Oliveira
2.5.19
A ROSA TODA NUA
Às
horas do orvalho
a
rosa é mais alma
que
rosa.
A
sua luz
é dada algures
é dada algures
ainda
sem degraus
nem
parcelas de pó
Assim
criada
e
mais que tudo
é
rosa amada
a
rosa que dói.
A
rosa toda nua.
J. Alberto de Oliveira
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