12.6.19

CONTRA O MURO




Contra o muro que anoitece
resiste o poeta

que não se fia em vazias conversas.

Mudo ali permanece
de mão aberta

e pensativo para o que der e vier.

J. Alberto de Oliveira




27.5.19

A PINHA ACESA





A alegria verbal talvez seja a minha origem.
Nasci para que se não apagasse a pinha acesa
de uma  noite de Setembro.
Para que nada se perdesse deram-me um nome.
O ar respirado também transmitia amor
e a casa ficou mais luminosa.
Quando o sol começou a trabalhar
ainda havia rosas perto da soleira da porta.
Para que a alegria fosse completa
(foi o que depois me disseram)
só faltavam  o lápis e um caderno.

J. Alberto de Oliveira

20.5.19

O ANJO DA NOITE VIVA




O ANJO DA NOITE VIVA
                        para Milay

Ouve-se a respiração
da noite e dos bichos

nas luras do escuro.

E quem ama
não dorme longe do fogo.

As estrelas vivas alumiam
o sono dentro dos sonhos.

Só falta uma escada.

A escada para o poeta
mais alto subir.

Para o poeta lá no alto
ser o anjo da noite viva.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Miró

9.5.19

O ASSOMBRO DE HERBERTO HELDER




se alguém respirasse e cantasse uma palavra,
e súbito fosse respirado por ela, fosse
cantado assim
de puro júbilo ou, quem sabe? de medo puro,
poria no termo o selo de si mesmo?
quem é que sabe onde fica o mundo?
e de quê e de quem e de como é composto e dito,
de como uma palavra, uma só, regula
ininterruptamente tudo, e alguém a põe em uso,
oh glória idiomática,
e é posto e disposto até que abuso de que espécie de infuso espírito
das profundezas dessa palavra

Herberto Helder


O ASSOMBRO DE H. H.

Se alguém respirasse e arrebatasse
uma palavra

e súbito fosse respirado por ela.

Se fosse amado assim
de assombro puro

teria as chaves da casa.

Teria o selo de todos os segredos
e do mundo.

J. Alberto de Oliveira

2.5.19

A ROSA TODA NUA





Às horas do orvalho
a rosa é mais alma

que rosa.

A sua luz
é dada algures
ainda sem degraus
nem parcelas de pó

Assim criada
e mais que tudo

é rosa amada
a rosa que dói.

A rosa toda nua.

J. Alberto de Oliveira

23.4.19

O NOSSO GÉNIO FERNANDO PESSOA








O nosso génio - Fernando Pessoa - foi "surpreendido" a entrar no Schauspielhaus Zürich.

"Um homem de génio muitas vezes não tem família. 
Tem parentes."
Fernando Pessoa

O Schauspielhaus Zürich é um dos teatros mais proeminentes e importantes do mundo de língua alemã. Também é conhecido como "Pfauenbühne".

O grande teatro tem 750 lugares.


19.4.19

NAS PÁGINAS DO CADERNO





Desconheço as leis do mundo
porque não sei o que fazer de mim.

Ando perdido no meio da linguagem
porque ninguém dá a mão

ao que pergunto.

Quase tudo me distancia
do pulso de ser

do que resta na memória

do que digo
e do lugar em que nasci.

Sem nenhuma resposta
crescem nas páginas do caderno

resquícios confusos.

O silêncio fulmina o corpo
de alto a baixo

com névoas e linhas
de apagamento e dor.

J. Alberto de Oliveira

13.4.19

EM LANCE DE ALMA





Sê complacente comigo
oh Dional.

Dita-me palavras suspensas
da língua e do ar em rodopio.

Ensina-me a escrever
o que eu nunca soube dizer.

E por fim
sem nada em que pensar

recita em lance de alma
a cadência

de uma frase musical.

J. Alberto de Oliveira

3.4.19

ERA QUASE SÓ NOITE





Era quase só noite
e ouvia-se o fim do dia

a adormecer no imenso
com pedacinhos de palavras.

Era quase só noite
o murmulho das águas
no escuro a luzir

mais que a espuma da lua.

Era quase só noite
o sopro no sono de tudo.

J. Alberto de Oliveira

27.3.19

ANTES DE ADORMECER




Com o dia a cair
uma vela se acende.

As aves chamam-se
antes de adormecer.

e tu onde queres ainda
dizer-me um segredo?

J. Alberto de Oliveira



19.3.19

PORCIÚNCULAS DE MIM





Sabias que o meu nome aproximativo
tem dias em que não fala?
Refugia-se num rascunho de melancolia.

+ = +

A sombra que sai de mim
talvez tenha voz própria.

Fiel ao sopro que me guia
de fraga em fraga

quem me inspira até um dia?

+ = +

A poesia redime. Protege. Defende-me da polícia e dos escribas dos costumes.
Afasta-me das leis cegas, surdas e civis.
Herberto Helder disse que a poesia” salvaguarda a preciosidade do espírito”.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo


11.3.19

INÊS DE CASTRO





Uma vez pedi à noite
para se sentar comigo

num recanto do jardim.

Ainda me lembro
de te ver no auge do sono.

Eu queria linda Inês
adormecer

em teus olhos postos em sossego.

Eu queria todas as lembranças
que na alma escondias. 

Entre sonhos e pensamentos
eram tudo memórias de alegria.

J. Alberto de Oliveira

Fonte: Luís Vaz de Camões – Lusíadas – Canto III




6.3.19

UMA TELA DE SONS





Submerso no escuro da noite
um anjo ensina música.

Há uma exígua candeia
a alumiar as suas histórias.

Ouve-se o latir dos cães
em cada sombra da lua.

E o vento fala com ardor
usando línguas de fogo.

Tudo poderia ser
prece ou poema

quando a noite é uma tela
de sons que dançam.

Quando a noite mais viva
que um exercício de poetas

me vem pedir lembranças.

J. Alberto de Oliveira

28.2.19

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26.2.19

À LUZ DA CANDEIA





Por mais que o vento
sopre lá fora

o leite e o mel resplendem
nos ângulos da cozinha.

O leite e o mel escorrem
à luz da candeia.

Na sua recompensa
não há sombras nem fim.

O pavio dá luz inteira. 

J. Alberto de Oliveira

18.2.19

CURSO PARA CRAVO





O curso para cravo de Bach
me ensine a pedir ao lume

a espuma do ouro bem temperado.

Que a música a arder no escuro
avive a tela dos silêncios.

E que nunca ruído algum
por norma cívica ou por nada

apague o som das nascentes.

J. Alberto de Oliveira

15.2.19

OBRAS POÉTICAS




Com o nome José Alberto de Oliveira:

Alegria Irrecusável (1974) – esgotado
Nos Vidros da Noite (1983) – esgotado


Com o nome J. Alberto de Oliveira:

A Água do Nome – Edições Afrontamento, 1998
O Som Aproximativo – Edições Afrontamento, 2005
Palavras Escolhidas – Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)
No Linho Verbal – Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)
7X7 Versos – Cadernos Nó Cego (3), 2008 (plaquete, fora de mercado)
O Anjo Inefável – Cadernos Nó Cego (4), 2012 (plaquete, fora de mercado)
Entrepoemas - Edições Afrontamento, 2014
O Mês Maio da Mãe – C. Art, 2015
Das Varandas de Ver – Cadernos Nó Cego (5), 2917 (plaquete, fora de mercado)


7.2.19

NOS ÁTRIOS DO LUME





O sol nas alturas
e o mel nos rochedos.

A história da água
no linho da mesa.

O azul da fala nua
em frutadas palavras.

Íntimo rejubila o ar
nos átrios do lume.

J. Alberto de Oliveira

31.1.19

A RECOMPENSA





Ainda hoje me alembro da cancela entreaberta no sentido poente.
Era por lá que eu saía nem sei para onde.
Depois voltava mais pensativo que vivo.

Mas eu só vinha quando ouvia a voz que chamava o mais inteiro nome de mim:
– Zé!
– Já vou, minha mãe!

Acredito que a recompensa andava sempre comigo.

J. Alberto de Oliveira

23.1.19

MARIANA ALCOFORADO





Com a sina maior do amor

a lua
nasce à frente de nós.

Com o fogo de alta dor

a lua
espera atenta lá fora.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Henri Matisse