3.4.19

ERA QUASE SÓ NOITE





Era quase só noite
e ouvia-se o fim do dia

a adormecer no imenso
com pedacinhos de palavras.

Era quase só noite
o murmulho das águas
no escuro a luzir

mais que a espuma da lua.

Era quase só noite
o sopro no sono de tudo.

J. Alberto de Oliveira

27.3.19

ANTES DE ADORMECER




Com o dia a cair
uma vela se acende.

As aves chamam-se
antes de adormecer.

e tu onde queres ainda
dizer-me um segredo?

J. Alberto de Oliveira



19.3.19

PORCIÚNCULAS DE MIM





Sabias que o meu nome aproximativo
tem dias em que não fala?
Refugia-se num rascunho de melancolia.

+ = +

A sombra que sai de mim
talvez tenha voz própria.

Fiel ao sopro que me guia
de fraga em fraga

quem me inspira até um dia?

+ = +

A poesia redime. Protege. Defende-me da polícia e dos escribas dos costumes.
Afasta-me das leis cegas, surdas e civis.
Herberto Helder disse que a poesia” salvaguarda a preciosidade do espírito”.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo


11.3.19

INÊS DE CASTRO





Uma vez pedi à noite
para se sentar comigo

num recanto do jardim.

Ainda me lembro
de te ver no auge do sono.

Eu queria linda Inês
adormecer

em teus olhos postos em sossego.

Eu queria todas as lembranças
que na alma escondias. 

Entre sonhos e pensamentos
eram tudo memórias de alegria.

J. Alberto de Oliveira

Fonte: Luís Vaz de Camões – Lusíadas – Canto III




6.3.19

UMA TELA DE SONS





Submerso no escuro da noite
um anjo ensina música.

Há uma exígua candeia
a alumiar as suas histórias.

Ouve-se o latir dos cães
em cada sombra da lua.

E o vento fala com ardor
usando línguas de fogo.

Tudo poderia ser
prece ou poema

quando a noite é uma tela
de sons que dançam.

Quando a noite mais viva
que um exercício de poetas

me vem pedir lembranças.

J. Alberto de Oliveira

28.2.19

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26.2.19

À LUZ DA CANDEIA





Por mais que o vento
sopre lá fora

o leite e o mel resplendem
nos ângulos da cozinha.

O leite e o mel escorrem
à luz da candeia.

Na sua recompensa
não há sombras nem fim.

O pavio dá luz inteira. 

J. Alberto de Oliveira

18.2.19

CURSO PARA CRAVO





O curso para cravo de Bach
me ensine a pedir ao lume

a espuma do ouro bem temperado.

Que a música a arder no escuro
avive a tela dos silêncios.

E que nunca ruído algum
por norma cívica ou por nada

apague o som das nascentes.

J. Alberto de Oliveira

15.2.19

OBRAS POÉTICAS




Com o nome José Alberto de Oliveira:

Alegria Irrecusável (1974) – esgotado
Nos Vidros da Noite (1983) – esgotado


Com o nome J. Alberto de Oliveira:

A Água do Nome – Edições Afrontamento, 1998
O Som Aproximativo – Edições Afrontamento, 2005
Palavras Escolhidas – Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)
No Linho Verbal – Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)
7X7 Versos – Cadernos Nó Cego (3), 2008 (plaquete, fora de mercado)
O Anjo Inefável – Cadernos Nó Cego (4), 2012 (plaquete, fora de mercado)
Entrepoemas - Edições Afrontamento, 2014
O Mês Maio da Mãe – C. Art, 2015
Das Varandas de Ver – Cadernos Nó Cego (5), 2917 (plaquete, fora de mercado)


7.2.19

NOS ÁTRIOS DO LUME





O sol nas alturas
e o mel nos rochedos.

A história da água
no linho da mesa.

O azul da fala nua
em frutadas palavras.

Íntimo rejubila o ar
nos átrios do lume.

J. Alberto de Oliveira

31.1.19

A RECOMPENSA





Ainda hoje me alembro da cancela entreaberta no sentido poente.
Era por lá que eu saía nem sei para onde.
Depois voltava mais pensativo que vivo.

Mas eu só vinha quando ouvia a voz que chamava o mais inteiro nome de mim:
– Zé!
– Já vou, minha mãe!

Acredito que a recompensa andava sempre comigo.

J. Alberto de Oliveira

23.1.19

MARIANA ALCOFORADO





Com a sina maior do amor

a lua
nasce à frente de nós.

Com o fogo de alta dor

a lua
espera atenta lá fora.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Henri Matisse

16.1.19

NOS COMEÇOS DE MIM




Como sucedia a vida nos começos de mim?
Apressada ou demorosa?
Eu sei que só chegava ao meio das palavras
e das coisas mais altas.
Diziam que eu era atento a memórias
e depois fugia para dentro do silêncio.

Os modos de arte eram quase invisíveis.
Mas tinha os sentidos atentos.
Firme no olhar
eu via o mundo sem pertenças.
Bebia da mina da água e comia o pão
a pensar nas aves mais pequenas.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo

12.1.19

A ARAGEM DO IMENSO





Ser.
Ser mais é o átimo

do silêncio.

Ser mais
toca na geometria

quase musical.

O espírito vai aluir
no intenso.

Adivinho a aragem
do imenso.

J. Alberto de Oliveira

6.1.19

DIADORIM




Diadorim.
O nome escrito e narrado por João Guimarães Rosa em 
Grande Sertão: Veredas.
Diadorim. 
Uma figura enigmaticamente iluminante.
O sexo de ser Diadorim é inesperado e desassossegante.
Um nome.
Nome e figura não condizem com o real quotidiano.
É um nome perpetual.
Diadorim é o nome fulgor, diverso, libidinal.
Um poema de inspiração contínua.
Pronunciar Diadorim suscita um não sei quê.
O nome Diadorim em seu desígnio e sonoridade
é o poema mais pequeno da língua portuguesa.


J. Alberto de Oliveira 





28.12.18

CINCO REIS DE AMOR

                                                                                                                                                               Cantico del Sol - Joan Miró




A vida começa por um dedal
de amor coado.

Cinco reis de amor
faz bem a tudo.

O amor na casa.
O amor na rua.
O amor na praça.
O amor no cabo do mundo.

Um dedal de amor coado
faz bem a tudo.

J. Alberto de Oliveira

18.12.18

PARA LUANDINO VIEIRA

                                                                                                                  V. N. de Cerveira










PONTO DE VISTA

Conheço os anjos da guarda.
Pairam no mundo vigilantes, atentos ao que faço,
ao que penso e amo sentidamente.
Os meus anjos da guarda resplendem.
Com a lucidez de espírito, são eles que iluminam a bondade.
Os anjos da guarda ensinam a ver as veredas da liberdade.

J. Alberto de Oliveira



14.12.18

A TEORIA DE VER





Transmite-se a alma de ver
à refulgência de ir indo

pelas arestas do mundo.

Cheios de invisível poeira
da luz afectuosa

ou do sopro sonhado

os olhos em tudo procuram
o lídimo azul da intimidade.

J. Alberto de Oliveira

7.12.18

EXPERIÊNCIA E POEMA





Em conversa comigo
ainda soletro

resumidos versos.

São as inflexões verbais
que me servem

a vida e a sua voz.

Em conversa comigo
estou sempre à espera

da fala aproximativa.

À espera do puro 
sem demora 

ao rés de uma história.



J. Alberto de Oliveira

30.11.18