13.7.18

FRUTOS SILVESTRES





Trocar frutos silvestres
por um verso de beijos.

Diz-se à boca cheia
que as surpresas da natureza
nos administram o destino.

Confundir seres celestes
com o desatino de uma ideia.

Consta que no verbo
mais profundo do linho
as sílabas são cantantes

e quase brancas.

J. Alberto de Oliveira

2.7.18

CAMÕES





Nesta língua que é a nossa.
Nesta língua de viajantes e aventureiros “por mares nunca de antes navegados” à procura de terras, povos e riqueza.
Nesta língua cheia de histórias contadas, desastres e soidade.
Nesta língua dos pobres que somos, há tesouros inexplicáveis como ENDECHAS A BÁRBARA ESCRAVA:

Aquela cativa
Que me tem cativo
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos
Que pera meus olhos
Fosse mais formosa.
   Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
   Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Preto os cabelos
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.
   Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.
   Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena,
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E pois nela vivo,
É força que viva.

O texto-poesia de Camões é de tal modo isento, livre, profundo e belo que, ouvir ou ler os académicos a falar dele, a gente estremece de pavor. Citando Herberto Helder,
“essa gente bárbara
que torna mínimo qualquer poema”,
diverte-se com os tesouros desta língua nossa e nobre.
Obrigado, Camões!
Firma-te nas delícias que te moviam e, como diz Herberto Helder, também “acautela a tua dor que se não torne académica”.
É bom que te rias dos sábios que não sabem ler os teus versos, porque usam e abusam do poder professoral.
Faltam-lhes a alma e a sensibilidade poéticas.
Obrigado, Camões!

J. Alberto de Oliveira

22.6.18

TALVEZ EU






Talvez eu seja ainda com a poesia
um recorte musical de água corredia.

J. Aberto de Oliveira

Desenho; José Rodrigues

18.6.18

EU MALANDRO





As realidades imaginadas são mais lembradas e seguras na memória que os acontecimentos do quotidiano.
Isto só para dizer que em menino eu era imaginativo.

A imaginação nasce do pensar, ver e sentir atentamente.
É um exercício interior.
Eu quase não mentia. As verdades eram minhas e saíam do mais íntimo de mim.

Quando eu era menino inventava peripécias e brinquedos, adivinhava o invisível, imaginava esferas nunca vistas.
A Mãe, sempre atenta, dizia: és um malandro e enganador.
Eu amava a ironia. Esse modo crescente da lucidez.
Eu era malandro.
E a mão que assim escreve ainda não treme.
Ela sabe que o branco foi dado
às horas mais brancas de haver infância.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Joan Miró


15.6.18

A REALEZA DO POEMA




Era de poucas linhas
e de tinta à míngua

a realeza do poema.

A língua
era do vento ardendo.

J. Alberto de Oliveira


Imagem: Maria Côrte-Real

7.6.18

CHARLES CHAPLIN





Charles Chaplin retratou deste modo a personagem Charlot:

“É um vagabundo e ao mesmo tempo um cavalheiro, um poeta, um sonhador, um solitário, sempre ansioso por idílios e aventuras. Gostaria que o tomassem por um sábio, um músico, um duque ou um jogador de pólo. Mas não desdenha de apanhar uma beata do chão, nem de furtar o chupa-chupa a um bebé. E, é claro, não perde a ocasião de dar um pontapé no traseiro de uma senhora... mas só quando está fulo!”

Charles Chaplin - Autobiografia

1.6.18

NA CURVA DO MUNDO




A lua que se atrasa
na curva do mundo

faz perguntas
a quem não passa.

A lua é cega
na curva do mundo.

A lua desassossega
as horas no escuro.

J. Alberto de Oliveira

25.5.18

O AMOR É UMA COMPANHIA





O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Fernando Pessoa/Aberto Caeiro


IMAGEM:
Hereinspaziert! Der rote Teppich ist ausgeroll.
(Entrem! O tapete vermelho está lançado.)

Fernando Pessoa na passadeira vermelha do teatro Schauspielhaus (Zurique) - Suíça

20.5.18

O DESEJO DO VERBO





Ainda não sei o que á a poesia.
Mas, vou sabendo o que ela não é.
A poesia não é um assunto ou um tratado. Não se ensina.
A poesia lê-se. Ouve-se. Intui-se. Faz-se. Flui esteticamente.
A poesia é de pouquíssima gente.

Os poetas respiram, falam e ouvem com a imaginação.
Por meu lado, escrevo para chegar às clareiras interiores da fala.
O vidro, a vida e o vento deram-me inumeráveis 
e magnificentíssimas palavras.
E, se de repente, eu pudesse congregar 
todos os vocábulos que ouvi, todas as frases que li, 
todos os cantos e palavras que ritmaram o quotidiano?

Há palavras de silêncio e o silêncio deixado pelas palavras.
Afectos de palavras e palavras aproximativas. 
Palavras de desprezo, de ruptura e palavras de aprumo.
Palavras de conveniência, de angústia e dor, 
palavras de adeus e palavras de liberdade. 
Palavras de ordem e palavras de negação. 
Palavras bem construídas
e palavras deformadas ou viradas do avesso.

Através das palavras o desejo do verbo expande-se.

J. Alberto de Oliveira

Imagem:  A. Tapiès

10.5.18

DICIONÁRIO





Ao dicionário da alma e de suas lembranças eu fui buscar algumas palavras:
A – água, amora, ave, anjo, alicerce, aliança, areia, abrigo, amor, alegria, aprumo
B – beijo, barro, branco, belo, bondade, brandura
C – casa, cristal, coração, confiar, carícia, criança, cal
D – dádiva, delicadeza, dom, delícia, deus, desejo, degrau, doçura
E – escada, enleio, encontro, estrela
F – fruto, fonte, flor, fermento, fogo, frágil, firme, folha, falar
G – gota, graça, gume
H – herança, haver, horto, hora
I – infância, imo, inocência, justo
J – julho, joelho, justo, jardim, jogo,
L – luz, leite, limpidez, linho, leveza, lume, lâmpada
M – mar, mulher, melancolia, mel, murmúrio, música, maresia, madeira
N – noite, nudez, nupcial, nome, névoa, neve, nuvem
O – ouro, orvalho, ombro, onda,
P – pulso, púrpura, pão, pedra, porta, puro, pensamento, perfume, poema, pausa
Q – querer, quietude, quasi
R – romã, ressurreição, rosa, respirar, rosto, raiz
S – sangue, sede, silêncio, segredo, sonho, sentimento, seio, ser, setembro, sal
T – terra, transparência, tangível, triste, tábua, timbre, tocar
U – uva, umbral, escuro
V – vinho, verdade, vidro, vigília, vento, vórtice, ver
X – xuva de chuva, xamar de chamar
Z – zéfiro, zénite

J. Alberto de Oliveira

4.5.18

DAS MÃES





Há tempos comecei uma nova tarefa: reunir as palavras
ditas pelas mães agarradas à sonoridade exaltante dos filhos.

No meu caderno de papel almaço vou anotando figuras,
pequenas imagens, frases silvestres, metáforas altivas.

São textos que não publico nos jornais, não escrevo na madeira,
não sarrabisco nos muros do mundo, não soletro no escuro.

Transcrevo tudo o que a luz me dá a ver
no verbo das mães à mistura com as profundezas de ser.

J. Alberto de Oliveira


Desenho - Alberto Péssimo

3.5.18

A MÚSICA





A música é um poderoso argumento para pensar.
O seu rigor liga-se à mais intuitiva sensibilidade.
Talvez a geometria da matéria seja musical.

J. Alberto de Oliveira

24.4.18

UMA FURTIVA CHAVE CEGA





Se nos fecharem a porta
como saber abri-la?

Eu direi que só nos restam
os segredos e a ferrugem

de uma furtiva chave cega.

J. Alberto de Oliveira

14.4.18

AUTOPSICOGRAFIA - FERNANDO PESSOA





O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa


Imagem: Foto – A. Machado – Fernando Pessoa na entrada 
do teatro Schauspielhaus (Zurique) - Suíça







11.4.18

PALAVRA ERRANTE




Há um poema que precisa
de uma palavra

errante ou vagabunda.

Uma palavra que minta
e que nunca

ensine coisa alguma.

Aquela palavra que não 
seja roída pelas traças.

J. Alberto de Oliveira



5.4.18

SÃO FRANCISCO DE ASSIS






São Francisco de Assis
ao princípio adoecia

em febres e tristeza.

De tropeção em tropeção
pedia mais luz e alturas.

Finalmente
ouviu um verso livre

e apareceu todo nu.

J. Alberto de Oliveira

15.3.18

O ESSENCIAL DOS VERSOS





O tinteiro onde molho as penas de escrever está quase vazio.
É preciosa a tinta que ainda resta.
Devo poupar.
Escrever somente o essencial dos versos.

J. Alberto de Oliveira

8.3.18

BILHETE-POSTAL





Mãe,
onde quer que andes, onde quer que te sentes para as tuas preces,
num banco deste mundo ou de outro, permanece
atenta a Deus e àquela formiga que vias a arrastar para o celeiro
um grão de trigo maior que seu corpo inteiro.

J. Alberto de Oliveira

2.3.18

DA MÍSTICA GEOMETRIA





No poema há sempre
um outro poema.

Uma substância branca
da mística geometria.

É o primeiro verso
intuitivo de Deus

que a mão por temor
se recusa a escrever.

J. Alberto de Oliveira