15.6.18

A REALEZA DO POEMA




Era de poucas linhas
e de tinta à míngua

a realeza do poema.

A língua
era do vento ardendo.

J. Alberto de Oliveira


Imagem: Maria Côrte-Real

7.6.18

CHARLES CHAPLIN





Charles Chaplin retratou deste modo a personagem Charlot:

“É um vagabundo e ao mesmo tempo um cavalheiro, um poeta, um sonhador, um solitário, sempre ansioso por idílios e aventuras. Gostaria que o tomassem por um sábio, um músico, um duque ou um jogador de pólo. Mas não desdenha de apanhar uma beata do chão, nem de furtar o chupa-chupa a um bebé. E, é claro, não perde a ocasião de dar um pontapé no traseiro de uma senhora... mas só quando está fulo!”

Charles Chaplin - Autobiografia

1.6.18

NA CURVA DO MUNDO




A lua que se atrasa
na curva do mundo

faz perguntas
a quem não passa.

A lua é cega
na curva do mundo.

A lua desassossega
as horas no escuro.

J. Alberto de Oliveira

25.5.18

O AMOR É UMA COMPANHIA





O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Fernando Pessoa/Aberto Caeiro


IMAGEM:
Hereinspaziert! Der rote Teppich ist ausgeroll.
(Entrem! O tapete vermelho está lançado.)

Fernando Pessoa na passadeira vermelha do teatro Schauspielhaus (Zurique) - Suíça

20.5.18

O DESEJO DO VERBO





Ainda não sei o que á a poesia.
Mas, vou sabendo o que ela não é.
A poesia não é um assunto ou um tratado. Não se ensina.
A poesia lê-se. Ouve-se. Intui-se. Faz-se. Flui esteticamente.
A poesia é de pouquíssima gente.

Os poetas respiram, falam e ouvem com a imaginação.
Por meu lado, escrevo para chegar às clareiras interiores da fala.
O vidro, a vida e o vento deram-me inumeráveis 
e magnificentíssimas palavras.
E, se de repente, eu pudesse congregar 
todos os vocábulos que ouvi, todas as frases que li, 
todos os cantos e palavras que ritmaram o quotidiano?

Há palavras de silêncio e o silêncio deixado pelas palavras.
Afectos de palavras e palavras aproximativas. 
Palavras de desprezo, de ruptura e palavras de aprumo.
Palavras de conveniência, de angústia e dor, 
palavras de adeus e palavras de liberdade. 
Palavras de ordem e palavras de negação. 
Palavras bem construídas
e palavras deformadas ou viradas do avesso.

Através das palavras o desejo do verbo expande-se.

J. Alberto de Oliveira

Imagem:  A. Tapiès

10.5.18

DICIONÁRIO





Ao dicionário da alma e de suas lembranças eu fui buscar algumas palavras:
A – água, amora, ave, anjo, alicerce, aliança, areia, abrigo, amor, alegria, aprumo
B – beijo, barro, branco, belo, bondade, brandura
C – casa, cristal, coração, confiar, carícia, criança, cal
D – dádiva, delicadeza, dom, delícia, deus, desejo, degrau, doçura
E – escada, enleio, encontro, estrela
F – fruto, fonte, flor, fermento, fogo, frágil, firme, folha, falar
G – gota, graça, gume
H – herança, haver, horto, hora
I – infância, imo, inocência, justo
J – julho, joelho, justo, jardim, jogo,
L – luz, leite, limpidez, linho, leveza, lume, lâmpada
M – mar, mulher, melancolia, mel, murmúrio, música, maresia, madeira
N – noite, nudez, nupcial, nome, névoa, neve, nuvem
O – ouro, orvalho, ombro, onda,
P – pulso, púrpura, pão, pedra, porta, puro, pensamento, perfume, poema, pausa
Q – querer, quietude, quasi
R – romã, ressurreição, rosa, respirar, rosto, raiz
S – sangue, sede, silêncio, segredo, sonho, sentimento, seio, ser, setembro, sal
T – terra, transparência, tangível, triste, tábua, timbre, tocar
U – uva, umbral, escuro
V – vinho, verdade, vidro, vigília, vento, vórtice, ver
X – xuva de chuva, xamar de chamar
Z – zéfiro, zénite

J. Alberto de Oliveira

4.5.18

DAS MÃES





Há tempos comecei uma nova tarefa: reunir as palavras
ditas pelas mães agarradas à sonoridade exaltante dos filhos.

No meu caderno de papel almaço vou anotando figuras,
pequenas imagens, frases silvestres, metáforas altivas.

São textos que não publico nos jornais, não escrevo na madeira,
não sarrabisco nos muros do mundo, não soletro no escuro.

Transcrevo tudo o que a luz me dá a ver
no verbo das mães à mistura com as profundezas de ser.

J. Alberto de Oliveira


Desenho - Alberto Péssimo

3.5.18

A MÚSICA





A música é um poderoso argumento para pensar.
O seu rigor liga-se à mais intuitiva sensibilidade.
Talvez a geometria da matéria seja musical.

J. Alberto de Oliveira

24.4.18

UMA FURTIVA CHAVE CEGA





Se nos fecharem a porta
como saber abri-la?

Eu direi que só nos restam
os segredos e a ferrugem

de uma furtiva chave cega.

J. Alberto de Oliveira

14.4.18

AUTOPSICOGRAFIA - FERNANDO PESSOA





O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa


Imagem: Foto – A. Machado – Fernando Pessoa na entrada 
do teatro Schauspielhaus (Zurique) - Suíça







11.4.18

PALAVRA ERRANTE




Há um poema que precisa
de uma palavra

errante ou vagabunda.

Uma palavra que minta
e que nunca

ensine coisa alguma.

Aquela palavra que não 
seja roída pelas traças.

J. Alberto de Oliveira



5.4.18

SÃO FRANCISCO DE ASSIS






São Francisco de Assis
ao princípio adoecia

em febres e tristeza.

De tropeção em tropeção
pedia mais luz e alturas.

Finalmente
ouviu um verso livre

e apareceu todo nu.

J. Alberto de Oliveira

15.3.18

O ESSENCIAL DOS VERSOS





O tinteiro onde molho as penas de escrever está quase vazio.
É preciosa a tinta que ainda resta.
Devo poupar.
Escrever somente o essencial dos versos.

J. Alberto de Oliveira

8.3.18

BILHETE-POSTAL





Mãe,
onde quer que andes, onde quer que te sentes para as tuas preces,
num banco deste mundo ou de outro, permanece
atenta a Deus e àquela formiga que vias a arrastar para o celeiro
um grão de trigo maior que seu corpo inteiro.

J. Alberto de Oliveira

2.3.18

DA MÍSTICA GEOMETRIA





No poema há sempre
um outro poema.

Uma substância branca
da mística geometria.

É o primeiro verso
intuitivo de Deus

que a mão por temor
se recusa a escrever.

J. Alberto de Oliveira

24.2.18

DO CÂNTICO DOS CÂNTICOS





Atraída pelo vórtice
do cântico maior

um dia
vieste dizer

ama e canta
as minhas lembranças.

Faz de mim um sopro
de notícia viva

no calor da boca.

J. Alberto de Oliveira

14.2.18

UM SIMPLES SARRABISCO





O amor
talvez seja no todo imenso

um puro esboço.

Um risco incerto
absorto

e quase impreciso.

Antes de ser casa ou palavra
o amor talvez seja

um simples sarrabisco.

J. Alberto de Oliveira

11.2.18

NASCER COM VERTIGENS





Quase todos nascemos com vertigens de qualquer coisa.
Vertigens do sossego ou do desassossego;
da música ou do ruído.
Vertigens da política ou da guerra;
do divino ou do dinheiro.
Vertigens do silêncio ou do poema;
do eterno ou da finitude.
Vertigens de orgias ou da ascese.
Quase todos nascemos com influências
de anjos ou demónios.
Porém, muito simples e naturalmente há quem nasça
com vertigens de nada.

J. Alberto de Oliveira

3.2.18

A NOITE NO MAR




A noite que me adormece
deita-se no mar.

E sonha.

Sonha devagar
até vir o dia de róseos dedos.

A noite no mar
é sete vezes mais pequena

que sete pinhas acesas. 

J. Alberto de Oliveira