10.5.18

DICIONÁRIO





Ao dicionário da alma e de suas lembranças eu fui buscar algumas palavras:
A – água, amora, ave, anjo, alicerce, aliança, areia, abrigo, amor, alegria, aprumo
B – beijo, barro, branco, belo, bondade, brandura
C – casa, cristal, coração, confiar, carícia, criança, cal
D – dádiva, delicadeza, dom, delícia, deus, desejo, degrau, doçura
E – escada, enleio, encontro, estrela
F – fruto, fonte, flor, fermento, fogo, frágil, firme, folha, falar
G – gota, graça, gume
H – herança, haver, horto, hora
I – infância, imo, inocência, justo
J – julho, joelho, justo, jardim, jogo,
L – luz, leite, limpidez, linho, leveza, lume, lâmpada
M – mar, mulher, melancolia, mel, murmúrio, música, maresia, madeira
N – noite, nudez, nupcial, nome, névoa, neve, nuvem
O – ouro, orvalho, ombro, onda,
P – pulso, púrpura, pão, pedra, porta, puro, pensamento, perfume, poema, pausa
Q – querer, quietude, quasi
R – romã, ressurreição, rosa, respirar, rosto, raiz
S – sangue, sede, silêncio, segredo, sonho, sentimento, seio, ser, setembro, sal
T – terra, transparência, tangível, triste, tábua, timbre, tocar
U – uva, umbral, escuro
V – vinho, verdade, vidro, vigília, vento, vórtice, ver
X – xuva de chuva, xamar de chamar
Z – zéfiro, zénite

J. Alberto de Oliveira

4.5.18

DAS MÃES





Há tempos comecei uma nova tarefa: reunir as palavras
ditas pelas mães agarradas à sonoridade exaltante dos filhos.

No meu caderno de papel almaço vou anotando figuras,
pequenas imagens, frases silvestres, metáforas altivas.

São textos que não publico nos jornais, não escrevo na madeira,
não sarrabisco nos muros do mundo, não soletro no escuro.

Transcrevo tudo o que a luz me dá a ver
no verbo das mães à mistura com as profundezas de ser.

J. Alberto de Oliveira


Desenho - Alberto Péssimo

3.5.18

A MÚSICA





A música é um poderoso argumento para pensar.
O seu rigor liga-se à mais intuitiva sensibilidade.
Talvez a geometria da matéria seja musical.

J. Alberto de Oliveira

24.4.18

UMA FURTIVA CHAVE CEGA





Se nos fecharem a porta
como saber abri-la?

Eu direi que só nos restam
os segredos e a ferrugem

de uma furtiva chave cega.

J. Alberto de Oliveira

14.4.18

AUTOPSICOGRAFIA - FERNANDO PESSOA





O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa


Imagem: Foto – A. Machado – Fernando Pessoa na entrada 
do teatro Schauspielhaus (Zurique) - Suíça







11.4.18

PALAVRA ERRANTE




Há um poema que precisa
de uma palavra

errante ou vagabunda.

Uma palavra que minta
e que nunca

ensine coisa alguma.

Aquela palavra que não 
seja roída pelas traças.

J. Alberto de Oliveira



5.4.18

SÃO FRANCISCO DE ASSIS






São Francisco de Assis
ao princípio adoecia

em febres e tristeza.

De tropeção em tropeção
pedia mais luz e alturas.

Finalmente
ouviu um verso livre

e apareceu todo nu.

J. Alberto de Oliveira

15.3.18

O ESSENCIAL DOS VERSOS





O tinteiro onde molho as penas de escrever está quase vazio.
É preciosa a tinta que ainda resta.
Devo poupar.
Escrever somente o essencial dos versos.

J. Alberto de Oliveira

8.3.18

BILHETE-POSTAL





Mãe,
onde quer que andes, onde quer que te sentes para as tuas preces,
num banco deste mundo ou de outro, permanece
atenta a Deus e àquela formiga que vias a arrastar para o celeiro
um grão de trigo maior que seu corpo inteiro.

J. Alberto de Oliveira

2.3.18

DA MÍSTICA GEOMETRIA





No poema há sempre
um outro poema.

Uma substância branca
da mística geometria.

É o primeiro verso
intuitivo de Deus

que a mão por temor
se recusa a escrever.

J. Alberto de Oliveira

24.2.18

DO CÂNTICO DOS CÂNTICOS





Atraída pelo vórtice
do cântico maior

um dia
vieste dizer

ama e canta
as minhas lembranças.

Faz de mim um sopro
de notícia viva

no calor da boca.

J. Alberto de Oliveira

14.2.18

UM SIMPLES SARRABISCO





O amor
talvez seja no todo imenso

um puro esboço.

Um risco incerto
absorto

e quase impreciso.

Antes de ser casa ou palavra
o amor talvez seja

um simples sarrabisco.

J. Alberto de Oliveira

11.2.18

NASCER COM VERTIGENS





Quase todos nascemos com vertigens de qualquer coisa.
Vertigens do sossego ou do desassossego;
da música ou do ruído.
Vertigens da política ou da guerra;
do divino ou do dinheiro.
Vertigens do silêncio ou do poema;
do eterno ou da finitude.
Vertigens de orgias ou da ascese.
Quase todos nascemos com influências
de anjos ou demónios.
Porém, muito simples e naturalmente há quem nasça
com vertigens de nada.

J. Alberto de Oliveira

3.2.18

A NOITE NO MAR




A noite que me adormece
deita-se no mar.

E sonha.

Sonha devagar
até vir o dia de róseos dedos.

A noite no mar
é sete vezes mais pequena

que sete pinhas acesas. 

J. Alberto de Oliveira

25.1.18

O PENSAMENTO DE VER O LUME




Eu, mais pequeno que tudo e maior que eu próprio, 
comecei a travessia
com os olhos postos num ponto que me levou para fora de mim.
Por sorte, ouvi as palavras que a mãe, o pai, a vizinha
e a parteira diziam da vida.
Mas, esqueci tudo, adiando a aprendizagem.
Eu ouvia os sons de ser um esboço de pauta verbal
que os pinhais, as aves e o vento iam compondo para o futuro.
Afinal, o meu interior é anterior a mim.
Quando nasci, eu só queria o pensamento de ver o lume.

J. Alberto de Oliveira

15.1.18

UMA CANTIGA




Uma cantiga inteligente
se ouvia ao adormecer.

Era uma cantiga
que d’amor tan ben dizia.

Que de meus segredos
e do linho tanto sabia. 

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Antoni Tapiès

28.12.17

O MEU LUGAR




A minha vida herdou a verde colina, as leiras, os sulcos de água corredia
e todos os declives.
Aqui transbordou a sina da minha natureza.

Foi Vermodium o meu lugar de fantasias e crescimento.
Aqui o sol do dia era bondoso e a lua da noite subia reluzida.
Era um espaço bom para as minhas lembranças e sortes de infância.

J. Alberto de Oliveira

23.12.17

FULGURÂNCIAS



O fervor da mão acende o pavio
como se acendesse a noite escura.

O poeta escreve
como se escrevesse para longe.

Uma criança absorta fala
como se falasse o idioma da chuva.

E os anjos voam
como se voassem para sítio nenhum.

J. Aberto de Oliveira

19.12.17

MÁRIO CESARINY - Em todas as ruas te encontro




Em todas as ruas te encontro
In tutte le strade ti incontro
em todas as ruas te perco 
in tutte le strade ti perdo

conheço tão bem o teu corpo
conosco così bene il tuo corpo
sonhei tanto a tua figura
ho sognato tanto la tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
che è con gli occhi chiusi che io cammino
a limitar a tua altura
delimitando la tua alteza
e bebo a água e sorvo o ar
e bevo l'acqua e succhio l'aria
que te atravessou a cintura
che ti ha attraversato la cintura
tanto tão perto tão real
così vicino così reale
que o meu corpo se transfigura
che il mio corpo si trasfigura
e toca o seu próprio elemento 
e tocca il suo proprio elemento
num corpo que já não é seu 
in un corpo che già non è suo
num rio que desapareceu
in un fiume scomparso 
onde um braço teu me procura
dove un tuo braccio mi cerca 

Em todas as ruas te encontro
In tutte le strade ti incontro
em todas as ruas te perco 
in tutte le strade ti perdo


Mário Cesariny, in "Pena Capital"


Tradução italiana: Maria Bochichio

16.12.17

UMA VOZ DE LEMBRANÇAS




Quando os sustos
do mundo se calam

o espírito e a língua
são mais que musicais.

Tornam-se profundas
na fala todas as linhas.

Uma voz de lembranças
paira dentro de mim.

J. Alberto de Oliveira