8.2.17

O CÂNTICO DAS CRIATURAS




S. Francisco de Assis no fim de seus dias
soletrou versos cantantes.
Resumiu em poucas e simples palavras a boa nova da criação.
Ditou de cor ao mundo o Cântico das Criaturas.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Alberto Péssimo

1.2.17

TODO VIRADO PELO AVESSO




Um dia quero ainda ver-me
do mesmo modo que Deus me vê

todo virado pelo avesso.

J. Alberto de Oliveira

21.1.17

A MULHER E A POMBA




Domingo de inverno coberto de sol vivo.
Uma pomba, no meio da rua, 
debica nacos de pão, desfazendo-os em migalhas.
Aproxima-se um automóvel de alta cilindrada 
conduzido por uma mulher.                                     

A condutora, vendo a ave, acelera.
Não fora a pomba uma criatura avisada, pacífica e lesta,
e morreria ali no asfalto, entre as migalhas do seu sustento.
Eu estremeci por dentro de mim próprio,
dizendo "putain de monde", que é o da mulher e de seu automóvel.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Cartaz concebido por Pablo Picasso (1881–1973) para o Primeiro Congresso Mundial dos Partidários da Paz

13.1.17

O TIC-TAC RECITATIVO




Há muitos e muitos anos, veio ao mundo um menino, cujo pai ao vê-lo nascer, correu à relojoaria mais próxima e comprou um despertador para que a mãe desse de mamar ao seu primeiro bebé a horas certas da noite.
Trouxe um Petrax.
Ainda se fabrica esta marca de despertadores suíços?

O menino cresceu, aprendendo palavras e suas letras,
Um dia escreveu uma redacção, pensando no Petrax, que lá está em casa, numa estante de livros, repetindo ao longo de muitos e muitos minutos o seu tic-tac recitativo.


Quando nasci, o Petrax tornou-se o autor de futuras horas e minutos.
Ainda hoje o seu tic-tac é firme e robusto.
À força de afectos e palavras, merece a bonita soma de uma idade altiva.
Enquanto a ciência da mecânica lhe conferia
o pulsar inocente, vivo, paciente e ritmado, o seu mostrador envelhecia.
Colaram-se a ele massas de luz e sombras.
Inumeráveis cenas poéticas, adjacentes ao tempo medido,
transmitiram-lhe o tom sépia das coisas santificadas.
Fora e dentro do sono, o Petrax é uma preciosa
acumulação de segredos e memórias.
Fora e dentro do silêncio, ressoam lembranças
consonantes com o tic-tac recitativo do Petrax doado à minha infância.


J. Alberto de Oliveira

11.1.17

UM NÓ-SER




Enquanto não chega a hora
do clarão

a vida é deveras perigosa.

As mais das vezes viver
é um difícil e duro nó-ser.

J. Alberto de Oliveira

2.1.17

A POESIA E A MÚSICA



Eu sei que o mundo é turvo. E o precário define-se pela condição de existir.
Mas também eu sei que a poesia e a música não se compram nem “se pedem como esmola”, diria J. S. Bach.
A  música e os poemas fluem para ser dados à inteligência mais intuitiva.

É verdade que o mundo me desvia de tudo o que seria delicadissimamente claro, divino, exacto e musical.

Não obstante, ainda sobra o sol que, depois de uma frente fria de chuva, transforma a paisagem num corpo de vibrações, de azul e claridade.

J. Alberto de OLiveira

22.12.16

A GRUTA




A gruta profunda
serviu de abrigo ao poeta.

Um lugar ascético.

A gruta fora do mundo
verídica e primordial.

No recanto do escuro
o tema perdura

quase e talvez imaterial.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Gruta do Convento Franciscano de S.Bernardino de Sena – Câmara de Lobos - Madeira



17.12.16

UMA PEQUENINA LUZ BRUXULEANTE - Jorge de Sena



Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.

Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.

Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge de Sena

Fotografia: Carlos de Oliveira

10.12.16

AQUELA NUVEM




Às vezes peço ao azul do mundo
a nuvem mais alta e branca.

A nuvem das coisas
que eu nem sonho.

Das evidências musicais
pensamento e assombros.

A nuvem de tantas lembranças
devaneios e dúvidas.

Aquela nuvem de anjos
versos e musas.

J. Alberto de Oliveira

3.12.16

UM LENÇO DE POEIRA E SOL




Um dia houve um lenço de poeira e sol
que entrou pela janela mais pequena.

Era uma janela virada ao poente.

O lenço veio em contra-mão
e meteu-se pela inocência adentro

à deriva sem pés nem razão.

J. Alberto de Oliveira

22.11.16

UMA PEÇA DA VIDA




Nunca eu sei onde o coração dorme quando a noite se fecha, deslizando para dentro de si mesma.
Talvez ele durma, virado para o lado esquerdo, num palheiro da aldeia mais distante.

Avesso a ruídos e palavras fraudulentas, o coração apura a sua energia entre o silêncio branco e um rumor vermelho.
Sonha com cenas e profecias bíblicas.
É uma peça da vida ou, por assim dizer, o mais belo instrumento de cadências espirituais.

O coração lembra um animal de respiração atenta.

J. Alberto de Oliveira

10.11.16

OS MEUS LUGARES NO MUNDO




Os meus lugares no mundo são muito estranhos. De sítio em sítio porto-me como um nómada.
E de mais a mais, o imaginário leva-me para toda a parte, sem propósito nem documentos. Às vezes, lembro-me que estes papéis já perderam a validade ou que são falsos.

Que devo fazer?
Nada.

Os efeitos e as sombras do fogo enleiam-me na pele das águas.
Eu persisto nas inspirações furtivas, suspeitas, irreais, incertas.
Recebo-as como invencíveis. Devo-lhes muito.
São poéticas.

J. Alberto de Oliveira

30.10.16

A POEIRA INFLAMÁVEL




A poeira inflamável
das folhas do outono

induz-me a ficar
mais rente à vida.

O sopro em fogo
do ar em declive

ajusta-se ao júbilo
das folhas do outono.

O amor na língua
vegetal do vento

pede que me cubram
versos e pinhas a arder.

J. Alberto de Oliveira

18.10.16

OS ÚLTIMOS DEGRAUS




Sobe os últimos degraus
e abre a porta.

Acende o ângulo
mais firme da casa

Recorta as lembranças
que deves ao sol.

Suspende o pensamento
nos limites da infância.

Celebra o silêncio
com as núpcias da nudez.

E nunca digas nada.
Não fales das tuas moradas.

J. Alberto de Oliveira

9.10.16

EXERCÍCIO




Ficar em frente do mar às dezanove horas de um dia de Outubro não se explica.

Como tão pouco se entende o rochedo solitário e perdido no meio das águas, semelhante às figuras que me seduzem ou metem medo.

O exercício no horizonte do imaginário exige muito papel e tinta suficiente.

Para escrever, só me falta saber como se ressuscita, porque a morte é certa e certeira a qualquer momento.

Não sou activo. Se fosse, teria ido para ladrão ou polícia.
Eu sou contemplativo.

J. Alberto de Oliveira

1.10.16

EUCANÃA FERRAZ - A POESIA




[…] A poesia é um artigo de pouca circulação. (…) Ela é um bem de produção, digamos, artesanal. Embora circule em meios industrializados, como livros e jornais, e agora nos ambientes electrónicos.

[…] Todo o poema é um voto de pobreza. E isto nem tem a ver com algum tipo de elevação espiritual ou salvação da alma.

A capacidade de dizer muito com pouco.

A aspiração do poema é exactamente impor-se na sociedade do consumo e do luxo como um objecto essencial.

Gosto da poesia que tem a capacidade de tocar no essencial, no sentido em que nada sobra, em que há uma alta concentração. E eu gosto que essa concentração seja capaz de tocar emotivamente o leitor. Então, talvez a segunda qualidade seja  a sua capacidade de emocionar. Le Corbusier tem aquela célebre máxima que diz que a casa é uma máquina de emocionar, machine à emouvoir.

No poema Martelo eu digo:
o poema é ver
com lanternas
que cor é a cor
do escuro. 
Daí, procuro situar-me numa fronteira, sempre a martelar, martelar, a alegria, o amor, a tristeza, a raiva, o susto.

Eucanãa Ferraz (poeta brasileiro) – fragmentos de entrevistas

26.9.16

AUTO-RETRATO EM EXERCÍCIO




Olhos sedentos e pensativos.
Rosto sedentário e corrompido

por ventos marítimos.

J. Alberto de Oliveira

15.9.16

O SILÊNCIO E A POEIRA



O silêncio e a poeira
assentam nos devaneios

de anjos amantes
de vento e fogo posto.

Há um rumor de cores
que ninguém ouve.

Um ror de segredos
no horizonte

refaz as telas de Deus.

J. Alberto de Oiveira

7.9.16

DE LINHO E SETEMBRO




Do vir ao ir do vento e do sol
a substância de mim mesmo

se transmita em caligrafia
e memória.

Um lenço de linho e setembro
foi berço do meu nascer.

J. Alberto de Oliveira

29.8.16

IR EM CONTRA-VIDA




A escrita, em seu labor, começa a evidenciar
o perfil geral de mim.

Já estou a ir em contra-vida.

Zé, um raio de amor te parta!

J. Alberto de Oliveira