9.10.16

EXERCÍCIO




Ficar em frente do mar às dezanove horas de um dia de Outubro não se explica.

Como tão pouco se entende o rochedo solitário e perdido no meio das águas, semelhante às figuras que me seduzem ou metem medo.

O exercício no horizonte do imaginário exige muito papel e tinta suficiente.

Para escrever, só me falta saber como se ressuscita, porque a morte é certa e certeira a qualquer momento.

Não sou activo. Se fosse, teria ido para ladrão ou polícia.
Eu sou contemplativo.

J. Alberto de Oliveira

1.10.16

EUCANÃA FERRAZ - A POESIA




[…] A poesia é um artigo de pouca circulação. (…) Ela é um bem de produção, digamos, artesanal. Embora circule em meios industrializados, como livros e jornais, e agora nos ambientes electrónicos.

[…] Todo o poema é um voto de pobreza. E isto nem tem a ver com algum tipo de elevação espiritual ou salvação da alma.

A capacidade de dizer muito com pouco.

A aspiração do poema é exactamente impor-se na sociedade do consumo e do luxo como um objecto essencial.

Gosto da poesia que tem a capacidade de tocar no essencial, no sentido em que nada sobra, em que há uma alta concentração. E eu gosto que essa concentração seja capaz de tocar emotivamente o leitor. Então, talvez a segunda qualidade seja  a sua capacidade de emocionar. Le Corbusier tem aquela célebre máxima que diz que a casa é uma máquina de emocionar, machine à emouvoir.

No poema Martelo eu digo:
o poema é ver
com lanternas
que cor é a cor
do escuro. 
Daí, procuro situar-me numa fronteira, sempre a martelar, martelar, a alegria, o amor, a tristeza, a raiva, o susto.

Eucanãa Ferraz (poeta brasileiro) – fragmentos de entrevistas

26.9.16

AUTO-RETRATO EM EXERCÍCIO




Olhos sedentos e pensativos.
Rosto sedentário e corrompido

por ventos marítimos.

J. Alberto de Oliveira

15.9.16

O SILÊNCIO E A POEIRA



O silêncio e a poeira
assentam nos devaneios

de anjos amantes
de vento e fogo posto.

Há um rumor de cores
que ninguém ouve.

Um ror de segredos
no horizonte

refaz as telas de Deus.

J. Alberto de Oiveira

7.9.16

DE LINHO E SETEMBRO




Do vir ao ir do vento e do sol
a substância de mim mesmo

se transmita em caligrafia
e memória.

Um lenço de linho e setembro
foi berço do meu nascer.

J. Alberto de Oliveira

29.8.16

IR EM CONTRA-VIDA




A escrita, em seu labor, começa a evidenciar
o perfil geral de mim.

Já estou a ir em contra-vida.

Zé, um raio de amor te parta!

J. Alberto de Oliveira

24.8.16

13.8.16

RECORTES DE PENSAR




Quando eu for embora
comigo levarei só

de meus versos
recortes de pensar.

Coisas que não pesam
nem ocupam lugar.

As coroas da alma 

sem o selo do prémio
e sem palmas

ninguém as quer.

J. Alberto de Oliveira

8.8.16

OS SONS DA NATUREZA




Uma vez, os sons da natureza disseram a Deus:
– Nós damos-te o azul do silêncio. Dá-nos Bach.

E Johann Sebastian Bach à Música foi dado.

J. Alberto de Oliveira

29.7.16

SINAIS FURTIVOS



Quando me faltam os versos
penso em vozes amadas.

Ponho-me a contar insectos
e muitos sinais furtivos
que há nas folhas das árvores.

Também conto as pedras
que me luzem no caminho.

J. Alberto de Oliveira

19.7.16

RETRATO





O Pai ou, por assim dizer,
                       
o aprumo da bondade, a elegância do silêncio,        
a realeza do olhar, o afecto intuitivo,
o vigor de ser, a postura digna, 
o acume da inteligência, o verbo justo e claro.
           
Também tu, oh Pai, és o meu anjo da guarda!

J. Alberto de Oliveira

12.7.16

A COTOVIA




Ao anoitecer de um dia de lembranças 
dei com uma cotovia presa
num emaranhado de silvas com amoras maduras 
em declive sobre o abismo.

Eu nada podia fazer.
Mas por sorte o ar 
num movimento súbito a desatou.

E a cotovia bateu as asas 
para ir livremente dormir não sei onde.

J. Alberto de Oliveira


2.7.16

VIOLONCELO DE GUILHERMINA SUGGIA




De névoa e púrpura salinas
luzem os temas de Guilhermina.

De espuma e linhos musicais
se avolumam seus dias de Matosinhos.

De névoa e púrpura salinas
são os primeiros sons

no violoncelo de Guilhermina Suggia.

J. Alberto de Oliveira

                       Desenho: Amadeo de Souza Cardoso - Guilhermina ao violoncelo e sua irmã Virgínia ao piano

19.6.16

O PONTO DE IMAGINAÇÃO




Se na escrita usamos diversos sinais de pontuação –
o ponto final, a vírgula, o ponto e virgula, o ponto de interrogação, os dois pontos, o travessão, as reticências, as aspas, o ponto de exclamação e o parêntesis –
por que é que não há o ponto de imaginação?

Nos textos de Maria Gabriela Llansol aparece muitas vezes o traço contínuo.
Sinal propício à imaginação? Possivelmente que sim.

J. Alberto de Oliveira
Imagem: página do livro O JOGO DA LIBERDADE DA ALMA - Maria Gabriela Llansol

12.6.16

POR QUE É QUE?




Por que é que a inteligência luz melhor nas entrelinhas?
Por que é que não somos adultos da criança que fomos?
Por que é que o canto das aves não é dissonante?
Por que é que as tuas palavras são parecidas contigo?

Por que é que o amor se decide entre sim e não?
Por que é que há gente a morder o seu próprio veneno?
Por que é que os enigmas têm pontos de interrogação?

J. Alberto de Oliveira

4.6.16

CUIDAR DOS SONHOS




Um toque rente ao sono
e de pronto eu acordo

para cuidar dos sonhos.

Ponho-me logo a saber
como se usa a beleza

aprimorada e selada
pelo mais profundo.

Ponho-me logo a cingir
a respiração intuitiva

do puro linho verbal.

J. Alberto de Oliveira

23.5.16

SEM EIRA NEM BEIRA




Os beijos intuitivos do bem-querer
acendiam-me anseios de ver.

Apuravam o interior dos versos que nunca ditei.

Ainda hoje lembram as veredas
por onde sempre andei

como se fosse um andarilho sem eira nem beira.

J. Alberto de Oliveira

14.5.16

ÀS HORAS DE CHAMAR




Às horas benignas do pão
e de intuir a bênção

ouvia-se o interior do tempo.

Às horas em que se chamava
pelo nome de nascimento

eu entrava em casa.

Entrava pela porta do sossego
e dizia-se tudo em segredos.

J. Alberto de Oliveira

UM PONTO NA HERANÇA




Há um ponto na herança
que pronto me toca e me conta os passos como esmola.

J. Alberto de Oliveira

5.5.16

PARA QUE NÃO SERVE A POESIA?




PARA QUE NÃO SERVE A POESIA?
                                                                        Uma questão de M. B.
         
         A poesia não serve para quem não precisa de poesia.
         Ela é tão preciosa que não serve para uso comum. Não é descartável. Não é matéria de desperdício.
         Presumo até que a poesia não serve para nada, porque não gosta de ser usada.
         A poesia flui à margem das imposturas da língua. Dá-se mal com as mentes orçamentais.
        
         Mas talvez a boa resposta se ilustre com o diálogo entre o poeta e um académico de economia que não entendia o sentido da fala humana e, por isso mesmo, insistia na pergunta:
         – A que te referes: aos porcos ou às pérolas?
         – Aludo à sabedoria do aviso: não demos pérolas a porcos!         
         – Os porcos são animais que têm fome. Eles devoram tudo.
         – As pérolas são indigestas e muito belas! – disse o poeta.
         – Mas os porcos gostam ou não gostam de pérolas?
         – Calcam-nas aos pés com voluptuoso desdém.

         E não entendia ou não queria abrir-se à inteligência da sensibilidade.

         Mas eu, o poeta, mais tarde ou mais cedo, ainda hei-de trocar  toda a metafísica do mar por sete versos de pérolas.

J. Alberto de Oliveira
20/04/2016