27.5.15

A REGRA





Por uma exígua soma de ouro e poder
gritou em voz alta e aguda:
Sai daqui. Esta terra não é tua.

E fiz do exílio a regra:

Não se deve pedir licença ou um beijo
à pequenez da incivilidade

e muito menos à mediocridade cega.

J. Alberto de Oliveira

11.5.15

CORRENTE DE FOGO




Obrigado, C.
Que bem me fez o texto!
Ajudou-me a pensar, a entender as inúmeras irritações que entristecem
quando estou diante de uma obra de arte excelente: paisagem, música, texto, pintura, rosto, arquitectura.
Eu estremeço de ira quando me perco no clarão da obra
e há gente por perto,
à minha volta, com posturas de impostura e maneiras
de imparáveis passageiros.
Essa gente tira-me de mim.
Eles não sabem o que é o silêncio, a quietude, a interioridade.
Eles não sabem como se estabelece, entre a delicadeza da alma
e o interior do fulgor,
uma furtiva corrente de fogo.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Duane Michals  Ludmilla Tchérina, 


1.5.15

O MÊS MAIO DA MÃE





Dentro de mim sonha o sol
com linhas da infância.

É o mês maio da Mãe
a lembrar um livro.

Um livro com letras e rosas.

Dentro de mim as lembranças
vivem pensativas e primorosas.

J. Alberto de Oliveira

27.4.15

POR ESTES DIAS



Por estes dias últimos do mês abril, 
parei à porta da minha primeira escola.
Semelhante a qualquer errante, estanquei ali uns minutos a falar
com algumas das minhas lembranças.
Em abono da verdade que me alumia, depressa desci ao roseiral
mais próximo e roubei três rosas,
isto é, as três razões de uma vocação inteira.
Com três rosas, eu sabia que haveria de selar
o vetusto e firme degrau da porta da minha primeira escola.

J. Alberto de Oliveira

22.4.15

AS LINHAS DE ESCRITA




– São tão breves as tuas linhas de escrita! Porquê?
– São do tamanho breve dos meus dias. Dignas de ser, cabem-me na palma da mão, no ângulo mais firme da casa ou nos interstícios das nuvens que passam a caminho de não sei onde.

J. Alberto de Oliveira

14.4.15

O HERBERTO HELDER



Ontem, o Herberto Herder
fechou-se "inteiro no poema".

É injusta a morte dos deuses.
Não queremos que eles morram.
Esperamos que fiquem sempre connosco
a respirar o mesmo ar
da nossa condição precária.

J. Alberto de Oliveira
24/03/2015

4.4.15

MANOEL DE OLIVEIRA



Não gosto de ir a funerais.
Fui ao funeral do Manoel de Oliveira
para louvor e por gratidão.
Ao seu nome foram concedidos 106 anos
de sal e dons transmudados em eternidade.
Demais a mais
a hora e o dia eram consonantes
com a substância divina
e com a matéria de suas imagens futuras

se Deus e os anjos
a par e passo estiverem pelos ajustes.

J. Alberto de Oliveira
Foto: Alfredo Cunha

RESSURREIÇÃO



O que aprendi com Teresa? Que a ressurreição não é um acto de potência divina, mas a suprema manifestação de amor. Dar a vida não chega, não é um acorde consonante com a substância. Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito.
[…]
– Sim – diz-me ela, pousando as mãos nos meus joelhos: – Desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e que seja um homem.
– Alguém que queira ressuscitar para ti?
– Sim. Alguém que tenha para comigo essa memória.


Maria Gabriela Llansol – O Jogo da Liberdade da Alma

24.3.15

VERSOS PARA AMÁLIA



Se o silêncio me calar
onde queres que eu escreva

uma citação do teu fado?

E se o destino me perder
onde queres Amália

que eu deixe um recorte
de teus versos rimados

teus versos de fala cantada
que te couberam em sorte?

J. Alberto de Oliveira

11.3.15

NOMES SELADOS





Os nomes selados em testamento
são a voz de meu pai e da mãe

que se elevam à altura
da eternidade que os acompanha.

Já não há morte nem pronomes.

Apenas o arco e o silêncio do azul
a dar-se à cor mais pura da alma.

J. Alberto de Oliveira

6.3.15

O SONHADOR




O meu nome é José, sonhador como o outro, o do Génesis.
Eu sei que me olham de soslaio todos aqueles que se contentam com as fronteiras do realismo do ter e do poder.
Quando me sento no tapete da sensibilidade e da contemplação, eu sei que me atiram para as margens.
Eu sei que desconfiam dos sonhos e da inteligência visionária.

J. Alberto de Oliveira


26.2.15

NO VIDRO DA JANELA




A palavra que me escreveste
no vidro da janela

diluiu-se em transparência.

Não te esqueças
oh musa

de voltar a escrevê-la.

J. Alberto de Oliveira

14.2.15

DA ALMA DE CHOPIN



Quando abriste oh Lys
o dicionário na palavra batimento
eu não sabia o que vinhas inspirar.

Como não disseste nada
eu pensei em batimentos da alma
batimentos do coração e outros.

Eu não sei mas hei-de saber
se umas tantas notas musicais
também são batimentos ou

tão só movimento de partículas
da alma de Chopin
no coração abrasivo do cristal.

J. Alberto de Oliveira 

Imagem: F. Chopin - George Sand - por E. Delacroix

25.1.15

NA MINHA MÃO ESQUERDA



Na minha mão esquerda
há um sopro em chamas.

Na minha mão esquerda 
uma pedra em rodopio
                         
outras pedras chama.

Com a mão esquerda
aprendo a partir a noite

nos vidros da tua casa
de altas janelas ao luar.

J. Alberto de Oliveira

3.1.15

POÉTICA DE INVERNO





Oh musa bela
no chão da neve!

Sete chamas te peço
para um só verso.

 J. Alberto de Oliveira


27.12.14

OS DEGRAUS DA ESCADA



E o anjo de Dional
veio à boca do poema dizer 
                              
todos os degraus da escada
servem para descer com o vento

e subir ao céu mais alto do ar.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Marc Chagall

19.12.14

ROSA POEMÁTICA




No modo crescente
de ver o ar alumiado

flutua a beleza
alusiva ao júbilo.

É rosa poemática
o aprumo da luz.

J. Alberto de Oliveira

30.11.14

A INOCÊNCIA DA LÍNGUA




Não faço palavras cruzadas.
No dicionário da alma 
procuro somente o que é dito a lume e ao ouvido.
Eu pratico a inocência da língua.

J. Alberto de Oliveira 

17.11.14

O TEMPO DE NÃO HAVER TEMPO




É longo e precioso o tempo que levo 
a recolher as letras necessárias
para escrever o nome das coisas que faltam no poema.

É irrecusável o tempo de não haver tempo.

J. Alberto de Oliveira

14.11.14

O NÓ CEGO




“Eu sou o nó cego do meu próprio nome”, disse o poeta.
E, naquele dia, não escreveu mais nenhum verso ou argumento da melancolia.
Saiu de casa. Desceu ao jardim.
Sentou-se ao pé da sua pedra e ficou a ouvir um canto fora de moda.

A ressonância musical era de cotovias.

J. Alberto de Oliveira

10.11.14

EVIDÊNCIAS



A poesia, o oiro e um vinho de núpcias
nunca se deixam oxidar.

Eternizam a realeza de seus luxos e lustro.

J. Alberto de Oliveira 

29.10.14

LER ENTREPOEMAS




Entrepoemas é um estado afectivo.
Uma sobreimpressão de imagens, lembranças e pensamento.
Ou talvez seja apenas um lugar do devir.
Uma espécie de tela onde figuram os luxos da alma.
Um dia chamar-lhe-ei amoris causa.

J. Alberto de Oliveira
Entrepoemas - Edições Afrontamento

29.9.14

COM AS ÁGUAS DO RIO




Eu jogo e me conjugo
com as águas do rio

mensurando a altura
e a paz da paciência.

Ao ritmo da mão atenta
indo com o rio vou indo.

J. Alberto de Oliveira

13.9.14

27.8.14

O GRITO




Entre as mãos escondo o rosto.
O mundo arde ao abandono.

Ressoa o grito a escaldar de dor.

J. Alberto de Oliveira  

4.8.14

"RUA DA PORTA TREZE" - Vila Nova de Cerveira



ALGUÉM NA RUA


Alguém se serviu
do sol e da altura

para estender
em fios do vento 

sombrinhas às cores.
                                    
Alguém ali me viu
no eixo feliz da rua

altivamente absorto.

J. Alberto de Oliveira

31.7.14

OPUS CONTINUUM




Com o brilho da mão
ensina-me o que sonhas.

Desenha sobre o linho

o verbo mais intenso
em ponto de silêncio.

Quero-te sem distrações.

J. Alberto de Oliveira

15.7.14

QUATRO ROSAS RUBRAS





Quatro rosas rubras
de sangue e ternura.

Quatro primícias
luzentes no teu nome

dito por inteiro.

Quatro varas floridas
alumiam oh Mãe

o ar do mês que respiro.

J. Alberto de Oliveira

MEMORANDUM
Olinda Ferreira de Oliveira
13-07-1924 - 16-05-2013

4.7.14

SOPHIA




Quando me inclino sobre a paisagem textual da Sophia
estremeço como um leitor indefeso.
A constelação de versos e frases é tão viva e clara
que me fere o olhar.
As palavras da Poeta evidenciam o injusto e denunciam o impuro.

Muito gostaria eu de também denunciar as mentes académicas
que lhe trocaram o pequeníssimo talhão de terra
ao ar livre
por um panteão propício ao bafio, a turistas e penumbra.

J. Alberto de Oliveira   

1.7.14

OH MARAVILHA DA ALMA


                                               

                                           para a Lys

Oh maravilha da alma
que se alicerça no fulgor

de coisas cheias de infância.

Oh alumiação de ser 
o vento na escrita a corrigir

sentimentos e frases pequenas.

Oh duplo sopro inebriante
ao citar-me o nome de Alice

no país das maravilhas.

J. Alberto de Oliveira

Retrato de Alice Liddell no Verão de 1858

8.6.14

ALUMIAÇÕES



Oh dulçor de segredos e versos
nas alumiações de Bëatrice.

Oh fulgor e maravilha
da grande rosa de três cores.

Oh suma claridade suprema
de substâncias eternas.

Com o teu nome apura o amor
che move il sole e l’altre stelle

a luzir onde luz Dante Alighieri.

J. Alberto de Oliveira


Dante Alighieri - desenho de José Rodrigues

Texto e desenho expostos no Palácio do Freixo - Porto - no
âmbito da Festa de Itália: "o mundo em italiano".

27.5.14

O RUBRO SANGUE



O coração
está sempre a mudar de sítio.

Nunca se engana.
Adivinha onde mais dói.

O rubro sangue
movido pelo sentir do coração

lateja onde a vida mais sofre.

J. Alberto de Oliveira

8.5.14

A ARTE MATERNAL DA MULHER




A mulher
não esconde a sua natureza

íntima e cúmplice da terra.

É lição exímia da realeza
a arte maternal da mulher.

J. Alberto de Oliveira

Desenho - (1902): Pablo Picasso - Maternidade 

26.4.14

À MESA DE LEITURA



Quando o menino se sentou à mesa de leitura, com o seu primeiro livro de todos os dias, a mãe cozia uma fornada de pão.
A carqueja e a caruma ardiam no forno. Difundiam o fumo que perfumava as roupas, os cabelos, as mãos,
os olhos e o espaço em volta.
Do ventre quente do forno saíam faúlhas que transmitiam o prazer de ver e de estar ali.
O fumo e as faúlhas subiam com as ideias e o sentimento das palavras que o menino soletrava.
– Filho, lê um bocadinho mais alto para eu ouvir.
As mães são as melhores companheiras de leitura dos filhos.
          
O lume luzia no forno.
A massa levedava em silêncio e aconchego na masseira fechada, sob o efeito do crescente que a vizinha trouxera, na véspera, ao entardecer.
           
O lume ardia sob os efeitos do seu próprio destino.
E a criança lia, soletrando o que aprendia.
           
– Mãe, tu gostas tanto de cozer pão como gostas de ser mãe?
– Se as mulheres não tivessem filhos, não era preciso o trabalho da cozedura do pão. Não havia gente a pedir o pão que se come todos os dias. E se faltasse o pão, até mesmo a nossa boca perdia o sabor.
           
A mãe, a primeira mestra de todas as leituras, tinha sempre uma resposta. Ela sabia de cor bonitos e sábios segredos.
– Filho, vou-te dar um conselho que me ensinou a minha madrinha, quando eu era pequena, e que nunca mais esqueci: “pão, roupa e um vintém, não carrega(m) ninguém.”
– Não percebi nada!
– Um dia vais entender.     
           
Naquela casa, a mãe sustinha o esteio da vida, os rituais do quotidiano, os prazeres da fala e da infância.
Naquela casa térrea, aprendia-se a esperar o pão e as delícias da ternura. Aprendia-se a descobrir frases futuras.

– Filho, lê essa ideia outra vez!
– O quê, mãe?
– As palavras que leste agora no livro. Diz outra vez!
As rosas são as namoradas do sol.
– Que lindo, filho! Nós ainda vamos aprender muitas coisas assim bonitas. Nós havemos de saber mais do que todas as coisas que se ensinam nas escolas todas do mundo.
           
A mãe reconhecia o filho à mesa de leitura.
O menino reconhecia a mãe no acto de cozer o pão, no modo de pensar, nos sentimentos, no olhar e nas palavras que dizia.
Mãe e filho eram duas verdades unidas por um elo único e precioso.
           
O menino que lia devagarosamente, não adivinhava que nas lembranças da mãe se inteirava e repetia o momento do seu próprio nascimento.
Debaixo da pele da infância que a mãe nutria, o filho era a imagem do crescimento contínuo, esperando o pão nosso de cada dia.
O menino soletrava, decifrando pequenas frases maternais invisíveis nas linhas do livro.
           
Um dia, alguém disse mais ou menos isto: dois seres afectuosamente confidentes, unidos pelo prazer de existir, são causa mútua de vida e júbilo.
           
Outro dia, o menino de sua mãe, que nasceu poeta e poeta cresceu, lembrou-se de escrever num caderno de versos:

                                      No miolo do pão
                                      as mães deixam o sal 

                                      o sopro e o coração.


J. Alberto de Oliveira 


in O teu Dia, Mãe 
C ART- 2014



17.4.14

LUZ E VERSOS FUTUROS



Se me vires dormente ou morto
não me deixes assim exposto.

Ressuscita-me através do nome.

Não me queiras cego e surdo.
Preciso de luz e versos futuros.

J. Alberto de Oliveira

2.4.14

CINCO BALÕES



– Cinco balões baloiçam presos aos teus dedos. Os cinco balões que eu daria ao vento e à vida.
– Queres, então, que os solte? Posso deixá-los ir?
– Agora não. Espera pelo fim de mim.

J. Alberto de Oliveira

15.3.14

PELA PRIMEIRA VEZ



Foi com júbilo e surpresa ir à escola pela primeira vez, numa certa manhã de Outubro do ano 1952.
Perdido no meu ar pensativo, de casa me levou minha Mãe.
A professora, airosa e moça, com doçura de alma e boas palavras me recebeu. Disse um não sei quê de espanto e alvoroço. Depois, sentou-me numa carteira, a par de uma menina com espírito e nome de Rosa, que em todo o resto do dia me ensinou o que já aprendera de cor.

Pelo sentido intuitivo de três corações falantes e femininos se abriu para mim a porta da escola.
Com a solicitude maternal principiava o exercício contínuo de escrever e ler.
Começou nesse dia outonal uma pronúncia diversa e dura.
Firmava-se o alicerce verbal do futuro.

J. Alberto de Oliveira

9.3.14

OS MESTRES DE PROVAR O VINHO



Os mestres de provar o vinho não falam.
Estudam os efeitos do mosto no escuro.

Com a boca adivinham o labor
da luz que amadureceu as uvas.

Eles dão ao pensamento a combustão da saliva.
Com a língua movem a cor e o auge do vinho.

J. Alberto de Oliveira

18.2.14

PRELÚDIO VESPERTINO



Mais firme e justa que o pulso
a bater em cadência musical

corria a voz que chamava
à hora exímia do crepúsculo.

Com amor e o sopro leve
a mãe reduzia a distância

entre o sono e altura do céu.

J. Alberto de Oliveira

1.2.14

BRINCAR COM A ALMA




Quando eu não posso brincar
com a alma

as horas ficam sem ressonâncias.

De bruços caio no lamaçal
de morrer.

Faltam-me as palavras
e as imagens de ver.

Quando eu não posso brincar
com a alma

falta-me o auge da luz e do ar.

J. Alberto de Oliveira


Fotografia: José Marafona

19.1.14

A SINTAXE DA VIDA



Ando ainda a aprender a ler.
Ainda aprendo a apurar a sintaxe da vida 
para um dia morrer em paz
com as bagadas que me restam.

E que a morte seja a bênção do olhar que me quer 
para além do olhar.



J. Alberto de Oliveira

Fotografia: José Marafona

28.12.13

UM TEMA VIVO DO VENTO



A língua que eu falo
dissolve-se na água

que avidamente bebo.

Com substantivos do mar
é um tema vivo do vento.

Resume-se a dois dedos
de conversa e de silêncio

a língua materna que falo.

J. Alberto de Oliveira

9.12.13

O FIO DE ARIADNE



Oh soberana maravilha
escrever o poema

com a tinta das palavras!

Oh prodígio de vida
tecer o fio de Ariadne

com linfa sal e saliva!

J. Alberto de Oliveira

27.11.13

QUANDO IMAGINO DE MAIS



Quantos anos e dias mais
terei de sal e de lembranças?

Em ti eu me crio ainda
oh Mãe

quando imagino de mais!

J. Alberto de Oliveira

Imagem: H. Matisse

19.11.13

O MEU CLAMOR


Para Deus elevo o meu clamor:
que ninguém me engane a alma

nem me esgane o pescoço.

J. Alberto de Oliveira

17.11.13

CITAÇÃO

 

 
Cito as palavras de cor:
 
Os inteligentes discutem ideias.
Os medíocres falam de coisas e dinheiro.
E os bufarinheiros falam da vida alheia.
 
Quem escreveu assim, tão verticalmente?
Quem foi?
Gostava tanto de lhe dar os parabéns.
 
J. Alberto de Oliveira
 
 
 

6.11.13

O LIVRO



“Porque a alma é um abismo” (Álvaro de Campos), quem a lê no mais profundo dos livros?
Há inúmeros livros. Uns mais preciosos que outros.
Com o espírito dos “que são pedintes e pedem”(Álvaro de Campos), eu só peço o Livro que tanto procuro.
Já foi escrito?

Eu só quero o Livro que me há-de escrever.
Eu só peço o Livro que me ensine a permanecer no juízo da luz.
Que me faça gritar como Álvaro de Campos:
“Merda! Sou lúcido”.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: José Marafona

22.10.13

PARA QUE SERVE A POESIA?



Para que serve a poesia?
Eu sei que há poucos poetas e reduzido é o número dos legentes de poesia. 
Se eles fossem muitíssimos e pudessem formar um exército, sem dúvida que arrasariam o mundo só para conhecer a verdade.
Esta é a possível e única utilidade que devo atribuir à poesia e aos seus amantes.




Ao poeta não basta escrever ou ditar um verso para seu júbilo e consolação.
É preciso ouvir no mais íntimo a fala e a música contínua do anjo.
A tarefa primordial do poeta é lutar com o anjo a horas incertas da noite.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Renato Roque

16.10.13

O PULSO DE BACH



O pulso de Bach, em exercícios musicais,
anula as trevas e fronteiras.

Amplia o horizonte da inteligência e da lucidez,
instaurando a geometria sumptuosa da alma.

Incute o sagrado respeito pelo rigor intuitivo de Deus.

O ritmo dos ventos no pulso de Bach
incita à escuta do silêncio branco.

J. Alberto de Oliveira

6.10.13

ESCREVER SOL





Com os dedos
cheios de tinta

do azul do mundo.

Com os dedos
sobre os olhos

replenos de azul

eu sei doravante

como escrever sol.

J. Alberto de Oliveira