2.7.16

NO VIOLONCELO DE GUILHERMINA SUGGIA




De névoa e púrpura salinas
luzem os temas de Guilhermina.

De espuma e linhos musicais
se avolumam seus dias de Matosinhos.

De névoa e púrpura salinas
são os primeiros sons

no violoncelo de Guilhermina Suggia.

J. Alberto de Oliveira

                       Desenho: Amadeo de Souza Cardoso - Guilhermina ao violoncelo e sua irmã Virgínia ao piano

19.6.16

O PONTO DE IMAGINAÇÃO




Se na escrita usamos diversos sinais de pontuação –
o ponto final, a vírgula, o ponto e virgula, o ponto de interrogação, os dois pontos, o travessão, as reticências, as aspas, o ponto de exclamação e o parêntesis –
por que é que não há o ponto de imaginação?

Nos textos de Maria Gabriela Llansol aparece muitas vezes o traço contínuo.
Sinal propício à imaginação? Possivelmente que sim.

J. Alberto de Oliveira
Imagem: página do livro O JOGO DA LIBERDADE DA ALMA - Maria Gabriela Llansol

12.6.16

POR QUE É QUE?




Por que é que a inteligência luz melhor nas entrelinhas?
Por que é que não somos adultos da criança que fomos?
Por que é que o canto das aves não é dissonante?
Por que é que as tuas palavras são parecidas contigo?

Por que é que o amor se decide entre sim e não?
Por que é que há gente a morder o seu próprio veneno?
Por que é que os enigmas têm pontos de interrogação?

J. Alberto de Oliveira

4.6.16

CUIDAR DOS SONHOS




Um toque rente ao sono
e de pronto eu acordo

para cuidar dos sonhos.

Ponho-me logo a saber
como se usa a beleza

aprimorada e selada
pelo mais profundo.

Ponho-me logo a cingir
a respiração intuitiva

do puro linho verbal.

J. Alberto de Oliveira

23.5.16

SEM EIRA NEM BEIRA




Os beijos intuitivos do bem-querer
acendiam-me anseios de ver.

Apuravam o interior dos versos que nunca ditei.

Ainda hoje lembram as veredas
por onde sempre andei

como se fosse um andarilho sem eira nem beira.

J. Alberto de Oliveira

14.5.16

ÀS HORAS DE CHAMAR




Às horas benignas do pão
e de intuir a bênção

ouvia-se o interior do tempo.

Às horas em que se chamava
pelo nome de nascimento

eu entrava em casa.

Entrava pela porta do sossego
e dizíamos tudo em segredos.

J. Alberto de Oliveira

UM PONTO NA HERANÇA




Há um ponto na herança
que pronto me toca e me conta os passos como esmola.

J. Alberto de Oliveira

5.5.16

PARA QUE NÃO SERVE A POESIA?




PARA QUE NÃO SERVE A POESIA?
                                                                        Uma questão de M. B.
         
         A poesia não serve para quem não precisa de poesia.
         Ela é tão preciosa que não serve para uso comum. Não é descartável. Não é matéria de desperdício.
         Presumo até que a poesia não serve para nada, porque não gosta de ser usada.
         A poesia flui à margem das imposturas da língua. Dá-se mal com as mentes orçamentais.
        
         Mas talvez a boa resposta se ilustre com o diálogo entre o poeta e um académico de economia que não entendia o sentido da fala humana e, por isso mesmo, insistia na pergunta:
         – A que te referes: aos porcos ou às pérolas?
         – Aludo à sabedoria do aviso: não demos pérolas a porcos!         
         – Os porcos são animais que têm fome. Eles devoram tudo.
         – As pérolas são indigestas e muito belas! – disse o poeta.
         – Mas os porcos gostam ou não gostam de pérolas?
         – Calcam-nas aos pés com voluptuoso desdém.

         E não entendia ou não queria abrir-se à inteligência da sensibilidade.

         Mas eu, o poeta, mais tarde ou mais cedo, ainda hei-de trocar  toda a metafísica do mar por sete versos de pérolas.

J. Alberto de Oliveira
20/04/2016

30.4.16

UM FIO DE VIDAS





A mãe quando repartia o pão
soletrava o seu hino de paixão

em consonância
com a respiração dos filhos.

A mãe era um fio
de soberbas lembranças.

Era um fio de vidas.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo

26.4.16

EM CONTRALUZ




Nem tudo o que luz
respira nos meus olhos.

O ouro que me recorda
fulgura só em contraluz.

J. Alberto de Oliveira

20.4.16

NO LUGAR DO ORGAL





Eu nasci no lugar
onde os pensamentos do sol

e a cadência da água

se misturam num tanque
de pedra sem posse.

Eu nasci no lugar do orgal.

J. Alberto de Oliveira

13.4.16

O AMOR ESCRITO




A língua toda perfumada
no fogo da inocência

e a cor do céu bem medida
pela régua do pensamento

inspiravam o amor escrito.

Entre varas de luz ditada
e sete riscos de vidro vivo

aprendi a ler cartas seladas.

J. Alberto de Oliveira

6.4.16

LUDWIG VAN BEETHOVEN





Na fronte do músico surdo 
Ludwig van Beethoven

faíscam sons e o fulgor.

Legendas e lembranças 
dadas à dor mais aguda

apuram-lhe a voz da alma. 

Onde luzem os nós do lume
ressoa o interior da música.

J. Alberto de Oliveira 

29.3.16

SALTANDO À CORDA




A menina brinca
saltando à corda.

A menina brinca
rasgando o ar

e o sol.

Por nada
a menina sofre

quando brinca
saltando à corda.

J. Alberto de Oliveira
Pintura: M. Dacosta

22.3.16

NA CASA DA MÚSICA



Quando o tema é musical

e o azul que há no silêncio
inspira o violino da casa

o poema nasce.

A matéria do poema flui
com a avidez

dos meus primeiros passos.

J. Alberto de Oliveira

15.3.16

A PERFEITA ALEGRIA



A perfeita alegria é um viandante difícil e raro.
Caminha, pensando como bater à porta.
Como falar para dentro de casa.

J. Alberto de Oliveira

8.3.16

O NEGRUME DA NOITE




A vida em versos
no lume do pavio.

É um anel de preces
o negrume da noite

a cingir o sítio
luminoso do pavio.

J. Alberto de Oliveira

3.3.16

A PELE DOS ANJOS



A pele dos anjos
é uma pele de meia luz.

É uma renda finíssima

de puros
vidros partidos

em cujas arestas
vemos outros seres.

Outros guias da altura.
Outros seres da nudez.

J. Alberto de Oliveira

22.2.16

O LUGAR DA POESIA




Se queres saber onde é o lugar da poesia
vem comigo.

Conta os passos como esmola.

E quando tiveres indícios de fadiga
esquece as cópias do silêncio.

Vai depressa embora.

J. Alberto de Oliveira

11.2.16

O REAL SONORO EM M. G. LLANSOL




O meu real é estar a descascar ervilhas e a ouvir Bach.

Teve sempre diante dos olhos a imitação da luz com que nasceu. A luz é a maior sonoridade entre todas as teclas, e instrumentos cuja percussão se faz por meio de martelos.

A função de escrever é árdua; a função de ser igual à música é impossível.

A liberdade deve estar em qualquer parte, e o primeiro acto livre que encontrei foi o da escrita. Só depois procurei a música. Toda ela é um amor interior que ainda não fala. Quem a recebe à porta, é quem o diz. Ela sai e entra, penetra no corpo, transforma-o em pregas de muda dimensão. Muda, por agora. Porque presumo que há-de ensinar-me o dobro das palavras que eu sei.

As consequências da música são imprevisíveis e não têm fim.

A música á mais secreta que a linguagem e sumamente secreto é o lugar para onde desejo ir.

Vou dar um passeio à parte alta do mundo – à música.

Recolha dos textos de Maria Gabriela Llansol por: J. Alberto de Oliveira