14.5.16

ÀS HORAS DE CHAMAR




Às horas benignas do pão
e de intuir a bênção

ouvia-se o interior do tempo.

Às horas em que se chamava
pelo nome de nascimento

eu entrava em casa.

Entrava pela porta do sossego
e dizíamos tudo em segredos.

J. Alberto de Oliveira

UM PONTO NA HERANÇA




Há um ponto na herança
que pronto me toca e me conta os passos como esmola.

J. Alberto de Oliveira

5.5.16

PARA QUE NÃO SERVE A POESIA?




PARA QUE NÃO SERVE A POESIA?
                                                                        Uma questão de M. B.
         
         A poesia não serve para quem não precisa de poesia.
         Ela é tão preciosa que não serve para uso comum. Não é descartável. Não é matéria de desperdício.
         Presumo até que a poesia não serve para nada, porque não gosta de ser usada.
         A poesia flui à margem das imposturas da língua. Dá-se mal com as mentes orçamentais.
        
         Mas talvez a boa resposta se ilustre com o diálogo entre o poeta e um académico de economia que não entendia o sentido da fala humana e, por isso mesmo, insistia na pergunta:
         – A que te referes: aos porcos ou às pérolas?
         – Aludo à sabedoria do aviso: não demos pérolas a porcos!         
         – Os porcos são animais que têm fome. Eles devoram tudo.
         – As pérolas são indigestas e muito belas! – disse o poeta.
         – Mas os porcos gostam ou não gostam de pérolas?
         – Calcam-nas aos pés com voluptuoso desdém.

         E não entendia ou não queria abrir-se à inteligência da sensibilidade.

         Mas eu, o poeta, mais tarde ou mais cedo, ainda hei-de trocar  toda a metafísica do mar por sete versos de pérolas.

J. Alberto de Oliveira
20/04/2016

30.4.16

UM FIO DE VIDAS





A mãe quando repartia o pão
soletrava o seu hino de paixão

em consonância
com a respiração dos filhos.

A mãe era um fio
de soberbas lembranças.

Era um fio de vidas.

J. Alberto de Oliveira

Desenho: Alberto Péssimo

26.4.16

EM CONTRALUZ




Nem tudo o que luz
respira nos meus olhos.

O ouro que me recorda
fulgura só em contraluz.

J. Alberto de Oliveira

20.4.16

NO LUGAR DO ORGAL





Eu nasci no lugar
onde os pensamentos do sol

e a cadência da água

se misturam num tanque
de pedra sem posse.

Eu nasci no lugar do orgal.

J. Alberto de Oliveira

13.4.16

O AMOR ESCRITO




A língua toda perfumada
no fogo da inocência

e a cor do céu bem medida
pela régua do pensamento

inspiravam o amor escrito.

Entre varas de luz ditada
e sete riscos de vidro vivo

aprendi a ler cartas seladas.

J. Alberto de Oliveira

6.4.16

LUDWIG VAN BEETHOVEN





Na fronte do músico surdo 
Ludwig van Beethoven

faíscam sons e o fulgor.

Legendas e lembranças 
dadas à dor mais aguda

apuram-lhe a voz da alma. 

Onde luzem os nós do lume
ressoa o interior da música.

J. Alberto de Oliveira 

29.3.16

SALTANDO À CORDA




A menina brinca
saltando à corda.

A menina brinca
rasgando o ar

e o sol.

Por nada
a menina sofre

quando brinca
saltando à corda.

J. Alberto de Oliveira
Pintura: M. Dacosta

22.3.16

NA CASA DA MÚSICA



Quando o tema é musical

e o azul que há no silêncio
inspira o violino da casa

o poema nasce.

A matéria do poema flui
com a avidez

dos meus primeiros passos.

J. Alberto de Oliveira

15.3.16

A PERFEITA ALEGRIA



A perfeita alegria é um viandante difícil e raro.
Caminha, pensando como bater à porta.
Como falar para dentro de casa.

J. Alberto de Oliveira

8.3.16

O NEGRUME DA NOITE




A vida em versos
no lume do pavio.

É um anel de preces
o negrume da noite

a cingir o sítio
luminoso do pavio.

J. Alberto de Oliveira

3.3.16

A PELE DOS ANJOS



A pele dos anjos
é uma pele de meia luz.

É uma renda finíssima

de puros
vidros partidos

em cujas arestas
vemos outros seres.

Outros guias da altura.
Outros seres da nudez.

J. Alberto de Oliveira

22.2.16

O LUGAR DA POESIA




Se queres saber onde é o lugar da poesia
vem comigo.

Conta os passos como esmola.

E quando tiveres indícios de fadiga
esquece as cópias do silêncio.

Vai depressa embora.

J. Alberto de Oliveira

11.2.16

O REAL SONORO EM M. G. LLANSOL




O meu real é estar a descascar ervilhas e a ouvir Bach.

Teve sempre diante dos olhos a imitação da luz com que nasceu. A luz é a maior sonoridade entre todas as teclas, e instrumentos cuja percussão se faz por meio de martelos.

A função de escrever é árdua; a função de ser igual à música é impossível.

A liberdade deve estar em qualquer parte, e o primeiro acto livre que encontrei foi o da escrita. Só depois procurei a música. Toda ela é um amor interior que ainda não fala. Quem a recebe à porta, é quem o diz. Ela sai e entra, penetra no corpo, transforma-o em pregas de muda dimensão. Muda, por agora. Porque presumo que há-de ensinar-me o dobro das palavras que eu sei.

As consequências da música são imprevisíveis e não têm fim.

A música á mais secreta que a linguagem e sumamente secreto é o lugar para onde desejo ir.

Vou dar um passeio à parte alta do mundo – à música.

Recolha dos textos de Maria Gabriela Llansol por: J. Alberto de Oliveira

6.2.16

NA SOLEIRA DA PORTA




Na soleira da porta
caíam migalhas de pão

e outros restos
que serviam aves e formigas.

Havia amor 
na soleira da porta 

às vezes entreaberta.

Na soleira daquela porta
eu sabia amar e sorrir

em cada hora a seguir.

J. Alberto de Oliveira  

27.1.16

O AZUL DA MINHA RUA




Veio uma ave distante
e pôs-se a cantar

no parapeito da janela

as ideias e desenhos
de toda a minha herança.

Enaltecia a luz de julho
em sua beleza calma.

Ali mesmo em poema
se demorou a entoar

a pronúncia do azul.

Nascia ao rés do mar
o azul da minha rua.

J. Alberto de Oliveira

16.1.16

INTEIRO E PENSATIVO




Aconteceu quando me vi pela primeira vez:
quando fui ao varandim da infância por razões de um pensamento.

Entrei com o sol da manhã
pelo lado mais difícil e transparente.

E quando dei por mim, quando me vi inteiro e pensativo, 
já estava dentro.


J. Alberto de Oliveira

6.1.16

CONTAR UM SEGREDO




Como seriam os meus versos pronunciados numa língua estrangeira?
Contar um segredo em sítios alheios, num lugar qualquer, 
não é o mesmo que dizer o segredo no interior da casa onde o segredo nasceu.

J. Alberto de Oliveira 

22.12.15

ONTEM AO LUSCO-FUSCO



Preciso de falar com alguém.
Preciso de lhe perguntar se ontem ao lusco-fusco

viu tanto como eu vi
na alumiação do horizonte

uma revoada de anjos e aves com sonhos.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Joan Miró – “The Migratory Bird” – 1941