6.4.16

LUDWIG VAN BEETHOVEN





Na fronte do músico surdo 
Ludwig van Beethoven

faíscam sons e o fulgor.

Legendas e lembranças 
dadas à dor mais aguda

apuram-lhe a voz da alma. 

Onde luzem os nós do lume
ressoa o interior da música.

J. Alberto de Oliveira 

29.3.16

SALTANDO À CORDA




A menina brinca
saltando à corda.

A menina brinca
rasgando o ar

e o sol.

Por nada
a menina sofre

quando brinca
saltando à corda.

J. Alberto de Oliveira
Pintura: M. Dacosta

22.3.16

NA CASA DA MÚSICA



Quando o tema é musical

e o azul que há no silêncio
inspira o violino da casa

o poema nasce.

A matéria do poema flui
com a avidez

dos meus primeiros passos.

J. Alberto de Oliveira

15.3.16

A PERFEITA ALEGRIA



A perfeita alegria é um viandante difícil e raro.
Caminha, pensando como bater à porta.
Como falar para dentro de casa.

J. Alberto de Oliveira

8.3.16

O NEGRUME DA NOITE




A vida em versos
no lume do pavio.

É um anel de preces
o negrume da noite

a cingir o sítio
luminoso do pavio.

J. Alberto de Oliveira

3.3.16

A PELE DOS ANJOS



A pele dos anjos
é uma pele de meia luz.

É uma renda finíssima

de puros
vidros partidos

em cujas arestas
vemos outros seres.

Outros guias da altura.
Outros seres da nudez.

J. Alberto de Oliveira

22.2.16

O LUGAR DA POESIA




Se queres saber onde é o lugar da poesia
vem comigo.

Conta os passos como esmola.

E quando tiveres indícios de fadiga
esquece as cópias do silêncio.

Vai depressa embora.

J. Alberto de Oliveira

11.2.16

O REAL SONORO EM M. G. LLANSOL




O meu real é estar a descascar ervilhas e a ouvir Bach.

Teve sempre diante dos olhos a imitação da luz com que nasceu. A luz é a maior sonoridade entre todas as teclas, e instrumentos cuja percussão se faz por meio de martelos.

A função de escrever é árdua; a função de ser igual à música é impossível.

A liberdade deve estar em qualquer parte, e o primeiro acto livre que encontrei foi o da escrita. Só depois procurei a música. Toda ela é um amor interior que ainda não fala. Quem a recebe à porta, é quem o diz. Ela sai e entra, penetra no corpo, transforma-o em pregas de muda dimensão. Muda, por agora. Porque presumo que há-de ensinar-me o dobro das palavras que eu sei.

As consequências da música são imprevisíveis e não têm fim.

A música á mais secreta que a linguagem e sumamente secreto é o lugar para onde desejo ir.

Vou dar um passeio à parte alta do mundo – à música.

Recolha dos textos de Maria Gabriela Llansol por: J. Alberto de Oliveira

6.2.16

NA SOLEIRA DA PORTA




Na soleira da porta
caíam migalhas de pão

e outros restos
que serviam aves e formigas.

Havia amor 
na soleira da porta 

às vezes entreaberta.

Na soleira daquela porta
eu sabia amar e sorrir

em cada hora a seguir.

J. Alberto de Oliveira  

27.1.16

O AZUL DA MINHA RUA




Veio uma ave distante
e pôs-se a cantar

no parapeito da janela

as ideias e desenhos
de toda a minha herança.

Enaltecia a luz de julho
em sua beleza calma.

Ali mesmo em poema
se demorou a entoar

a pronúncia do azul.

Nascia ao rés do mar
o azul da minha rua.

J. Alberto de Oliveira

16.1.16

INTEIRO E PENSATIVO




Aconteceu quando me vi pela primeira vez:
quando fui ao varandim da infância por razões de um pensamento.

Entrei com o sol da manhã
pelo lado mais difícil e transparente.

E quando dei por mim, quando me vi inteiro e pensativo, 
já estava dentro.


J. Alberto de Oliveira

6.1.16

CONTAR UM SEGREDO




Como seriam os meus versos pronunciados numa língua estrangeira?
Contar um segredo em sítios alheios, num lugar qualquer, 
não é o mesmo que dizer o segredo no interior da casa onde o segredo nasceu.

J. Alberto de Oliveira 

22.12.15

ONTEM AO LUSCO-FUSCO



Preciso de falar com alguém.
Preciso de lhe perguntar se ontem ao lusco-fusco

viu tanto como eu vi
na alumiação do horizonte

uma revoada de anjos e aves com sonhos.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Joan Miró – “The Migratory Bird” – 1941

14.12.15

PESPONTOS DE LUZ - para Amair



                                                       

A água corredia não mente
nem dá sombra.

Não acende
altas chamas de lume.

A água corre para a sede
íntima do silêncio.

Nos vidros da noite
oh musa

as letras que te escrevo
são lenços de água e vento.

São pespontos de luz
dados à hora do crepúsculo.

J. Alberto de Oliveira


8.12.15

DONS PRECIOSOS




No verão pedias os dons 
preciosos de uma rosa.

E quando vinha o inverno
a luz era só das camélias

oh Mãe!

J. Alberto de Oliveira

5.12.15

AMADAS LEMBRANÇAS



Deve ser magnífico 
deixar um furtivo recitativo 

entrar nos cadernos da alma.


Nas dobras cegas do tempo 
rejubilam amadas lembranças!

J. Alberto de Oliveira 

23.11.15

EMMANUEL NUNES



Audição de Ruf, para orquestra (19975-1977), do compositor português Emmanuel Nunes, pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, 21 de Novembro de 2015:

Tudo chama, tudo grita.
Desmorona-se a babel sonora do universo.
A explosão é geral.
Parece que não há mundo. Há muitos mundos.
Um mundo para cada grito.
Um mundo para cada campainha.
Um mundo em cada soluço.
Existir dói muito. Os abismos são profundos.

J. Alberto de Oliveira

19.11.15

O CAOS DO MUNDO




O caos do mundo suscita a ideia de turba
confusa

e de sua raiz quadrada em cru.

J. Alberto de Oliveira

12.11.15

JOHANN SEBASTIAN BACH




Sequências e silêncios
firmes em consonância e luta.

Sons musicais
como se fossem botões de estrelas em fuga.

A nudez frontal e sonora
perturba a memória.

É Johann Sebastian Bach que atravessa a rua
para subir a escada infinita.

Quem disse que as consequências da música
são imprevisíveis, e não têm fim?

J. Alberto de Oliveira

3.11.15

ÀS VEZES A PAIXÃO




Às vezes a paixão dos sinos do sul
lembra que morrer

talvez seja uma perda simples da pele.

Talvez seja o ávido regresso
à lembrança contínua do todo.

O bem-querer de quem me viu nascer
devolva à nudez inteira o meu corpo.

J. Alberto de Oliveira