27.1.16

O AZUL DA MINHA RUA




Veio uma ave distante
e pôs-se a cantar

no parapeito da janela

as ideias e desenhos
de toda a minha herança.

Enaltecia a luz de julho
em sua beleza calma.

Ali mesmo em poema
se demorou a entoar

a pronúncia do azul.

Nascia ao rés do mar
o azul da minha rua.

J. Alberto de Oliveira

16.1.16

INTEIRO E PENSATIVO




Aconteceu quando me vi pela primeira vez:
quando fui ao varandim da infância por razões de um pensamento.

Entrei com o sol da manhã
pelo lado mais difícil e transparente.

E quando dei por mim, quando me vi inteiro e pensativo, 
já estava dentro.


J. Alberto de Oliveira

6.1.16

CONTAR UM SEGREDO




Como seriam os meus versos pronunciados numa língua estrangeira?
Contar um segredo em sítios alheios, num lugar qualquer, 
não é o mesmo que dizer o segredo no interior da casa onde o segredo nasceu.

J. Alberto de Oliveira 

22.12.15

ONTEM AO LUSCO-FUSCO



Preciso de falar com alguém.
Preciso de lhe perguntar se ontem ao lusco-fusco

viu tanto como eu vi
na alumiação do horizonte

uma revoada de anjos e aves com sonhos.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Joan Miró – “The Migratory Bird” – 1941

14.12.15

PESPONTOS DE LUZ - para Amair



                                                       

A água corredia não mente
nem dá sombra.

Não acende
altas chamas de lume.

A água corre para a sede
íntima do silêncio.

Nos vidros da noite
oh musa

as letras que te escrevo
são lenços de água e vento.

São pespontos de luz
dados à hora do crepúsculo.

J. Alberto de Oliveira


8.12.15

DONS PRECIOSOS




No verão pedias os dons 
preciosos de uma rosa.

E quando vinha o inverno
a luz era só das camélias

oh Mãe!

J. Alberto de Oliveira

5.12.15

AMADAS LEMBRANÇAS



Deve ser magnífico 
deixar um furtivo recitativo 

entrar nos cadernos da alma.


Nas dobras cegas do tempo 
rejubilam amadas lembranças!

J. Alberto de Oliveira 

23.11.15

EMMANUEL NUNES



Audição de Ruf, para orquestra (19975-1977), do compositor português Emmanuel Nunes, pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, 21 de Novembro de 2015:

Tudo chama, tudo grita.
Desmorona-se a babel sonora do universo.
A explosão é geral.
Parece que não há mundo. Há muitos mundos.
Um mundo para cada grito.
Um mundo para cada campainha.
Um mundo em cada soluço.
Existir dói muito. Os abismos são profundos.

J. Alberto de Oliveira

19.11.15

O CAOS DO MUNDO




O caos do mundo suscita a ideia de turba
confusa

e de sua raiz quadrada em cru.

J. Alberto de Oliveira

12.11.15

JOHANN SEBASTIAN BACH




Sequências e silêncios
firmes em consonância e luta.

Sons musicais
como se fossem botões de estrelas em fuga.

A nudez frontal e sonora
perturba a memória.

É Johann Sebastian Bach que atravessa a rua
para subir a escada infinita.

Quem disse que as consequências da música
são imprevisíveis, e não têm fim?

J. Alberto de Oliveira

3.11.15

ÀS VEZES A PAIXÃO




Às vezes a paixão dos sinos do sul
lembra que morrer

talvez seja uma perda simples da pele.

Talvez seja o ávido regresso
à lembrança contínua do todo.

O bem-querer de quem me viu nascer
devolva à nudez inteira o meu corpo.

J. Alberto de Oliveira

27.10.15

NA TELA DO TEXTO




Escrevo para gastar o lápis até ao fim.
Na tela do texto
a tarefa de cada frase ou linha

é lavrar a solidão e o pó da noite
à espera dum acume do luar.

J. Alberto de Oliveira

14.10.15

LÁ NA PRAIA DA BOA NOVA




Lá na praia da Boa Nova
estancam as fantasias.

Estancam passos
ressequidos e alquebrados.

São passos aflitivos
de lamento e dores.

Lá na praia da Boa Nova
a fadiga é do sol a pôr-se

nos olhos de António Nobre.

J. Alberto de Oliveira

2.10.15

PARA ONDE IR?




Para onde ir?
Preciso de um espaço profundo, isento das idades
e reciclagem,
livre das medidas de peso e superfície,
sem sombras de mim próprio, inacessível à poeira e ao lixo.

J. Alberto de Oliveira

26.9.15

O DIVERTIMENTO DAS MUSAS




O divertimento das musas é mexer
e remexer nas dores do poeta.

Elas consubstanciam o inefável:
a matéria viva de sons e versos.

J. Alberto de Oliveira

17.9.15

RESPOSTA A JOAN MIRÓ




Há tempos comecei uma nova tarefa:
coligir as frases ditas pelas mães agarradas à sonoridade 
exaltante dos filhos.

São frases que não publico nos jornais, não escrevo nos cadernos,
não sarrabisco nos muros do mundo, não soletro no escuro.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Pintura de Joan Miró em Portugal

12.9.15

UM QUASE NADA



Era apenas uma névoa de nuvem
furtivamente soprada

por sete ou mais crianças.

Era um quase nada
no azul mais profundo da alma.

J. Alberto de Oliveira

28.8.15

QUASI UM RETRATO




Por um cêntimo de sol vou indo
impróprio de registo ou notícia.

Desço à rua, cruzo-me com os que passam,
e não perco o espírito nem a singularidade.

Desço à rua e preservo os meus segredos.
Passo a passo vou alumiando as surpresas.

J. Alberto de Oliveira

13.8.15

TISANAS - ANA HATHERLY (1929-2015)



Tisana 28

Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.

Ana Hatherly - 351 Tisanas





Tisana 88

Era uma vez uma habitação em que todas as paredes eram portas. Os visitantes vinham de longe para percorrê-la porque, dizia-se, quem entrasse nela podia ver finalmente o prodígio rápido, não o prodígio lento de todos os dias de que só nos apercebemos no momento da morte. Os visitantes eram levados cegamente de porta em porta através da maior escuridão. Terminada a visita alguns concluíam só o desnecessário dura excessivamente. Mas um dia um visitante exclamou como tudo é parecido. 

Ana Hatherly – 351 Tisanas

11.8.15

LIBERDADE MEDITATIVA




Pratico sentimentos apuradamente urdidos como se fossem rendas para uma blusa. 
Por assim dizer, insisto no exercício das filigranas que sustentam o luxo, o primor do poema e o azul.



A minha escrita não é argumentativa, mas intuitiva. 
Não tenho nada a demonstrar: só adivinho.
Por ora, escrevo-me com alma e liberdade meditativa.



Há gente que me pede páginas inteiras de palavras, de frases, de fardos textuais. Gostam de parágrafos e mais parágrafos. Assim como os burros que prezam a manjedoura cheia de palha. Não sou capaz disso.
O que tenho para dizer é sempre tão pouco, tão curto, tão raro, tão livre!
Não sei copiar para os cadernos o que oiço e vejo ao meu redor. Não sou narrativo. As vezes, entretenho-me a tecer a vida com exercícios académicos. Mas nunca sai lisa a tela.
Não sei preencher, com opulentas palavras e fios de ideias, as minhas parcelas de papel.
Não sei escrever a jeito, não sei dizer coisas.

J. Alberto de Oliveira