7.7.15

ARTHUR RIMBAUD




Arthur Rimbaud o poeta.
O clarão do rapaz raro.

No eixo negligentemente
sensível do olhar

as vogais inomináveis
alumiando a inteligência.

No auge da vida breve
a alma cega de prazeres
                                       
seus líquidos versos.

J. Alberto de Oliveira

     
                               

4.7.15

EFEITOS DA LUA




O luzidio relento e o leite
abriam-lhe a blusa.

Molhavam-lhe o peito
os ávidos efeitos da lua.

J. Alberto de Oliveira

27.6.15

ADAGIO




Não toco em nada
quando a chuva molha as rosas.

Não escrevo nada
enquanto as varas do vento

desenham o imo de uma frase.

Na voz dos sinos do sul
trocando as horas em sentimento

releio só lembranças quebradas.

J. Alberto de Oliveira

22.6.15

CURSO PARA CRAVO





O curso para cravo de Bach
me ensine a pedir o lume:

a espuma do ouro bem temperado.

Que a música a arder em poema
rasgue as telas do escuro.

E que nunca voz alguma

por norma ou por nada
me chame para morrer de vez.

J. Alberto de Oliveira

13.6.15

NOS FINS DO HORIZONTE



Partículas do ar poente
e de água

sustentam anjos
e as aves

que pairam
nos fins do horizonte.

Que esvoaçam
entre poemas e lenços.

Que atordoam o oiro 
vesperal do sono.

J. Alberto de Oliveira

4.6.15

IN TEMPUS PRӔSENS



Há os que passam pelos sentimentos, do mesmo modo
que muitíssimos outros passam velozes pelas brasas do amor.


Primeiro, roubam-te o ouro e o linho ao luar.
Depois, escurecem o jardim e as tuas rosas, oh Mãe!


O amor só quer o amor e nada pede em troca
a não ser um ou sete beijos por uma rosa.

J. Alberto de Oliveira

27.5.15

A REGRA





Por uma exígua soma de ouro e poder
gritou em voz alta e aguda:
Sai daqui. Esta terra não é tua.

E fiz do exílio a regra:

Não se deve pedir licença ou um beijo
à pequenez da incivilidade

e muito menos à mediocridade cega.

J. Alberto de Oliveira

16.5.15

EM CARNE VIVA



Saí da palavra justa 
em poema:

em carne viva.

Do cego sopro de amar
vim coberto de espuma:

de nomes e de sal.

J. Alberto de Oliveira
16/05/2015

11.5.15

CORRENTE DE FOGO




Obrigado, C.
Que bem me fez o texto!
Ajudou-me a pensar, a entender as inúmeras irritações que entristecem
quando estou diante de uma obra de arte excelente: paisagem, música, texto, pintura, rosto, arquitectura.
Eu estremeço de ira quando me perco no clarão da obra
e há gente por perto,
à minha volta, com posturas de impostura e maneiras
de imparáveis passageiros.
Essa gente tira-me de mim.
Eles não sabem o que é o silêncio, a quietude, a interioridade.
Eles não sabem como se estabelece, entre a delicadeza da alma
e o interior do fulgor,
uma furtiva corrente de fogo.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Duane Michals  Ludmilla Tchérina, 


1.5.15

O MÊS MAIO DA MÃE





Dentro de mim sonha o sol
com linhas da infância.

É o mês maio da Mãe
a lembrar um livro.

Um livro com letras e rosas.

Dentro de mim as lembranças
vivem pensativas e primorosas.

J. Alberto de Oliveira

27.4.15

POR ESTES DIAS



Por estes dias últimos do mês abril, 
parei à porta da minha primeira escola.
Semelhante a qualquer errante, estanquei ali uns minutos a falar
com algumas das minhas lembranças.
Em abono da verdade que me alumia, depressa desci ao roseiral
mais próximo e roubei três rosas,
isto é, as três razões de uma vocação inteira.
Com três rosas, eu sabia que haveria de selar
o vetusto e firme degrau da porta da minha primeira escola.

J. Alberto de Oliveira

22.4.15

AS LINHAS DE ESCRITA




– São tão breves as tuas linhas de escrita! Porquê?
– São do tamanho breve dos meus dias. Dignas de ser, cabem-me na palma da mão, no ângulo mais firme da casa ou nos interstícios das nuvens que passam a caminho de não sei onde.

J. Alberto de Oliveira

14.4.15

O HERBERTO HELDER



Ontem, o Herberto Herder
fechou-se "inteiro no poema".

É injusta a morte dos deuses.
Não queremos que eles morram.
Esperamos que fiquem sempre connosco
a respirar o mesmo ar
da nossa condição precária.

J. Alberto de Oliveira
24/03/2015

4.4.15

MANOEL DE OLIVEIRA



Não gosto de ir a funerais.
Fui ao funeral do Manoel de Oliveira
para louvor e por gratidão.
Ao seu nome foram concedidos 106 anos
de sal e dons transmudados em eternidade.
Demais a mais
a hora e o dia eram consonantes
com a substância divina
e com a matéria de suas imagens futuras

se Deus e os anjos
a par e passo estiverem pelos ajustes.

J. Alberto de Oliveira
Foto: Alfredo Cunha

RESSURREIÇÃO



O que aprendi com Teresa? Que a ressurreição não é um acto de potência divina, mas a suprema manifestação de amor. Dar a vida não chega, não é um acorde consonante com a substância. Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito.
[…]
– Sim – diz-me ela, pousando as mãos nos meus joelhos: – Desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e que seja um homem.
– Alguém que queira ressuscitar para ti?
– Sim. Alguém que tenha para comigo essa memória.


Maria Gabriela Llansol – O Jogo da Liberdade da Alma

24.3.15

VERSOS PARA AMÁLIA



Se o silêncio me calar
onde queres que eu escreva

uma citação do teu fado?

E se o destino me perder
onde queres Amália

que eu deixe um recorte
de teus versos rimados

teus versos de fala cantada
que te couberam em sorte?

J. Alberto de Oliveira

11.3.15

NOMES SELADOS





Os nomes selados em testamento
são a voz de meu pai e da mãe

que se elevam à altura
da eternidade que os acompanha.

Já não há morte nem pronomes.

Apenas o arco e o silêncio do azul
a dar-se à cor mais pura da alma.

J. Alberto de Oliveira

6.3.15

O SONHADOR




O meu nome é José, sonhador como o outro, o do Génesis.
Eu sei que me olham de soslaio todos aqueles que se contentam com as fronteiras do realismo do ter e do poder.
Quando me sento no tapete da sensibilidade e da contemplação, eu sei que me atiram para as margens.
Eu sei que desconfiam dos sonhos e da inteligência visionária.

J. Alberto de Oliveira


26.2.15

NO VIDRO DA JANELA




A palavra que me escreveste
no vidro da janela

diluiu-se em transparência.

Não te esqueças
oh musa

de voltar a escrevê-la.

J. Alberto de Oliveira

14.2.15

BATIMENTOS



Quando abriste, oh Lysys,
o dicionário na palavra batimento,
eu não sabia o que vinhas inspirar.

Como não disseste nada,
eu pensei em batimentos da alma,
batimentos do coração e outros.

Eu não sei, mas hei-de saber
se umas tantas notas musicais
também são batimentos ou

tão só movimento de partículas
da alma de Chopin
no coração abrasivo do cristal.

J. Alberto de Oliveira 

Imagem: F. Chopin - George Sand - por E. Delacroix