3.1.15

POÉTICA DE INVERNO





Oh musa bela
no chão da neve!

Sete chamas te peço
para um só verso.

 J. Alberto de Oliveira


27.12.14

OS DEGRAUS DA ESCADA



E o anjo de Dional
veio à boca do poema dizer 
                              
todos os degraus da escada
servem para descer com o vento

e subir ao céu mais alto do ar.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Marc Chagall

19.12.14

ROSA POEMÁTICA




No modo crescente
de ver o ar alumiado

flutua a beleza
alusiva ao júbilo.

É rosa poemática
o aprumo da luz.

J. Alberto de Oliveira

30.11.14

A INOCÊNCIA DA LÍNGUA




Não faço palavras cruzadas.
No dicionário da alma 
procuro somente o que é dito a lume e ao ouvido.
Eu pratico a inocência da língua.

J. Alberto de Oliveira 

17.11.14

O TEMPO DE NÃO HAVER TEMPO




É longo e precioso o tempo que levo 
a recolher as letras necessárias
para escrever o nome das coisas que faltam no poema.

É irrecusável o tempo de não haver tempo.

J. Alberto de Oliveira

14.11.14

O NÓ CEGO




“Eu sou o nó cego do meu próprio nome”, disse o poeta.
E, naquele dia, não escreveu mais nenhum verso ou argumento da melancolia.
Saiu de casa. Desceu ao jardim.
Sentou-se ao pé da sua pedra e ficou a ouvir um canto fora de moda.

A ressonância musical era de cotovias.

J. Alberto de Oliveira

10.11.14

EVIDÊNCIAS



A poesia, o oiro e um vinho de núpcias
nunca se deixam oxidar.

Eternizam a realeza de seus luxos e lustro.

J. Alberto de Oliveira 

29.10.14

LER ENTREPOEMAS




Entrepoemas é um estado afectivo.
Uma sobreimpressão de imagens, lembranças e pensamento.
Ou talvez seja apenas um lugar do devir.
Uma espécie de tela onde figuram os luxos da alma.
Um dia chamar-lhe-ei amoris causa.

J. Alberto de Oliveira
Entrepoemas - Edições Afrontamento

29.9.14

COM AS ÁGUAS DO RIO




Eu jogo e me conjugo
com as águas do rio

mensurando a altura
e a paz da paciência.

Ao ritmo da mão atenta
indo com o rio vou indo.

J. Alberto de Oliveira

13.9.14

27.8.14

O GRITO




Entre as mãos esconde o rosto.
O mundo arde ao abandono.
Ressoa o grito a escaldar de dor.

J. Alberto de Oliveira  

4.8.14

"RUA DA PORTA TREZE" - Vila Nova de Cerveira



ALGUÉM NA RUA


Alguém se serviu
do sol e da altura

para estender
em fios do vento 

sombrinhas às cores.
                                    
Alguém ali me viu
no eixo feliz da rua

altivamente absorto.

J. Alberto de Oliveira

31.7.14

OPUS CONTINUUM




Com o brilho da mão
ensina-me o que sonhas.

Desenha sobre o linho

o verbo mais intenso
em ponto de silêncio.

Quero-te sem distrações.

J. Alberto de Oliveira

15.7.14

QUATRO ROSAS RUBRAS





Quatro rosas rubras
de sangue e ternura.

Quatro primícias
luzentes no teu nome

dito por inteiro.

Quatro varas floridas
alumiam oh Mãe

o ar do mês que respiro.

J. Alberto de Oliveira

MEMORANDUM
Olinda Ferreira de Oliveira
13-07-1924 - 16-05-2013

4.7.14

SOPHIA




Quando me inclino sobre a paisagem textual da Sophia
estremeço como um leitor indefeso.
A constelação de versos e frases é tão viva e clara
que me fere o olhar.
As palavras da Poeta evidenciam o injusto e denunciam o impuro.

Muito gostaria eu de também denunciar as mentes académicas
que lhe trocaram o pequeníssimo talhão de terra
ao ar livre
por um panteão propício ao bafio, a turistas e penumbra.

J. Alberto de Oliveira   

1.7.14

OH MARAVILHA DA ALMA


                                               

                                           para a Lys

Oh maravilha da alma
que se alicerça no fulgor

de coisas cheias de infância.

Oh alumiação de ser 
o vento na escrita a corrigir

sentimentos e frases pequenas.

Oh duplo sopro inebriante
ao citar-me o nome de Alice

no país das maravilhas.

J. Alberto de Oliveira

Retrato de Alice Liddell no Verão de 1858

16.6.14

UMA VEZ PEDI À NOITE




Uma vez pedi à noite
para se sentar comigo

num recanto do teu abrigo.

Ainda me lembro:
eu queria ver-te no auge do sono.

Eu queria linda Inês
adormecer

em teus olhos postos em sossego.

Eu queria todas as lembranças
que na alma escondias:

entre sonhos e pensamentos
eram tudo memórias de alegria.

J. Alberto de Oliveira
Fonte: Luís Vaz de Camões – Lusíadas – Canto III

8.6.14

ALUMIAÇÕES



Oh dulçor de segredos e versos
nas alumiações de Bëatrice.

Oh fulgor e maravilha
da grande rosa de três cores.

Oh suma claridade suprema
de substâncias eternas.

Com o teu nome apura o amor
che move il sole e l’altre stelle

a luzir onde luz Dante Alighieri.

J. Alberto de Oliveira


Dante Alighieri - desenho de José Rodrigues

Texto e desenho expostos no Palácio do Freixo - Porto - no
âmbito da Festa de Itália: "o mundo em italiano".

27.5.14

O RUBRO SANGUE



O coração
está sempre a mudar de sítio.

Nunca se engana.
Adivinha onde mais dói.

O rubro sangue
movido pelo sentir do coração

lateja onde a vida mais sofre.

J. Alberto de Oliveira

8.5.14

A ARTE MATERNAL DA MULHER




A mulher
não esconde a sua natureza

íntima e cúmplice da terra.

É lição exímia da realeza
a arte maternal da mulher.

J. Alberto de Oliveira

Desenho - (1902): Pablo Picasso - Maternidade